Cara leitora ou prezado leitor:
Esta é a décima-segunda crônica da série “D. Izaura e sua gente”. Prossigo com as histórias. Mais uma vez, tenho de recorrer à memória para contá-las. De alguns detalhes não tenho lembrança precisa, mas da essência delas me lembro bem, apesar dos setenta e quatro anos de distância.
Início na Poli
Em 1951, Sérgio e Washington tornaram-se
“politécnicos”, como eram conhecidos os alunos da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo. Aliás, uma classificação que permaneceria ao longo de nossa vida profissional.
Tivemos a então tradicional iniciação do
calouro (ou bicho, uma designação nada delicada): a raspagem do cabelo pela
Comissão de Trote, eleita pelos recentes segundo-anistas. No nosso caso, o
presidente dessa comissão era o aluno Paulo Salim Maluf, futuro político bastante
conhecido no País. Por algum tempo, éramos submetidos a programas diversos,
como sessões de educação física no jardim fronteiro à entrada dos edifícios da
escola, situados à Avenida Tiradentes, no bairro da Luz.
O curso, desde o começo, se mostrou intenso, com matérias básicas, destacando-se Cálculo, Física, Geometria Descritiva,
Topografia (esta nos levando a trabalhos na rua com teodolito, miras e balizas).
Alguns professores eram catedráticos notáveis, competentes e experientes na
lida com os alunos. Por exemplo, o professor Camargo, de Cálculo, era um dos mais temidos
pela complexidade da matéria e pela sua exigência no desempenho dos alunos. Nas
provas, exigia que todos deixassem seu material na frente da sala. Quando algum
aluno perguntava se podia deixá-lo embaixo da carteira, dizia: “Não fora a
proximidade da maçã, Eva não teria pecado”. Quando outro comentava que seus
livros tratavam de outras matérias, declarava: “Nem sempre a capa coincide com
o conteúdo”.
O professor Cruz, de Geometria Descritiva, dava
aulas desenhando épuras com um taquígrafo adaptado ao quadro negro e giz
colorido apontado, o que resultava em verdadeiras obras de arte. Em
consequência, nossos trabalhos na matéria tinham também de apresentar precisão
e uma apresentação primorosa.
Como não havia disponíveis livros específicos para
acompanhamento do curso, usávamos apostilas e anotações durante as aulas. Sérgio
e eu fizemos amizade com outro Sérgio, o Cataldi, e formamos uma “panelinha”
para anotações durante as aulas teóricas, pois nem sempre podíamos comparecer a
elas.
Estudando muito para as provas parciais,
procurando aprovação nas matérias antes dos exames finais (escritos e orais) tivemos
sucesso e fomos aprovados com folga naquele ano, o que aconteceria também nos
anos seguintes.
No final de 1951, previamente inscritos aos dezessete anos e tendo de prestar o serviço militar, Sérgio
e eu fizemos os exames para ingresso no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais
da Reserva) de São Paulo. Fomos aprovados.
Escolhemos a arma Engenharia, como vários de nossos colegas da Poli e estudantes de engenharia do Mackenzie e de algumas outras faculdades.
Devidamente inscritos, apresentamo-nos no quartel à Rua Alfredo Pujol, no bairro Santana, em São Paulo. Todos em roupa civil, de terno e gravata. Foram separados os grupos por arma (Infantaria, Engenharia, Artilharia e Cavalaria).
As primeiras instruções sobre os procedimentos e data do início do curso, incluíam as especificações do uniforme de passeio (aquele usado em ambiente externo, quando não em exercício) que deveria ser comprado pelo aluno. Para uso no quartel ou atividade externa de treinamento, cada um receberia o uniforme de campanha (calça e gandola verdes, coturnos e gorro sem pala, também verde).
Estabelecida a data de início do curso, Sérgio e
eu tínhamos de mandar fazer urgente nossa farda de passeio e o respectivo
quepe. Tivemos a ajuda valiosa do Barros, marido da Biá, que morava no Rio e ia
a São Paulo com frequência. Ele conhecia um alfaiate especializado e nos
apresentou a ele, devidamente recomendados; tivemos nossas fardas, muito bem-feitas,
a tempo e com um bom desconto.
No CPOR
Em 1952, portanto, vestimos a farda verde-oliva.
Nossas atividades no CPOR se iniciaram em janeiro de 1952. Após chegarmos ao quartel e trocarmos a farda de passeio pela farda de campanha, tínhamos de estar na sala de aula bem cedo (não me lembro exatamente da hora, mas, em minha casa, eu tinha de me levantar às cinco horas da madrugada). Os meses de férias, janeiro a março e julho, eram o então chamado período contínuo, em que comparecíamos ao quartel nos dias úteis e descansávamos no fim de semana; nos meses de aulas na Politécnica (período descontínuo), o expediente no CPOR era nos fins de semana.
Levantar às cinco da manhã era algo muito difícil para nós. Durante o período contínuo eu arranjei uma carona com um colega da Infantaria que morava perto de minha casa. No período descontínuo, costumava ser mais difícil ainda, porque, com frequência, Sérgio e eu voltávamos tarde da noite das festinhas e dos bailinhos. Nessas noites, eu ia dormir na Galvão Bueno. Quem nos acordava e servia o café era o Dr. Lauro, pai do Sérgio. Como este já tinha automóvel, conseguíamos chegar ao quartel em tempo.
Os nossos instrutores foram apresentados: Tenente
Câmara, Tenente Ramacioti e o Sargento; e conhecemos o Major comandante da Engenharia. Infelizmente não me lembro dos nomes
dos dois últimos. Os alunos adotavam, como
“nome de guerra” o primeiro nome ou o sobrenome e ganhavam um número de
matrícula. A partir de então, éramos, os dois, chamados Bastos e Washington, eu
era o 803 e o Sérgio tinha um número um
pouco abaixo (na usual ordem alfabética de primeiro nome). De uma forma geral, o
grupo viria a se dar bem com os instrutores.
De início, as aulas e apresentações trataram dos
procedimentos no quartel, da hierarquia militar e, especialmente, algo de que
nós não tínhamos ouvido falar, o RDE – Regulamento Disciplinar do Exército, que
nos deu a informação básica de que, como militares, tínhamos de obedecer a
normas específicas de comportamento e estávamos sujeitos a punições pelo
descumprimento delas. As responsabilidades e atividades da arma de Engenharia
foram destacadas desde o início.
O treinamento inicial básico foi a ordem unida, no
grande pátio interno do quartel. Se bem me lembro, éramos cerca de 50 alunos e
formávamos em três colunas, com os mais altos à frente (a testa do grupo).
Sérgio e eu ficávamos no meio. O sargento comandava a marcha mediante brados
convencionais, como “Ordinário, marche!!”, “Companhia, alto!”, “Direita, volver!”,
“Meia-volta, volver!” e nós fazíamos os movimentos correspondentes, conforme
instrução prévia. Tínhamos de agir corretamente e com presteza, pois, tratando-se
de movimentos em conjunto, o erro de um indivíduo podia gerar um desastre
cômico e vergonhoso na formação. Claro que os comandos “Descansar!” e “Fora de
forma, marche!” eram muito apreciados. Após algum tempo, o exercício evoluiu
para o comando da marcha feito pelos alunos, fazendo revezamento. Não deixava
de ser divertido e eu gostava do desafio.
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O pátio do quartel em foto recente Solenidade de formatura |
O fuzil, chamado mosquetão, era um Mauser, modelo antigo, de repetição, que era carregado com um pente de cinco balas; as balas eram disparadas levando-se uma a uma à câmara de disparo mediante ação de uma alavanca. Os cartuchos vazios eram ejetados do lado esquerdo da arma. Só tivemos experiência de atirar com ele nos exercícios de tiro ao alvo, que eram feitos em um stand do Exército em outro bairro da cidade. Em outras atividades usávamos o fuzil descarregado.
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| Nosso mosquetão era parecido com este |
Pesava cerca de sete quilos. Ao desfilarmos com
ele, nós o levávamos ao ombro direito; em marchas, em passo de estrada, em
bandoleira, ou seja, nas costas, com a alça cruzada no peito.
A movimentação do fuzil era feita sob comandos
específicos: “Ombro, armas!”; “Apresentar armas”, para atenção a oficiais e
autoridades civis; “Em bandoleira, armas!”; ao comando “Descansar armas”, o
fuzil era colocado ao lado da perna direita. Todos os movimentos requeridos
eram preestabelecidos. Nas paradas das marchas com fuzil, ao sairmos de forma,
ensarilhávamos as armas, ou seja, os fuzis eram reunidos três a três e
colocados de pé com a coronha no chão, apoiando-se uns aos outros pelas
extremidades dos canos.
Além das marchas e do tiro ao alvo tivemos também o treinamento de cavar trincheira em uma praça e de camuflagem em um bosque, ambos próximos ao quartel.
Achei que valia a pena contar: um dia, fomos levados a uma praça próxima ao quartel com um amplo gramado, para o exercício de cavar trincheira. Dia ensolarado, quente, recebemos picaretas e pás e revezamo-nos no trabalho de fazer uma trincheira de cerca de uns dez metros de comprimento por dois de largura e um e meio de profundidade. O terreno era duro, argiloso, requeria muito esforço nosso, mas tivemos permissão para tirar a gandola e ficar de torso nu. Depois de todo o trabalho e sua avaliação, tivemos de tapar o buraco. Não sei como foi feita a restauração da grama.
Voltamos para o quartel cantando, o que era
permitido, pois tínhamos aprendido algumas canções militares, como a do
Pontoneiro. Contudo, naquela volta, improvisamos com a paródia de uma marchinha
de carnaval sobre o catador de papel na rua. Esta cantava:
“Que vida triste tão cruel
tem o homem que apanha papel,
sua profissão é um buraco,
só pode ir pra casa depois de encher o saco”.
Nós cantamos:
tem o engenheiro no quartel,
todo dia faz buraco,
só pode ir pra casa depois de encher o saco”.
Penso que estávamos sujeitos a alguma
penalidade, pelo tom de queixa e uso de expressão chula (quase obscena, naquele
tempo). A punição poderia ser um pernoite no quartel. Parece, entretanto, que o
tenente fez que não ouviu e relevou a falta, considerando que éramos bons
rapazes que, após aquele dia estafante, ainda se mostraram bem-humorados.
Na sala de aula, além das instruções gerais sobre a estrutura e a organização militar, eram tratados assuntos específicos como orientação no campo por bússola, montagem de pontes para travessia de rios, armamentos, camuflagem e comunicações. Eram aulas ilustradas com filmes do tempo da segunda guerra mundial, que precediam treinamento prático, marchas e manobras militares.
Como destaque em minha memória, as atividades principais do grupo foram o treinamento de montagem e instalação de pontes sobre o Rio Paraíba do Sul em conjunto com os alunos do segundo ano de Engenharia e as manobras de batalha em uma fazenda com a participação dos alunos das outras armas, do primeiro e do segundo ano.
O treinamento dos pontoneiros
Nosso treinamento na montagem de pontes para
operações militares, especialmente para a Infantaria, foi feito no quartel de
Pindamonhangaba, Estado de São Paulo, às margens do Rio Paraíba, a cerca de 160 quilômetros da capital do Estado. Viajamos de ônibus e ficamos hospedados no
quartel. Durou três dias, pelo menos. Foi trabalhoso e tivemos, além dos nossos
instrutores, a orientação dos alunos do segundo ano.
Montamos duas pontes, de tipos diferentes – uma
mais leve, flutuante, sobre pontões (botes grandes de forte estrutura) e outra
de grande porte, de estrutura modular de aço, a Ponte Bailey. Foi um trabalho
pesado, que incluiu carregarmos peças de aço e permanecermos um bom tempo
dentro d’água sem tirar a farda.
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| Foto recente: Instrução de montagem da Ponte Bailey NPOR do 9o. Batalhão de Engenharia de combate |
A hospedagem no quartel foi algo diferente para nós, especialmente para o Sérgio, que estranhava mais do que eu a comida e as acomodações.
As manobras
O grande evento do curso, para nós, foi a
participação nas manobras de batalha, realizadas pelos alunos das armas de
Artilharia, Engenharia e Infantaria em uma fazenda perto de Sorocaba, cidade do
Estado de São Paulo, a uns 100 quilômetros da Capital do Estado.
Recorrendo ao melhor de minha memória, junto lembranças e monto a história: primeiro, fazia frio e era o período contínuo – então, foi no mês de julho.
Fui designado para o pelotão de vanguarda, que
tinha de chegar antes para levar o material e começar a preparação do
acampamento. Sergio viajou depois com a tropa toda. Viajei com os companheiros
na carroceria de um daqueles caminhões grandes do exército com cobertura de
lona, junto com o material e ferramentas. Não foi nada confortável.
Ao chegar à fazenda, no local do acampamento, um
terreno capinado cercado de árvores, montamos nossas barracas com peças de
madeira, lona e corda, usando as ferramentas necessárias. E usamos pás, enxadas e cavadeiras para fazermos valetas em volta das barracas e os
“sanitários”. Foi trabalho duro.
Cada barraca se destinava a dois alunos, mediante
escolha prévia. Naturalmente, Sérgio e eu compartilhamos uma delas. Dormimos no
chão, forrado com uma espécie de colchonete e usando cobertores. As barracas
dos oficiais eram maiores e uma delas era usada para as reuniões de instrução à
tropa. À noite, usávamos lanternas elétricas. Havia um local para o “rancho”
(comida) e tínhamos de obedecer aos toques de recolher e da alvorada.
Em reunião com os oficiais e os colegas do segundo ano, fomos informados sobre a batalha simulada, que era a recuperação do terreno invadido pelo exército inimigo, terreno que ficava do outro lado do rio que dividia a fazenda. Essa recuperação seria feita pela Infantaria, com o suporte da Artilharia, mediante canhões posicionados em uma colina próxima ao acampamento. A missão da companhia de Engenharia era transportar os soldados da Infantaria para o outro lado do rio.
No dia D, levantamos antes das seis horas (ainda estava escuro), tomamos
um café bem quente em nossa caneca de alumínio, comemos um pão com
manteiga e nos dirigimos à margem do Rio, para assumir a posição junto aos
respectivos botes (pontões), virados de borco no terreno. Para cada bote
(identificado com um número), foi designado um grupo da Engenharia com um aluno no
comando e os outros como remadores. O Sérgio foi designado para outro bote. Para
isso, tínhamos estado previamente no local e eu fui encarregado de um dos
botes. Os canhões já estavam disparando tiros tonitruantes e havia um vento
frio. Recebemos os alunos da Infantaria, designados por botes, uns oito por
viagem; ao receber o comando, iniciamos a travessia. O rio não era muito largo,
mas a correnteza era forte; atingimos a outra margem num ponto de acesso um
tanto difícil, um barranco, de forma que os infantes tiveram de agarrar à
vegetação para se alçar. Meu bote fez duas ou três viagens. Ao voltarmos,
devolvemos o bote e nossa missão terminara. Soubemos depois de algumas
dificuldades encontradas por outros grupos. Uma delas me contou o Sérgio: havia um forte ruído dentro de um bote (que estava de borco) e os alunos hesitaram para virar o bote. Tomaram precauções para enfrentar um bicho grande e era apenas um lagarto.
Vencemos a batalha e os infantes preferiram voltar
ao acampamento de caminhão, claro. Não me recordo de como a vitória foi comemorada
e nem como voltamos para casa.
Embora uma simulação, o exercício se revestiu, nos detalhes, de realidade. Para mim, foi uma experiência inesquecível. Sua importância foi demonstrada pela visita ao local, durante a batalha, do General Henrique Duffles Teixeira Lott. Estava próximo a nós na ocasião da travessia. Pele clara, usando uniforme de campanha e capacete, parecia um general germânico. Foi Ministro da Guerra e, até, candidato à presidência da República.
No segundo semestre de 1952, após a formatura dos nossos colegas do segundo ano, tive um problema nos tornozelos – inchaço e muita dor – passei a ter dificuldade para caminhar, passei por diferentes médicos – ortopedistas e neurologistas – e fiz um tratamento com uma droga nova, a cortisona, que recebi em injeções bastante dolorosas. Não desfilei no 7 de setembro e, ao se iniciar o novo período contínuo no CPOR, em janeiro de 1953, não tinha condições de marchar e fazer outros exercícios. O capitão médico do quartel me examinou e acabou me encaminhando para exames no Quartel General do Exército de São Paulo. Embora eu preferisse apenas ter um afastamento para tratamento, fui desligado do serviço do Exército uns três meses antes da conclusão do curso. Em julho, um médico diagnosticou reumatismo, tratou-me e me recuperei.
O Sérgio completou o curso. Como eventos
importantes, estagiou em um quartel no interior de São Paulo e acampou. Seu
companheiro de barraca foi o colega Paulo Nogueira, grande amigo nosso, da Poli
e do Colégio.
Com a formatura, o Sérgio passou à reserva como Aspirante a Oficial e comemoramos bastante.
Embora eu não tenha concluído o curso, considero a experiência no CPOR muito valiosa para minha formação – principalmente pelo trabalho em equipe, pela disciplina bem aplicada, pelo enfrentamento de dificuldades para cumprir objetivos e, afinal, pelas situações diferentes daquelas vividas até então; por exemplo, a de ter a responsabilidade de, como aluno, ser, por um dia, o oficial do dia do quartel.
Washington Luiz Bastos Conceição
Notas:
A. As fotos foram copiadas dos sites respectivos na internet.
B. O 9º Batalhão de Engenharia de Combate do Exército Brasileiro está sediado em Aquidauana, Mato Grosso do Sul.
C. Cara leitora ou prezado leitor: abaixo, a lista das crônicas da série:
1) D. Izaura e sua gente – Introdução
2) D. Izaura e sua gente – A casa e os moradores
3) D. Izaura e sua gente – Leilah na Galvão Bueno
4) D. Izaura e sua gente – Vovô Juca
5) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 1
6) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 2
7) D. Izaura e sua gente – O baile do Odeon
8) D. Izaura e sua gente – Lembranças do Gentil
9) D. Izaura e sua gente – Festinhas no sobrado
10) D. Izaura e sua gente – O vestibular dos rapazes
11) D. Izaura e sua gente – Os turfistas
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