segunda-feira, 28 de julho de 2014

Jogo de Botões


Na crônica “Pensamento Mágico”, publicada no caderno da Copa 2014 do Jornal O Globo em 5 de julho último, Luiz Fernando Veríssimo contou que inventou um futebol de mesa com tampinhas de garrafa. Embora eu tenha conhecido o jogo de tampinhas quando, menino, passei algumas temporadas no Paraná, onde nasci, meu futebol de mesa, em São Paulo, foi o de botões. Pela semelhança, essa crônica mexeu com minhas recordações de infância e adolescência e me apressou a atender, hoje, às sugestões de dois leitores amigos para que eu escrevesse sobre o jogo de  botões, pois várias das histórias que conto são semelhantes àquelas que eles próprios viveram.



Lembro-me de ter começado a jogar futebol de botões aos oito anos de idade e de só ter abandonado totalmente esse “esporte” à altura dos quinze anos, ou seja, desde os tempos de escola primária até o início do científico. Ao longo desses anos, mudei algumas vezes de bairro e de escola e, consequentemente, de amigos e colegas. Todos eles jogavam mas, geralmente, com diferentes tipos de botões (os “jogadores”), de bola, de traves e de “campos”. O que não variava era a quantidade de jogadores (os onze do futebol real) e a colocação deles, que seguia a formação dos times daquele tempo: o goleiro (que não era botão, mas sim uma caixa de fósforos com peso dentro), dois “beques”, três “alfos” (os médios) e cinco na linha (os pontas, os meias e o centroavante). De quando comecei, no colégio primário, lembro-me apenas de que o campo era um pequeno terraço de cimento liso e que formei meu time comprando vários números de uma rifa – eram botões grandes, talvez de casaco, vermelhos, e que deslizavam muito bem no “campo”. Desta fase inicial, não me recordo como era a bola (talvez de papel alumínio das embalagens de cigarro), as traves e as regras.

Aos nove anos, quando a família se mudou para a Rua Oscar Freire, em Pinheiros, quase na esquina com Teodoro Sampaio, fiz alguns amigos na vizinhança. O pai de um deles, o Plácido Mainardi, o Cidinho, tinha uma loja de calçados na Teodoro, com um amplo subsolo que, no fundo, tinha uma janela ampla que dava para uma encosta. O local era, pois, arejado e muito espaçoso, de forma que, embora servisse de depósito para caixas de sapato, dava para uns três ou quatro garotos brincarem, até dar uns chutes a gol. Contudo, nossa principal atividade, lá, era (como dizíamos) “jogar botão”. Nessa “liga”, os botões eram aqueles de galalite (plástico duro de antigamente), fornecidos com as cores e distintivo dos clubes, e as traves – ah, as traves – eram caixas de sapato recortadas. A parte interna da caixa retinha as bolas que entravam no gol, fazendo o papel de rede. O retângulo vazado em cada uma tinha dimensões adequadas ao jogo, mas as traves resultavam bem largas. Havia mais chutes à trave do que gols. Mais uma vez, não me lembro do tipo de bola que usávamos, só me lembro de que dava para chutar encobrindo o goleiro (este, de caixa de fósforos). A regra era jogar “controlando” a bola até o chute ou a perda ao tocar no jogador adversário – havia, até, “offside” (impedimento). O campo era uma mesa de cerca de um metro e meio por uns setenta centímetros, devidamente demarcada. No campeonato, fiquei com o time do Palestra Itália, um dos “três grandes” do campeonato paulista, que em 1941 ainda não era Palmeiras.
Nesse tempo, eu treinava sozinho em casa, no chão da copa, onde havia um linóleo. Em uma ocasião, uma amiga de minha mãe que estava passando uns dias em casa ficou intrigada e se divertiu muito com a exclamação do garoto: “Perdi o meu Pipi!”. Era o que eu exclamava, me lamentando. Acontece que Pipi era o ponta esquerda do Palestra (que formava ala com o Lima, o craque do time) e eu não achava o botão. Depois, descobrimos que ele tinha ido parar embaixo da geladeira.

Aos dez anos fui passar o segundo semestre em Ponta Grossa, Paraná, na casa de meus tios padrinhos. Lá, fiz amizade com alguns amigos da vizinhança, especialmente com um piá (menino) da minha idade, o Nacib Tebcherani, e outro mais novo, o Moisés Judkovitch. Eles não jogavam botão, o futebol de mesa deles era com tampinhas de garrafa. Diferentemente do caso dos botões, impulsionados mediante um “apertador” (uma ficha com a qual se pressiona o botão) as tampinhas eram movimentadas mediante piparotes com o dedo indicador. O campo do Nacib era um tabuleiro de madeira forrado, de cerca de um metro por cinquenta centímetros, colocado sobre uma mesa. As traves eram menores do que as do jogo de botões e os goleiros eram tampinhas amassadas preenchidas com uma massa (cera de abelha, talvez) para lhes dar peso. Novamente, tenho dúvidas sobre o material utilizado para fazer a bola. A quantidade e colocação dos jogadores correspondiam também ao futebol real. Apesar das diferenças em relação aos botões, consegui jogar com eles, com alguma desvantagem pela falta de prática. Pelo jeito, era o mesmo jogo que o Veríssimo mencionou em sua crônica. Assim mesmo, na casa de minha tia, eu também jogava botão, sozinho, com um time que montei lá. Na volta a São Paulo, retomei o jogo de botões. No segundo semestre do ano seguinte, fiz nova temporada em Ponta Grossa e repeti o programa.

A seguir, em 1943, fui morar em Heliópolis, então um pacato bairro afastado do centro de São Paulo onde tive vida de cidade de interior daquele tempo. Lá, fiz novos amigos e, entre várias atividades, jogamos muito botão. Foi a fase mais importante em minha história do futebol de botões, pois disputávamos campeonatos de forma regular, seguindo uma tabela, com juiz, sempre que possível, e fazendo uma súmula das partidas.

Neste ponto, acho melhor transcrever, de meu livro “Histórias do Terceiro Tempo”, a descrição de nossos jogos de botões em Heliópolis, apresentada no capítulo “Nos tempos de Heliópolis”.



O jogo de botões e os jornalistas esportivos

No campeonato de botões, como era uso em toda parte, o time de cada participante correspondia a um time do campeonato principal da cidade. O nosso campeonato em Heliópolis tinha Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Portuguesa, Santos, Ipiranga, Jabaquara e Nacional, pelo menos. Como o Bertinho (meu amigo Gilberto) era o mais velho e corinthiano mais antigo, ficou com o Corinthians. Eu fiquei com o São Paulo. Os outros participantes, todos do bairro, ficaram com os outros times.
 
Os botões eram, na verdade, fichas grandes de uns dois centímetros e meio de diâmetro, com propaganda do Café Paraventi. Já existiam botões específicos para o jogo, mas não eram apropriados para nossa forma de jogar. Comprávamos as fichas e as raspávamos para deslizarem no chão sem saltar e, quando necessário, levantar a bola. Os goleiros eram de caixa de fósforos, com chumbo dentro para devolverem melhor a bola e resistirem ao impacto dos jogadores. Usávamos bolas esféricas de cortiça, com cerca de um centímetro de diâmetro, que nós mesmos fabricávamos a partir de rolhas de garrafa, cortando inicialmente como um cubo, a seguir aparando as arestas, formando poliedros, e depois lixando até obter a forma esférica. Exigia habilidade, tempo e paciência. As traves eram de madeira com rede de filó, em tamanho padrão, que também fabricávamos nós mesmos.
Os jogos eram cronometrados com um despertador e era designado um juiz para dirimir dúvidas.
As regras eram relativamente complicadas mas todos as conheciam muito bem.
Pomposamente, chamávamos a nossa organização de F.H.F.B., ou seja, Federação Heliopolitana de Futebol de Botões.
 
Após os jogos, publicávamos as reportagens em nosso jornalzinho manuscrito, “O Esporte Mirim”, usando o mesmo tipo de linguagem dos jornalistas do "O Esporte". Este era o jornal que líamos às  segundas feiras para sabermos os detalhes da rodada do Campeonato Paulista. Era impressionante nossa imaginação ao descrevermos as jogadas dos botões como se eles fossem gente, jogadores de verdade! O Bertinho e eu revezávamo-nos na produção do jornal, sempre que tínhamos tempo para fazê-lo.
Pois, pasmem! Outro dia, examinando material antigo, dentre livros, discos, fotos, etc., para separarmos o que iríamos conservar ou não, achei uma amostra desse jornalzinho nosso.
 
Não resisti à tentação de transcrever dois trechos das notícias, porque espero que, como eu, vocês se divirtam com elas:
Quando um dos amigos desistiu de jogar botão, outro o substituiu com o time do Santos. Noticiei assim:
“Santos, 22 – Foi empossada ontem, dia 21, a nova diretoria do Santos F.C.. A cerimônia teve início às 19 horas, culminando com o prélio amistoso em que se defrontaram as equipes do Santos e do C. A. Ipiranga, que, num gesto digno de louvor, se ofereceu para abrilhantar a noite de ontem, tão importante para as cores do clube praiano. ...”
 
 

 

Nessa mesma semana, o Waldir Balsimelli, que era mais novo do que eu e  era principiante, foi jogar comigo, no terraço de minha casa. O time dele era o Santos, o meu o São Paulo. Foi um jogo amistoso em que ganhei facilmente. Noticiei assim:
“Visitando nossa capital ontem, dia 24, a equipe do Santos F.C., da vizinha cidade praiana, preliou com o quadro do S. Paulo F.C., no Estádio Municipal do Pacaembu. ... Decorrente de sua maior presença no gramado, o S.Paulo triunfou por uma larga margem de tentos. ...”
 
 

A atuação dos jogadores também era analisada. O centro avante era uma ficha dupla que ficava avançada e a bola parava nele para chutarmos a gol com os meias (fichas simples) – por isso estes eram os artilheiros. A atuação do meia Yeso e o centro avante Leônidas (na vida real, “O Diamante Negro”) foi assim avaliada:
“Yeso: Foi o artilheiro, marcando cinco gols, aproveitando todas as oportunidades. Leônidas: Distribuiu várias bolas para os meias, apesar de não ter assinalado nenhum tento.”
Eu não era tão criança assim, tinha 14 anos, mas a imaginação ainda era rica.

Quem terá guardado o jornalzinho? Talvez, minha mãe.
 


Depois dos tempos de Heliópolis, outras atividades fizeram com que eu deixasse de jogar botão. Além disso, pelos costumes da época, já tinha passado da idade. Esporadicamente, joguei ainda umas poucas partidas com meu amigo Sérgio Bastos, para relaxarmos um pouco dos estudos, e com meus primos de Paranaguá, quando, aos vinte anos, fui visitá-los. Mais moços do que eu, jogavam em uma mesa de pingue-pongue e um deles irradiava as partidas.

Essas recordações, agora, me impressionam por quanto havia de imaginação nesse jogo: os botões eram jogadores, sendo o goleiro uma caixa de fósforos; mesas, terraços ou soalhos se tornavam campos de grama; os toques dos botões na bola tinham as variações e sutilezas dos chutes reais; e, ainda, quando a bola batia em um botão era uma cabeçada do jogador.

Em seus variados aspectos, acima de tudo, jogar botão era um exercício fantástico de imaginação.

Washington Luiz Bastos Conceição