quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Notícias No. 05/2012 – Informações aos Visitantes


Visitas ao Blog

 

Muito agradecido aos leitores pela sua atenção, resolvi comentar alguns dados sobre a visitação ao blog, os quais me vêm surpreendendo. Afinal, com 200 visitas por mês eu não contava. Tenho muitos amigos, mas não esperava que tivessem tempo para dar uma olhada no blog. Certamente, o processo de noticiar as “postagens” por e-mails ajuda, pois vocês não perdem tempo buscando novas publicações nos intervalos entre elas. Os gráficos mostram picos na visitação nas datas de meus anúncios a vocês.


Visitas, no momento em que ocorrem, não significam necessariamente leitura da publicação; esta pode ficar para depois. Porém, tenho ideia de que as crônicas estão sendo lidas porque venho recebendo comentários, alguns muito estimulantes, tanto por e-mail quanto pessoalmente.

O total da estatística mostra mais de 3000 visitas no período de dez meses, mas, nos primeiros meses, estavam sendo computadas as minhas próprias visitas, para novas postagens e acompanhamento, de forma que prefiro considerar a média mensal atual, de cerca de 200.


As estatísticas não mostram o endereço dos visitantes, claro, mas informam os países de onde as entradas foram feitas e me deixam muito curioso porque, entre outras de diferentes países, 142 foram feitas da Rússia e 29 da Letônia. Esses dados são mais intrigantes ainda quando me lembro de que as publicações estão em Português e as traduções automáticas implantadas no blog (do Google Translator), embora tenham valor porque podem dar uma ideia do texto, deixam muito a desejar, pelo que observei no Inglês e no Espanhol.

Para ilustração, listo abaixo tabela com os países de entrada e a quantidade de visualizações respectivas em 1º. de novembro.

                   Países

     Entrada            Visualizações

Brasil
           2659
Estados Unidos
             226
Rússia
             142
Reino Unido
               43
Alemanha
               36
Letônia
               29
Bangladesh
                 5
Canadá
                 4
França
                 4
Argentina
                 3
 
 

Quanto ao interesse de visitantes de alguns desses países, gostaria de saber por quê; por enquanto, tenho a impressão de que essas pessoas pensam que “Escritos do Washington” trata de informações da capital dos Estados Unidos.
 

Mais uma vez, muito obrigado pelas visitas!


Washington Luiz Bastos Conceição
 




 

John Clites

 

No meu “O Projeto 3.7 e Nós”, conto como nós da família lidamos com o idioma Inglês em nossa temporada em Chicago e concluo dizendo que, depois que voltamos ao Brasil, ainda usei muito o Inglês no trabalho, nas reuniões internacionais, em apresentações, mesmo após ter saído da IBM. Porém, nos últimos dez anos, venho perdendo fluência e vocabulário do Inglês. E que, agora, quando vou visitar nossos netos americanos, tenho dificuldade em me comunicar com eles, principalmente na primeira semana; demoro a retomar o diálogo. Como Leilah, minha esposa, também tem essa dificuldade, temos procurado nos preparar para melhorar nosso desempenho, lendo livros e assistindo a filmes em Inglês, quando possível sem legendas.


Antes de nossa viagem aos Estados Unidos em agosto de 2011, decidimos também tomar algumas aulas particulares de conversação, com muito bom resultado.

As aulas acima mencionadas foram dadas pelo Professor John Clites, um jovem americano que decidiu deixar suas atividades profissionais em “Business” nos Estados Unidos, preparou-se, obteve um certificado específico e fixou residência no Brasil. Reside agora em Paraty e dá aulas na região e, remotamente, mediante lições no site e comunicação pelo “Skype”.

Quando decidi publicar o “Projeto 3.7” em Inglês, recorri a ele para a revisão do meu texto em Inglês, feita à distância, usando e-mail e arquivos anexados. O texto foi muito elogiado por meus amigos americanos.

Recomendo àqueles que desejem reciclar seu Inglês e aos que pretendam publicar livros ou outros trabalhos nesse idioma (e que precisem de uma revisão linguística), que deem uma olhada no site do John:
 




Washington Luiz Bastos Conceição

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

José Cadilhe


Realmente, eu estava muito inspirado no dia (de abril deste ano) em que resolvi pedir a minha prima Isa permissão para publicar no blog uma crônica que ela havia escrito sobre Fernandes Pinheiro, cidade muito ligada à história dos Oliveira, família do pai dela e de minha mãe. Eu já havia lido esse trabalho, havia tempo, e me pareceu muito bom. Publiquei, então, “O Sabor da Erva Mate”, que foi muito apreciada pelos leitores do blog. O sucesso se repetiu e se ampliou com “Tema de Jurema” e “Um Conto... Uma História”.

O que não contei ainda a vocês foi que o avô materno da Isa, José Cadilhe, foi jornalista e escritor. Eu tinha muito pouca informação sobre ele, até que li a crônica abaixo. Vocês devem concluir, como eu, que o talento dela tem, provavelmente, algo de genético. Como se dizia antigamente, ela tem por quem puxar.

Mais uma vez, fico muito agradecido à cara prima por sua notável participação neste blog.

Washington Luiz Bastos Conceição




José Cadilhe

“AFINAL, POR QUEM OS SINOS DOBRAM?”
 

         José Cadilhe é hoje uma larga avenida no bairro da Água Verde, em Curitiba. Foi um poeta sensível, um jornalista combativo, um escritor de largos recursos, um teatrólogo versátil, um humorista de qualidade. Mas há quatro pessoas ainda neste mundo, três mulheres e um homem, para quem ele foi e é, simplesmente Papai.

         E é assim, deixando de lado títulos e troféus que seu talento conquistou, que quero lembrar e falar dele hoje: da sua figura humana, do seu jeito de ser, de suas esperanças, de sua coragem, dos seus medos...

         E falar sobre um homem, e não sobre sua obra, é mais difícil porque mexe com uma dimensão diferente da vida: mexe com as lembranças, com a vivência, mexe enfim com a emoção de toda uma família.

         Sabem, eu acho que os poetas são uma raça frágil, pessoas mais cheias de carências e vulnerabilidades do que o comum dos mortais; porque são médiuns, eu diria, não com a conotação que dá a essa palavra a doutrina espírita: médiuns porque intermediários entre o sagrado e o profano, entre o ver e o sentir, entre a ação e a emoção.

         E é por aí, partindo dessa premissa, que tento contar alguma coisa dele, relatando as lembranças de seus filhos nos acontecimentos que marcaram sua história.

         Começo pelo fim, contando que morreu aos 62 anos: não tão moço que não tivesse provado mil sabores e dissabores da vida. Nem tão velho que tivesse esquecido o ímpeto dessas emoções... Emoções que foram muitas em sua vida, tão violentas algumas que deixaram sequelas na alma.

         No seu primeiro casamento era apenas um adolescente: tinha 17 anos e vivia com sua mulher, sua prima Siomara Maravalhas, de 19, em Porto de Cima, Paraná, onde era telegrafista da estrada de ferro. Os filhos foram chegando e os dois primeiros, Irene, uma linda garotinha de 10 meses, e José, um menininho frágil e doentio, morreram. Foram essas mortes seu primeiro encontro com a tristeza.

         E essa tristeza ele extravasou em versos num livrinho lindamente manuscrito, onde tentava confortar a mãe inconsolável. Esse livro, uma joia que guardei no cofre por muitos anos, tem seu fac-símile à disposição do público na “Sala da Memória” do Teatro Guaíra.

         Desse casamento três filhas lhes restaram: Eloyna, Hilda e Maria da Luz, mas o destino novamente lhe roubou alguém querido: Siomara, sua mulher, se foi, morrendo aos 28 anos e ficando enterrada sozinha naquele ermo, porque a família, tentando botar alguma distância de tanta dor, mudou-se para Curitiba. As crianças com 6, 4 e 2 anos, foram viver com os avós maternos.

         Algum tempo depois Cadilhe casou-se de novo, com Adelaide Menezes, sua prima também, mas em segundo grau, e foi buscar suas meninas. Relutantes os avós lhe entregaram as duas mais velhas, mas conservaram Maria, a caçula, a quem criaram com mimos e luxos que ele nunca pode dar a seus outros filhos.

         A carreira de poeta se iniciava por aí: trabalhando ainda na Rede Ferroviária, nas suas horas vagas, nas noites sem sono, escrevia e escrevia... E assim foram nascendo poemas, peças teatrais, crônicas políticas e humorísticas. Encenou suas primeiras peças, por ele mesmo dirigidas, com sucesso de público e crítica, no Teatro Guaíra da R. Dr. Murici.

          Nas mesas de bar foi encontrando amigos-irmãos, desses que partilham todos os sentimentos: e era um prazer verdadeiro ouvi-los conversar. Gente que comungava sua paixão pela palavra, que fazia da palavra sua ferramenta para esculpir a vida.

         Há muitos anos a Rede Globo levou ao ar uma novela “O Feijão e o Sonho”, que contava a saga de um poeta dividido entre a necessidade de suprir o lado prático da vida e aquela compulsão de fazer versos, de viver num mundo abstrato onde a vida era escrita e descrita, talvez mais do que vivida.

         Uma das filhas de Cadilhe, vendo a novela comentou: “é a história de nossa vida”... Pois é, eram tantos os filhos, era tanta a luta, era o feijão e o sonho em guerra permanente, mas... quando caía a noite, a poesia vinha a seu encontro e lá ia ele... ”Montado de carona na garupa leve do vento”, partindo para a boemia que lhe aquecia a alma e servia de combustível para, no dia seguinte, pensar no feijão, bater o ponto e retomar o fardo.

         Mas nem só de poesia se ocupava sua mente: a política era também o seu forte, achava que os desmandos e arbitrariedades do governo deviam ser expostos e combatidos. E foi por isso que resolveu largar o emprego na Rede, mudar para Ponta Grossa, Paraná, e tocar seu próprio jornal. Assim nasceu o “Diário dos Campos”, um jornal aguerrido que fazia cobrança dos maus serviços públicos, que desancava o ensino deficiente, denunciava falcatruas e oferecia soluções para problemas que atravancavam o progresso. Sabia motivar a população e os empresários em campanhas beneficentes, e pelo Natal fazia distribuição de gêneros e presentes a famílias necessitadas, no Parque Honório, engalanado para a festa. Havia música e declamações e a sociedade toda comparecia.

         Além de toda essa atividade, continuou a escrever, encenar e dirigir peças, apresentadas agora no Teatro Sant’Ana de Ponta grossa. Eloyna, sua filha mais velha, quase sempre fazia o principal papel feminino e era ela também que, nos saraus da época, declamava os poemas do pai, com o sentimento certo e a graça de sua beleza juvenil.

         Em 1922, Hilda, sua segunda filha, casou-se e sogro e genro já amigos há algum tempo, encontraram e cultivaram afinidades diversas. Com mais um amigo dentro da família, as atividades do Jornal dando-lhe suporte financeiro, vendo suas peças serem encenadas por duas grandes companhias teatrais do Rio de Janeiro, a de Jaime Costa e a de Maria de Castro, parecia que, enfim, a vida lhe havia dado a trégua merecida. Ledo engano, como diria outro poeta. Esse mesmo ano lhe roubou a vida de Felisberto, o Bertinho, seu filho de 12 anos que morreu de tétano. Em 1924 é Eloyna, de 22 anos, que se vai, vítima de uma febre sem diagnóstico certo. Fosse ou não fosse tifo, era irrelevante: o que contava é que aquela moça tão linda que, dez dias antes, fizera enorme sucesso num baile a fantasia na festa de Sant’Ana, vestida de gueixa, estava morta agora.

         E não havia consolo para aquela família: a mudança para Ponta Grossa que parecia, em tudo e por tudo, auspiciosa, de repente tornou-se um pesadelo. Adelaide tinha filhos pequenos ainda e, mesmo de coração partido, não havia como fugir de suas tarefas.

         Mas Cadilhe desabou: fechou-se no quarto sem comer, sem beber, sem lavar-se. Não houve apelo que atendesse: sua mulher, seus filhos, o genro tão chegado a ele, outros amigos, todos se revezavam à porta, tentando tirá-lo do desespero. Seis dias depois saiu do quarto: um homem de quarenta e poucos anos que parecia ter mais de 60, barbado, macilento, mas estranhamente calmo: tomou um banho, vestiu-se, beijou mulher e filhos e disse: “Apesar de toda a dor, a vida continua”... E retomou o trabalho.

         Por algum tempo sem aquele ânimo combativo que era sua marca registrada, mas recuperando aos poucos a verve antiga: emagreceu, a basta cabeleira tornou-se branca, mas das cinzas foi surgindo um novo Cadilhe, mais machucado pela vida, mas ainda um guerreiro e, mais do que nunca, um poeta. Continuou a fazer oposição ao governo e escreveu uma crônica especialmente virulenta que, por motivos óbvios, foi distribuída no silêncio da madrugada, na forma de folhetos anônimos. Dia seguinte a cidade, infestada pelos folhetos, comentava a lucidez da análise política do momento. Seus escritos podiam não trazer a assinatura explícita, mas embora disfarçado o estilo, tinha o timbre inconfundível do seu talento. E então, como soe acontecer, o governo tentou a intimidação: sem poder provar que era dele a autoria, mandou a cavalaria cercar o quarteirão de sua residência e a cavalhada, tirando faíscas dos paralelepípedos, corria e atendia ordens de comando aos gritos.

         Dentro de casa as crianças se encolhiam, se abrigavam no colo da mãe e perguntavam aflitas: “Mãe, eles vão levar papai?” Não levaram, mas outros entreveros assim se sucederam. Em vez de se amedrontar, Cadilhe assumiu mais acirradamente as críticas pelo Jornal. E então, uma noite, nas horas mortas da madrugada, invadiram a redação, quebraram e destruíram as máquinas de escrever, os linotipos, as impressoras, os papeis.

         Ali, na rua Dr. Colares, estava o retrato deslavado e cínico do arbítrio da força e da força do arbítrio. Foi uma luta dura: com a ajuda de um cunhado, do genro e de partidários, recompôs o jornal, passou a andar armado, mas não desistiu da militância.

         Algum tempo depois, a Rede Ferroviária lhe ofereceu novo cargo e, por insistência da família, decidiu voltar a Curitiba.

         Com o respaldo do bom emprego e mais as atividades literárias muito mais ativas na capital, ele e sua gente conheceram tempos mais amenos.

         Mas a inquietude natural de seu temperamento forjava sempre algumas crises novas: pegava polêmicas acirradas com outros intelectuais, se apaixonava por uma nova musa, tinha depressões profundas e se refugiava em Antonina para morrer, dizia ele, no lugar onde havia nascido.

         Emergia dessas crises como que purificado e encontrava sempre à sua espera Adelaide, o anjo por detrás do homem, com sua compreensão, com seu perdão irrestrito.

         Até que um dia, numa madrugada brumosa, sentiu-se terrivelmente mal. Mulher e filhas, acordadas em sobressalto, tentavam os remédios já conhecidos. Vendo-o piorar, uma das filhas saiu de camisola e despenteada a correr pela rua em busca do telefone que lhe traria um médico. O mais próximo era do Corpo de Bombeiros, que ficava onde hoje é a Biblioteca Pública, a duas quadras de distância. Chamou o médico em desespero e voltou para casa.

         Mas Cadilhe, que tivera tantos encontros com a poesia, tantos encontros com o sucesso, que estivera cara a cara com a tristeza tantas vezes, tinha naquela madrugada um encontro inadiável com a paz.

         Era o dia 10 de novembro de 1942.   




Isa de Oliveira Siefert
                                                                                     Curitiba, 1995

 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Notícias 04/2012 – “The Project 3.7 and Us”


Em meu terceiro livro, o “O Projeto 3.7 e Nós”, lançado em dezembro de 2011, conto as experiências, minha e de minha família, quando moramos em Chicago, de 1968 a 1969.

O livro comenta diversos aspectos da vida, nos Estados Unidos, da família de um profissional da IBM designado para a um projeto internacional naquele país. Nele, mencionei amigos e colegas americanos e de outros países, com os quais convivi. Com alguns, mantenho contato até hoje.

Considerando essas circunstâncias e, mais, o fato de ter uma nora e netos americanos, além de novos amigos que não leem Português, decidi publicar meu livro também em Inglês.

Está disponível na Amazon. Para vê-lo, clique diretamente no link abaixo:


Ou, se preferir, pesquise no site:
 
 
digitando: washington conceicao.


Para mais detalhes sobre este lançamento, leia a pequena entrevista que dei ao site Vececom, clicando em:



 
O livro é impresso no sistema “on demand”, ou seja, por encomenda, tão rapidamente como se fosse retirado do estoque da livraria – e a qualidade de impressão é muito boa.

Aproveito para agradecer ao meu amigo Carlos Gentil Dias Vieira por ter me ensinado, mais uma vez, o caminho das pedras.
 

Washington Luiz Bastos Conceição

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

U M C O N T O. . . U M A H I S T Ó R I A


Quem frequenta meu blog já teve oportunidade de ler escritos da Isa, minha prima do Paraná, que receberam comentários elogiosos. Publico, hoje, mais uma de suas ótimas histórias. Muito agradecido a ela e com grande satisfação.
Washington Luiz Bastos Conceição



U M C O N T O. . .  U M A H I S T Ó R I A

 Ano: 1.995

         A manhã estava quase perfeita, pensou ele. Depois de uma semana de espera, perscrutando todos os dias aquele céu de chumbo, finalmente havia percebido sinais de melhora do tempo. Havia ainda algumas nuvens escuras, mas era quase certo que logo adiante se desmanchariam, porque a bonança chegaria em breve, desfazendo os últimos sinais da tempestade. Seria uma longa jornada, mas tantas vezes repetida que já quase não causava impacto algum.

Nas primeiras vezes havia sempre uma pontinha de insegurança que fazia com que checasse, minuto a minuto, os instrumentos, a rota, os ventos, o rumo... A fase da ansiedade.

 Depois de algumas vezes bem sucedidas, a euforia era sua companheira de viagem. Ele sabia tudo que havia para saber, uma leve e despreocupada checagem já resolvia, porque, senhor da máquina e dos elementos, era senhor também de qualquer situação. A famosa fase do orgulho, do ”eu sou mais eu”.

Agora, finalmente, entrara na terceira e melhor das fases: a da naturalidade, a que fazia com que os gestos fossem espontâneos, as verificações fossem as necessárias e tudo o mais se processasse na mais tranqüila das rotinas.

Tornou a olhar o céu e decidiu que não podia desejar nada melhor. E como toda longa jornada começa com o primeiro passo, deu partida ao seu avião, uma pequenina caixa voadora que deveria levá-lo, vagarosamente, através do oceano, milhas e milhas, desde o sul do hemisfério norte até o sul do hemisfério sul.

Incrível a paz que se desfruta assim, suspenso entre mar e céu, como um veleiro cavalgando nuvens, vendo o tempo se escoar sem pressa.

Mas de repente, tão de repente que o pensamento se perdeu no sobressalto, o motor calou-se.

Um gesto tantas vezes repetido – a troca do tanque de combustível – não teve a resposta esperada. O motor tossiu e pifou de vez. Piloto experiente não perdeu a calma: reverteu ao tanque anterior, que a troca se fizera por questão de equilíbrio, não porque tivesse esgotado. E o motor recusou-se e continuou calado. A urgência tomou conta, então, da cabine apertada e os gestos se fizeram frenéticos na tentativa do sucesso. Mas nada, nada reverteu aquele silêncio. E quando se deu conta, o avião mergulhava nas águas azuis do Caribe: não houve tempo de alijar o combustível, não houve tempo de avisar o Controle de Vôo, não houve tempo para nada mais além de tentar sair vivo do mergulho. E agora, lá estava ele, naquela vastidão azul e fria, sem outro sinal de vida por perto. De bota, calça jeans e jaqueta, mas sem colete salva-vidas, que havia se prendido em alguma coisa por lá e teve que ser deixado de lado.

E agora, meu Deus? Manteve-se boiando e entre pensar na vida e na morte, o tempo foi se escoando.

Lembrou de coisas há muito tempo esquecidas: de como se maravilhava com a mágica da avó, que, com fio e uma agulhinha, tecia cortinas onde voavam anjos e flores.

De como gostava de ouvir Cecília cantar e tocar piano... a doce Cecília, onde andaria agora?

E ouviu a risada do padrinho quando, sentado em seus joelhos, à beira do fogo de chão, lhe perguntou como era possível que gostasse de chimarrão e de cerveja, um tão quente e amargo, a outra tão amarga e fria.

Visitou o passado como quem visita um lugar definido no espaço: o pai, a mãe, Letícia, jardins, casa e acontecimentos foram passando por ele, acordando sentimentos, aquietando saudades. E de repente viu, mas viu mesmo, passar diante de seus olhos assombrados, aquela miríade de borboletas amarelas que um dia, há mais de dez anos, o deixaram maravilhado às margens das Cataratas do Iguaçu. Ficou seguindo aquele vôo impossível no meio do oceano, até que desapareceram no nada, de onde haviam saído.

Estava cansado e castigado pela água e pelo Sol e forçou-se a pensar então que estava apenas tendo um pesadelo: sabia que ia sentir seu ombro sacudido e a voz de Myrian: acorda seu preguiçoso, pensa que o mundo estacionou na curva da esquina? E ouviria seu riso petulante, marca registrada dos dias de bom humor. Ele abriria os olhos devagar e veria a manhã se desenhando nas rendas da janela: ia levantar, beijar Myrian de um modo tão especial que ela estranharia. “Que é isso? Está querendo o que de mim para derramar logo cedo essa ternura toda?” E não perceberia, tão ocupada com suas tarefas reais e imaginárias, que seu marido era um ressuscitado, um homem novo que tinha escapado, acordando, daquele planeta-água, inóspito e frio, sem condição de sobrevivência. Só depois do segundo gole de café, ele diria: esta noite tive um sonho...

Mas não houve o toque no ombro, não houve a voz e nem o riso, não houve a manhã dissolvendo o pesadelo.

E ele percebeu então com uma clareza cristalina que, desse pesadelo, ele escaparia... dormindo... Deixou de lutar e de pensar para se manter acordado e uma letargia abençoada varreu todas as sensações. Deixou-se levar.

Mas um sobressalto atravessou as muitas camadas de névoa que adormeciam o pensamento: um “toc-toc” contínuo, monótono se fez ouvir.

Que é isso? Pensou... Talvez os passos de um anjo, vindo abrir as portas de um paraíso, um paraíso sem serpentes e sem pecado, sem culpas e sem remorsos, um paraíso cordial que acolhe bem qualquer que seja o hóspede, enfim, sem necessidade de adjetivos ou de aditivos, “O PARAÌSO”.

Abriu os olhos devagar, sem se dar conta do que o esperava. A poucos metros dele, havia um pequeno barco pescador.

Fixou os olhos sem esperança, pensando que, como as borboletas, também o barco sumiria numa fresta do tempo. Mas não... Não sumiu, e ele sem saber de onde tirou essa força, levantou a voz e agitou os braços.

Muito vagarosamente, o barco veio chegando, e um anjo coreano de cara curtida de sol lhe estendeu os braços e ele reingressou neste lado de cá do paraíso, onde há serpentes e pecados, onde há culpa sem remorso, mas onde se pode sempre sentir o gosto bom de viver a vida...






Esta é uma história verdadeira, dessas que parecem ficção, mas que aconteceu realmente. O pescador coreano nunca havia pescado nesse local e, sabe-se lá guiado por que mãos, nesse dia tomou esse rumo e salvou uma vida preciosa, como preciosas são as vidas de todo ser humano.

Isa de Oliveira Siefert

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Notícias 03/2012 – “Tempo Orgânico”

Meu amigo Álvaro Esteves lançou no Rio de Janeiro, na semana passada, o livro “Tempo Orgânico” (Editora Sinergia).

No prólogo, o autor escreve: “Tempo orgânico é uma nova maneira de lidar com o tempo, para que nos traga mais qualidade de vida e também maior sustentabilidade de nossas ações.” ... “é, enfim, um convite para que você se reinvente, reconstruindo novas relações com você mesmo, com os outros e com os ambientes que o cercam...”.



O Álvaro foi meu contemporâneo na IBM.

Quando, por volta de 1998, tomei conhecimento da publicação de seu “Uma questão de Tempo”, lhe perguntei como havia feito para publicá-lo. Muito atencioso, além de me presentear com um exemplar, contou-me como havia procedido junto à editora para propor e aprovar seu projeto e até enviou-me o plano original do livro.

Ele é amigo velho do Carlos Gentil Dias Vieira (com quem escreveu “Gerente Animador”, livro vencedor do Prêmio Brahma de Administração). Como ambos são meus vizinhos de bairro, brinco que formamos o núcleo de uma futura ALL (Academia de Letras do Leblon). Imensa cara-de-pau de minha parte, pois eles escrevem para valer e eu apenas ouso contar minhas histórias.



Washington Luiz Bastos Conceição


sábado, 7 de julho de 2012

Corrida de Caminhão

Estou transcrevendo hoje, do “Histórias do Terceiro Tempo”, uma das histórias que me levaram à aventura de escrever. Como digo na apresentação desse meu livro, o primeiro, elas estavam na minha cabeça havia vários anos e eu vinha prometendo a meus amigos e minha família escrevê-las um dia.
Para mim, a “Corrida de Caminhão” se tornou simbólica. Cheguei até a contá-la na comemoração dos meus setenta anos, seis anos antes de publicar o livro.
Washington Luiz Bastos Conceição



Pereira Barreto - Corrida de Caminhão

Manhã fria, oito horas, o mercedinho corria por uma estrada plana, de terra. O motorista dava o que podia, pois muitos outros caminhões – maiores, menores, mais velhos, mais novos – também corriam e pela mesma razão. A paisagem era de campo, capim rasteiro, meio queimado, poluída pela fumaça negra dos fornos rudimentares das olarias. Era uma corrida de caminhões em Aparecida do Taboado, então uma pequena cidade de Mato Grosso. Do outro lado do rio Paraná, para quem vai de São Paulo. A corrida era atrás de tijolos.
O que eu, um engenheiro garoto de 26 anos, estava fazendo na boleia de um caminhão, num lugar que não conhecia e aonde não voltaria mais?
Nós, os engenheiros da SENA, vínhamos fazendo vários serviços em Pereira Barreto, desde o projeto da rede de água até a construção de edifícios públicos: o Ginásio, o Posto de Saúde e outros. Praticamente nos estabelecemos lá, trabalhando também em cidades próximas. Os projetos e obras eram contratados pelo Estado mas a Prefeitura acompanhava de perto, pois o interesse maior era da cidade. O município tinha 5000 habitantes naquela época, na grande maioria colonos japoneses e seus descendentes.
Tornamo-nos, o Gilberto, o Gaia e eu, os “engenheiros locais”, muito prestigiados, relacionando-nos com as pessoas de destaque da cidade, especialmente o prefeito, Sr. Antônio Gomes da Silva, o presidente da Câmara Municipal, o juiz, o gerente do Banco do Brasil, os médicos e os principais comerciantes.
Revezávamo-nos nas viagens de S. Paulo a Pereira – parte de trem, parte de jardineira, como eles chamavam os ônibus intermunicipais da região. A impressão que tenho é de que viajávamos uns 800 quilômetros; hoje, a distância de São Paulo, informada pela Prefeitura, é de 621 quilômetros.
Tenho lembranças marcantes de Pereira Barreto:
- o primeiro trabalho, de levantamento topográfico para o projeto da rede de água, semelhante ao que fizéramos em Flórida Paulista, trabalho de sol a sol que, algumas vezes, era encerrado com uma boa caipirinha em companhia dos peões;
- o casamento do Gaia, que lá conheceu a Lelinha, ao qual compareceram todos os sócios, até o Chicão que habitualmente não viajava para lá;
- o acompanhamento pelo rádio, em 1958, na república em que nos hospedávamos – que foi uma boa solução encontrada pelo Gilberto, pois o hotel deixava muito a desejar – da final Brasil versus Suécia da Copa do Mundo e a comemoração da conquista da primeira copa mundial pela nossa seleção;
- e, como algo diferente, a Corrida de Caminhão, que comecei a narrar acima e continuo agora.
Na viagem em que aconteceu esta história, ao chegar a Pereira, encontrei a construção do colégio, um bom edifício de projeto padrão daquele tempo, em vias de se atrasar porque tijolos estavam em falta em toda a região. Era uma época de muita construção no interior, os fornecedores habituais não podiam nos atender no prazo necessário e a situação exigia ação de emergência. Como o prefeito também estava precisando de tijolos para suas próprias obras, combinamos fazer a compra em parceria – ele entrava com o caminhão e o motorista e eu faria a compra no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) e dividiríamos a carga e as despesas.
Trato feito, madruguei no dia seguinte, um sábado, para enfrentar a viagem. A cabine do caminhão, em matéria de conforto, não era nada parecida com as de hoje (que têm rádio e ar condicionado) e a estrada, de terra, como a maioria das estradas daquele tempo, era uma estrada secundária com traçado rudimentar, curvas fechadas, rampas inclinadas e cruzava córregos sem pontes. A viagem até Porto Taboado, no Rio Paraná, do lado do Estado de São Paulo, foi apenas o início da aventura, levou umas duas horas. A seguir, depois de enfrentar uma fila razoável, fizemos a travessia de balsa. Nada parecido com a balsa que se usava naquele tempo para atravessar de Santos ao Guarujá. Era uma balsa pequena, rudimentar. O embarque e o desembarque de caminhões, por rampas íngremes, eram operações difíceis e até arriscadas. Mas Deus nos ajudou e cruzamos o Paraná sem problemas. Após subirmos na outra margem, pedimos as direções para as olarias e entramos na corrida de caminhão.
Não sei se algum dos caminhões ganhou o prêmio e conseguiu os tijolos. Vários competidores, como nós, não arranjaram tijolo algum. Imaginaram a minha situação, voltar para Pereira Barreto sem os tijolos, depois de tanta aventura?
Não me conformei e comecei a perguntar onde teria alguma chance – outras olarias, mesmo que tivesse de ir adiante. Fui à cidade e alguém me deu uma dica: o padre tinha comprado uma carga grande de tijolos mas ainda não tinha começado a obra. Talvez ele revendesse para mim. Consegui falar com o padre, negociamos e fiz a compra. O preço foi razoável, certamente mais caro do que em condições normais, mas valia a pena.
Como em toda aquela região, as olarias de lá  produziam tijolos “pó-de-mico” excelentes, resistentes, de forma que podiam ser descarregados a granel, como pedra, nem precisavam ser empilhados. A pilha de tijolos estava ao lado da igreja. Carregamos o caminhão, foi feita a nota de venda mas, então, surgiu a complicação: o fiscal da receita do Estado teria de emitir o documento de autorização para a saída da mercadoria do Estado do Mato Grosso – e, lembremos, era sábado e hora do almoço!
Bem, eu tinha de achar o fiscal e conseguir o documento, pois não estava nos meus planos passar o fim de semana na cidade e a obra estava esperando. Dei sorte de novo e me disseram – cidade pequena é ótima para essas coisas – que àquela hora o fiscal costumava beber uma cerveja na zona do meretrício. Fomos de caminhão, já carregado, para lá. Nada de mais, de dia os bares funcionavam como bares comuns, onde o pessoal da cidade se reunia para beber cerveja e jogar conversa fora. Achei o homem, ele me atendeu muito bem, deu a autorização e, não tenho certeza, mas acho que tomei um copo de cerveja com ele. Àquela hora, o dia estava ensolarado e quente e uma cervejinha caía muito bem.
A viagem de volta não apresentou surpresas – a balsa outra vez e a mesma estrada. Chegamos a Pereira Barreto no fim da tarde e com a sensação de ter atingido plenamente o objetivo.

Mas, durante todos estes anos (mais de cinquenta!) penso no irônico da história: comprei os tijolos do padre e consegui a documentação da compra na zona do meretrício.

Washington Luiz Bastos Conceição
Rio de Janeiro, janeiro de 2009







terça-feira, 29 de maio de 2012

TEMA DE JUREMA

Quando encaminhei a minha prima Isa os comentários elogiosos que recebi sobre sua crônica “O Sabor da Erva Mate”, soube que ela escrevera, anos atrás, uma outra; esta, sobre minha mãe, irmã do pai dela. Foi escrita quando D. Jurema estava ainda viva, tinha 90 anos, e era a única sobrevivente dentre seus irmãos. Pedi à Isa para me enviar a crônica, que estou publicando hoje, tanto por sua qualidade, quanto por ser uma prova marcante de que temos escritores em potencial que poderiam nos estar proporcionando leitura agradável através de seus livros. Vamos nos lembrar de que um dos objetivos deste blog é interessar amigos na atividade de escrever.

Tenho, portanto, mais uma vez, a satisfação de contar com a participação de Isa de Oliveira Siefert como cronista convidada de meu blog, resumindo uma história que, desenvolvida, poderia se tornar a biografia de uma mulher que teve uma vida longa e muito rica e, na maturidade, foi avançada para o seu tempo.

Washington Luiz Bastos Conceição



T E M A    D E   J U R E M A

         Eram os primeiros dias de outono, quando o céu tem aquele azul límpido e profundo, recém lavado pelas últimas chuvas do final de verão. Foi num dia assim, com as árvores ainda cobertas com sua capa verde, que nasceu JUREMA, a segunda filha mulher do casamento de José Antonio de Oliveira e Prudenciana Barbosa de Oliveira – a “Nhá Ciana” – que se casara aos 15 anos, faceira e bonita, com um viúvo de 49. Nasceu JUREMA na fazenda de seus pais, terra coberta de pinheiros e erva mate, as duas riquezas que nos primeiros 30 anos do século 20 moviam a economia do Paraná. Insinuante, sereno e cristalino, o rio Imbituvinha, que dava o nome ao lugar, passava por ali cortando e vivificando as terras, enfeitando a paisagem com suas águas mansas.

         Do mundo de sua infância – diferente, tão diferente, do mundo de hoje – faziam parte o verde a perder de vista no horizonte, o canto dos pássaros na floresta próxima, o aroma da erva mate secando nos barbaquás, o arrulho do rio, o apito e fagulhas da maria fumaça, os sinos da capela consagrada a São Sebastião, as borboletas de dia, os vagalumes à noite, o vento forte que passava uivando e deixava medo no ar. E outro barulho ainda: o canto agudo da serraria que punha abaixo o pinheiral e trocava o milagre da fotossíntese pela magia do dinheiro vivo... Desde sempre, a paixão pelo lucro derrotou a ecologia.

         A família? A família era assim: a mãe ainda jovem, o pai idoso, uma meia-irmã do primeiro casamento do pai que, solteira, permaneceu morando na casa paterna; a irmã primogênita do casal – 16 anos de diferença entre elas – e nesse intervalo uma sucessão de garotos que se apresentavam a cada dois anos. Era a família do “jota” – todos os nomes começavam com essa letra: Joséa, Jurandyr, João, Jahyr, Juruá, JUREMA, Juno e a última, que fugiu à regra e recebeu o nome de Ilka. Estes, os que sobreviveram: outros dois garotos tiveram curta passagem pela vida e se despediram depois de poucos meses de convivência.

         Uma lembrança gratificante da meninice foi seu aniversário de cinco anos: centro das atenções, ganhou bolo de vela e vestido novo, feito por Joséa, que se casara e levara a irmãzinha para viver com ela. Foi assim que, embora seus pais continuassem em Imbituvinha, ela foi morar em Curitiba, mais tarde em Ponta Grossa. Ah! Imbituvinha também enfrentou uma mudança: foi elevada a vila e passou a se chamar Fernandes Pinheiro.

         Dos seus sonhos de mocinha não vou falar, não os conheço. Não sei se teve outros namorados, algum amor frustrado, uma paixão impossível. Casou-se aos 19 anos com Osmar Bastos Conceição, um jovem professor, inteligente, impetuoso, político militante de oposição... A soma dessas qualidades, desses valores e tendências produziu um resultado explosivo: era diretor de escola pública e desagradava ao patrão... Afinal o patrão era o governo e “se hay gobierno soy contra”... Assim teve que deixar seu cargo e, antevendo perseguições mais efetivas, deixou também o Paraná com a família – mulher e dois filhos a essa altura – e mudou-se para Mirassol, cidadezinha poeirenta no interior de São Paulo. Lá, como diretor da Escola Normal, consolidou uma posição de destaque como intelectual formador de opinião. A família adaptou-se bem à comunidade, conquistou amizades duradouras e deixou saudades quando partiu. É, não ficaram longos anos em Mirassol. Não sei dizer se foi assim uma idéia de estalo, tipo Padre Vieira, ou se foi dessas coisas que começam de mansinho, quase imperceptíveis, e que vão ganhando fôlego a cada vez que se pensa nelas.

         JUREMA sempre reconheceu as qualidades evidentes do marido e teve o discernimento de valorizar as potencialidades, e começou a imaginar o que um curso superior e um “banho de civilização” fariam por aquela personalidade. Doutora em “fazer amigos e influenciar pessoas” conseguiu a adesão do marido e juntos, pesando prós e contras decidiram deixar a cidadezinha amiga mas que limitava e sufocava as oportunidades. Destino: São Paulo, capital. Trabalhar, estudar e sustentar a família, dentro de um orçamento limitado era uma tarefa assustadora, mas que foi vencida. Durante os primeiros anos viveram numa pensão à moda antiga, dessas que já não se vê mais: não havia luxo, mas conforto, não havia requinte, mas distinção, e era familiar na mais exata acepção do termo. Ali nasceu Maria da Penha, a terceira filha do casal, a que parecia que encerraria a prole.

         Depois da pensão, mais liberados na parte econômica, passaram a viver em casa alugada. Osmar havia se formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mesma turma de Jânio Quadros, e, como professor e advogado, começava uma carreira bem sucedida. Não perdeu a verve de oposicionista: o governo em geral e Getúlio Vargas em particular, foram alvos de críticas ferrenhas. Escreveu muito, publicou alguns livros e principalmente foi influência positiva na formação de seus alunos.

         O quarto filho, Luiz Antônio, chegou e, ai sim, a família ficou completa.

         Depois do final da Segunda Guerra, que se travava lá longe mas que se sentia aqui dentro, a vida foi se tornando, gradativamente, mais fácil: foi possível comprar apartamento, pensar em viagens mais dispendiosas, se cercar de mais conforto.

         JUREMA sempre soube o que quis: queria todas as coisas boas que a vida lhe poderia oferecer. Conseguiu-as, mas não se deixou deslumbrar por elas. Temperou essa ambição salutar com um coração compreensivo e compassivo. Pôs sempre mais alto os valores essenciais da vida. Deu aos filhos um Norte muito definido, mas teve o bom senso de deixar que cada um escolhesse o caminho p’rá chegar lá. Personalidades diferentes, Túlio, Washington, Penha e Luis Antonio assimilaram a lição proveitosa dos pais e souberam construir famílias e carreiras de sucesso.

         E quando a vida parecia correr mansa e sem tropeços, a saúde de Osmar começa a falhar. JUREMA, a que gostava de viagens, de teatro e de festas, se recolhe e se dedica ao marido de forma exemplar.

         Quando ele morre, tem a sensação que também sua vida acabou. Entra em depressão: ela olha para o abismo e o abismo olha para ela. Ela vê o abismo e o abismo vê o vazio dentro dela.

         Por algum tempo nem o amor dos filhos, nem a solicitude dos amigos conseguiram preencher essa lacuna.

         Mas de repente Deus, a vida e o tempo combinados foram trazendo outra vez as cores para o seu mundo. Recuperou-se e escolheu ir de mãos dadas e de bem com a vida.

         Depois disso retomou o gosto pelas viagens: vai à Europa com certa regularidade, em visita à neta Cristina que mora em Paris. Tem em mente nova viagem aos EE.UU., p’ra conhecer André, o bisneto mais novo, nascido na Califórnia.

         Não perde de vista o que se passa na família, na cidade, no país e no mundo. Discute com propriedade seus pontos de vista, seu jeito de pensar e o Washington, que é bom de papo e de “briga” lhe proporciona o clima ideal da polêmica.

         Reciclou seus conhecimentos de escola ano após ano, com as leituras variadas, com as viagens dentro e fora do país, com a compreensão da vida, dos seres humanos, em especial dos jovens, em particular dos netos.  Aceitou a revolução dos costumes como conseqüência natural do progresso.

         É a sobrevivente do seu clã: o pai, perdeu ainda menina, pode-se dizer que mãe, perdeu duas vezes: quando morreu a verdadeira e quando morreu Joséa, a irmã mais velha que a criou a partir dos quatro anos. Todos os irmãos já se foram e muitos cunhados e cunhadas também. Sofreu com essa condição de ser a derradeira, mas nunca deixou de sonhar, e essa deve ser a receita do seu poderoso alto astral.

         Vive hoje com Penha e Roberto que lhe dão o apoio emocional de que precisa para se sentir “inteira”. Mas não desistiu de comandar o leme de sua vida e a impressão que tenho é de que até os ventos respeitam aquela que sobreviveu a tantas tempestades.

         Esta história que conto, parte dela me foi narrada, outra parte, sentida e observada, alguma coisa imaginada. Por isso haverá imprecisões, prováveis erros de avaliação, pretensão minha de ter entendido.

         Um dia, para corrigir e acrescentar talvez eu volte a me debruçar sobre o assunto e faça variações sobre o mesmo tema.

         Porque, como disse Heráclito: “VOCE PODE OLHAR DIVERSAS VEZES O MESMO RIO, NUNCA É A MESMA ÁGUA QUE VOCÊ VÊ”.

Isa de Oliveira Siefert