domingo, 28 de agosto de 2016

A Volta do Velho Torcedor

Cássio e Francisco, dois de meus filhos, me levaram ao Estádio do Maracanã no domingo, dia 21 de agosto. O jogo era a final de futebol masculino da Olimpíada do Rio de Janeiro: Brasil versus Alemanha.
Durante os jogos, o trânsito na cidade sofreu várias alterações e limitações, mas pudemos ir de taxi até as proximidades do estádio e concluir o trajeto a pé. Antes, uma parada técnica no Bar dos Chicos, na Tijuca, para encontrar um amigo de meus filhos, agora de toda a família, que estudou com um deles na Escola Americana, mora em Nova York e veio para assistir aos jogos e matar as saudades do Rio e dos amigos. E lá estava o Bill Cisneros, no bar superlotado, envergando a camisa amarela como, aliás, quase toda a multidão no bar, homens, mulheres e crianças; quase, porque alguns vestiam azul. Bill é fluente em Português, torce feito brasileiro e, tendo passado boa parte de sua juventude no Rio, não se aperta quando vem ao Brasil. Tomamos em chope preliminar com ele, que ainda ia fazer uma boquinha antes do jogo. Seguimos na frente, rumo ao estádio, meus filhos e eu. A caminhada que, para eles, não era nada de mais, para mim foi uma maratona: do bar à entrada principal do estádio (onde fica a estátua do Belini, capitão campeão do mundo em nosso primeiro triunfo em 1958) serão uns 400 metros, mas ainda tínhamos de contornar o estádio até chegarmos ao nosso portão de entrada. Em meio a uma multidão apressada que vinha em sentido contrário, senti que estava correndo a maratona; quase sucumbi, os 83 anos e onze meses pesaram. Pedi para os rapazes diminuírem a marcha, reclamei cada vez que chegávamos a um portão que, para minha decepção, ainda não era o nosso. Enfim chegamos a ele com bastante antecedência; não havia, praticamente, fila para os idosos, a revista foi rápida e adentramos (como gostavam de falar os narradores de futebol) o pátio do estádio, o Maracanã de tantas lembranças para nós, agora reformado para o primeiro mundo. Contudo, a maratona foi apenas interrompida, continuou pelas extensas rampas até chegarmos ao nível 2 em meio a um público crescente. Eu havia recuperado um pouco o fôlego e meus filhos tiveram a paciência de acompanhar meu ritmo lento. No anel do nível 2, após uma visita preventiva aos sanitários (hoje civilizados) buscamos nossa entrada, bloco 218, cujo corredor nos levou ao interior do estádio; aqui, o impacto de uma vista imponente e bela, já pulsando com a chegada do público. Talvez exagerando, tenho nessa entrada uma reação semelhante àquela que sinto cada vez que saio do túnel Rebouças e se abre a vista da Lagoa Rodrigo de Freitas. Mas faltava ainda a última etapa do triatlo (depois da caminhada nas ruas e na subida das rampas): a subida dos vinte e dois degraus que me levariam à fila “V”. Com a vigilância dos meus treinadores pessoais, tive sucesso; concluí a prova mas, infelizmente, minha medalha, agora, só em Tóquio. Achei minha cadeira, acomodei-me e enviei, pelo “whatsapp”, uma mensagem para a Leilah, minha esposa: “Estamos acomodados no Maraca”. Eram 16 horas e 48 minutos e o jogo começaria às 17 e 30.
Luiz, meu filho mais velho, chegou em seguida, vindo do Boulevard Olímpico, no renovado centro da cidade. Bill estava em outro setor das arquibancadas.

Washington, Luiz, Francisco e Cássio

Já havíamos estado no Maracanã, três dias antes, para assistirmos à semifinal, também de futebol masculino, Brasil versus Honduras. Foi uma boa festa, o nossa seleção ganhou de seis a zero. A final, porém, seria um jogo muito mais difícil em que não éramos favoritos – a seleção da Alemanha é muito forte (o futebol naquele país está numa fase muito boa, a seleção principal é campeã mundial, conquistou a copa de 2014) e vencera a Nigéria na outra semifinal.
Lá pelas 17 horas, com o estádio lotado, os jogadores e os árbitros entraram em campo para o aquecimento, provocando excitação da torcida. Os alemães de um lado, os brasileiros do outro e os juízes no meio do campo fizeram exercícios variados, correndo, alongando-se e batendo bola. Aquela movimentação toda já era um espetáculo. Não sei dizer quanto durou o aquecimento, talvez uns vinte minutos. Voltaram ao vestiário e, sem muita demora, iniciaram-se os procedimentos de entrada em campo para o jogo, agora chamados “protocolo”: primeiro as bandeiras, depois os árbitros e os jogadores, que se perfilaram para a cerimônia de apresentação dos hinos. Muito impressionante, arrebatador, foi o canto do hino brasileiro pela imensa plateia do estádio seguido de um aplauso ensurdecedor.
Em seguida, foi dada a saída.

Tenho assistido a muito futebol pela televisão e vou ao estádio muito raramente (mais recentemente, durante a Copa das Confederações e a Copa de 2014), sempre levado pelos meus filhos. No estádio, a visão do jogo em si é muito diferente: vejo o campo todo, podendo observar o posicionamento de todos os jogadores e sua movimentação. Contudo, não consigo observar detalhes das jogadas, especialmente quando estão mais longe do meu posto; em geral, consigo identificá-los pelo jeito de conduzir a bola e, em alguns casos, pela cor das chuteiras. Na televisão é o contrário, vejo bem os detalhes, mas não o posicionamento dos jogadores no campo; e as distâncias entre eles, e deles para o gol, são alteradas pelo enfoque das câmeras.

O jogo começou movimentado, equilibrado, mas logo fiquei preocupado com os contra-ataques dos alemães que tinham dois atacantes bem abertos, juntos às laterais esquerda e direita do campo. Não deu outra: eles acertaram um ótimo chute no travessão após a penetração e o cruzamento da “ponta esquerda”. O velho torcedor aqui não entendia por que o técnico não corrigia o posicionamento da defesa, o que só fazia aumentar meu nervosismo.
Do outro lado (eu estava perto do gol defendido pelo Brasil) nossos jogadores buscavam atacar muito pelo centro do campo e, como os alemães estavam marcando muito bem (e cometiam várias faltas) estava muito difícil marcar um gol. Até que, na cobrança de uma falta, feita com perfeição, o Neymar fez o gol. A torcida que, antes da cobrança, já havia estimulado o jogador bradando “Neymar! Neymar! Neymar!", explodiu em megacomemoração. O Maracanã “quase veio abaixo”, como dizem os jornalistas esportivos. Um a zero foi o resultado do primeiro tempo.
Durante o intervalo, permaneci em meu lugar mas meus filhos me trouxeram um copázio de “chope” (era o meu segundo, o primeiro foi saboreado antes do início do jogo).
Nossa seleção não começou bem o segundo tempo, errou passes no meio de campo, continuou vulnerável pelas laterais e acabou sofrendo o empate numa bela jogada de conjunto dos alemães. Decepção na torcida! Como soe acontecer, após o gol alemão a seleção passou a jogar melhor e buscou muito o segundo gol que, infelizmente, não aconteceu. Veio a prorrogação, em que os brasileiros voltaram a atacar mas não conseguiram marcar; os alemães prendiam a bola usando a tática de contra-ataques, dando a impressão que preferiam ir para a decisão em pênaltis. Parecia que eles achavam, como eu e provavelmente a maioria da torcida, que nessa decisão o nervosismo tomaria conta de nossos jogadores e estes seriam superados pela frieza germânica (como acabara de ocorrer com nossa seleção feminina olímpica de futebol na semifinal, contra a Suécia). O empate permaneceu e os jogadores se prepararam para bater os pênaltis.
Caro leitor ou prezada leitora, talvez você tenha compartilhado comigo e com quase toda a população do País aqueles minutos de ansiedade. No meu caso, preparando-me para o pior.
Foi escolhido para a decisão o gol próximo a nós e a seleção alemã iniciou a cobrança dos pênaltis. As vaias da torcida não impediram que o primeiro alemão marcasse. Em seguida, o primeiro brasileiro também marcou. Assim aconteceu com a segunda, a terceira e a quarta cobranças. Em cada uma delas, a torcida contra o alemão e o coração na boca quando o brasileiro, pressionado pela eficiência do adversário, tinha também de marcar. Admiráveis rapazes, de ambos os lados, bateram muito bem e tiveram sucesso, apesar do esforço dos competentes goleiros. Até que Weverton, o goleiro brasileiro, defendeu o chute do quinto alemão. A esperança da torcida se manifestou mediante um clamor estrondoso; ao mesmo tempo, ninguém se esqueceu de que ainda tínhamos de acertar a quinta cobrança. E o encarregado de bater o pênalti era Neymar.
Enquanto este se encaminhava lentamente do meio de campo para a marca do pênalti, eu me lembrava de minha constatação (que chamo de regra) de que, na decisão por pênaltis, especialmente em torneios de seleções, os craques do time não marcam. Minha observação vem desde a copa do mundo de 1986 no México, quando Zico, Sócrates e companhia foram eliminados pela França (com uma dose terrível de falta de sorte), passando pela copa dos Estados Unidos em 1994, quando o Brasil eliminou a Itália na final – o Baggio, craquíssimo da seleção italiana, mandou a bola para as nuvens e, para não me alongar, mais recentemente, o Messi, melhor jogador do mundo, errou na decisão da Copa América deste ano nos Estados Unidos. Naquele momento, a cabeça ultrarracional do engenheiro cedeu aos seus estímulos sobrenaturais, especialmente à específica superstição de torcedor. Vestido com a mesma camisa (não sei como ainda serviu em mim) e o mesmo boné que usei na copa de 1994, confesso que ainda implorei a Deus que fizesse uma exceção à minha regra naquele dia em que Neymar, nosso craque, ia bater o pênalti decisivo. Imagino, agora, o que terá passado pela cabeça dele no momento da batida do pênalti. Certamente, sentia o peso do Maracanã cheio, com uma torcida única extremamente vibrante, além de saber que os brasileiros todos estavam presos à televisão. Enfim, uma imensa torcida sofrida, abatida pelos insucessos recentes de sua seleção principal.
Neymar marcou com um belo chute, indefensável, e recebeu talvez a maior ovação de sua vida.
Recebi uma chuva de cerveja dos torcedores que, acima e atrás de mim, não se contiveram e brindaram daquela forma. Não me importei, nem minha velha camisa, que foi rebatizada.
A torcida voltou a cantar todo seu repertório muito peculiar (alguns dos cantos eu não conhecia), além dos gritos de "É Campeão!". Mais repetidos foram ”O Campeão Voltou”, “Sou Brasileiro..” e outro que fala dos 1000 gols do Pelé e faz uma referência pouco elogiosa ao Maradona.
Permanecemos no estádio (como quase todos os espectadores, aliás). Após algum tempo, assistimos à solenidade da entrega de medalhas com os alemães circunspectos e os brasileiros festejando muito, aos pulos.
Enfim, a Seleção Brasileira Olímpica de futebol conquistou a medalha de ouro, inédita, tão perseguida nas últimas competições, especialmente porque a seleção principal é pentacampeã mundial.

Espetáculo encerrado, desci com cuidado as escadas e as rampas. Nestas, a multidão barulhenta e entusiasmada continuava entoando seus cantos e, tratando-se de torcida única, não houve problemas. Eu seguia com meus guarda costas, meus filhos e o Bill, que fora se encontrar conosco. Deixamos o estádio.
Como voltar para casa? Descartamos o metrô, pois estaria muito cheio; passamos a caminhar pelo bairro da Tijuca procurando tomar um taxi. No meio de um trânsito pesado, muito lento, os poucos taxis que vimos estavam ocupados, de modo que resolvemos voltar ao bar dos Chicos para esperar aliviar o trânsito. Como não podia deixar de ser, o bar estava cheíssimo e foi difícil arrumar uma mesa para celebrar com alguns chopes e petiscos. O mesmo garçom da tarde, ultra-atarefado e apressado, servia a bebida, o filezinho aperitivo pedido demorou um século. Quando deixamos o bar e conseguimos um taxi para voltar para casa já eram umas onze horas.
Cheguei cansado, parecia que eu tinha jogado 120 minutos marcando o Neymar, mas estava certo de que tinha aproveitado, graças aos meus filhos, uma oportunidade preciosa de participar de um evento especialíssimo para mim.
Feliz, mais uma vez me pergunto se terá sido minha despedida dos estádios. Quem sabe?

Washington Luiz Bastos Conceição