sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Até quando?"

Talvez seja coisa da idade, mas não tolero afirmações de políticos e governantes que façam pouco de nossa inteligência, nosso conhecimento e nossa boa vontade.
Exemplos dessas afirmações são de ex-presidentes, um se dizendo a alma mais honesta do Brasil, outra, ao fazer um discurso “brilhante”, com uma atitude pretensamente didática, explica que não podemos estocar vento. Outro exemplo, recente, é a afirmação do atual presidente dizendo-se tranquilo em meio a um furacão político que poderá liquidá-lo. Tais manifestações me fazem pensar que esses poderosos temporários acham que o povo brasileiro é constituído de imbecis, ingênuos, crédulos e ignorantes, os quais aceitam qualquer declaração dos políticos, por mais absurda que seja. Mesmo os eleitores que neles votaram merecem maior consideração, pois a decisão do voto está sujeita às circunstâncias de cada eleição (ideologia, escolha do “menos pior” e outras). Vejo por trás dessas declarações a influência nefanda do marketing mentiroso, praticado hoje em larga escala.

Um caso recente, que me levou a escrever esta crônica, se destaca pela malícia:
Em 20 de junho, o jornal “O Globo” publicou a seguinte notícia:
Base do IPTU (no Rio) pode subir até 60%.
Proposta negociada pelo prefeito Marcelo Crivella com vereadores prevê reajuste de até 60% na planta de valores, base de cálculo do IPTU. Cerca de 860 mil imóveis devem continuar isentos. Com a crise econômica reduzindo os orçamentos das famílias, o IPTU de 2018 pode atingir ainda mais o bolso dos cariocas”...
Onze dias depois, primeiro de julho, na seção de Ancelmo Gois do Jornal “O Globo”, foi publicada a seguinte nota:
Aumento do IPTU
Do prefeito Crivella sobre suas razões para querer rever as taxas de IPTU no Rio:
— Enquanto o imposto per capita nas cidades de São Paulo e Niterói é, respectivamente, R$ 626,84 e R$ 620,11, na cidade do Rio é de apenas R$ 358,28. Isso apesar de o preço do imóvel em Niterói ser mais baixo que no Rio.
É. Pode ser.”
Pergunto ao caro leitor ou prezada leitora: você já tinha ouvido uma referência de IPTU “per capita”? Sua muito provável resposta é não, pois o imposto é cobrado por área de terreno ou de construção, ou seja, por metro quadrado, que leva em conta a localização do imóvel e o desenvolvimento urbano do bairro.
Usando esse recém-inventado critério de referência, eu poderia reclamar com a Prefeitura por estar pagando mais IPTU “per capita” do que, por exemplo, um casal vizinho do prédio que tenha um filho e que more em um apartamento de mesma área que o meu. Neste, moramos somente minha esposa e eu.
Ainda quanto à nota de primeiro de julho: mesmo que, por curiosidade, se quisesse apurar esse índice “per capita”, teriam de ser levadas em consideração as quantidades de imóveis isentos e a população favelada, o que não sei se foi feito. E mais, por que comparar apenas com os municípios de São Paulo e Niterói e não com as outras capitais de estados, por exemplo? Os números não seriam favoráveis à argumentação de necessidade de aumento do IPTU no Rio?
Essa comparação estranha levanta imediatamente a suspeita de tentativa de enganar o público para justificar um aumento extremamente incongruente com a situação econômica atual dos munícipes.

No atual regime de governo, somente pelo voto nos livraremos dos políticos desonestos e ridículos, mas me parece que vai ser um processo demorado, em etapas.
Enquanto a renovação de nossos governantes e representantes não acontece, aos maus políticos devemos perguntar, como faria Cícero se falasse Português:
“Até quando, “excelências”, nobres homens públicos, vocês vão abusar de nossa paciência? Até quando?”

Washington Luiz Bastos Conceição