sábado, 25 de maio de 2013

Avós e Netos

Depois que Luiz Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura se tornaram vovôs, passaram a contar, em meio a suas crônicas, artes da Lucinda e da Alice, suas respectivas netinhas. Eles, escritores altamente conceituados, colunistas dos principais jornais do País, assumem publicamente a posição de avós “babados” sem qualquer constrangimento. Aliás, constrangimento por quê? O tempo dos cronistas conservadores, cerimoniosos, já passou. Além do mais, como benefício, os comentários sobre as netas os aproximam de seus leitores,  particularmente daqueles que também têm a felicidade de ter netos.
Os netos pequenos, vamos nos lembrar, são crianças desta novíssima geração. Portanto, vêm ao mundo com a missão específica de nos encantar e embasbacar, surpreendendo-nos toda hora com observações, comentários e ações que não esperamos de miúdos como eles. E crescem, ficam menos miúdos, evoluem no conhecimento e passam a ser nossos instrutores na operação de equipamentos eletrônicos, como o telefone celular, por exemplo.
Já falei de meus netos em crônica do ano passado (“Crianças de Hoje”). Eles continuam evoluindo aceleradamente, seus focos de interesse vão mudando, mas continuam nos surpreendendo sempre.

O que me fez escrever esta crônica foi minha observação sobre o encanto e a importância do relacionamento de avós com os netos, algo que venho observando de perto nestes últimos anos e que tenho comentado com amigos, especialmente com colegas graduados em “vovoísmo”.
Algumas questões surgem. Por exemplo, é entendimento geral que, depois que tiveram tanto trabalho para educar os filhos, mesclando amor, orientação e disciplina, os avós não têm obrigação de educar os netos; mais do que isso, não devem se intrometer nas ações dos filhos e noras, das filhas e genros, pois manda a prudência evitarmos desentendimentos na família. Mas a ideia, bastante difundida, de que os avós têm o direito de fazer todas as vontades dos netos, “estragando-os”, é um exagero. Os avós devem  procurar dar toda a orientação possível, baseados em sua experiência de vida mas, também, procurando atualizar-se quanto aos usos e costumes e, até, quanto aos conhecimentos gerais. Ouvir uma resposta do tipo “Vovô, isso aí já era!” não seria nada agradável.
Contudo, temos o sagrado direito de curtir os netos, acompanhar seu desenvolvimento, conversar com eles ouvindo suas histórias, acompanhando os assuntos que lhes interessam na escola, tomando conhecimento de seus livros, jogos eletrônicos, filmes (no cinema e em DVDs) e atividades esportivas.
Poder curtir os netos é uma felicidade muito grande.

E os netos? O que acham de nós? Eles gostam do que fazemos para eles e com eles?
Podemos ter uma resposta a essas perguntas se observarmos as reações dos netos a nossas ações e comentários e as referências que nossos filhos fazem dos avós deles. E, também, se procurarmos, nós mesmos, lembrar de nossos avós.
Quanto às reações dos netos, basta prestarmos atenção em alguns pontos básicos: Eles gostam de ir à casa dos avós? Encontram distração e companhia lá? Comem e brincam bem?
Por exemplo, nosso neto carioca, aproximando-se agora dos dez anos, tem uma agenda pesada de escola, aulas de natação, futebol e tênis, está na fase de armar legos sofisticados, vai a cinemas, teatros e visita e é visitado por amigos e colegas. Assim mesmo, sempre que pode, vem nos visitar. Ele almoça ou janta conosco (a vovó procura fazer seus pratos preferidos); fazemos uma sessão, a três, de jogos que vêm variando ao longo do tempo, desde víspora (também chamado loto e bingo), uno, dominó, até monopólio; às vezes, ele vai um pouco ao computador da vovó. Conversa muito (principalmente com a avó) e alguns dias, no fim de semana, dorme conosco. Podemos supor que ele gosta de nossa companhia e que vai guardar boas recordações dos avós.
Como outro exemplo, uso aqui o que contou o Veríssimo em sua coluna de 23 de maio último no O Globo: ele participa, mediante representações de vários papéis, dos “faz-de-contas” da Lucinda. Ele não pode ter dúvida: ela está gostando muito da convivência com o avô e não vai se esquecer desses bons momentos.
De uns tempos para cá, já adultos, meus filhos comentam atitudes e ensinamentos de seus avós. Dos avôs, lembram-se bem do jeito de cada um. Como tiveram maior convivência com o avô materno, educador firme e prático que os orientou e influenciou muito, recordam-se bem do que ele lhes transmitiu. Das avós, lembram a dedicação extremada de uma e os diálogos com a outra, além do carinho de ambas.

Quando nasci, meu avô materno já havia falecido, de forma que conheci as duas avós e o avô paterno. Não tive muita convivência com eles, pois morava em São Paulo e eles no Paraná; apenas visitávamo-nos,  periodicamente. Além da lembrança de nossos encontros e conversas, tenho uma recordação especial de minha avó Balbina, mãe de meu pai. Professora, ela gostava de poesia e presenteava os netos com cadernos em que transcrevia versos, manualmente. Estávamos no início dos anos 40 do século passado e ela não tinha máquina de escrever.
Abaixo, a cópia de uma página do caderno que encontrei em meus guardados.


Gostávamos, meus irmãos e eu, de ouvir suas histórias da infância, a qual ela passou, em grande parte, nas ilhas da Baía de Paranaguá. Era exímia na preparação de peixes, o que fazia mesmo quando bem idosa. Viveu 95 anos.

Um relacionamento notório com o avô foi o de Arnaldo Jabor, destacado por ele mesmo em seus escritos. A tal ponto, que entendi que esse relacionamento é mostrado no seu filme "A Suprema Felicidade", no qual o protagonista estaria, na realidade, interpretando a figura do avô do Jabor.
O cartaz de anuncio do filme, abaixo, é bem significativo.

 

É importante lembrar que o papel de avós pode ser representado por tios ou tios-avós.
No meu caso, meu tio e padrinho, casado com a irmã mais velha de minha mãe, em cuja casa esta se criou, foi quem considero meu terceiro avô – ele tinha idade para o papel. Morava no Paraná, mas passei várias temporadas em sua casa. Minha tia era uma pessoa de extrema bondade e paciência e ele, entre meus dez e quinze anos, me ensinou muitas coisas práticas que não se aprendiam na escola. Tinha larga experiência comercial e habilidades manuais necessárias a um chefe de família, no Paraná daquele tempo; como a de marcenaria, por exemplo.
Casais sem filhos também podem assumir funções de avós, como amigos meus que mantêm convivência estreita com sobrinhos-netos e outros que, sendo agora tios dedicados, certamente vão assumir o papel quando se tornarem tios-avós.

Educar os filhos se apresenta cada vez mais difícil, porque eles são crianças e jovens que recebem uma quantidade imensa de informação pelos mais variados meios, são estimulados o tempo todo a consumir mais – brinquedos, equipamentos e jogos eletrônicos em constante evolução – viajam para o exterior, estudam idiomas em escolas bilíngues, praticam mais de uma modalidade de esporte e, o que é muito preocupante, estão muito sujeitos a desvios de conduta.
Por outro lado, pai e mãe são ambos profissionais, trabalham fora de casa e têm outras atividades, sociais e esportivas. Durante a semana, o tempo dedicado aos filhos não é o que gostariam que fosse.
Nesse cenário, os avós podem ajudar e devem fazê-lo na medida das possibilidades, tomando os cuidados que já mencionei. Sempre temperando orientação e conselhos com argumentação inteligente e amor. Este, o tempero natural, que temos em abundância, é o mais importante.

Washington Luiz Bastos Conceição

Notas
1. Dedico esta crônica à Vovó Leilah, minha esposa, que amanhã comemora o aniversário com os netos.

2. Para quem se interessar: forneço abaixo o “link” para o trailer do filme mencionado.
Trailer Oficial de "A Suprema Felicidade", dirigido por Arnaldo Jabor:
Observação: A fonte do cartaz do filme foi o site: