sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Osmar e Jurema – O início dos anos 40 e o país no limiar da guerra

Cara leitora ou prezado leitor:
Dou, aqui, continuação às histórias de Osmar e Jurema. Nesta crônica, a nona da série, escrevo sobre a vida do casal no início da década de 1940.

Em 1940, morando ainda na Pensão Brasil e então com três filhos (Túlio, nove anos; Washington, sete; e Maria da Penha, um ano) Osmar e Jurema decidiram matricular os dois meninos em um pequeno colégio interno, na Rua Jaguaribe, o “Colégio Maria José Wagner”. Próximo à pensão e recomendado por amigos, era muito especial. Os diretores eram um casal de meia idade, Dr. Orlando e D. Anésia Fonseca, ele advogado e professor e ela professora, originários de Itapetininga, São Paulo. Ele dirigia o ensino junto às professoras e alunos (externos, semi-internos e internos) e ela dirigia a operação do colégio. Esta era complexa porque envolvia hospedagem e refeições para os alunos internos e almoço para os semi-internos. O casal morava no colégio, uma mansão com dois andares, jardim e quintal espaçoso nos fundos, transformado em pátio para o recreio dos alunos. Os alunos internos eram poucos, uns vinte meninos, de modo que recebiam muita atenção dos diretores.
Penso que esta decisão de Osmar e Jurema foi tomada considerando que eles teriam de morar na pensão por mais algum tempo porque aluguel de casas ou apartamentos situados perto do centro era caro. Com a solução dos dois meninos no colégio interno, diminuiriam as despesas na pensão e aliviariam a carga de trabalho de minha mãe pois, além de cuidar dos três em casa, teria de levar os meninos ao colégio e buscá-los, de bonde, e contratar alguém para ficar com a pequenina Maria da Penha.
Deu certo, não tivemos problemas e, mais, meus pais se tornaram amigos dos diretores.

Osmar havia concluído o curso de Direito em 1939 e estava trabalhando no IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários). Como o expediente no Instituto começava ao meio dia, ele, pela manhã, dava aulas de Português em cursos ginasiais. Jurema cuidava de Maria da Penha e se encarregava das providências necessárias fora de casa, como pagar contas e fazer compras, por exemplo (coisas que só se faziam pessoalmente e, ainda, exigiam que a pessoa fosse ao centro da cidade).
Aos domingos, a família costumava sair para passeios. Um dos programas de que eu mais gostava era passar o dia no Parque da Cantareira, que incluía uma viagem pitoresca no pequeno trem que, muitos anos depois, ficou famoso pela canção “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa. Outro programa era, nas tardes de domingo, meu pai levar-nos, Túlio e eu, a uma casa de cachorro quente na Avenida São João, próxima ao edifício Martinelli, que exibia uma placa luminosa com dois porquinhos disputando uma salsicha. Minha preferência era o sanduíche de morcilha (também chamado “sanduiche de sangue”). Íamos a pé, era um passeio; para nós, muito gostoso. No tempo do colégio interno, Túlio e eu alternávamos programas dominicais com um grupo de alunos. O mais das vezes, íamos ao Cine Coliseu, no Largo do Arouche, em matinês que, em duas sessões, levavam a tarde toda (cheguei a assistir a um seriado de faroeste com Tom Mix).

Naqueles anos, a cidade de São Paulo passou por importantes melhoramentos, quando teve a felicidade de ser administrada por um notável prefeito. A partir de 1938, logo após a implantação do Estado Novo, o prefeito da cidade era Francisco Prestes Maia, Engenheiro-Arquiteto formado na Escola Politécnica em 1917 que trabalhara por vários anos no Departamento de Obras da Secretaria de Viação, Agricultura e Vias Públicas do estado. Nesse departamento, participou de projetos importantes na cidade, como, por exemplo, aqueles ligados à comemoração do centenário da Independência em 1922; mais tarde, elaborou, em parceria com João Florence de Ulhôa Cintra, outro engenheiro e professor da Politécnica, um plano de avenidas para a cidade de São Paulo. Prestes Maia tornou-se um urbanista notável.
Foi nomeado prefeito em abril de 1938 por Adhemar de Barros, logo após este, por sua vez, ter sido nomeado por Getúlio Vargas interventor do estado de São Paulo. Como prefeito, agindo com a independência administrativa que o Estado Novo lhe proporcionou, pôde realizar o que havia planejado anteriormente para a cidade, especialmente o plano de avenidas. Assim, foram alargadas ruas e avenidas formando um anel que aliviava o trânsito no centro da cidade; as avenidas Ipiranga e São Luís são parte desse anel.
Como Prestes Maia era um prefeito muito competente e respeitado, administrava e reformava a cidade e não era político, sua popularidade era muito alta. E mais, pelo que leio agora, fazia e não roubava. Dizia-se que ele era fiscal de si mesmo. Parte de seus projetos foi executada no seu governo, parte bem mais tarde, como a avenida 23 de maio e as avenidas marginais do Tietê, por exemplo.
Obra também importante na cidade, iniciada pelo prefeito Fábio Prado e concluída no governo de Prestes Maia, foi o Estádio Municipal do Pacaembu, inaugurado em 1940 com grande cerimônia cívica a que compareceram Getúlio, os interventores dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais e o prefeito do Distrito Federal. Quando eu estava no colégio Maria José Wagner, fui, com um grupo de alunos conduzido pelo “vigilante” do colégio, como programa especial, assistir a uma partida de futebol no recém-construído estádio. O jogo era um amistoso do São Paulo Futebol Clube com o Botafogo do Rio de Janeiro (este ganhou de 5 a 2 e me lembro do Patesko, ponta esquerda do Botafogo e Mendes, ponta direita do São Paulo); foi minha iniciação em estádios.
A prezada leitora ou caro leitor poderá estar estranhando a cidade poder investir nesses melhoramentos quando a segunda grande guerra estava em pleno desenvolvimento, em uma fase dificílima para os aliados. Não havia restrições econômicas?
Aconteceu que, nos primeiros anos da guerra, o Brasil se manteve neutro e a própria guerra favoreceu a realização de projetos importantes do plano de desenvolvimento econômico do Estado Novo. Foi uma fase de muita negociação com os Estados Unidos da qual o governo brasileiro tirou proveito para investir em infraestrutura e implantar sua indústria de aço, permitindo, em troca, a instalação de bases aéreas norte-americanas no norte e nordeste do país. A guerra também trouxe um aumento importante de nossa exportação de produtos além do café (borracha, cacau e algodão, principalmente).

Osmar e Jurema mantinham o plano de nos mudarmos para uma casa, que teria de ser alugada, pois era muito difícil para pessoas da classe média adquirirem casa própria. Havíamos morado em uma casa na Rua Melo Alves em 1938 e depois voltamos para a pensão, provavelmente por dificuldade de alugar outra após o vencimento do contrato.
Em 1941, a família se mudou para a um pequeno sobrado geminado na rua Oscar Freire, próxima à Rua Teodoro Sampaio; por esta desciam os bondes para o bairro de Pinheiros.
Deixamos a Pensão Brasil, mas mantivemos o bom relacionamento com Dona Rosinha e família. Ela continuou sendo aquela espécie de tia-madrinha de Jurema, o resto da vida. Seu Júlio, o marido, faleceu antes dela; Nesa, a filha, se casou com um catarinense e foi para o sul; meus pais mantiveram contato com os filhos Osvaldo, advogado que foi Secretário da Justiça do Estado de São Paulo e reitor da Universidade Mackenzie e Milton, cirurgião emérito do Hospital Samaritano de São Paulo, que operou a garganta de três dos meus filhos.

Em 1942, o Brasil entraria em estado de guerra ao lado dos aliados, contra a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini.

Washington Luiz Bastos Conceição



Referências históricas:

  • ·  Toledo, Roberto Pompeu. A capital da vertigem: Uma história de São Paulo de 1900 a 1954. Objetiva. (Kindle Edition.)
  • ·   Fausto, Boris. Getúlio Vargas. Companhia das Letras.
  • ·   Quadros, Jânio e Franco, Afonso Arinos de Melo. História do Povo Brasileiro. J. Quadros Editores Culturais.
  • ·   Wikipedia.