sábado, 12 de setembro de 2020

Um casal de idosos no tempo do vírus – Seis meses de isolamento

Prezada leitora ou caro leitor:

Uma das diversões de parentes e amigos em isolamento social é assistir a filmes na televisão. Acessam a Netflix, por exemplo, e selecionam um filme ou uma série. As séries são muito comentadas e estão na moda. Ao escrever aos leitores, à medida que avançamos no isolamento social, sobre os acontecimentos desta nossa aventura, sinto que estou criando uma sequência de narrações análoga àquelas séries; apenas, os leitores têm de imaginar as cenas e os sons.Os episódios anteriores foram a crônica “Um casal de idosos no tempo do vírus” e a “Cem dias de reclusão”, publicadas, respectivamente em 4 de abril e 21 de junho últimos. Estimulado pelos comentários recebidos, dou prosseguimento à série.


Hoje, Leilah, minha esposa, e eu contamos seis meses de isolamento social rigoroso.

Ao reler o que escrevi ao completarmos “cem dias de reclusão”, constatei que nosso dia a dia praticamente não mudou: mantendo a diarista em licença remunerada, continuamos executando as tarefas domésticas, fazendo compras para entrega a domicílio e, na entrega dos supermercados, tendo todo aquele trabalho de higienização e conferência.

O cuidado com a saúde, de importância fundamental, tem sido o mesmo; alimentamo-nos bem, tomamos religiosamente nossos remédios e cuidamo-nos muito para evitar acidentes domésticos.

Nosso isolamento é rígido a ponto de nenhum dos filhos ter entrado em nosso apartamento neste tempo todo. Quando nos trazem presentes ou alguma compra especial, entregam-nos no hall de entrada e nos cumprimentam à distância, todos devidamente mascarados, nós e eles. Entretanto, em duas ocasiões, tivemos de permitir a entrada de técnicos no apartamento: para a troca do fogão e para a instalação da fibra ótica na linha telefônica. Embora tenhamos tomado todos os cuidados recomendados e os técnicos estivessem usando máscaras, ficamos preocupados com nossa exposição ao contágio.

Primeiro, tivemos necessidade de comprar novo fogão; ao recebê-lo, tive a ajuda de um empregado do prédio para levá-lo até a cozinha; por circunstâncias (tivemos de retirar a alça do forno de ambos os fogões, o novo na entrada e o velho na saída, para que pudessem passar pelas portas do apartamento) não pude guardar a distância recomendada, mas ambos estávamos com máscara. Para a instalação propriamente dita, ainda tivemos duas visitas de técnicos, pois não sabíamos que todos os fogões vêm de fábrica configurados para gás engarrafado e, no caso de gás encanado, que é o nosso, tem de ser feita a conversão para gás natural.

A quarta vez que tivemos técnicos dentro de casa foi na instalação da conexão de fibra ótica em nosso telefone fixo. Embora não tivéssemos interesse na troca, fomos obrigados a fazê-la, pois o telefone com linha de cobre havia, simplesmente, deixado de funcionar. Nesse dia, recebemos dois técnicos no apartamento, por, praticamente, uma tarde inteira. Estava um dia frio, mas, entre as outras providências protocolares, abrimos bem as janelas e criamos uma boa ventania em casa.

Passamos incólumes por todas essas provas.

O que fizemos de diferente, após os cem dias iniciais, foi aventurarmo-nos a caminhar na passarela do nosso edifício (calçada interna situada entre as portarias dos três blocos e o jardim), o que nos levou a voltar a usar o elevador após meses de isolamento. São caminhadas ao ar livre, em que mantemos distância dos dois ou três vizinhos que descem em nosso horário, todos nós devidamente mascarados e usando o álcool gel como desinfetante.

Nesse mesmo local, nossos filhos nos visitaram na hora do almoço para brindarmos o Dia dos Pais – todos mascarados, mantendo a distância recomendada. Foi uma reunião “presencial” excelente, muito animada, após meses de reuniões virtuais. E ganhei presente!

Em agosto, após vários adiamentos, marcamos consulta com nosso médico oncologista para o muito necessário acompanhamento pós-câncer. Uma semana antes, Leilah teve de fazer exames de imagem em um laboratório próximo. Jurema, nossa filha, a levou. No meu caso, bastava o exame de sangue que havíamos feito antes, com coleta na porta do apartamento. Dia 26 de agosto, fomos ao médico, novamente levados pela Jurema. O médico constatou que estávamos bem. Comemoramos com um almoço no Clube Piraquê, onde havíamos estado, Leilah e eu, no dia em que iniciamos o isolamento, 12 de março. A saída, para nós, se tornou uma festa.

Bem, se, porventura, estou dando ideia de que nossa vida em isolamento está ótima, devo dizer que estamos, apenas, procurando enfrentar a situação com galhardia. Na verdade, este período está sendo difícil para nós.

A extensão do isolamento social e a indefinição de quanto vai durar esta situação acabam afetando nossa cabeça.

Leilah, que gosta de sair de casa, seja para visitar os filhos e o neto carioca, seja para compras e outros compromissos ou, simplesmente, para passear, não se sente nada bem ao permanecer presa. Consciente do risco do contágio do vírus, aceita. Mas há dias em que ela fica desanimada, por qualquer razão.

Eu, mais caseiro, comodista, aceito melhor a reclusão mas, por outro lado, sinto que exagero na preocupação com os protocolos de prevenção do contágio com o vírus e ao me irritar com alguma das notícias sobre a guerra política desencadeada no País (embora continue evitando assistir aos noticiários de televisão e ler jornais).

Mais grave, quando tenho algum mal estar ou quando Leilah não está bem, sinto crescer o temor do que pode acontecer conosco, sós em casa. No mês passado, não me senti bem e constatei que minha pressão sanguínea havia subido além do habitual. Considerando este susto, as dores musculares e minha irritabilidade crescente, Leilah e eu decidimos consultar nossa médica, clínica e geriatra que nos acompanha já faz alguns anos, ultimamente até pelo WhatsApp. A doutora, sempre muito dedicada, nos atendeu no dia seguinte em casa – cumprindo todo o protocolo de proteção ao contágio. Além de me examinar, ela ouviu minhas queixas e a confissão de meus temores e me aconselhou que eu procurasse sair um pouco de casa e fizesse exercícios físicos, tomando todas as precauções protocolares. Foi uma ótima consulta, combinando o exame clínico com orientação terapêutica.

No dia seguinte, Leilah e eu tínhamos as consultas com o oncologista, as quais mencionei acima. Eu, que pretendia fazer uma consulta virtual, mudei de ideia e decidi ir ao consultório com a Leilah.

O médico oncologista nos achou bem e, quanto ao isolamento, fez aconselhamento semelhante ao da geriatra. Como contei, Jurema nos levou, em seguida, a almoçar no clube.

Estou me esforçando para manter a cabeça no lugar. Voltar a publicar esta crônica, depois de um bom tempo parado, é um dos resultados desse esforço.

As tarefas domésticas destes  meses merecem um relato especial, detalhado; tarefas essas que, a vida inteira, foram executadas por empregadas sob a orientação da Leilah (com exceção de nossa temporada nos Estados Unidos no final da década de 1960, quando a Leilah se incumbia de tudo sozinha, usando todos os recursos de nossa casa americana e com muito pouca ajuda minha).

Pois, pasmem meu caro leitor ou minha prezada leitora, a idosa e o idoso vêm realizando um trabalho muito bom, apesar de suas limitações físicas, adaptando-se às condições do isolamento.

Na cozinha e na arrumação e limpeza da casa, sou o ajudante, obedecendo às ordens da chefe. Minhas tarefas específicas executo sozinho, de forma metódica, que sempre foi meu estilo, aperfeiçoado nos 24 anos de pós-graduação na IBM. O café da manhã para o casal, que é caprichado – até merece ser chamado “breakfast” – é todo por minha conta; preparo, sirvo e tiro a mesa. A tarefa de nos desfazermos do lixo – orgânico e reciclável – é uma incumbência minha, que requer que eu saia para o hall de serviço e, na volta, tenha de fazer a higienização necessária.

Na limpeza da casa, sou ajudante, mas recolher o lixo na pazinha e levá-lo ao recipiente apropriado é trabalho meu. Entre parênteses: nesta atividade vem a minha lembrança o Ernesto, faxineiro da Pensão Brasil, em São Paulo, onde minha família morou por algum tempo quando saiu do Paraná. Eu, que tinha uns cinco ou seis anos, observava como ele, ao varrer o corredor, recolhia o lixo na pá, com o cabo da vassoura apoiado no ombro e deslizando repetidamente a pá para trás até que todo o lixo “subisse” nela; ao lançar o lixo recolhido na lata, ele o socava com um dos pés (não era um lixo orgânico) para obter mais espaço para a coleta seguinte. Hoje, uso o sistema do Ernesto, apenas não comprimo o lixo com os pés. Quando tiro pó dos móveis, lembro da ajuda que eu dava a minha mãe, quando garoto, na falta da empregada.

No trabalho de limpeza temos, Leilah e eu, um grau de preocupação diferente: ela enxerga pó no chão e sobre os móveis e se incomoda muito mais com isso do que eu, que acho que a limpeza pode ficar para o dia seguinte. Este leve desentendimento me faz lembrar as cenas do filme “O estranho casal” (“The Odd Couple”), otimamente estrelado por Jack Lemon (Felix) e Walter Mathau (Oscar). Eles não conseguiram conviver no apartamento de Oscar por causa da mania de limpeza de Felix. Bem, nós outros aqui não chegamos a pensar em separação por causa desta divergência.

Arrumar nossa cama de casal é uma operação que fazemos a dois, pois a cama é grande e as peças são várias. Para nós, é mais um exercício físico (embora, quando a Leilah registra no relatório de seus exames Holter a arrumação da cama como exercício, a profissional que o recebe estranha muito).

As compras de supermercado e drogaria fazemos em conjunto, usando levantamento de estoque e planilhas de controle. Quem opera no computador é ela, mais paciente do que eu para lidar com as complicações dos sites dos fornecedores. É um trabalhão. O recebimento, como já comentei, é comigo.

As tarefas domésticas tomam um tempo considerável do dia.

Leilah ainda se incumbe do importante trabalho de controle financeiro do casal, que inclui os pagamentos todos e as operações junto ao banco, usando a internet. Além disso, mantém suas atividades relativas à empresa da família, interagindo com o escritório de contabilidade que nos atende. Poucas pessoas que ela contacta têm ideia de que estão tratando com uma senhora de 85 anos e é divertido quando uma delas ficam sabendo disso.

Eu contribuo com procedimentos e planilhas de controle e, quando consigo, escrevo. Também continuo acompanhando o noticiário dos números de casos de infecção e de óbitos pelo vírus corona, no Brasil e em alguns outros países. 

Importante é nosso tempo de lazer, a “happy hour”, quando, à noitinha, tomamos um drinque e assistimos a um filme na televisão. Além disso, especialmente nos fins de semana, eu assisto a jogos de futebol e, com Leilah, de tênis.

Leitura, sempre que possível, em horários variados.

Hoje, quando completamos, Leilah e eu, seis meses de isolamento social, estamos comemorando o aniversário de um acontecimento decisivo em nossa vida: resolvemos, num longínquo 12 de setembro, após vários anos de pura amizade, namorar. Seguiram, nos prazos necessários para terminarmos os estudos, o noivado e o casamento. Em dezembro passado, completamos 60 anos de casados e, hoje, em nosso dia D (de decisão), celebramos 67 anos de namoro firme. Tim-tim!

Washington Luiz Bastos Conceição