sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Lembrança de Jair Rodrigues

Um dos meus filhos é músico. Não um profissional, mas um amador que aprendeu técnicas musicais, toca instrumentos, conhece e usa software para composição musical. Em resumo, vive a música, “tem a música na alma”. Observou, sempre, minhas preferências musicais – eu, um leigo, apenas apreciador – e até me ajudou com seus livros quando escrevi sobre Dorival Caymmi. Em maio, quando Jair Rodrigues faleceu, sugeriu que eu escrevesse uma crônica sobre o cantor e publicasse neste blog. Na ocasião, quando muita gente competente escreveu sobre Jair, não me senti à vontade para contar como acompanhamos, a família e os amigos, a carreira dele. Éramos – e somos – seus fãs.




Cara leitora ou prezado leitor:
Cada vez que escrevo sobre música e seus artistas, sinto-me na obrigação de esclarecer que não tenho a pretensão de analisar ou criticar obras ou intérpretes. Nunca estudei música, não tenho bom ouvido e, quando tento cantar, desafino. Porém, gosto de ouvir vários gêneros de música: desde marchinhas de carnaval, sambas, bossa nova, música brasileira em geral, boleros e tangos, até óperas e música clássica.”



Na década de 1960, Leilah (minha esposa) e eu, um casal jovem, ainda morávamos em São Paulo, onde fomos criados (ela nasceu lá). Éramos muito ativos, os dois trabalhavam, e tínhamos uma vida social movimentada, com os parentes e uma boa roda de amigos. Foi um tempo em que a música popular brasileira ganhou muita popularidade entre os jovens; especialmente, a bossa nova, os sambas e a jovem guarda. Cantores, conjuntos e bandas surgiram e fizeram muito sucesso.
Shows em teatros, festivais e programas musicais na televisão tinham uma audiência enorme. Estes últimos ainda eram locais, os artistas tinham de se deslocar para os grandes centros do País, apresentando-se ao vivo em diferentes emissoras. Nesse tipo de espetáculo, a TV Record, de São Paulo, se destacou. Um de seus programas de maior audiência foi o Fino da Bossa, em que Elis Regina e Jair Rodrigues se apresentavam. A dupla havia tido um grande sucesso com shows no Teatro Paramount, em São Paulo, gravados em discos (os memoráveis “Dois na Bossa”) e foi levada à televisão.
No primeiro disco, gravado ao vivo no teatro em abril de 1964, eles interpretam brilhantemente um extraordinário pot-pourri de sambas e alternam solos de canções em que Elis já mostra a qualidade vocal que a levou a ser considerada a melhor cantora de música popular brasileira de sua época.
Eu gostava muito, e gosto até hoje, dos sambas do pot-pourri (“O morro não tem vez”, “Samba do Carioca”, “A Felicidade”, “Diz que Fui por Aí”, “A Voz do Morro", entre outros também muito bons) e das canções notáveis como "Preciso Aprender a Ser Só" e “Arrastão”, por exemplo. A este primeiro disco, lançado em 1965, seguiram-se o “Dois na Bossa Número 2” e o “Dois na Bossa Número 3”, com a mesma estrutura e o mesmo nível de qualidade, com números excelentes de grande sucesso popular; por exemplo, o “Pot-pourri de Mangueira”, o “Pot-pourri Romântico”, “Canto de Ossanha”, “Tristeza”, “Upa Neguinho” e “Amor de Carnaval” (preciso me segurar para não listar todos).
Além desses discos com Elis, Jair gravou, como intérprete solo, muitos outros, que fazem uma respeitável discografia.
Seu grande sucesso foi, certamente, “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, canção de protesto que venceu o festival empatada com “A Banda” de Chico Buarque, interpretada por Nara Leão. Para mim, marcante por sua originalidade foi “Deixa isso prá lá”, de Alberto Paz e Edson Menezes, que o próprio Jair declarou, recentemente, ser precursora do “rap”, porque parte da canção era declamada, com gesticulação peculiar; esta, talvez, a maior razão para seu sucesso.
 
Durante vários anos, já morando no Rio, eu tinha o hábito de ouvir meus discos nos fins de semana; o cardápio era extenso e incluía os discos de Jair Rodrigues. Até hoje, ao ouvi-los, não posso deixar de me lembrar de uma historinha:
Quando meu terceiro filho tinha menos de um ano, foi trabalhar em nossa casa uma moça, a Cleusa, mulata muito bonita, que cuidava dele. Ficou conosco por dois anos. Ela era alto astral, alegre, bem humorada, ouvia música, cantava e dançava com o menino no colo. Tinha ido de São Carlos para São Paulo e morava em nossa casa. Nos domingos à tarde ia, religiosamente, dançar no “Som de Cristal”, clube muito popular, na Vila Buarque, bairro próximo ao centro. Parece-me que lá ela recarregava a bateria para a semana inteira.
Seu ídolo era o Jair Rodrigues, que conhecera em São Carlos, cidade onde ele começou suas atividades artísticas e, segundo ela, trabalhava como alfaiate. Nunca soubemos se eles foram namorados.
Pois é, Leilah e eu sempre nos lembramos da Cleusa, quando ouvimos Jair e quando vemos aquele nosso filho, agora pai de família, mostrar suas habilidades como o melhor dançarino da família e destaque entre os amigos.

Embora sua voz não fosse tão potente e melodiosa como as dos maiores cantores brasileiros, Jair Rodrigues foi certamente um grande intérprete, que lidava, à vontade, com sambas brejeiros, canções românticas e, até, de protesto. E foi, acima de tudo, um artista cativante, que tinha como marca registrada sua excepcional simpatia.

Washington Luiz Bastos Conceição