sábado, 6 de dezembro de 2014

Crise de Identidade

Outro dia, tive de provar que eu era o Washington Luiz Bastos Conceição, em um processo de certificação digital para minha empresa, certificação essa necessária para a emissão de notas fiscais digitais.
Na qualidade de sócio, apresentei-me no ponto de atendimento da organização certificadora, após o necessário agendamento, no centro do Rio de Janeiro. Era uma tarde ensolarada deste dezembro. Levei toda a documentação pedida e, embora se tratasse de uma renovação, o processo é exatamente o mesmo da certificação inicial, feita no ano passado. Entre outros, é pedido um documento de identidade do representante (eu, no caso) e uma foto três por quatro do mesmo se o documento for antigo.
Atendido com algum atraso (depois constatei que o processo é demorado e depende dos caprichos do sistema e da conexão pela internet), o procedimento incluiu: o exame inicial, pelo atendente, dos documentos que eu havia levado, o registro das informações no sistema, inclusive de uma senha que não poderei esquecer jamais, a impressão dos novos documentos e a aposição das assinaturas requeridas. Durante a operação, o atendente e eu mantivemos uma conversação cordial entre um idoso e um jovem, aproveitando as esperas entre as etapas do processo. Inicialmente, perguntei sobre as características do sistema, depois passamos para assuntos correlatos; acabei mencionando a IBM, empresa em que trabalhei, e ele me contou que seu irmão trabalha lá.
Concluído seu trabalho, o atendente digitalizou todos os documentos e os transmitiu a uma central de validação. Após uma demora considerável, esta negou a validação porque a foto no meu documento de identidade não indicava (segundo a pessoa que fez a análise) que se tratava da mesma pessoa da fotografia atualizada que apresentei. Há uns quarenta anos de intervalo entre uma foto e outra. O atendente, que me viu pessoalmente e acompanhara com atenção minha facilidade e rapidez ao assinar os papéis da mesma forma que está no documento, afirmou que sua percepção era de que se tratava da mesma pessoa, descontando-se as alterações faciais causadas pela diferença de idade. Ele insistiu, por telefone, com a pessoa da central de validação, reiterando seu testemunho de que eu era o Washington, mas não adiantou.
O curioso é que a foto atualizada tem o objetivo de permitir que o atendente identifique fisicamente o solicitante quando o documento é antigo, de modo que a comparação das fotos à distância, pela central, não tem sentido.
Tive de voltar no dia seguinte, levando meu passaporte atualizado, fazendo nova viagem do Leblon ao centro e gastei a manhã com isso. Novamente, fui bem atendido, desta vez por uma jovem igualmente gentil, e a certificação foi, finalmente, validada.


Entretanto, considerando a comparação das fotos, feita pela central de validação no primeiro dia, acho difícil concluir-se que se trata da mesma pessoa. Além de quarenta anos mais jovem, o Washington de 1974 ainda tinha cabelo – e castanho – não usava bigode e ostentava um par de óculos de grossos aros de tartaruga.


Uma dúvida final só me ocorreu hoje, ao escrever esta crônica. Por quê, nessa validação toda que, aparentemente, visa a evitar fraudes, não se recorre à impressão digital, largamente utilizada hoje em dia e que está sendo testada nas eleições?



Essa história me fez lembrar de uma passagem divertida no desembarque de um voo em Montevidéu há quatorze anos. Como não era necessário apresentar o passaporte, levei a carteira de identidade. Esta, mais antiga, foi emitida em 1958. No aeroporto, a moça da imigração que me atendeu, ao examinar o documento e ver a fotografia exclamou:ίPero usted está irreconocible!”. Resolvi o assunto com a carteira de habilitação, mas não me esqueci de sua expressão de espanto.
Não tenho tido problema nos embarques de aeroportos do Brasil. Porém, para evitar contrariedades, vou seguir o conselho de um amigo e fazer nova carteira de identidade.


Washington Luiz Bastos Conceição