segunda-feira, 20 de setembro de 2021

A viuvez de Jurema

Prezada leitora ou caro leitor:

Esta crônica encerra a série Osmar e Jurema, em que conto a história da vida desse casal nos cenários do século XX. A viuvez de Jurema foi longa, ela faleceu no século XXI aos 97 anos de idade, de modo que, mesmo com os cenários bastante resumidos, o texto resultou longo. Será o capítulo final do livro. Mais uma vez, espero que você possa ler até o final.


Em 1980, Osmar faleceu, vítima de acidente vascular cerebral (AVC). No fim dos anos 70, Osmar passara a ter alguns problemas de saúde. O mais grave foi um enfarte moderado, que teve em 1979. Em abril do ano seguinte, teve o AVC que o levou ao óbito, após um período de internação em hospital, onde recebeu o tratamento melhor possível.

Esse tempo no hospital preparou Jurema e toda a família para o desenlace, mas, assim mesmo, o abalo pela perda de uma pessoa tão querida foi muito grande.

Jurema viveria até 2007, faleceu aos 97 anos. De uma forma geral, ela viveu bem até o ano 2000, quando completou 90 anos. O ano seguinte lhe trouxe um golpe muito forte: a perda da Maria da Penha, filha muito querida e muito dedicada a ela. Em 2002, outro golpe: o falecimento de Túlio, seu filho mais velho, de quem recebia, também, muita atenção. Sobreviveu a estes choques, com o apoio dos filhos e cônjuges e, especialmente, depois que se mudou para Franca, do caçula, Luiz Antônio, que a assistiu diariamente, em tempo integral, durante os cinco últimos anos de vida dela.


O cenário internacional nas duas últimas décadas do século XX continuou bastante tumultuado, com guerras e outros eventos críticos em todos os continentes. Ao mesmo tempo, apresentou uma aceleração espantosa no desenvolvimento tecnológico e uma crescente preocupação com os direitos humanos e a defesa do meio ambiente que resultaram em algumas ações importantes. Jurema continuou acompanhando os principais acontecimentos nacionais e internacionais. Recordo-me daqueles que nos foram noticiados com maior ênfase ou porque nos pareciam mais importantes para o mundo todo e poderiam influenciar diretamente nossa vida.

Guerras e lutas internas em vários países tiveram grande destaque no noticiário.

A guerra entre o Iraque de Sadam Hussein e Irã do Aiatolá Khomeini durou de 1980 a 1988; armas químicas (gases) chegaram a ser usadas.

A Guerra do Golfo (de agosto de 1990 até fevereiro de 1991) foi um conflito militar travado entre o Iraque e forças de uma coalizão internacional, liderada pelos Estados Unidos e patrocinada pela Organização das Nações Unidas. O objetivo da coalizão era libertar o Kuwait, que havia sido ocupado pelas forças armadas iraquianas de Saddam Hussein. A guerra em si consistiu em intenso bombardeio aéreo por parte da coalizão, seguido de campanha terrestre que resultou na rápida expulsão das forças iraquianas do Kuwait.

Guerra que, no Brasil, acompanhamos com grande interesse por envolver país vizinho, foi a das Malvinas, desencadeada pelo General Leopoldo Galtieri, então presidente da Argentina, ao invadir as Ilhas Falkland (Malvinas, para os argentinos); estas eram de possessão britânica. Em consequência, o governo britânico, liderado pela primeira-ministra Margaret Thatcher, enviou uma força tarefa naval para retomar as ilhas. A guerra durou de abril a junho de 1982, quando as forças britânicas recuperaram a possessão das ilhas. O Brasil se manteve neutro, mas houve um acontecimento de difícil solução diplomática quando um avião caça britânico teve de fazer um pouso de emergência no aeroporto do Galeão.

O conflito de Israel com os árabes teve novo episódio: a guerra do Líbano, que durou de junho a agosto de 1982. A OLP (Organização para a Libertação da Palestina), liderada por Yasser Arafat, se estabeleceu no Líbano e promoveu ataques terroristas constantes no norte de Israel. Em represália, Israel invadiu o sul daquele país, que acabou sofrendo grande devastação com essa guerra.

A Iugoslávia, como federação comunista criada após a Segunda Guerra Mundial, foi mantida coesa até 1990, mas era constituída por repúblicas e províncias com diferentes etnias, idiomas e religiões. Em 1989, com o fim do domínio na Europa do comunismo unificado, cada uma delas passou a declarar sua independência. Havia, porém, questões econômicas e de etnia, o que resultou numa guerra, iniciada em 1991. No conflito, considerado uma horrível limpeza étnica, se destacou o “Massacre de Srebrenica” (cidade da Bósnia e Herzegovina). Foram assassinados mais de 8000 bósnios muçulmanos; mulheres e crianças sofreram estupro. A ONU (Organização das Nações Unidas e a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) reagiram fortemente, impondo um acordo de paz. O general sérvio General Ratko Madlic, que comandou o massacre, foi indiciado, em novembro de 1995, por genocídio.

Em 1999, ainda nos Balcãs, teve destaque a Guerra do Kosovo, que consistiu em um conflito entre forças sérvias e os guerrilheiros que lutavam pela independência do Kosovo. A Sérvia, sob a liderança de Slobodan Milosevic, seu presidente, agiu de forma brutal, provocando, em março de 1999, nova intervenção da OTAN, fazendo que líderes ocidentais e Milosevic chegassem a um acordo para terminar a guerra. Milosevic foi acusado e condenado pela ONU, em 2002, por crimes de guerra.

Vários países da África viveram anos muito agitados nas duas décadas finais do século.

Na África do Sul, o apartheid teve um período de rigor máximo nos anos de 1984 a 1989, quando o governo usou de violenta repressão às manifestações internas. No âmbito internacional, o país sofreu embargo comercial e forte pressão das ONU para que a discriminação racial fosse eliminada. Em 1990, o presidente Frederik Willem de Klerk, retirou as proibições aos partidos políticos e aboliu as leis que apoiavam o apartheid. E, muito importante, libertou o líder Nelson Mandela da prisão. Eleições multirraciais e democráticas levaram, em 1994, Mandela à presidência da África do Sul.

Ainda na África, na região da Etiópia, Eritreia e Somália, houve guerras, lutas internas e fome, causada por longas secas. Fotos de crianças desnutridas, esqueléticas, foram amplamente divulgadas no mundo todo.

Em Ruanda, ocorreram lutas internas entre as etnias Tutsi e Hutu, que culminaram, em 1994, com o horrendo genocídio em que foram assassinados milhares de tutsis (a estimativa mais baixa é de 500 mil pessoas) de forma brutal.

Além das guerras, atos terroristas passaram também a ser frequentes no final do século, praticados, principalmente, por nacionalistas separatistas e por fanáticos religiosos.

Nos anos 1980 e 1990, alguns atos terroristas se destacaram. Em 1988, uma bomba em um avião da Pan American Airlines explodiu quando este sobrevoava a cidade de Lockerbie, na Escócia, matando 270 pessoas. A investigação do crime levou à conclusão de que o atentado havia sido planejado pelo governo líbio de Muamar Kadafi.

Em 1995, Timothy McVeigh, um americano revoltado contra o governo de seu país, fez explodir um caminhão-bomba em um edifício federal em Oklahoma City, Oklahoma, matando 168 pessoas.

Durante anos, na Irlanda do Norte, o IRA (Exército Republicano Irlandês), organização paramilitar de separatistas irlandeses que lutava contra o domínio britânico da Irlanda do Norte, recorreu frequentemente a ataques a bomba. Somente em 2005, o IRA anunciou o fim da luta armada.

Na Espanha, o ETA (iniciais para Pátria Basca e Liberdade, no idioma basco), foi uma organização nacionalista armada, que buscava a independência do País Basco.  Durante sua longa luta contra o governo espanhol, o ETA praticou atentados diversos como, por exemplo, quando, em 1995, tentou matar José María Aznar, que se tornaria primeiro-ministro da Espanha um ano depois, e, em 1997, o rei Juan Carlos I. Em 2006, cometeu um atentado terrorista que teve muita repercussão, no aeroporto de Barajas, em Madri: a explosão de um carro bomba que causou duas mortes e ferimentos em vinte pessoas, além de danos de vulto nas instalações do aeroporto. Em outubro de 2011, o ETA anunciou o final de sua luta armada.

Fundamentalistas islâmicos, em 1993, explodiram uma bomba na garagem de uma das torres gêmeas em Nova York.

Já neste século, em 2001, ocorreram, exibidos fartamente na televisão, os atentados horrendamente espetaculares de 11 de setembro de 2001, quando membros da Al-Qaeda sequestraram aviões e os fizeram colidir com as torres do World Trade Center e o Pentágono, matando cerca de 3 mil pessoas. A reação dos Estados Unidos, cujo presidente era George W. Bush, foi declarar a Guerra ao Terror e liderar as invasões do Afeganistão e do Iraque, além de efetuar operações no Paquistão e outros países.

Dentre os vários atentados atribuídos à Al-Qaeda, os de 2004, contra trens suburbanos cerca de Madrid, na Espanha, foram os piores ataques terroristas da história espanhola e da Europa.

Também foram notáveis os assassinatos de dois chefes de governo na década de 1980. Anwar Sadat, Presidente do Egito, foi assassinado no Cairo em 1981 por membros da Jihad Islâmica Egípcia, que se opunham ao acordo de paz que Sadat fizera com Israel. Indira Ghandi, reeleita chefe de governo da Índia em 1979, governou até ser assassinada, em 1984, por seus dois guarda-costas sikh. Ela ordenara um ataque ao principal templo dos sikhs, que havia sido transformado em esconderijo de armas por militantes, ataque que causou grande quantidade de mortos e feridos.

Em 1989, um acontecimento importantíssimo para a humanidade: o fim da Guerra Fria União Soviética versus Estados Unidos.

A guerra fria na década de 1970 tivera um período, a “détente”, que se caracterizou pelo fato de Estados Unidos e União Soviética evitarem o confronto direto. A “détente” foi interrompida quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, em 1979. As tensões da Guerra Fria ressurgiram. Ronald Reagan, presidente americano que tomou posse em 1981, promoveu um programa de satélites espaciais de defesa (o “Guerra nas Estrelas”).

A União Soviética, em meados da década de 1980, passou a ter profundos problemas econômicos, que não lhe permitiam fazer frente aos Estados Unidos na corrida armamentista. Em 1985, Mikhail Gorbachev, seu novo líder, teve de enfrentar dificuldades com sua base industrial, com a produtividade agrícola, com problemas de irregularidades em órgãos do governo e com as despesas da guerra no Afeganistão. Para tanto, adotou medidas radicais que transformariam o leste europeu, com reflexos no mundo todo. Esperando revitalizar a economia e desenvolver a URSS para transformá-la em uma social-democracia, Gorbachev implantou a política da “glasnost” (abertura), que incluía a abolição da censura estatal, e a “perestroika” (reestruturação); e ordenou a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão, completada em 1989.

Havia tempo que alguns dos países satélites da União Soviética vinham tentando tornar menos rígidos seus sistemas de governo e o controle soviético sobre eles. Naqueles anos, percebendo que Gorbachev não pretendia usar a força militar contra eles, passaram a considerar sua retirada do bloco soviético. Fortes movimentos ocorreram na Polônia e na Tchecoslováquia, principalmente. A primeira lutava pela autonomia dos sindicados, iniciada com o Solidariedade (liderado por Lech Walesa), e pela liberdade religiosa; quando foram realizadas eleições, Walesa se tornou presidente. Na Tchecoslováquia, grandes manifestações populares anticomunistas acabaram em revolução, tirando o Partido Comunista do poder com a renúncia de seus líderes. Vaclav Havel foi eleito presidente em 1989. Nesse mesmo ano, a Hungria abriu sua fronteira com a Áustria e, em novembro, a Alemanha Oriental deixou de controlar o Muro de Berlim e permitiu que ele fosse derrubado pelos berlinenses de ambos os lados. Em 1990, a Alemanha se reunificou.

Em dezembro de 1989, Gorbachev e o presidente americano George Bush declararam terminada a Guerra Fria e, em 1991 assinaram um tratado de redução de armas estratégicas, o START (Strategic Arms Reduction Treaty).

Em 1991, Gorbachev deixou o poder na União Soviética. Boris Yeltsin, seu sucessor, tornou-se presidente da Federação Russa. A União Soviética foi desmembrada nas 15 nações originais (Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Estônia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Letônia, Lituânia, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão), com a Federação Russa herdando os direitos políticos da autoridade central soviética.

Nem tudo transcorreu de forma pacífica, entretanto, nas antigas repúblicas soviéticas. Além de conflitos étnicos entre elas, a Rússia teve de interferir na região da Chechênia, quando houve violenta oposição ao movimento checheno de independência. O conflito culminou com atos de terrorismo e de violações dos direitos humanos, que se estenderam até o século XXI.

A transformação da China, de um país de economia familiar agrícola para o gigante econômico de hoje, foi iniciada após a morte de Mao, em 1976.

Sob a liderança de Deng Xiaoping, o governo chinês passou a permitir a influência estrangeira na China e iniciou experiências capitalistas. Criou zonas econômicas especiais a partir de 1981. Empresas estrangeiras foram convidadas a investir na China, o crescimento econômico nas zonas especiais foi tão rápido que, em 1985, Deng permitiu que as forças de mercado prevalecessem no país, encorajando empresas privadas, privatizando as estatais e recebendo bem os investimentos estrangeiros. Contudo, Deng não foi liberal no aspecto social; em 1989, enviou tanques contra manifestantes que reivindicavam democracia, tendo como resultado o famoso Massacre na Praça da Paz Celestial. Com a péssima repercussão internacional dessa ação, Xiaoping deixou o governo.

A China teve uma situação de guerra fria com os Estados Unidos no final do século ao realizar manobras militares perto de Taiwan.


Ao mesmo tempo que o final do século trouxe esses sérios acontecimentos políticos e tão graves conflitos, a humanidade viveu, no final do século, uma evolução tecnológica impressionantemente acelerada, um desenvolvimento científico surpreendente e um avanço significativo nos cuidados com o meio ambiente e com os direitos humanos.

No campo da Informática, que ganhou a nova denominação de Tecnologia da Informação (TI), as empresas e organizações governamentais passaram a adotar, sucessivamente, as redes internas de terminais inteligentes, os serviços das “nuvens” e a rede mundial, a Internet. Esta viria, neste século, se tornar disponível para todas as pessoas, com seu uso intensificado pelos telefones celulares mediante “aplicativos” para todos os usos e gostos. E, com equipamentos de telecomunicação mais rápidos, tornou-se possível enviar imagens, além de textos.

Na passagem para o ano 2000, contudo, o mundo viveu grande ansiedade com o “bug do milênio”, pela preocupação de que os softwares de computadores não se adaptariam às datas do novo milênio e que todos os sistemas de que tanto dependia a humanidade deixariam de funcionar; seria o caos. Projetos mil foram preparados para essa eventualidade, porém, afinal, passamos na prova e acabou parecendo, até, que o terror não se justificava.

Na medicina, enfermidades que eram verdadeiras condenações à morte passaram a ser tratadas com sucesso. A ciência enfrentou sérias novidades, como a AIDS (sigla, em Inglês, para “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida”), por exemplo, surgida em 1981; mal terrível, cujo vírus (o HIV) foi identificado em 1983.

A orientação sobre dietas, higiene e acompanhamento médico proporcionou às pessoas uma vida mais saudável e mais longa. A expectativa de vida subiu no mundo todo; na Europa, por exemplo, passou de 47 anos, no início do século XX, para 76 anos em 2001.

A luta pelos Direitos Humanos, liderada pela ONU, foi intensificada no final do século, obtendo resultados importantes, como, por exemplo, o fim do Apartheid na África do Sul e o julgamento dos responsáveis por genocídios como criminosos de guerra.

A defesa do meio ambiente ganhou grande destaque nesses anos.

Os choques do petróleo da década de 1970 já haviam alertado os países do Ocidente a buscar novas soluções para reduzir a dependência do petróleo produzido no Oriente Médio. A guerra do Golfo, no início dos anos 1990 causou novo choque do petróleo, com grande elevação de preços, o que fez com que se acelerasse o desenvolvimento por governos e grandes empresas de fontes alternativas de energia.

Ao problema econômico se acrescentou a preocupação mundial com o “efeito estufa” na atmosfera, atribuído ao uso de combustíveis fósseis, produzindo, segundo a maioria dos cientistas, o aquecimento global e as mudanças climáticas. Em 1995, o IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change), órgão da ONU, relatou que os dados sugeriam influência humana no clima global.

A nova crise do petróleo acelerou a expansão do uso de energia solar e eólica e automóveis elétricos foram lançados na década de 1990. Com a cautela ampliada depois de acidentes em usinas nucleares, especialmente o gravíssimo desastre de Chernobyl, em 1986, na União Soviética, a energia nuclear também foi considerada como alternativa aos combustíveis fósseis.

Em 1992, foi realizada no Rio de Janeiro a ECO-92 (a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento) e, em 1997, a conferência em Kyoto, no Japão, que estabeleceu limites para a quantidade de gases-estufa que cada país signatário poderia produzir.


No Brasil, a volta a um governo democrático em 1985 foi o acontecimento político mais importante da década.

João Baptista Figueiredo, foi nomeado presidente da República em 15 de março de 1979, sucedendo o general Ernesto Geisel. Deu continuidade ao projeto iniciado no governo anterior de abertura do regime militar, de maneira que veio a ser o último presidente daquele regime. Já em 1979, assinou a Lei de Anistia Política que anulou as punições aos brasileiros feitas desde 1964; esta lei revogou as penalidades do regime militar, absolvições essas concedidas tanto aos militantes de esquerda que se opuseram ao regime quanto aos militares que atuavam em favor do mesmo.

Aprovou também a Lei Orgânica dos Partidos que extinguiu o bipartidarismo, possibilitando a criação de outros partidos. Vários foram criados nesse período, como o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Os membros da ARENA, que apoiava o regime militar, formaram o Partido Democrático Social (PDS), e o MDB, oposição ao regime, se tornou Partido Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Em 1982 foram realizadas eleições diretas para os governadores de Estados e para a Câmara Federal.

Contudo, a extrema direita, contrária à abertura política, praticou alguns ataques terroristas: bombas em bancas de jornal e cartas-bomba enviadas à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo o mais grave a explosão de uma bomba dentro do carro de militares, no Rio de Janeiro, em local onde se realizava a comemoração do dia do trabalhador, em 1981.

Para a passagem do governo federal para o novo regime estavam previstas a eleições indiretas para presidente e vice. A oposição promoveu um movimento pela realização de eleições diretas, o “Diretas já”. Contudo, a proposta de emenda constitucional para essa realização não foi aprovada pelo Congresso.

Em janeiro de 1985, foram realizadas as eleições indiretas para presidente e vice-presidente da República. Foram eleitos os candidatos da oposição: Tancredo Neves e José Sarney, derrotando os governistas Paulo Maluf e Flávio Marcílio. Contudo, às vésperas da posse, Tancredo foi acometido de grave enfermidade, sofreu cirurgias e faleceu, não chegando a assumir o posto. O vice-presidente José Sarney tornou-se presidente, e o regime militar foi encerrado.

Na economia, o governo Figueiredo enfrentou uma grave crise econômica internacional (altas taxas de juros e novo choque do petróleo em 1979); a disparada da inflação, que passou de 45% ao ano para 230% ao longo de seis anos, e com a dívida externa crescente no Brasil, que, pela primeira vez, rompeu a marca dos 100 bilhões de dólares, o que levou o governo a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1982. Nesse governo, a inflação anual subiu de 40,81% a 215,27%.


José Sarney de Araújo Costa, assumiu o governo, interinamente, após a internação de Tancredo Neves e, definitivamente, em 21 de abril de 1985, quando Tancredo faleceu.

Já no início de seu mandato, Sarney fez mudanças que deram prosseguimento ao processo de redemocratização. Foi aprovada a emenda constitucional que estabeleceu eleições diretas para presidente, prefeito e governador; os analfabetos passaram a ter o direito ao voto, e os partidos comunistas voltaram à legalidade. Como a constituição de 1967 fora elaborada no regime militar, uma nova constituição era necessária. Esta foi desenvolvida de 1987 a 1988 pela Assembleia Constituinte, sob a presidência de Ulysses Guimarães.

 A situação econômica continuava muito difícil, com uma inflação muito alta. O governo lançou mão de diversos planos econômicos, sucessivamente: o Plano Cruzado, em 1985, o Plano Cruzado II, em 1986, o Plano Bresser, em 1987, e o Plano Verão, em 1989. A moeda, o cruzeiro, foi substituída pelo cruzado, que deu lugar ao novo cruzado. O primeiro plano apresentou bons resultados de início, que deram popularidade ao governo e vitórias eleitorais ao PMDB, seu partido, mas não se sustentou; os planos seguintes fracassaram, de forma que a inflação anual subiu de 215,27% no final do governo Figueiredo para 1972,91% no final do Governo Sarney (1989).


Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito diretamente pelo povo desde 1960, tomou posse em 15 de março de 1990.

Com o elevadíssimo índice de inflação que lhe deixara o governo anterior, Collor deu prioridade à luta contra essa hiperinflação. Implantou o Plano Brasil Novo, que acabou levando seu nome: o Plano Collor. O cruzeiro voltou a ser a unidade monetária em substituição ao cruzado novo e, com a força dos votos que recebera, e, certamente, levando em conta o mau resultado dos planos do governo anterior, implementou imediatamente medidas ousadas. Para reduzir as despesas administrativas do governo, extinguiu e fundiu ministérios e órgãos públicos, demitiu funcionários públicos e congelou preços e salários; confiscou valores dos saldos na poupança bancária, de toda a população, superiores a cinquenta mil cruzeiros pelo prazo de dezoito meses visando a reduzir a quantidade de moeda em circulação; e fez alterações no cálculo da correção monetária e no funcionamento das aplicações financeiras. O confisco bancário, mesmo contestado como desrespeito ao direito de propriedade, não impediu que o plano econômico, elaborado pela equipe da Ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, fosse aprovado pelo Congresso Nacional.

Na equipe de ministros de Collor, ocorreram várias mudanças. A mais significativa, foi a nomeação de Marcílio Marques Moreira para o Ministério da Economia em 1991. Como seu plano econômico não estava dando os resultados esperados, seu governo sofreu acentuado desgaste, agravado por denúncias de corrupção de seus colaboradores, amplamente noticiadas na imprensa. Teve grande repercussão a entrevista dada, em 1992, por seu irmão, Pedro Collor de Mello, revelando o esquema de corrupção liderada pelo ex-tesoureiro da campanha de Collor, Paulo César Farias.

Em consequência, foi instalada uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar a responsabilidade do presidente sobre os fatos divulgados, o que levou ao processo de seu impeachment na Câmara dos Deputados, fortemente apoiado por manifestantes nas ruas, os “Caras-pintadas”. A abertura do processo determinou o afastamento temporário do presidente que decidiu renunciar antes de ser condenado. O vice-presidente, Itamar Franco, assumiu, então a presidência. Tomou posse em 29 de dezembro de 1992.

Collor assumiu o governo com a inflação em 1972,91% e o passou com a inflação em 1119,91%.


Itamar Franco governou até 1º de janeiro de 1995.

Assumiu o governo em um período conturbado do País, que, além da situação política inusitada, continuava sofrendo uma grave crise econômica.

No campo político, destacou-se em seu governo o plebiscito realizado em 1993, previsto na Constituição, para a escolha do sistema de governo no Brasil, entre o regime republicano presidencialista, o republicano parlamentarista e a monarquia. Venceu o regime republicano presidencialista, mas, curiosamente, 10% dos eleitores que compareceram às urnas votaram pela monarquia.  Foi, então, mantido sistema presidencialista.

Das realizações do governo Itamar, a principal, que marcou muito favoravelmente seu governo, foi a elaboração e execução do Plano Real. A elaboração do plano, foi feita por uma equipe de economistas altamente conceituados, liderada por Fernando Henrique Cardoso, nomeado Ministro da Fazenda em 1993.

Após as várias tentativas frustradas de reforma econômica nos governos Sarney e Collor, o Plano Real resultou em um programa definitivo de combate à hiperinflação daqueles anos. Constou de medidas para o equilíbrio das contas públicas, incluindo redução de despesas e aumento de receitas públicas, a criação do índice URV (Unidade Real de Valor) para preservar o poder de compra da população e o lançamento, em julho de 1994, da nova moeda, o real, utilizada até hoje. A inflação que vinha consumindo o poder de compra da população brasileira, foi, então, controlada.

Itamar Franco assumiu o governo com a inflação em 1191,09% t o passou com a inflação em 916,43%. No final de 1995, como resultado do Plano Real, o índice baixou para 22,41%.


Fernando Henrique Cardoso foi presidente do Brasil por dois mandatos consecutivos (janeiro de 1995 a janeiro de 2003). Seu governo ficou marcado pela manutenção da estabilidade econômica mediante a consolidação do Plano Real, a privatização de empresas estatais, a criação das agências reguladoras e a mudança da legislação que rege o funcionalismo público. No campo social implantou programas de transferência de renda, dentre os quais se destacou o Bolsa Escola (transformada em Bolsa Família no governo Lula).

Fernando Henrique assumiu o governo com a inflação em 916,46% e o passou com a inflação em 12,53%.


Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da república em janeiro de 2003 e governou em dois mandatos até janeiro de 2010.

Seu governo manteve a estabilidade econômica e a retomada do crescimento do país. Lula assumiu com a inflação anual em 12,53% e a entregou em 5,90%.

Jurema ainda acompanharia o governo Lula em seu primeiro mandato.


O estado de São Paulo teve, ao final do século, apesar das crises políticas e econômicas do país, um nível de progresso significativo nas atividades industriais em geral, na agroindústria e na infraestrutura. Como destaque, a produção local de automóveis mais modernos e de melhor qualidade, o aumento da produção de cana de açúcar, a expansão e aperfeiçoamento das rodovias mediante concessões, a construção do Rodoanel Governador Mário Covas, que circunda a capital para melhor escoamento de produtos, em especial para o porto de Santos.

A cidade de São Paulo prosseguiu em seu desenvolvimento urbano, formando com municípios vizinhos uma área metropolitana contínua.

Teve melhoramentos muito importantes no sistema viário. Como destaque, a expansão da rede do metrô, que, em 2000, já estava com quatro linhas em operação (hoje, são seis e sua extensão total é de mais de 100 quilômetros); e a expansão e reformas das vias expressas da cidade, como aquelas que levam ao aeroporto de Congonhas e as marginais do Tietê e do Pinheiros. Edifícios comerciais se estenderam a bairros residenciais e, nestes, prosseguiu acelerada a substituição de casas por edifícios de apartamentos, inclusive apartamentos populares.

Uma medida importante, que visou a proteção do meio ambiente mediante a redução de gás carbônico, foi implantada: o rodízio de automóveis em circulação nos dias de semana. Fato curioso é que o efeito benéfico no trânsito foi bem maior do que o esperado, o que ajudou a manter o rodízio até hoje.

Nessas duas últimas décadas do século, governaram o estado de São Paulo: Paulo Maluf, de 1979 a 1982, eleito pelo Colégio Eleitoral, sucedido por José Maria Marin, eleito vice-governador pelo mesmo órgão; este governou de 1982 a 1983. André Franco Montoro, de 1983 a 1987, eleito na primeira eleição direta para o cargo depois de vinte anos. Aqueles que o sucederam também foram eleitos por eleição direta: Orestes Quércia, de 1987 a 1991; Luiz Antônio Fleury Filho, de 1991 a 1995; Mário Covas Júnior, de 1995 a 1999 e, reeleito, até 6 de março de 2001, quando faleceu.

Os prefeitos da capital foram, sucessivamente: Reinaldo de Barros, de 1979 a 1982; Antônio Salim Curiati, de 1982 a 1983; Mário Covas, de 1983 a 1985; Jânio Quadros, de 1986 a 1988; Luiza Erundina, de 1989 a 1992; Paulo Maluf, de 1993 a 1996; Celso Pitta, de 1997 a 2000.


Em 1980, com a morte de Osmar, Jurema se mudou do apartamento da Alameda Franca para outro, na Rua Alves Guimarães, no bairro de Pinheiros, próximo à casa de Penha e Roberto; casa espaçosa e confortável, à rua D. Elisa Moraes Mendes. Entretanto, Jurema, morando apenas com uma empregada, passou a necessitar de maiores cuidados da Penha, que teve de atendê-la em seguidas emergências. Após alguns sustos, Penha e Roberto preferiram que Jurema fosse morar com eles, pois dispunham de ótimas acomodações para ela e sogra e genro se davam muito bem. Como a mãe continuava muito ativa, Penha deixou que ela a ajudasse nos assuntos domésticos, lidando com as empregadas. Minha irmã trabalhava em casa como tradutora de Inglês e de Francês e tinha, junto com amigas, atividades de catequese em uma igreja próxima. Desde então, até 2001, Jurema morou com Penha e Roberto. Continuou lidando com as empregadas, principalmente quanto nos trabalhos de cozinha; participava das reuniões sociais do casal, de tal forma que os amigos deste passaram também a ser seus amigos (o que, aliás, aconteceu também com os amigos dos outros filhos). Também socializava com seus velhos amigos e com os parentes, os quais, infelizmente, ia perdendo, por falecimento. Ela se queixava muito da falta deles, dizendo que esse fato era um ônus pesado para os idosos longevos. Até o ano 2000, faleceram irmãos e outros parentes, consogros (pais de Nenzinha, pais de Leilah e pais de Roberto) e vários amigos, inclusive os mais chegados, de muitos anos, como D. Iracema e Dr. Renato, por exemplo. Ao se aproximar dos noventa anos, Jurema reencontrou um antigo amigo do casal, que também enviuvara havia tempo, e passaram a fazer companhia um do outro. Ele ia visitá-la na casa da Penha e saiam para passear conduzidos pelo motorista dele. Foi uma espécie de namoro da “muito melhor idade”, que durou algum tempo. Ele, embora um pouco mais moço do que ela, faleceu antes.

E como estava Jurema de saúde? Cuidava-se, consultava os médicos, e fazia exames com frequência, não relaxava. Numa ocasião em que ela fraturou o fêmur em Franca e foi operada lá, foi atendida por um cardiologista, Dr. Ronaldo Mandel, que passou a cuidar dela pelo resto da vida, remotamente quando ela estava em São Paulo e presencialmente, quando ela estava em Franca. Ela se manteve lúcida, mas, mulher sempre ativa, a idade acentuou seu comportamento de mandona, revelado nos tempos da Vila Olímpia, quando ganhou do Túlio o apelido de Perón. Porém, conservava sua habilidade em lidar com as pessoas em geral. Maria da Penha, bastante ocupada com seu trabalho, permitiu que a mãe assumisse o comando das atividades domésticas, o que ela fez com muita satisfação. Nas conversas, lendo muito e sempre a par das notícias, gostava de discutir os assuntos mais variados, mas, às vezes, se mostrava muito teimosa. Penha e Roberto, extremamente pacientes e delicados, procuravam não a contrariar (aliás, diga-se de passagem, Roberto, além de ótimo marido e pai, foi um genro exemplar). Eu, entretanto, que ia nessa época a São Paulo, a trabalho, com muita frequência, acabava sempre discutindo com ela, que me provocava, parecendo querer treinar comigo sua capacidade dialética. Em geral, os assuntos eram de menor importância, detalhes de algum acontecimento na família, por exemplo. Penha e Roberto se divertiam.

De uma forma geral, Jurema continuava muito ativa e procurava aproveitar o que a vida lhe oferecia. Tomou gosto pela cozinha, orientava a empregada para fazer novas receitas; gostava de sair para passeios, visitas ou compras; recorria à Penha ou, como fez por bastante tempo, contratava um motorista particular motorizado, já conhecido, uma vez por semana. Mantinha contato constante com os parentes do Paraná, os filhos, noras e netos, usando largamente o telefone. Nos tempos em que as pessoas eram parcimoniosas com os telefonemas interurbanos, ela os usava bastante. Participava das reuniões com amigos na casa dos filhos, sempre muito presente e muito apreciada.

Foi com grande satisfação que ela assistiu ao casamento de netos, especialmente das três netas, pelas quais tinha um carinho e, na minha percepção, um pouco de cumplicidade feminista (no bom sentido). Márcia se casou em Franca, em 1982, com festa memorável promovida pelo Túlio; Cristina se casou em São Paulo, em 1985, e Jurema no Rio de Janeiro, em 1999, ambas também com grandes comemorações. A vovó Jurema estava lá, firme, em todas as festas, sempre recebendo a atenção de todos. Feliz, sentia-se muito homenageada.

Via, com muito orgulho, a família crescer. No ano 2000, quando completou noventa anos, contava treze netos e nove bisnetos; nos anos seguintes, ainda viria a conhecer mais três bisnetos.

Acontecimento importante e muito emocionante para ela e todos da família foi a cerimônia, em 1983, da atribuição do nome “Professor Osmar Bastos Conceição” a uma escola estadual de São Paulo, no bairro hoje denominado Vila Maristela. Laudo Natel, então ex-governador do Estado de São Paulo, compareceu, discursando; eu também fiz uso da palavra.


Os filhos de Jurema, nesse tempo, amadureceram e, com exceção do caçula, tornaram-se idosos e avós, o que deu a ela muita satisfação, a honra de ser bisavó.

Sempre morando em Franca, Túlio, o filho mais velho, ainda dirigiu sua empresa por alguns anos, mas, nos anos 90, aposentou-se e passou a direção da indústria aos três filhos, Eduardo, Márcia e Fernando, que a mantiveram funcionando com sucesso. Ele decidiu, então, aproveitar a vida: em companhia da Nenzinha, sua esposa, passava um bom tempo na fazenda e lia muito – tinha predileção por Eça de Queiroz, de quem leu, talvez mais de uma vez, sua coleção completa. Participava, com seus amigos de Franca, de grandes excursões de pescaria no Brasil Central; ele e Nenzinha fizeram uma viagem memorável à Europa com Maria da Penha e Roberto. Além das reuniões de nossa família, que promovia na fazenda, visitava os parentes em São Paulo, quando fazia questão de oferecer grandes jantares a todos.

Luiz Antônio, o caçula, mudou-se de Goiânia para Franca com a esposa, Inês, e os três filhos. Túlio o contratou para administrar sua fazenda, aproveitando a larga experiência que o irmão adquirira em Goiás, formando a administrando grandes fazendas de gado e culturas diversas. Corria o ano de 1981 e Túlio quis fazer de sua pequena fazenda um modelo de produção de leite. O sucesso do empreendimento foi tal que, entre outros troféus, Luiz Antônio foi receber em São Paulo, das mãos do então governador do estado (seu xará Luiz Antônio Fleury Filho), um trator como prêmio pelo seu recorde de produtividade de leite. Inês, formada em Direito, também teve oportunidade de trabalho em Franca. Seus meninos, Rodrigo, Osmar e Paulo, os netos mais novos de Jurema, se desenvolveram todos muito bem “na” Franca.

Maria da Penha e Roberto se mudaram da casa da Rua D. Elisa Moraes Mendes para outra ótima casa que compraram no mesmo bairro (Alto de Pinheiros) em local excelente – uma praça com trânsito apenas local. Jurema os acompanhou. Dos filhos, o caçula, Beto, ainda morava com os pais; Cristina e Marcelo já tinham “batido asas”. Penha continuava com suas atividades de trabalho e Roberto enfrentou um novo desafio ao participar, como Diretor Técnico, da administração de uma das grandes indústrias de São Paulo.

Leilah e eu permanecemos no Rio de Janeiro (até hoje). Nas décadas de 1980 1990, tivemos importantes alterações em nossa vida. Ambos deixamos as respectivas empresas, em que trabalhávamos havia muitos anos, mas continuamos em atividade prestando serviços no setor de informática (o que fizemos até 2010).

Dois de nossos filhos, Cássio e Francisco, fizeram o curso superior nos Estados Unidos. Cássio acabou fixando residência naquele país, lá se casou e não voltou a morar no Brasil; Francisco voltou. Este, Luiz e Jurema (neta) continuaram morando no Rio, com algumas temporadas de trabalho fora do país.


Jurema manteve, mesmo com a avanço da idade, o interesse e a disposição para viajar; enfrentava sem problemas, tomando os necessários cuidados com a saúde, viagens de avião e de automóvel. No país, viajava com mais frequência a Franca e ao Rio de Janeiro. Quando, em 1986, tive de me submeter a uma cirurgia, minha mãe veio me fazer companhia no período de recuperação. Lembro de que, nessa ocasião, coisa rara para nós, assistimos juntos, assiduamente, a uma novela na televisão.

Apesar da idade avançada, também esteve fora do país. Acompanhou a Penha em viagens a Paris, em 1990 e 1996, para visitar a neta Cristina e Alberto, seu marido. Como este fora designado alto executivo da matriz de importante empresa multinacional francesa, o casal havia se mudado e fixado residência lá, logo após o casamento. Na segunda destas viagens, Jurema conheceu seus bisnetos franceses.

Em 1993, viajou comigo e Leilah para a Califórnia para assistir ao casamento de meu filho Cássio. Viajamos de São Paulo a Los Angeles (voo de 13 horas) e, de lá para Oakland, cidade vizinha de São Francisco, de automóvel. Foram seis horas de estrada. As comemorações não poderiam ter sido mais agradáveis, Jurema aproveitou muito e sua visita foi deveras apreciada. Antes e depois do casamento, aproveitamos para fazer uma ótima viagem turística de automóvel (que descrevi em meu livro “A Califórnia e Nós”).

Dois eventos, também memoráveis, em que estivemos, Leilah e eu, com Jurema, ocorreram em 1992, em Curitiba: uma extraordinária reunião de família com os parentes do Paraná em Curitiba, seguida de outra semelhante em Ponta Grossa, nas quais foi carinhosamente homenageada pelos parentes queridos.

Entrando no novo milênio, Jurema comemorou seus noventa anos na casa de Maria da Penha e Roberto em março de 2000. Foi um ótimo almoço, a que compareceram filhos e cônjuges, netos, bisnetos, sobrinhos, parentes do Paraná, além de amigos mais próximos. Tudo correu muito bem, o tempo ajudou, foi ótima reunião e ela se mostrou muito feliz.


2001, contudo, lhe reservou a dolorosíssima surpresa do falecimento de Maria da Penha, de um câncer impiedoso. Após o choque da enorme perda, Jurema se mudou para um apartamento na Rua Padre João Manuel, nos Jardins, e Roberto e Beto, o caçula dele, para um apartamento no mesmo bairro, bem próximo ao dela. Minha mãe contratou Geralda, pessoa experiente e eficiente que se encarregava dos serviços domésticos e funcionava como cuidadora; e continuou recebendo a atenção e o apoio do Roberto. Deve ter sido extremamente difícil para ela, além de perder a filha tão querida, deixar sua condição de rainha-mãe na casa da Penha. Com o apoio que recebeu, entretanto, dos parentes e amigos, adaptou-se, pouco a pouco, às novas condições de vida.

Em 2002, sofreu outro golpe: Túlio, o filho mais velho, faleceu, também de câncer, após longa luta contra a doença.

No final de 2002, quando Jurema estava em Franca de visita, necessitou de maiores cuidados do Dr. Ronaldo e este advertiu a família que, não poderia continuar a assisti-la devidamente, à distância. Juntando a necessidade do atendimento do médico e do excelente hospital de Franca a outros fatores, como o vencimento do contrato do aluguel do apartamento e do pedido de demissão da Geralda, que decidira se mudar de São Paulo, decidimos em reunião de família, com o acordo de Jurema, que ela iria se mudar para Franca. Essa mudança foi um sucesso: ela alugou um ótimo apartamento, a uns quinze minutos de automóvel da casa do Luiz Antônio, contratou uma boa empregada e teve a assistência preciosa do filho caçula que, aposentado de seu trabalho na fazenda, passou a cuidar dela em tempo integral, funcionando como secretário para todas suas providências burocráticas e acompanhante e motorista para consultas e exames médicos, compras, visitas e passeios. Inês, advogada, que tinha seu próprio trabalho fora de casa, deu todo o apoio ao marido. Este cuidado todo foi fundamental para Jurema chegar aos 97 anos, com uma condição cardiológica que exigia um trabalho constante do médico para o necessário equilíbrio do sistema.

Nesse período recebeu muitas visitas de Roberto, nossas e de nossos amigos, os quais ela soube tão bem cativar. Os filhos e netos do Túlio, assim como os filhos do Luiz Antônio, moravam em Franca ou lá iam com frequência, de modo que Jurema tinha, sempre, a oportunidade de ver netos e bisnetos. Uma das pessoas que mais a visitavam e passava semanas com ela era Lelé (o nome era Aglaé), dez anos mais moça do que ela, filha de Tia Anete, irmã de meu pai. Dentro das circunstâncias daquela fase da vida, a decisão de se mudar para Franca foi a melhor possível.

Porém, como todos sabemos, o avançar da idade traz deficiências físicas que se agravam inexoravelmente. No caso de Jurema, a perda de audição, de visão e a dificuldade de locomoção foram aumentando e, apesar de sua disposição e vontade de viver, sustentadas pelos cuidados médicos, por boa alimentação e, ao que parecia, também pelo hábito adquirido havia anos, de tomar seu drink diário (ela não dispensava seu uísque antes do almoço). Em refeições festivas, tomava sua cervejinha ou vinho (meu amigo Credídio, grande conhecedor de vinhos, a visitava desde os tempos de São Paulo, e costumava presenteá-la com um vinho especial de sobremesa).

Nesses anos, viajou algumas vezes a São Paulo e esteve também no Rio, o que lhe deu a oportunidade de conhecer os bisnetos americanos (filhos do Cássio) e os nascidos depois de seus 90 anos.

Além dos cuidados médicos do Dr. Ronaldo, Jurema tinha um plano de saúde muito bom do Hospital Regional de Franca. Sempre que necessário, o médico providenciava sua internação no hospital para tratamento. Ela já era bem conhecida das enfermeiras. Uma ocasião, quando Leilah e eu fomos visitá-la em Franca, ela comemorou o aniversário no hospital, com direito a bolo, pois já estava melhor. O hospital, com alta ocupação naqueles dias, a colocara em um apartamento no andar da maternidade. Com o passar dos anos, as idas ao hospital se tornaram mais frequentes, mas ela voltava bem. Luiz Antônio, sempre atento, nos mantinha informados. Em 2007, tive uma folga do trabalho em novembro e fui a Franca. Ela estava em casa, relativamente bem, minha visita decorria normalmente – conversamos bastante, ela providenciou as refeições normalmente, até um dia em que não passou bem e precisou ser levada ao hospital. Os médicos da emergência a atenderam imediatamente e Dr. Ronaldo chegou em seguida. Foi internada e levada para a UTI e chagamos a visitá-la, naquele sistema de limitação de duas pessoas de cada vez. Quando Inês e eu estávamos com ela, inconsciente e entubada, toda monitorada, faleceu. Foi sepultada em Franca, em um cemitério novo denominado “Jardim das Oliveiras”. Oliveira era o sobrenome de solteira de Jurema.

A família mandou rezar uma missa de sétimo dia em São Paulo, muito concorrida. Abaixo, o texto que preparei e, convidado a falar, li durante a cerimônia.


“D. Jurema de Oliveira Bastos Conceição

Viveu uma vida longa e muito rica.

Nasceu no Paraná, perto de Curitiba, em 1910.

Casou-se aos 19 anos com o Professor Osmar Bastos Conceição.

Aos 22 anos, com o marido e dois filhos pequenos, mudou-se para São Paulo. Osmar conseguiu trabalho em Mirassol, como Diretor da Escola Normal. Naquela época, início dos anos 30 do século passado, Mirassol era uma pequena cidade pioneira aonde a estrada de ferro ainda não chegara. Enfrentou as dificuldades dessa mudança, além de doença grave do filho mais novo que, felizmente, sobreviveu. Lá o casal fez amigos valiosos para a vida inteira.

Em 1936, para que Osmar fizesse o Curso de Direito na São Francisco, voltaram à Capital, a qual se tornou, então, a cidade de sua vida. Mesmo tendo se mudado há cinco anos para Franca, para ter o cuidado especial de seu filho caçula e de seu médico particular, permaneceu muito ligada a São Paulo e a seus amigos daqui.

Ao longo de sua vida em São Paulo, onde nasceram sua filha e o caçula, enfrentou as dificuldades comuns de início de vida na cidade grande, sofreu as restrições impostas pela guerra, mas apoiou o marido na consecução de seus objetivos, evoluindo de uma vida modesta para uma situação confortável.

Ficou viúva aos 70 anos.

Por onde andou, fez amizades duradouras, que incluíram os amigos de seus filhos. E manteve, a vida inteira, relacionamento intenso com seus parentes e amigos do Paraná, visitando-os sempre que possível.

Nos últimos tempos, usou fartamente o telefone para continuar em contacto com todos.

Há uma unanimidade na admiração dos que conviviam e se comunicavam com ela, por demonstrar uma longevidade cerebral invejável.

Por acompanhar, extremamente interessada, as atividades da família (especialmente dos treze netos e doze bisnetos) e dos amigos, apegava-se fortemente à vida, sabendo, entretanto, que um dia Deus a levaria.

Ela nos deixou, sem sofrer, na quinta-feira passada, dia 29 de novembro.

São Paulo, 05 de dezembro de 2007.”


Na lembrança de todos que conviveram com eles, Osmar e Jurema se reencontraram na eternidade.

Washington Luiz Bastos Conceição


Referências históricas:

  • Gilbert, Martin. “A História do Século XX”. Edição do Kindle.
  • Wikipedia.
  • MacArdle, Nicola Chalton; MacArdle, Meredith. A história do século 20 para quem tem pressa. Editora Valentina. Edição do Kindle.