quinta-feira, 31 de julho de 2025

D. Izaura e sua gente – O baile do Odeon

Cara leitora ou prezado leitor:

Esta é a sétima crônica da série “D. Izaura e sua gente”. Após a apresentação dos adultos em crônicas anteriores, sigo, conforme prometi, com as histórias da família. Começo com um pequeno causo do pessoal do sobrado, que me contaram. Ocorrido antes de eu conhecer a família, achei que é bastante ilustrativo do relacionamento do grupo e dos costumes da época.


Não tenho a informação do ano exato em que ocorreu o que me contaram. Entendi que foi na década de 1940, após o final da segunda guerra mundial. Pela minha análise, muito provavelmente, em 1946.

Naquele tempo, os moradores de São Paulo, capital, tinham como passeio de fim de semana e dias de férias, além das praias da baixada santista, as cidades do interior, especialmente as estações de água, como Poços de Caldas, em Minas Gerais; Águas de São Pedro, Águas da Prata, Águas de Lindoia e Serra Negra, no estado de São Paulo.

D. Izaura gostava de passar uns dias em estações de água. Naquele ano, resolveu aproveitar os feriados de Carnaval em Águas de Lindoia, levando as filhas e as crianças que moravam no sobrado.

Águas de Lindoia, distante de São Paulo 160 km por rodovia, já era, naqueles anos, uma estância hidromineral bastante conhecida e recomendada pelos médicos. Era bastante frequentada por turistas, principalmente de São Paulo e estados vizinhos, pois oferecia a acomodação em bons hotéis.

Os rapazes não podiam acompanhá-las, por terem compromisso de trabalho. Na Pauliceia, o sábado de manhã e a segunda-feira de carnaval não eram feriados, havia expediente.

Tudo resolvido, preparativos feitos, malas arrumadas, orientação dada às empregadas para a operação doméstica no sobrado, D. Izaura e companhia partiram para passar o carnaval em Águas de Lindoia. 

Durante a semana, havia surgido a ideia, entre os rapazes, de aproveitar a folga matrimonial para se divertirem um pouco, durante o reinado de Momo.


Até então, as atividades de carnaval em São Paulo incluíam desfiles de escolas de samba, modestas em comparação com as atuais, e blocos e cordões nos bairros (um deles desfilava na rua Galvão Bueno). Havia um famoso corso (cortejo de automóveis) que, antes da guerra, era realizado na Avenida São João (assisti, quando menino morando na Pensão Brasil, a alguns corsos, extremamente animados); durante a guerra, com a falta de gasolina, o corso carnavalesco foi suspenso; depois da guerra, passou a ser realizado na Avenida Brasil. Nos salões de clubes, hotéis e, até, cinemas, aconteciam os bailes, animadíssimos, com orquestras tocando as marchinhas e sambas do ano e, principalmente, as músicas de maior sucesso de carnavais anteriores, que todos os participantes conheciam e cantavam.


Quanto  aos rapazes, depois de algumas conversas, três deles decidiram ir ao baile do Cine Odeon, um dos bailes de elite da cidade.

Posso imaginar o diálogo:

O primeiro: “O que vocês acham de aproveitarmos para nos divertir um pouco enquanto elas estão fora?”

O segundo: “Nos divertirmos como?”

O terceiro: “É. O que poderia ser?“

O primeiro: “Andei pensando e me informando: o baile do Odeon no domingo deve ser bem frequentado, animado, boa orquestra. Não é barato, mas dá para enfrentarmos.”

O terceiro: “Não sei não...”

O primeiro: “Não vamos fazer nada de mais. Vamos cantar, dançar, pular um pouco, beber um pouco, tudo com moderação, e voltamos para casa.”

O terceiro: “Se elas descobrirem, estamos roubados.”

O segundo: “Bem, poderíamos telefonar de casa antes de sairmos, dar uma de bem-comportados e dizer que vamos chamar outra vez no dia seguinte. Com a dificuldade das chamadas interurbanas, não vão chamar de volta.”

O terceiro: “E o fulano, que não está aqui agora?”

O primeiro: “Ele não vai topar, tem programa com a namorada, mas não vai contar nada para elas.”.


O Cine Teatro Odeon, construído à Rua da Consolação número 40, foi inaugurado em 11/10/1928. Inicialmente com duas salas, a Vermelha e a Azul, às quais se acrescentou a Sala Verde, em 1930. Em 1939, as capacidades respectivas eram: 2.510, 2.020 e 1.675 espectadores (total: 6.205!) . Além de sua atividade de cinema propriamente dita, o Odeon, assim como outros cinemas da mesma época, era adaptado para bailes carnavalescos.

Pesquisando no Google, encontrei a foto abaixo:


Tendo decidido ir ao baile, passaram aos preparativos. Resolveram usar uma fantasia simples de malandro (camisa listada e calça branca, provavelmente acompanhada de um chapeuzinho estiloso e uma pequena máscara, tipo El Zorro) e combinaram a compra de ingressos e dos suprimentos (lança-perfume, serpentina, confete).

E passaram a aguardar o grande dia.

Quiseram os deuses, porém, que eles tivessem uma grande surpresa: D. Izaura e filhas voltaram a São Paulo, antecipadamente, no dia do baile! A volta estava marcada para a terça-feira gorda, mas imprevistos acontecem: em Lindoia, D. Izaura foi picada na mão por um inseto, o que causou uma forte inflamação, de forma que resolveram  antecipar a volta.

Ipso fato, o programa carnavalesco dos rapazes foi abortado. Eles foram surpreendidos “com a boca na botija”, como se dizia antigamente.

Agora, caro leitor ou prezada leitora, vou lhe ficar devendo contar como eles fizeram para ocultar os rastros da programação, que histórias terão inventado no caso de elas desconfiarem de algo, pois não me contaram os detalhes do reencontro. Temos de fazer nossas suposições.

Como não houve desquite de casal, entendo que, se algo foi descoberto, possíveis punições para os rapazes devem ter sido leves. Pois, afinal de contas, embora tivessem planejado a escapada, eles não chegaram a cometer delito algum...

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

1. Cara leitora ou prezado leitor:

Para ler quaisquer das seis primeiras crônicas da série, clique nos respectivos links abaixo:

1) D. Izaura e sua gente – Introdução

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/02/d-izaura-e-sua-gente-introducao.html

2) D. Izaura e sua gente – A casa e os moradores

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/03/d-izaura-e-sua-gente-casa-e-os-moradores.html

3) D. Izaura e sua gente – Leilah na Galvão Bueno

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/04/d-izaura-e-sua-gente-leilah-na-galvao.html  

4) D. Izaura e sua gente – Vovô Juca

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/05/d-izaura-e-sua-gente-vovo-juca.html

5) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 1

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/06/d-izaura-e-sua-gente-as-pessoas-1.html

6) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 2

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/07/d-izaura-e-sua-gente-apresentando-as.html

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sexta-feira, 11 de julho de 2025

D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas - 2

 Cara leitora ou prezado leitor:

Esta é a sexta crônica da série “D. Izaura e sua gente”, na qual continuo a contar como conheci e me relacionei com as pessoas da família dela. Como nas outras crônicas, escrevo com base nas lembranças que tenho delas, com o melhor esforço de memória e recorrendo aos meus caros colaboradores.

Repetindo a introdução da crônica anterior:

"Lembrando: corria o ano de 1948.

Não posso me lembrar, claro, de como fui apresentado a cada um dos membros da família, mas certamente eu os conheci primeiro na hora do almoço, nas tardes em que ia estudar com o Sérgio na casa deles. D. Izaura, Seu Corrêa (o vô Juca), D. Yolanda, mãe do Sérgio, D. Glória e o Doutor foram, certamente, as primeiras pessoas. Outros, que tinham expediente a partir do meio-dia, almoçavam mais cedo, como D. Olga, por exemplo, conheci quando passei a ficar até mais tarde e, na época de provas, até dormia lá.

Como lembrete, insiro abaixo o quadro dos filhos e cônjuges de D. Izaura e o Vô Juca."



Glória e Lúcio

Na primeira crônica da série, mencionei o casal:

O casal Glória e Annunziato Maesano (o Lúcio) morava a uns duzentos metros da casa, mas ela passava lá o dia todo, todos os  dias, pois era a responsável pela cozinha; o que não era pouca coisa, porque todos almoçavam e jantavam na casa. Embora os outros trabalhassem fora de casa, o intervalo de duas horas para almoço permitia esse hábito.

D. Glória, uma senhora perto dos quarenta anos, pele morena clara, cabelos escuros, cerca de 1,60m de altura, era a gordinha da família. Alegre, bem-humorada, era a mestre cuca da casa, acumulando a prática na cozinha brasileira com o conhecimento de pratos e aperitivos italianos que aprendeu para atender o marido. Tinha orgulho de suas habilidades. Era muito querida.

Lúcio, o baixinho, tinha pouco mais que a altura da esposa e parecia ter a mesma idade. Descendente de imigrantes, sua aparência era mesmo de um italiano do sul da Itália, de onde era sua família: pele morena clara, cabelo escuro liso, bigodinho, bem-vestido. Muito simpático, era um humorista nato, contava histórias e fazia comentários com irônica comicidade. De origem modesta, trabalhou desde a juventude, mas conseguiu estudar e, quando o conheci, era sócio de uma casa lotérica no centro da cidade.

Não tinham filhos. Moravam num pequeno sobrado de uma vila próxima, que ficava entre as ruas Taguá e Fagundes; esta, travessa da Galvão Bueno.


Gentil e Fernanda

O Gentil (o apelido era Neno), solteiro, morava no sobrado. Era relativamente alto, cerca de 1,75m, magro, pele morena clara, cabelo e bigode escuros. Esportista, aparentava menos que seus 37 anos. Trabalhava no Banco do Brasil, chegou a gerente de câmbio em São Paulo. Simpático, direto nos diálogos, era muito amigo do Sérgio e seu guru para assuntos diversos. Praticava no clube um jogo que eu desconhecia, o “pelota de mão”, e acabou levando o sobrinho a jogar com ele nos domingos de manhã – um garoto entre veteranos. Depois de algum tempo, cheguei a acompanhá-los ao clube algumas vezes; eu assistia ao jogo deles e, se houvesse oportunidade, jogávamos um pouco de futebol.

Era noivo de Fernanda, uma moça elegante e bonita, descendente de espanhóis. Morava com os pais em um apartamento na Avenida São João, à altura do bairro de Santa Cecília. Visitava com frequência os Corrêa, tinha bom relacionamento com a família. Nas festas do sobrado, o casal dava “show” dançando tango. Casaram-se alguns anos depois, na Basílica de Nossa Senhora Apparecida.

O que achei notável no Gentil foi sua assertividade e suas observações sobre vários assuntos. Até hoje me lembro de uma delas, muito aplicável nos dias de hoje, e que costumo repetir: “Enquanto nos dedicamos ao trabalho e à família, há pessoas pensando, o tempo todo, em tirar proveito de nós, em nos dar um golpe.”

Abaixo, foto de cerca de 16 anos depois, para mostrar o Gentil, que está em companhia de D. Izaura, o Doutor e Lígia, bisneta (neta de Helena).




Apparecida e Francisco

D. Cida e Seu Chico (Francisco Mellone), pais da Leilah, já foram apresentados por ela em crônica anterior. Em 1948, não moravam na Galvão Bueno, moravam na Villa Pompeia.

Eu os conheci um sábado à tarde, quando, ao sairmos, Sérgio e eu, da ACM (Associação Cristã de Moços), após nossa sessão de ginástica, o casal e as filhas foram buscá-lo de automóvel. Apresentado a eles naquele dia, passei a encontrá-los no sobrado quando visitavam a família. Minha primeira visita aos Mellone na Vila Pompeia foi na comemoração de 5 anos da Ciumara, irmã da Leilah.

D. Cida era uma tia muito querida do Sérgio (aliás de toda a família). Além da dedicação ao marido e às filhas, era muito eficaz nas tarefas domésticas, gerenciando muito bem a empregada. E ainda dava aulas de piano em casa. Aprendeu a cozinhar após o casamento, tanto os pratos tradicionais brasileiros quanto vários da cozinha italiana, orientada pelo marido, que era filho de italianos.

Seu Chico era simpático, comunicativo e, como empresário, se destacava pelo conhecimento e experiência, conseguidos com muito trabalho e leitura específica, após sua base de estudo de desenho industrial. Era o tio conselheiro do Sérgio em assuntos de estudo e trabalho. Por exemplo, ensinou o Sérgio a usar a régua de cálculo quando ainda estávamos no colégio, o que, naquele tempo, se aprendia na escola de engenharia. Com o passar dos anos e, mais tarde, como meu sogro, tornou-se meu conselheiro também.


 Helena e Narciso

D. Helena, morena, cerca de 1,60 de altura, olhos escuros, cabelos castanhos, era alegre, simpática, comunicativa, no que acompanhava o marido. Tinha algo de árabe na sua aparência. Narciso Nathaniel Braz era alto, cerca de 1,80m, forte, expansivo, bem-humorado. De pele clara, tinha, estranhamente, o apelido de Tio Negro. Era gerente de agência do Banco do Estado de São Paulo no interior e, por essa razão, a família estava morando em Mirassol. Marilena, filha única do casal, tinha 9 anos quando os conheci, em viagem de férias a São Paulo.

Narciso, meu conterrâneo do estado do Paraná, era de uma família de bairro próximo à Galvão Bueno, uma irmandade de rapazes e moças que fizeram amizade com os irmãos Corrêa. Era esportista, jogava futebol de salão de veteranos no interior. Com o tempo, ficamos amigos e Helena e Narciso foram meus padrinhos de casamento. Abaixo, foto de dezembro de 1959.



 Olga e Vianna 

D. Olga, esposa do Dr. Augusto Vianna e mãe do Tonico, era uma senhora jovem, no início dos trinta anos, muito bonita, elegante, ativa e simpática. Tinha pele clara, cabelos escuros, olhos ligeiramente amendoados como os de seu pai (eram verdes, segundo meus colaboradores). Trabalhava como secretária do Diretor da Imprensa Oficial do Estado.

O Vianna, como era chamado em casa, aos 41 anos, era magro, cerca de 1,70m de altura, pele clara e cabelos grisalhos; usava bigode. Advogado, era circunspecto, educado, conversava comigo e o Sérgio sobre vários assuntos. Conhecia xadrez e, às vezes, acompanhava nosso jogo. O Sérgio já sabia jogar um pouco, tinha um livro com instruções, mas eu apenas sabia mover as pedras. Uma ocasião, um colega nosso do colégio, que estava tratando de inscrever participantes em um torneio aberto de xadrez promovido pelo jornal “A Gazeta”, nos convenceu a participar. Inscrevemo-nos. Quando o Vianna soube disso, ficou escandalizado: “Vocês vão passar vergonha”, disse ele, e nos convenceu a não comparecer ao torneio – nossos adversários ganharam por WO.

Casamento Olga e Vianna


Armando e Terezinha

Armando, o filho caçula, tinha 28 anos quando o conheci. O mais moreno dos irmãos, era magro, tinha cerca de 1,70 de altura, cabelo preto liso, bigode. Era comunicativo, bem-humorado. Era casado com Terezinha, moça de família italiana, de olhos e cabelos claros. Ela não ia ao sobrado com frequência, de modo que não me lembro de ter conversado com ela. Tinham dois filhos pequenos, a Sandra, mais moça que a Ciumara, e o Ricardo, ainda bebê.

Armando trabalhava numa empresa, como operador das então chamadas máquinas de contabilidade, precursora dos equipamentos de processamento de dados. Tínhamos em comum o fato de ambos torcermos pelo Corinthians, clube de futebol de São Paulo. Ele era o único corinthiano da família.

Armando, D. Izaura e Fernanda


Apresentados os personagens, passarei às suas histórias.

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

1. Não temos fotos de todas as pessoas e temos tido de usar fotos de anos mais recentes. Algumas pessoas já apresentadas sem fotos deverão aparecer em grupos nas próximas crônicas.

2. Cara leitora ou prezado leitor:

Para ler as cinco primeiras crônicas da série, clique nos links abaixo:

1) D. Izaura e sua gente – Introdução

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/02/d-izaura-e-sua-gente-introducao.html

2) D. Izaura e sua gente – A casa e os moradores

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/03/d-izaura-e-sua-gente-casa-e-os-moradores.html

3) D. Izaura e sua gente – Leilah na Galvão Bueno

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/04/d-izaura-e-sua-gente-leilah-na-galvao.html  

4) D. Izaura e sua gente – Vovò Juca

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/05/d-izaura-e-sua-gente-vovo-juca.html

5) D. Izaura e sua gente – Apresentando as pessoas – 1

https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/06/d-izaura-e-sua-gente-as-pessoas-1.html

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