segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Vendo e sentindo a Olimpíada do Rio

“Minha posição é, simplesmente, a seguinte: já que decidimos sediar os jogos, temos de realizá-los da melhor forma possível.” Assim se manifestou um dos amigos ex-IBMs que participam de nosso almoço quinzenal, quando discutíamos, uma semana antes do início da Olimpíada do Rio de Janeiro, as imensas dificuldades que a Cidade e, por extensão, o Estado do Rio e o País estavam enfrentando para a realização dos jogos. Seu tom era o de “temos de fazer das tripas coração”, embora ele não tenha usado exatamente esta expressão.
De uma forma geral, todos os comensais estavam de acordo, sentindo que, nestes dias em que o País vive uma das piores crises econômicas de sua história, não é hora de festa, não poderíamos nos dar ao luxo de gastar tanto dinheiro com um evento mundial desse porte. Porém, por outro lado, tínhamos de considerar que, tendo assumido o compromisso, não havia como desistir.


A cidade do Rio de Janeiro apresentou sua candidatura à realização da Olimpíada em 2007 e foi escolhida em 2009. Naqueles anos, a economia do País estava crescendo (em 2006, o PIB cresceu 2,9%; em 2007, 5,4%; em 2008, 5,2%). Estávamos, portanto, otimistas quanto à nossa capacidade de realizar os jogos, embora soubéssemos que se tratava de um projeto de grande complexidade, muito maior do que a realização da Copa do Mundo de futebol, por exemplo. Contudo, era uma excepcional oportunidade de remodelar a Cidade Maravilhosa – Barcelona era para nós o maior exemplo dos benefícios que a Olimpíada poderia nos trazer.
Tínhamos sete anos para a preparação, o que parecia um prazo folgado, com a vantagem de podermos observar as etapas do projeto de Londres para 2012, mas o cenário econômico e o político foram mudando e acabamos tendo de realizar os jogos em meio àquela que vem sendo considerada a pior crise econômica e política de nossa História, neste ano da graça de 2016.
Para piorar, enfrentamos também uma sucessão de problemas sérios, cujas notícias repercutiram no mundo inteiro e alimentaram as mais pessimistas previsões das Cassandras locais e internacionais. Durante a preparação do evento, as notícias eram de atraso das obras dos vários locais de competição e de que os aeroportos não iriam suportar o movimento dos atletas e visitantes. Mais próximo do início do evento, o noticiário era desanimador: epidemia da Zika e de outras doenças transmitidas pelo aedes aegypti; o desastre da ciclovia (que, aliás, não era obra ligada diretamente ao evento), usado como indicador de que as construções para os jogos não eram confiáveis; o insucesso no programa de despoluição da baía de Guanabara; e outras, menos importantes.
Além desses problemas todos, era uma assustadora preocupação (nacional e internacional) a segurança para prevenir ações de malfeitores locais e, principalmente, possíveis ataques terroristas semelhantes aos que vêm ocorrendo na Europa. Preocupação essa que lançava uma tenebrosa sombra no evento.
Parecia que os Jogos no Rio estavam “rezados”, que feiticeiros poderosíssimos estavam conspirando contra o sucesso dos mesmos.
Apesar de todas essas preocupações, e talvez pelo exagero do pessimismo geral, aqui e lá fora, eu sentia que no Rio havia certo otimismo quanto ao sucesso na realização dos jogos, mesmo reconhecendo que haveria certamente algumas falhas, comuns em eventos dessa complexidade. Às vésperas da abertura dos jogos, vários cronistas se manifestaram nos jornais de uma forma realista, neutralizando em parte o bombardeio dos maus augúrios da imprensa internacional (lembrando: um grupo conceituado de cientistas chegou a sugerir, pouquíssimo tempo antes do início, que se cancelasse a realização dos jogos!).
Meus filhos, amigos e conhecidos compraram ingressos com antecedência para várias competições. O filho que mora na Califórnia tirou duas semanas de férias para vir assistir aos jogos; amigos vieram de fora do País (alguns a trabalho). Leilah, minha esposa, e eu programamos assistir aos eventos pela televisão, pois o acesso ao Parque Olímpico e outros locais dos jogos deveria ser feito por transporte público. Mandava a prudência que, pela nossa idade, não nos aventurássemos a tanto. A exceção seria, talvez, idas minhas com os filhos ao Maracanã (o que acabou acontecendo; já contei esta história, em crônica anterior).
Assistimos, portanto, em casa, ao espetáculo maravilhoso da abertura e às competições que mais nos interessaram, do vasto cardápio que nos foi oferecido (lembrando: só a Sport TV utilizou 16 canais para a transmissão dos jogos). No encerramento, também bonito e muito festivo, a comemoração triunfante do êxito. Lavamos a alma!
E a classificação do Brasil no quadro de medalhas? Parafraseando Getúlio Vargas, respondo: "Ora, a classificação!” (nota no final). Para mim, a medalha de ouro no futebol, inédita, e a de vôlei masculino já seriam ótimas – mas ainda tivemos algumas surpresas muito agradáveis. O prêmio maior foi o sucesso do evento.

Como complemento, seguiram-se os Jogos Paralímpicos, realizados com o mesmo êxito. A participação dos atletas e seu surpreendente desempenho emocionaram todos os espectadores. Certamente, tiveram como resultado de suma importância a conscientização do público em geral para a inclusão social de pessoas com os mais variados tipos de dificuldades físicas.

Conforme amplamente divulgado, dentre o legado dos jogos destacam-se: a nova linha de Metrô para a Barra da Tijuca; no Centro, a renovação da Zona Portuária, com seu espetacular Museu do Amanhã, o Boulevard Olímpico e o transporte por VLT; o Parque Olímpico, em Jacarepaguá, que será dividido em setores: Centro Olímpico de Treinamento, integrado por várias arenas, Arena Olímpica (já em concessão) e área para desenvolvimento imobiliário; as arenas móveis serão aproveitadas em edifícios escolares. E mais: os parques de Deodoro e Madureira serão utilizados pelos moradores da região.
Para mim, o Metrô para a Barra foi a mais surpreendente realização, pois, há décadas, em cada eleição para Prefeito do Rio, ele estava nas promessas de candidatos a prefeito – e nada acontecia! Custa-me acreditar que, finalmente, a nova linha foi construída e está funcionando muito bem. Quanto à remodelação (chamada “Renascimento”) da zona portuária, está encantando todos os visitantes.


No almoço seguinte de nosso grupo de amigos, quando a Olimpíada já era uma vitoriosa realização, cada um comentou os jogos e os espetáculos a que tinha assistido, incluindo idas ao Parque Olímpico e suas arenas; a Copacabana, para assistir ao vôlei de praia; ao centro, no Boulevard Olímpico; e ao Maracanã.
Concordamos que, agora, a nossa difícil tarefa será aproveitar ao máximo o legado dos jogos, que foi muito importante para o Rio e, por extensão, para o próprio País. Temos de realizá-la, e muito bem.
Nosso grupo comemorou, especialmente, o fato de que o Rio e o Brasil., tendo conseguido vencer enormes dificuldades para a realização dos jogos, nos levaram a sentir que nossa capacidade de realização pode ser aplicada a projetos maiores, como a retomada do crescimento do País. Este sentimento esperançoso parece ser o grande legado dos jogos para todos nós, brasileiros.

Penso se não seria otimismo demais fazer a extrapolação da capacidade de realizar os jogos para a capacidade de solucionar os problemas do Brasil. Lembro-me, entretanto, de fatores essenciais para o sucesso da Olimpíada: o empenho de autoridades no projeto, o desafio de mostrar uma boa imagem no âmbito internacional e o trabalho extraordinário dos voluntários. Este último me parece um recurso potencial muito importante para melhorarmos o País; poderemos aprender, com o Comitê Olímpico, a utilizá-lo em grandes projetos. Em particular, pensei nas tão sacrificadas áreas de Saúde e Educação e, dentre nossa enorme população, na quantidade de voluntários que poderíamos reunir.
Difícil? Difícil, mas factível. Ouso sonhar.

Washington Luiz Bastos Conceição



Nota:

Contava-se, quando eu era jovem: em uma ocasião em que o Getúlio, na posição de ditador, foi alertado por um assessor de que certa decisão sua contrariava a lei, ele respondeu: “A lei, ora a lei...”, expressão que eu traduzo para a linguagem de hoje como: “Querido, estou me ralando para a lei!”.