sexta-feira, 7 de abril de 2017

Uma passeata, um ano memorável

Ao ler minha crônica “Que Fazer?”, um amigo comentou que, como ação de curto prazo, devemos “sair à rua sempre que houver movimento organizado”. Concordo que é uma ação muito importante e pode influenciar os políticos, embora sujeita a reações (às vezes violentas) daqueles que detêm o poder.
Não tenho condições físicas para sair à rua em manifestações e, mesmo que tivesse, outras dificuldades que atualmente enfrento não me permitiriam sair para passeatas. Contudo, o comentário me trouxe à lembrança um acontecimento de meu tempo de jovem estudante: uma passeata de que participei em 1954. Por associação, também me recordei de outros eventos do mesmo ano.
Eu morava em São Paulo com a família, estudava Engenharia e já namorava a moça que viria a ser minha esposa. Tenho daquele ano fortes recordações.

Em janeiro, a cidade de São Paulo de Piratininga comemorou seu quarto centenário de fundação de uma forma grandiosa. Os festejos se concentraram no Parque do Ibirapuera, preparado de forma caprichada. Havia até um parque de diversões, sofisticado para aquela época, que visitei uma noite com amigos. Eu, que nunca fui muito corajoso para enfrentar as emoções dos aparelhos, especialmente daqueles em que as pessoas ficam dependuradas em cadeiras rodando em grande altura, me submeti a girar em um grande cilindro que fazia uma demonstração da força centrífuga: as pessoas, dentro do cilindro, de pé, encostavam-se à superfície interna do mesmo. Este passava a rodar, em velocidade crescente, e depois de alguns minutos, era baixado o piso e os passageiros ficavam “grudados” à parede do cilindro por um tempo que justificava o preço do ingresso. Também experimentei um escorregador helicoidal de madeira em que o herói deslizava do alto de uma torre até o chão sobre um tapete. Cá entre nós, depois dessas duas experiências notáveis, minha aventura em parques de diversões se resumiu a acompanhar filhos pequenos em carrosséis de cavalinhos e algumas atrações da Disneyland e Disneyworld.

Outros eventos de 1954 foram de natureza diferente, nada festivos.

Eu cursava o quarto ano de Engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Antes do meio do ano, surgiu uma disputa muito forte entre o catedrático de Topografia e Geodésia e seu principal assistente. O primeiro estava para se aposentar e o segundo, por mérito e tempo de casa, esperava ser seu sucessor. O assistente era encarregado das aulas práticas e seus alunos, mediante trabalhos feitos na própria cidade de São Paulo, realmente aprendiam a fazer levantamentos topográficos e elaborar as plantas correspondentes. Seu trabalho era muito eficaz. O catedrático se incumbia das aulas teóricas e, por algumas características pessoais, não gozava de popularidade com os alunos.
A disputa surgiu porque o catedrático indicou um de seus outros assistentes, menos experiente, para sucedê-lo. O principal assistente entrou com uma representação junto à diretoria da Escola, apresentando seu currículo e realizações profissionais, candidatando-se à cátedra. Quando o Conselho Universitário decidiu pelo assistente indicado pelo catedrático, nosso Grêmio Estudantil entrou com protesto, de tal forma que a Diretoria da Escola deixou de reconhecer o Grêmio. Não me recordo bem dos termos desse rompimento de relações, mas foi uma espécie de “desqualificação” do Grêmio. Nós, os politécnicos, nos declaramos em greve.
Por divergências semelhantes e por solidariedade, alunos de outras faculdades também entraram em greve, o movimento se expandiu e o impasse demorou várias semanas, o que depois afetou fortemente nossa agenda escolar, estendendo as aulas e exames para o período das férias. Minha participação no movimento foi relativamente modesta, mas acompanhei os líderes em reuniões de divulgação, uma delas em Santos, organizada pelo Zuza (Mário Covas Jr.), quando descemos a serra de automóvel à noite pela Via Anchieta. Que eu me recorde, não fizemos passeatas, mas sim um trabalho intenso de divulgação, pela imprensa e, diretamente, mediante visita a outras escolas e entidades.
Foi um movimento importante para nós, que vivíamos uma fase de governo democrático; encerrou-se mediante acordo que restabeleceu o reconhecimento do Grêmio.

Cara leitora e prezado leitor: Quanto à sucessão do catedrático de Topografia e Geodésia, não consigo me lembrar qual foi a solução encontrada para o impasse. Pesquisei agora e não tive êxito.

Outro evento de 1954 foi a passeata de que participei em agosto, a qual me fez escrever esta crônica.
Não estava entre meus hábitos sair à rua, caminhando, à noite, junto a uma multidão de estudantes, mas lá estava eu. Acompanhávamos um pequeno caminhão de som em que estavam empoleirados alguns colegas usando megafones. O motivo do protesto era de âmbito nacional.
O governo do Presidente Getúlio Vargas, dessa vez eleito pelo voto popular, estava em profunda crise política e sofrendo forte oposição, na qual se destacava o deputado Carlos Lacerda, com seus discursos brilhantes que enfatizavam o “mar de lama” criado no governo. Em 4 de agosto, Lacerda sofreu um atentado que o feriu e matou o Major Rubens Vaz, integrante de um grupo da Aeronáutica que dava proteção ao deputado.
Com esse crime político, a oposição ganhou muita força e a campanha pela renúncia de Getúlio se estendeu ao Congresso, à Imprensa e às ruas.
Em nossa passeata, saímos, se bem me lembro, da Avenida Tiradentes (onde ficavam os edifícios da Escola), em direção ao Palácio dos Campos Elíseos, então a residência do Governador do Estado de São Paulo. Este era Lucas Nogueira Garcez, catedrático de Hidráulica e Saneamento da Politécnica, e aliado e sucessor de Adhemar de Barros. Passamos pela Estação da Luz e pela Estação da Estrada de Ferro Sorocabana e nos dirigimos à Avenida Campos Elíseos, em marcha lenta, gritando palavras de ordem. Gravada muito bem em minha memória ficou a cena em frente ao Palácio, onde nos detivemos. Os alunos clamavam “Fala Garcez!”, insistentemente, até que ele saiu para a sacada do andar superior do grande edifício. Eram umas nove da noite. Os portadores dos megafones pediam que o Governador interferisse para resolver a crise mediante renúncia ou deposição do Presidente da República. Garcez havia sido eleito pelo PSP (Partido Social Progressista) do Adhemar, que apoiou Getúlio (no “gingle” de propaganda, no rádio, cantavam: “Presidente Getúlio, Adhemar Senador e Lucas Garcez pra Governador”). Ele estava, portanto, numa “saia justa”, pois não era oposição. Na sacada do palácio, sem mostrar irritação, pediu calma aos estudantes e disse que os políticos estavam muito próximos de uma solução para a crise. Não vou garantir, mas talvez ele tenha falado em “dia seguinte”.
Encerrada essa rápida “entrevista”, nos dispersamos.
Não sou capaz de precisar a data da passeata, mas deve ter sido realizada entre 20 e 22 de agosto.

Contudo, o acontecimento surpreendente e trágico, que marcou fortemente o ano de 1954, foi o suicídio de Getúlio, no dia 24 de agosto, pela manhã, após ter decidido não atender a exigência da cúpula militar, que era a renúncia do presidente.

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:
1    1)   No site do Grêmio Politécnico encontrei o seguinte texto:
“Com o Grêmio realizando uma série de campanhas internas em defesa dos interesses dos alunos, em 1954 a Escola deixou de reconhecê-lo como entidade representativa. Com isso, decretou-se uma greve de alunos da Poli. Pouco depois, a UEE aderiu à greve, estendendo-a a todo o estado. Em seguida, a UNE decretou uma greve de advertência de cinco dias, tornando então a greve nacional.”
2   2)   Se algum dos colegas leitores souber do desfecho do caso da sucessão do catedrático de Topografia e Geodésia,  peço informar-me.
3   3)   Embora eticamente semelhante, o “mar de lama” do governo de Vargas é um córrego, quando comparado com o oceano de corrupção estruturada dos últimos 15 anos, no País.