segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Folguistas

Folguista é neologismo, ainda não registrado no meu dicionário. Significa: aquela ou aquele que substitui empregados titulares, nas folgas destes. O caso mais conhecido é o das substitutas de babás em fins de semana – aliás, foi como eu tomei conhecimento da expressão. Elas cuidam de crianças nos fins de semana e as levam a clubes e a festas de aniversário. Há, até, pessoas cuja atividade normal é ser folguista de alguém.
Bem, sem qualquer problema de autoestima, venho contar que me tornei um folguista. E, quero deixar claro que não se trata de queixa, pois estou me habituando a essa nova condição, sinto-me um aposentado ativo e as atividades ajudam a refrescar a cabeça.
Leilah, minha esposa, em uma longa recuperação de uma fratura do quadril esquerdo, não está podendo cuidar de todos os afazeres domésticos, conforme fez a vida inteira – e me deixou muito mal acostumado. Nas atuais circunstâncias, mesmo com dificuldade de locomoção, consegue fazer parte do trabalho, com minha ajuda. Logo após sua operação tivemos necessidade de contratar uma empregada “full time”. Tivemos sorte ao encontrar uma pessoa que se revelou extremamente competente; ela nos atendia de segunda a sexta feira. Nos sábados e domingos eu a substituía em algumas atividades e Leilah em outras – foi quando percebi que me tornara um folguista.
Quando, após um ano e meio, a empregada se demitiu (por motivos particulares), Leilah e eu passamos a folguistas “full time”, por tempo indeterminado, até encontrarmos outra solução de assistência doméstica, agora mais fácil porque Leilah está bem melhor e eu estou treinado, já sou folguista sênior.
Entre outras atividades, sou responsável pelo café da manhã, o que, aliás, muita gente fez e faz, especialmente os solteiros. Não há mistério em ferver, no fogão a gás, 500 ml de água em uma chaleira, lavar o bule de café que, em geral, tem alguma sobra da véspera, colocar o suporte do filtro sobre ele, introduzir neste o filtro de papel, deitar no filtro duas doses de pó de café e aguardar a água abrir a fervura. Neste ponto, com muito cuidado para evitar um acidente, derramar a água fervente no filtro, sobre o café. No final, concluir a operação jogando o filtro no lixo, lavar e guardar o suporte, tapar o bule e leva-lo à mesa da sala que, a esta altura, já terei arrumado, colocando louça, talheres e descansos de pratos.


Equipamento do folguista para preparar o café
Operações paralelas são: retirar a jarra de leite da geladeira, encher duas xícaras e aquecê-las no forno de micro-ondas; retirar, também da geladeira, a manteiga e a margarina dietética e transportá-las para a mesa; e aquecer o pão na sanduicheira ou na torradeira e leva-lo à mesa.
Normalmente o café é precedido de uma fruta, em geral um bom mamão do Hortifruti, que retiro da geladeira e fatiamos na mesa.

O caro leitor ou prezada leitora poderá estar, a esta altura, imaginando que pretendo escrever um manual de operações domésticas e esta crônica é apenas um ensaio. Esclareço que não é esta a intenção, embora possa acontecer, quem sabe?
Então, por que detalhar uma atividade tão corriqueira, aparentemente sem maior importância?
A ideia inicial foi fazer uma comparação, que faço abaixo. A forma adotada, de descrição detalhada, foi inspirada – talvez subliminarmente – em Hemingway, quando este, em seu “O Velho e o Mar”, descreve a preparação, pelo velho pescador, das linhas, das iscas, e do posicionamento destas em várias profundidades.
A comparação que faço é da operação atual de fazer o café com o procedimento de mais de setenta anos atrás, quando eu, um garoto de onze, era responsável por acender o fogo de manhã e preparar o café, antes de ir para a escola. Como eram tempos, ainda, da segunda guerra mundial, nosso fogão era a carvão. Somente quem morava perto do centro de São Paulo tinha gás encanado (gás de rua); em bairros afastados, como o nosso, apenas uns poucos abonados tinham gás de botijão em casa.
A operação de fazer o café requeria acender o fogo, que eu fazia mediante um acendedor; este era um tablete marrom de material inflamável (o aspecto era de cera dura) da marca “Jota”. Eu colocava o acendedor no fundo do “buraco” do fogão, construía, com pedaços maiores do carvão, uma espécie de torre em volta do acendedor, de modo que, ao ficarem incandescentes, espalhavam o fogo mais rapidamente, bastando soprar ou abanar um pouco. Era um “know-how” importante para o início das tarefas de cozinha.
O café era feito de forma semelhante, mas o coador era de pano. Este, embora lavado todo dia, ficava impregnado de café e era substituído periodicamente (porém os novos tinham de ser sazonados, para o café não ficar com “gosto de pano”). A diferença era que usávamos uma técnica de misturar o pó com a água em uma panela e depois levar a mistura ao coador.
Preparado o café, eu esquentava ou fervia a leite, me servia de café com leite e pão com manteiga, me arrumava e ia para a escola.


Ao detalhar as operações, não perco a preocupação com meus automatismos, consequência da necessidade que tenho de metodizar as ações. E penso: será uma deformação profissional? E também considero que o sujeito metódico é, muitas vezes, um chato e que eu preciso me cuidar - não me esqueço do segundo marido da D. Flor.
Outro dia a Leilah reclamou de um “aconselhamento” que lhe fiz em uma operação na cozinha, onde ela é sênior e eu nem aprendiz sou, e me lembrei de novo de minha atuação no café da manhã de mais de 70 anos atrás. Meus avós paternos estavam passando uns tempos conosco e Vovô João levantava bem cedo para tomar seu chimarrão, como faziam muitos paranaenses de antigamente. Uma manhã, ele levantou antes de mim e estava lutando para acender o fogo. Eu me apressei em ajudá-lo, mostrando-lhe minha técnica. Ofendido pela minha intromissão, ficou bravo e exclamou: “Não preciso de feitor!”. Pirralho de onze anos frente ao avô de oitenta, fiz o que tinha de fazer: me recolhi.



Minha dúvida é se voltei agora aos onze anos ou se, apenas, continuo o mesmo.

Washington Luiz Bastos Conceição