segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Revendo e revivendo


Não escapamos de recordações, especialmente a partir da meia idade. Recordações que, por um fenômeno que não sei explicar, reforçam os momentos agradáveis e amenizam os dissabores vividos. A expressão “Recordar é viver!”, tão popular (usada até em um samba de carnaval da década de 1950), poderia ser “Recordar é reviver” – e reviver de uma forma mais agradável.
Quem gosta de contar histórias, memorialistas como eu, revivem através das recordações – e estas se acendem com as visitas aos locais por onde passamos.
Neste mês, consegui visitar Santos e Guarujá, cidades que, há já algum tempo, eu queria rever porque delas tenho recordações muito boas. Em Santos, recém-formado, solteiro mas já namorando firme, enfrentei meu primeiro grande desafio profissional, como engenheiro residente de um projeto extremamente interessante, o do remanejamento da rede de distribuição de água de Santos. No Guarujá, Leilah e eu passamos a lua de mel (iniciando outro projeto que, em dezembro, completará 56 anos de duração).
Na semana passada, após um período difícil de dois anos em que não pudemos viajar, fomos, Leilah e eu, visitar parentes e amigos em São Paulo. Revimos a cidade, hospedados regiamente por Regina, Roberto e Lauro, parentes-amigos muito chegados, que nos proporcionaram a maior mordomia, levando-nos a restaurantes e aos locais de duas visitas inadiáveis. Foram quatro dias movimentados, em que tivemos oportunidade de bater papos gostosos e comentar os últimos acontecimentos no País. Pudemos também, atendendo a convite enviado ao Rio de Janeiro, comparecer à festa do quarto aniversário de João Pedro, sobrinho neto. Um garoto simpático e superativo, fã do Chaves, cômico mexicano que foi o tema da festa. Contudo, o tempo foi curto e ficamos devendo algumas visitas.
A seguir, fomos ao Guarujá visitar Ciumara, irmã de Leilah. Paula, filha da Ciumara, nos conduziu em viagem tranquila pela Rodovia dos Imigrantes, com seus longos túneis e inúmeros viadutos. Lá, passamos quatro dias, dedicando um deles a um belo passeio em Santos. Novamente, hospedados com tratamento cinco estrelas.
No Guarujá, além da cidade em si, revimos suas bonitas praias, que aproveitávamos bastante nas férias e em fins de semana quando morávamos em São Paulo. Foram muitas lembranças da família, dos filhos pequenos, e, claro, da lua de mel.
No passeio a Santos, o destaque foi rever os belos jardins que precedem as praias, ao longo de todas elas. Continuam bem tratados e enfeitam a cidade. O centro histórico e a pujança de seu porto também impressionam.
Durante todo o passeio, cansei Leilah, Ciumara e Paula com as histórias do meu trabalho em Santos nos idos de 1956 e 1957, das quais faço, abaixo, um resumo:




Em 1956, a empresa de engenharia para a qual eu trabalhava desde estudante estagiário me contratou para exercer a função de engenheiro residente em Santos, na primeira fase do projeto de remanejamento da rede de água da cidade. Um grande projeto, cujo estudo preliminar envolvia pesquisas e levantamentos específicos. Isto porque Santos, além de ser o maior porto exportador do País, era também, juntamente com outras cidades da Baixada Santista como São Vicente e Guarujá, a praia dos paulistas de todo o interior do Estado, especialmente dos paulistanos. Portanto, a rede de água da cidade tinha de atender, não só o consumo da população fixa da cidade, como também uma população flutuante proporcionalmente muito grande nos fins de semana, nos feriados e nas férias escolares. E a rede existente, muito antiga, já não atendia a demanda.
Em resumo, as três áreas principais de meu trabalho eram: estudo e previsão da população que o projeto iria atender, levantamento em detalhes da rede de distribuição e de seu estado, e levantamento das variações de consumo de água em dias úteis, fins de semana e feriados.
A previsão de crescimento da população, fixa e flutuante, iria se basear em estudos anteriores, análise de curvas de crescimento e analogia com outras cidades. Enfim, bastante futurologia.
Conhecer a rede implicava saber quais tipos de tubos corriam em cada rua, seu material (ferro fundido, aço galvanizado), seu estado (grau de ferrugem, furos, juntas), todos esses detalhes na cidade inteira.
Para estudar a variação do consumo, a solução encontrada foi medir a vazão de esgotos. Um parêntese: o esgoto é mais de 90% água, água imunda é verdade, mas é, para efeitos práticos, um líquido.

Como o compromisso contratual era de manter, durante essa fase do projeto, um engenheiro residente em Santos, tive de morar lá por uns seis meses.
A cidade de Santos tinha, praticamente, dois hotéis de qualidade, ambos na Praia do Gonzaga: o Parque Balneário, considerado luxuoso, e o Atlântico, considerado um bom hotel. Eram caros. Normalmente, os turistas se hospedavam nas pensões, que incluíam refeições na diária e aceitavam hóspedes por períodos longos. Eram instaladas em casas grandes, em geral na praia, adaptadas para hospedagem, com bons quartos e dependências, mas, em sua maioria, com banheiros fora do quarto. Algumas eram muito boas; a Pensão Paulista, por exemplo, tinha muito boa fama. Também muito apreciada era a Pensão São João.
Outro tipo de turista, o paulistano de classe média, comprava apartamento em Santos ou São Vicente para passar, com a família e amigos, férias, fins de semana e feriados.
Consegui um quarto muito bom na Pensão São João, no Boqueirão, a um preço mensal conveniente, que incluía as três refeições. Os donos da pensão eram pessoas muito boas e a administravam pessoalmente. Mesmo depois que encerrei meu período contínuo em Santos e passei a descer alguns dias por mês, continuei me hospedando lá.

Trabalhei duro, com entusiasmo, um garoto entre profissionais e operários mais velhos. Não tive problemas, mesmo sendo torcedor do Corinthians numa fase de franca ascensão do Santos Futebol Clube (Pelé ainda não era titular, mas o time já tinha alguns jogadores muito bons). O fato é que era algo muito diferente para eles (e para mim também) percorrer toda a cidade, fazendo buracos nas ruas e calçadas para retirar amostras da tubulação; ou circular em uma caminhonete medindo a vazão de esgoto em vários pontos da rede (o que foi feito no mês de setembro, em um período que incluiu a Semana da Pátria, 24 horas por dia). No mínimo, saíram da rotina; alguns sentiram a importância da pesquisa (eu explicava qual o objetivo do trabalho).
Depois de algum tempo, ao caminhar por uma rua qualquer da cidade eu sabia quais tubos da rede de água corriam por ela, sob o leito da rua ou sob a calçada e se eram de ferro fundido ou de aço galvanizado. A partir das medidas de vazão do esgoto fizemos gráficos muito interessantes e informativos.
A previsão de crescimento da população da cidade levou em conta fatores específicos e até histórico de outras cidades semelhantes.




No passeio a Santos, todos esses fatos me vieram à lembrança. E mais: ao percorrer a praia e as avenidas transversais, lembrei-me dos bondes verdes com estribo duplo; ao passar pelo Boqueirão, localizei os grandes edifícios de apartamento que ocupam hoje o terreno da pensão São João. Almoçarmos em um restaurante-mercearia, muito simpático, na Avenida Washington Luiz. Ao sairmos do restaurante, localizei no pavimento da avenida a tampa do poço de visita que era um dos pontos de medida de vazão do esgoto usado no projeto. Quando chamei a atenção de minhas companheiras de passeio para aquela tampa, percebi que estava exagerando.

Subimos para São Paulo no sábado, de onde voaríamos de volta ao Rio. Nossa excursão foi encerrada com um ótimo almoço em um restaurante italiano na Mooca, com a família da Ciumara: seu filho Marcos, com a esposa Mariana, e a Paula, com o marido Caio. Os rapazes nos levaram ao aeroporto.

Os paulistas nos estenderam o tapete vermelho até o final.


Washington Luiz Bastos Conceição



Nota:
Se o caro leitor ou a prezada leitora tiver interesse em saber mais sobre o trabalho em Santos, transcrevo abaixo, na íntegra, o tópico “Água para Santos”, do capítulo “O Jovem Engenheiro”, do livro “Histórias do Terceiro Tempo”, o meu primeiro.

Água para Santos
Meados de 1956, recém-formado, eu tinha 23 anos. Descia para Santos, numa manhã, pela Via Anchieta, com o Fernando Reis Dias, no carro dele. Fumante de cachimbo, ele recarregava e socava o fumo enquanto dirigia, fixando o volante com a coxa, e conversando normalmente. E, naquele tempo, não se usava cinto de segurança! Esse tipo de motorista me persegue até hoje, só que agora, em vez de cachimbo ou cigarro ele usa o celular.
Fernando era engenheiro, uns dez anos mais velho do que eu. Alto, forte, extrovertido, um tanto agressivo, mas não deixava de ser simpático. Era um dos três sócios da Ecosa, empresa de engenharia sanitária onde comecei como estagiário e para a qual, depois de formado, prestei serviços. Nessa ocasião, a Ecosa estava iniciando o projeto de remanejamento da Rede de Água de Santos, e eu tinha sido contratado por ela para atuar como Engenheiro Residente na fase de levantamento preliminar do projeto.
Em Santos, iríamos ter nossa reunião inicial com os diretores do SASC (Serviço de Águas de Santos e Cubatão).

Quando comecei a estudar Engenharia, tinha meus sonhos – como, aliás, todos os meus colegas – mas, ao longo do curso, fui percebendo quais os mais realizáveis. A atividade de Projeto e Cálculo de Grandes Estruturas (pontes, por exemplo), era algo que me atraía muito, por seu desafio e a grandiosidade e beleza da obra. Porém, por circunstâncias, fui me direcionando para trabalhos ligados à Engenharia Sanitária, principalmente projetos ligados ao abastecimento e distribuição de água nas cidades. O trabalho em si é muito interessante e me atraiu por ter um fundo social muito importante, pois é básico para a saúde pública.
Durante minha fase de estágio, a partir do quarto ano da Escola, e a fase de Engenheiro Civil, que durou quatro anos, minha principal ocupação foi na área de abastecimento e distribuição de água.
O estágio na Ecosa me preparou para essa especialização e passei a gostar do trabalho. Além do Fernando, lidei com o sócio sênior da Empresa, o Engenheiro e Professor da Politécnica, Eduardo Riomei Yassuda, que me contratou e com quem me dei muito bem. Depois de conhecê-lo, descobri que o Renato Yassuda, colega meu de colégio, que depois se formou em Odontologia, era um irmão mais novo dele.
Depois do projeto de Santos, eu ainda iria trabalhar para a Ecosa no projeto de remanejamento da rede de água de São Paulo, Capital, numa ofensiva do então governador Jânio Quadros para expandir o abastecimento de água, que atendia apenas a uma porcentagem vergonhosamente baixa da área da cidade.

Chegando a Santos, fomos ao escritório do SASC, fui apresentado às pessoas de contato e começamos a planejar minhas atividades. O Fernando já tinha uma boa ideia do plano de ação e dos estudos técnicos necessários e combinou com os diretores de lá que tipo de suporte me seria dado.
Um senhor mais velho, com muito conhecimento da rede, foi designado para trabalhar comigo. Ótima pessoa, sinto não me lembrar de seu nome; aqui, vou chamá-lo, então, de Encarregado. Desenhistas e arquivistas também iriam me ajudar para eu ter as plantas e dados necessários para o trabalho.

Santos, em 1956, além de ser o maior porto exportador do País, era também, juntamente com outras cidades da Baixada Santista, como São Vicente e Guarujá, a praia dos paulistas de todo o interior do Estado, especialmente dos paulistanos.
Portanto, a rede de água da cidade tinha de atender, não só o consumo da população fixa da cidade, como também uma população flutuante, proporcionalmente muito grande, nos fins de semana, nos feriados e nas férias escolares. O dimensionamento correto da adução da água (coletada na serra) e da distribuição na cidade, para atender as necessidades presentes e futuras, era um desafio muito grande de Engenharia.
Antes, no escritório da Ecosa, eu havia estudado o projeto, de reforço da adução, ou seja, do volume de água trazido diretamente da captação na serra para o reservatório central da cidade, que ficava no morro do Saboó. Esse projeto foi realizado por outra empresa de Engenharia (Saturnino de Brito, se não me engano). Ao longo do trabalho, estudei também o Plano Diretor para Santos, do ex-prefeito de São Paulo, Prestes Maia.
Agora, eu tinha de conhecer a rede de distribuição em detalhes e tinha de estudar o consumo da água pela população fixa e pela população total, fixa mais flutuante, esta constituída pelos turistas que desciam para a cidade.

Em resumo, as três áreas principais de meu trabalho eram: estudo e previsão da população que o projeto iria atender, levantar em detalhes a rede de distribuição e seu estado, e levantar as variações de consumo de água em dias úteis, fins de semana e feriados.
A previsão de crescimento da população, fixa e flutuante, iria se basear em estudos anteriores, análise de curvas de crescimento e analogia com outras cidades. Enfim, bastante futurologia, na qual a Ecosa tinha bastante experiência.
Conhecer a rede implicava saber quais tipos de tubos corriam em cada rua, de que lado dela, seu material (ferro fundido, aço galvanizado), seu estado (grau de ferrugem, furos, juntas), todos esses detalhes na cidade inteira.
Para estudar a variação do consumo, a solução encontrada foi medir a vazão de esgotos. Um parêntese: o esgoto é mais de 90% água, água imunda é verdade, mas é, para efeitos práticos, um líquido.
O esgotamento das águas servidas apresenta uma dificuldade: é feito por gravidade, de modo que, na saída, o tubo tem de estar em nível mais baixo do que na entrada. Esta condição estendida a uma cidade plana de certo porte fica irrealizável, o final da rede teria de chegar a uma profundidade muito grande. Assim, nestes casos, os engenheiros têm de recorrer a estações elevatórias, a bombas hidráulicas. Para a medida dos volumes de esgotos, recorremos às estações elevatórias da rede.

A cidade de Santos tinha, praticamente, dois hotéis de qualidade, ambos na Praia do Gonzaga: o Parque Balneário, considerado luxuoso, e o Atlântico, considerado um bom hotel. Eram caros. Normalmente, os turistas se hospedavam nas pensões, que incluíam refeições na diária e aceitavam hóspedes por períodos longos. Eram instaladas em casas grandes, em geral na praia, adaptadas para hospedagem, com bons quartos e dependências, mas, em sua maioria, com banheiros fora do quarto. Algumas eram muito boas; a Pensão Paulista, por exemplo, tinha muito boa fama.
Outro tipo de turista, o paulistano de classe média, comprava apartamento em Santos ou São Vicente para passar, com a família e amigos, férias, fins de semana e feriados.
Nos primeiros dias de trabalho em Santos, fiquei no Hotel Atlântico. Como iria trabalhar residindo em Santos, por uns seis meses mais ou menos, procurei hospedagem em uma pensão. Consegui um quarto muito bom na Pensão São João, no Boqueirão, a um preço mensal conveniente, que incluía as três refeições. Os donos da pensão eram pessoas muito boas e a administravam pessoalmente. Mesmo depois que encerrei meu período contínuo em Santos e passei a descer alguns dias por mês, continuei me hospedando lá.

Comecei meu trabalho. Planejei as atividades seguindo a orientação do Fernando, pesquisei, estudei plantas e passei a conhecer as instalações in loco.
O Encarregado tinha à sua disposição uma caminhonete Ford bem antiga (modelo 1929, provavelmente), na verdade uma “baratinha”, que se caracterizava por ter uma cabine para o motorista e um passageiro e, atrás, no lugar do porta-malas, um banco embutido para dois passageiros, sem capota. Ele me levava nela para todo lado. Como a cidade é plana, não tivemos problema com o veículo, mas era muito engraçado ver o Encarregado lidando com uma alavanca junto ao volante que, entendo, fazia o papel do afogador (por favor, corrijam-me os que souberem melhor). Ele conhecia a rede toda como ninguém, de modo que, depois de algum tempo, de posse das plantas e com as informações dele, eu era capaz de dizer, em cada rua da cidade, que canos passavam nela, seu material e seu diâmetro. E Santos, nessa época, já era uma cidade de porte, tinha uns 150.000 habitantes.
O estado da tubulação era variado, com diversos níveis de corrosão – às vezes, um tubo de, nominalmente, dez centímetros de diâmetro, deixava passar só um fio de água, tamanha era a corrosão interna. Curiosamente, havia tubos perfurados lateralmente, um furo circular, como se tivesse levado um tiro de revólver (ou fuzil?) – eram tubos assentados perto dos trilhos do bonde que sofriam uma espécie de corrosão eletrostática! Para um engenheiro novo, que buscava prática de campo, tudo isso era um “pão e um pedaço”.
Para nossas pesquisas, era necessário retirar amostras da rede, além de usar as peças danificadas que haviam sido substituídas no trabalho de manutenção, devidamente guardadas e catalogadas pelo SASC, numa espécie de museu. Conforme a rua e o porte da tubulação, não havia grande dificuldade para retirar amostras – bastava preparar de antemão a peça que substituiria a amostra, cavar a vala, fechar os registros da área afetada, retirar, cortando, a amostra e fazer a substituição. Lembro-me de uma vez, entretanto, que o bicho pegou: fomos fazer esse trabalho numa sub-adutora que acompanhava a linha de trem que cortava a cidade, de São Vicente até o Porto, pois o tubo era de diâmetro grande e o trabalho foi mais demorado – paramos o trânsito, inclusive dos bondes, no cruzamento da Avenida General Francisco Glicério com a Avenida Ana Costa, principal acesso às praias. O incidente foi notícia de jornal!

E a questão da variação do consumo de água? Como medi-la? O Fernando e o Yassuda já haviam analisado as possibilidades e chegaram à conclusão de que o melhor seria medir a variação da vazão de esgoto em vários pontos da cidade, nas estações de recalque, e no emissário, o tubo final que lançava os esgotos no mar, depois da ponte pênsil (em São Vicente). Aliás, fiquei sabendo que a ponte foi construída com o objetivo de levar o emissário para o mar aberto, fora da baía.
Nas estações, a vazão seria calculada em função da variação do nível de esgoto no reservatório para um certo número de minutos. A operação consistia em medir, com uma régua, a diferença de nível após um número pré-determinado de minutos, medidos por cronômetro. A variação do nível era convertida em volume em função da área da seção de cada reservatório. O volume, dividido pelo tempo cronometrado, dava a vazão.
No emissário, a vazão seria medida em função da medida do tempo que um objeto flutuante lançado num poço de visita levava para aparecer no poço seguinte.

O SASC não era responsável pela rede de esgotos, de modo que, para trabalhar nela, tivemos de interagir com outro órgão de saneamento. Fomos igualmente bem atendidos. Conseguimos as plantas das estações de recalque para fazermos os cálculos necessários e combinamos a montagem de uma equipe para a medida das vazões. Foi, então, determinado o período das medições: durante quinze dias, antes e depois do Sete de Setembro, período que iria abranger dias de apenas população fixa e dias de turismo intenso. O trabalho teria de ser contínuo, 24 horas por dia, quatro pessoas por turno, com a equipe se movimentando de um ponto a outro, quatro estações de recalque distribuídas pela cidade e o emissário, em São Vicente. Para a locomoção, usariam uma caminhonete (esta mais moderna do que o Ford 1929), e seu equipamento seria: alavancas para remover tampas de poços de visita, réguas para medição do nível, cronômetro e lanterna. Um deles, o encarregado, registraria as medições em uma caderneta de campo.
No dia marcado, começou a operação. Nos primeiros dias, acompanhei a operação, instruindo as três equipes. Depois que entraram em rotina, passei a fazer inspeções de controle, “incertas”, pois, é claro, tinha de dormir. Recolhia os dados por turno e ia adiantando os cálculos. Tudo corria bem, a caminhonete não deu problema, o pessoal aprendeu bem o trabalho e eu os estimulava destacando a importância do trabalho para o projeto.
Uma noite, lá pela meia-noite, foram me acordar na pensão. Problema: naquele turno, um deles (o cronometrista ou o encarregado) tinha faltado. Não tive dúvida – me vesti e fui com eles, assumi as tarefas do encarregado e rodei com eles a noite inteira  e voltei de manhã. Foi uma noitada e tanto! O pior foi que, quando voltei, pela manhã, havia um panfletozinho debaixo da porta do quarto com uma mensagem religiosa de aconselhamento. Nunca soube de quem foi o recado. Pode ter sido do dono da pensão, protestante praticante, que teria pensado: “O garoto parecia tão comportado, mas está se revelando um grande farrista!”. Ou, então, pode ter sido gozação dos dois conhecidos da pensão, que menciono mais adiante.
Os dados colhidos foram muito interessantes e reveladores, resultados muito importantes de um trabalho que, até onde sabíamos, era inédito. Ficaram muito bem nos gráficos!

Vocês podem estar querendo perguntar: “E o que mais você fazia em Santos – só trabalhava?”.
Bem, eu e Leilah já estávamos na fase do namoro firme, ficaríamos noivos no ano seguinte. Assim, eu subia para São Paulo todo fim de semana, para ver Leilah e  minha família, com quem morei até me casar. Minha vida social era lá.
Em Santos, aproveitei para dar continuidade ao meu estudo de Inglês, praticando conversação. Meu professor era um rapaz, mais novo do que eu, que tinha morado nos Estados Unidos e dava aulas particulares. Foram aulas proveitosas, das quais ficou a lembrança de que ele usava, como apoio,  canções da época, cuja letra analisávamos e discutíamos.
Visitei algumas vezes o Zuza, meu colega de turma mais conhecido como Mario Covas Jr., àquela época Engenheiro da Prefeitura e já casado (ele se casou quando ainda éramos estudantes). Batíamos um papo bom. No ano seguinte ele teria uma atuação social importantíssima, ao ser designado para coordenar o atendimento aos moradores dos morros santistas vítimas dos terríveis deslizamentos ocorridos naquele ano. Ele se destacou muito nessa atividade que, a meu ver, foi o início de sua brilhante carreira política.
Eu assisti, sempre que possível, aos jogos do Santos na Vila Belmiro. O time, mesmo antes do Pelé ser titular, vinha se tornando um dos mais fortes do campeonato paulista (foi campeão em 1955 e 1956), com jogadores muito bons, como Álvaro, Del Veccchio, Vasconcelos, Zito, Formiga, Ramiro e Tite. Dava gosto vê-los jogar.
Na pensão, eu batia papo, após o jantar, com dois vendedores de São Paulo que desciam semanalmente para fazer a praça em Santos e adjacências. Trabalhavam para uma distribuidora que vendia, entre outros produtos, a Savora, uma espécie de mostarda, muito popular naquele tempo. Aparentemente, desciam juntos para economizar na hospedagem e locomoção. Ambos casados, na casa dos trinta anos, passavam de  dois a três dias visitando clientes e tomando pedidos. Um deles, filho de italianos, baixinho, era muito engraçado, especialmente quando contava histórias de sua família, imitando o sotaque dos parentes.

Terminada minha fase de campo, passei a trabalhar no escritório da Ecosa em São Paulo, completando a compilação dos resultados e fazendo o relatório da fase preliminar do Projeto. Nessa ocasião, descia a Santos para completar informações e fazer reuniões com os diretores do SASC.
Finalizado e apresentado meu relatório, os sócios da Ecosa assumiram as fases seguintes  do Projeto e meu trabalho estava concluído.
Dele, ficaram as lembranças de atividades muito interessantes e de uma cidade extremamente simpática. Desde então, visitei Santos muitas vezes, passei férias lá com a Leilah e os meninos, e, mais recentemente, revi suas praias com aqueles jardins muito bonitos. Onde ficava a Pensão São João, na avenida da praia, entre a Conselheiro Nébias e a Washington Luiz, ergue-se um enorme edifício de apartamentos.
Até hoje, quando, ao aproximar-se de São Paulo ou a sair de lá, acontece do avião da Ponte Aérea passar sobre Santos, eu contemplo sua imagem aérea e me recordo da planta da cidade, em forma de cabeça de carneiro, sobre a qual me debrucei tantas vezes.

Meu trabalho seguinte, ainda para a Ecosa, foi uma parte do projeto de remanejamento da rede de águas de São Paulo, Capital. Trabalho que fiz junto ao Professor José Augusto Martins, nosso querido professor da cadeira de Hidráulica e Paraninfo da minha turma.