sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

D. Izaura e sua gente – As reuniões no Pacaembu

Cara leitora ou prezado leitor:

Esta é a décima-terceira crônica da série “D. Izaura e sua gente”. Prossigo com as histórias.

Observação: Para conhecimento ou rememoração do leitor quanto às pessoas da família, mencionadas no texto, apresento novamente o diagrama genealógico de Izaura e Juca.



Além dos programas no sobrado da Galvão Bueno, a família se reunia com certa frequência na casa de Chico e Cida, no bairro do Pacaembu.

Quando conheci a família, os Mellone (sobrenome do Seu Chico) moravam na Vila Pompeia. Em 1950, mudaram-se para a bela e moderna casa que seu Chico projetou e mandou construir naquele bairro, um daqueles loteamentos de qualidade feitos na cidade pela companhia City de São Paulo. Coisa muito fina.

A casa da Rua Traipu

Passo a palavra à arquiteta Leilah:

"A casa da Traipu era famosa na família. Francisco, meu pai, a projetou por alguns anos, consultando a revista americana “Architecture & Ptojects”, considerando a topografia do terreno, sua posição em relação ao sol e os requerimentos específicos da City. O lote, em uma das colinas em que o bairro foi desenvolvido, tinha um forte aclive, o que exigia um trabalho grande de terraplenagem e um muro de arrimo. Assim, foi projetado um corte no terreno e um platô, onde foi construída a casa. Esta, um sobrado (térreo e andar superior) em formato de um L invertido (┌) deixando uma área grande, na entrada, para o jardim e outra no fundo do terreno, como quintal. Quanto à orientação do Sol, a face melhor da casa seria aquela que dava para os fundos; melhor porque teria mais aquecimento pelo astro-rei.

O Washington desenhou uma planta esquemática do térreo para ilustrar minha descrição:

No andar térreo meu pai projetou na parte horizontal do “L” invertido a sala de estar (o “living”) e a sala de jantar, sem parede divisória. A sala de estar tinha grandes portas de correr que abriam, na frente, para o jardim e, atrás, para o quintal. A sala de jantar abria para uma área menor nos fundos e se comunicava com a cozinha. Na parte “vertical” do “L” ele colocou  a cozinha e o quarto de empregada. Era uma coisa muito esquisita, naquela época, construir esses compartimentos de serviço na frente da casa, com vitrôs que abriam para o terraço de entrada junto ao jardim. A cozinha já tinha o conceito americano de uma mesa central e todos os armários junto à parede e comunicação direta com a sala de jantar. Tudo isso, hoje em dia, é muito comum, mas naquele tempo era uma novidade. Na cozinha nós tínhamos uma mesa usada para os cafés da manhã, mas papai sempre gostou de almoçar e jantar na sala de jantar.

O quintal era, na realidade, um jardim no fundo da casa, gramado, a menos de uma área atrás da sala de jantar, separada por um pequeno muro, onde havia um depósito e um pequeno galinheiro, destinado a um galo e galinhas garnisé. No jardim da frente, havia um pequeno tanque com peixes coloridos.

O jardim era limitado na frente por uma mureta de onde se tinha uma vista bonita do bairro em direção ao vale por onde corre a avenida Pacaembu.”

Na foto abaixo D. Izaura na mureta:


Por suas características, a casa se prestava perfeitamente para as reuniões da família de D. Izaura.


As reuniões

Um programa fixo era o almoço do primeiro dia do ano, para toda a família, a maior parte ainda morando na Galvão Bueno. Eu era convidado, inicialmente  na condição de amigo do Sérgio e da Leilah (depois, nosso namoro, noivado e casamento reforçaram minha posição).

Dona Cida combinava com D. Izaura e as irmãs o cardápio, a bebida, a lista de participantes etc. e o horário era estabelecido.

Leilah lembra:

"Nos almoços da família lá em casa, principalmente aquele do dia primeiro do ano, mamãe armava uma mesa que pegava toda a sala de jantar e até parte da sala de estar, mais comprida porque era muita gente, vinham as irmãs com os maridos, os filhos com as esposas e sobrinhos. Minha mãe tinha uma ajuda muito efetiva de uma moça que trabalhava de vez em quando lá em casa e de seu marido, que era garçom. Tia Glória, que era a pessoa da família considerada cozinheira de alto nível, trazia panelas (eu não me lembro bem que comida era) para esquentar lá em casa. Assim, ficava menos trabalhoso para minha mãe.

Aqueles almoços eram muito agradáveis, movimentados, simples, porém muito alegres."


As demais reuniões da família, ao longo do ano, eram também muito animadas e agradáveis, com o Lúcio e o Narciso se destacando na animação do ambiente com suas histórias.

Além dos aniversários, havia reuniões para um pôquer baratinho de que participavam seis jogadores, com eventual revezamento, e os demais, os acompanhantes, conversavam, ouviam música ou assistiam a algum programa de televisão.

No jogo, embora barato, o comportamento era sério, as regras eram bem conhecidas e alguns jogavam bem. Eu, frequentemente, participava – era o novato, carneiro entre lobos – tinha muita dificuldade para blefar e esperava pelas cartas melhores. No final das sessões, tendo ganho ou perdido, o valor era pequeno. Quando eu perdia, o Lúcio me consolava: “Veja: onde você iria se divertir tanto tempo por esse preço? Ficou barato”.


Narciso e família moravam no interior do Estado mas, sempre que podiam, iam a São Paulo. Nas férias, certamente. Ele contava causos das cidades em que morara e morava, mas, em especial, narrava sua viagem de lua de mel com Helena. De trem, de São Paulo a Jundiaí, enfatizando o grande apetite de Helena com os pastéis que eram vendidos no carro, comentando que, quando noivos, um dos predicados atribuídos a ela era que “comia feito um passarinho” (naquele tempo do marido provedor, era uma qualidade destacada da futura esposa).


O humor do Lúcio era intrínseco; contava com muita graça as histórias dos imigrantes italianos de seu bairro e aquelas do tempo da sua casa lotérica e de seus novos trabalhos. Lembro-me do caso que ele contava de um conhecido seu que, na juventude, era um extraordinário jogador de pingue-pongue (tênis de mesa), a ponto de ser chamado pelo Clube Fluminense, do Rio de Janeiro, para contratá-lo. Infelizmente, não deu certo, embora fosse realmente um craque; seu problema foi comportamental, pois, durante as partidas, acompanhava os pontos do adversário com palavras inadequadas (para dizer o mínimo) ao ambiente daquele clube, conhecido pela boa educação de seus sócios. Ao longo dos anos, o Lúcio o encontrava de vez em quando e via que ele não tinha mudado de jeito. Um dia, contou: o amigo apareceu no banco em que o Lúcio trabalhava. Este estava atendendo clientes na caixa; o amigo acenou de longe e falou bem alto: “Ei, Maesano, michou o bicho, hein!”, acompanhando a fala com o gesto de mão correspondente, daquele tempo (indicador e polegar apontados, os outros dedos recolhidos, e a mão balançando).


Diferente dessas reuniões, na casa foi realizada também a recepção do casamento da Antonieta, irmã do Seu Chico, com o Geraldo Hering (casal de noivos que frequentava as festinhas da Galvão Bueno). Devidamente preparada para a ocasião (toldo no jardim inclusive), a casa acolheu muito bem os convidados. Na foto, alguns dos participantes na sala de jantar:


Junto a essas lembranças, não posso deixar de mencionar aqui que foi também realizada na casa do Pacaembu uma cerimônia inesquecível para mim e Leilah: a de nosso casamento civil. Abaixo, os noivos e os pais:



A recordação assaz agradável de todos esses encontros, além de me emocionar, me faz meditar. E reforça minha impressão de que a convivência fraterna do grupo foi consequência de sua reunião no sobrado da Galvão Bueno, o reino de D. Izaura.

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

A. Na planta esquemática, que teve o objetivo de ilustrar a descrição da Leilah, não incluí o andar superior nem detalhes de escada interna e banheiros, para simplificar o desenho.  

B. Cara leitora ou prezado leitor: abaixo, a lista das crônicas da série e respectivos links:

1) D. Izaura e sua gente – Introdução

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/02/d-izaura-e-sua-gente-introducao.html

2) D. Izaura e sua gente – A casa e os moradores

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/03/d-izaura-e-sua-gente-casa-e-os-moradores.html

3) D. Izaura e sua gente – Leilah na Galvão Bueno

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/04/d-izaura-e-sua-gente-leilah-na-galvao.html

4) D. Izaura e sua gente – Vovô Juca

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/05/d-izaura-e-sua-gente-vovo-juca.html

5) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 1

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/06/d-izaura-e-sua-gente-as-pessoas-1.html

6) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 2

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/07/d-izaura-e-sua-gente-apresentando-as.html

7) D. Izaura e sua gente – O baile do Odeon

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/07/d-izaura-e-sua-gente-o-baile-do-odeon.html

8) D. Izaura e sua gente – Lembranças do Gentil

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/08/d-izaura-e-sua-gente-lembrancas-do.html

9) D. Izaura e sua gente – Festinhas no sobrado

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/09/d-izaura-e-sua-gente-festinhas-no.html

10) D. Izaura e sua gente – O vestibular dos rapazes

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/09/d-izaura-e-sua-gente-o-vestibular-dos.html

11) D. Izaura e sua gente – Os turfistas

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/11/d-izaura-e-sua-gente-os-turfistas.html

12) D. Izaura e sua gente – Os politécnicos vestem verde-oliva

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2026/01/d-izaura-e-sua-gente-os-politecnicos.html 

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