terça-feira, 16 de junho de 2015

História – Fatos e fantasias


Meu primeiro contato com a História – História do Brasil e História da Civilização (chamada depois História Geral) – foi mediante aulas na escola primária e a leitura de livros didáticos.
Entendo que, desde os primeiros tempos, a ficção na História foi introduzida pelos historiadores que procuravam enaltecer os personagens, talvez como homenagem aos seus heróis ou talvez porque estivessem a serviço dos poderosos, cunhando frases e imaginando gestos que valorizavam o texto, tornando-o mais interessante. Essas frases e gestos passaram às sucessivas gerações, de forma que as crianças do meu tempo acreditavam piamente no que lhes contavam. Exemplos?
Exemplos: terá César, realmente, declarado bombasticamente  “Alea jacta est!” ao decidir atravessar o Rubicão? Na guerra contra os holandeses, no nordeste do Brasil, em uma daquelas complicadas batalhas navais, será verdade que o comandante holandês de uma das naus, que estava naufragando, lançou-se ao mar bradando: “O mar é o único túmulo digno de um almirante batavo!”? Dá para acreditar nisto? E o grito do Ipiranga, de D. Pedro I, realmente aconteceu da maneira que nos foi contada? Ou, antes de fazer o gesto e lançar o brado, não terá ele dito alguns impropérios ao ler a carta de José Bonifácio?
Essas prováveis fantasias, românticas, foram algumas das primeiras ficções inseridas no meu aprendizado de História.
Lembro-me também de algumas distorções ou omissões, como a observação que a professora fazia, envaidecida, de nossa independência ter sido conquistada de forma pacífica, sem guerra (a expressão, dramática, era “sem derramamento de sangue”), uma exceção admirável na história das nações. Os professores omitiam a guerra travada na Bahia, onde a luta pela Independência se iniciou em março de 1822 e só terminou em 2 de julho de 1823, quase um ano depois do 7 de setembro. Custou milhares de vidas e acirradas batalhas terrestres e navais.
Quando minha família se mudou para um bairro afastado de São Paulo, no final do Ipiranga, eu havia concluído o curso primário; em seguida, iniciei o secundário (ginasial). No meu trajeto para o colégio, passava (de bonde) por várias ruas com nomes referentes à proclamação da independência. Eram: Rua Independência, Avenida D. Pedro I, Rua do Manifesto, Rua do Grito... Outras tinham nomes de pessoas cujo relacionamento com nossa história eu não conhecia. Por exemplo, Lord Cochrane, Labatut, Comandante Taylor e Almirante Delamare. A data Dois de Julho, nome de outra rua, também me intrigou.
Pesquisei e fiquei sabendo que os homenageados eram profissionais contratados, formalmente, para defender o Império Brasileiro e sua principal atuação foi na Guerra de Independência da Bahia (ou seja, de grande parte do Brasil). A Rua 2 de julho comemora a data de encerramento da guerra, com a vitória brasileira.


No curso secundário, os professores já destacavam os interesses políticos e econômicos que estavam por trás dos eventos históricos. Os alunos passaram a ter, com isso, uma visão crítica da História e as mais variadas interpretações eram consideradas e analisadas pelos alunos.
Lembro-me, dessa época, de uma história alternativa sobre a morte de Tiradentes, herói nacional que nos faz tanta falta agora (pois poderia lutar contra a "derrama" atual). Ele teria mesmo sido enforcado?
Tive um professor de Química no colégio (segundo grau) que, além de cumprir o programa de sua matéria, gostava de desafiar seus jovens alunos com discussões polêmicas. Um dia, foi provocado por um colega: “Professor, é verdade que Tiradentes morreu na cama?”. O colega ouvira falar que o professor tinha uma teoria segundo a qual Tiradentes não foi realmente enforcado. Aceitando a provocação, o professor demonstrou, mencionando detalhes, que não havia provas do enforcamento e esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier. Não me lembro de sua argumentação, mas o que ele apresentou era razoável e nos fez pensar. No final da exposição, um colega perguntou: “Como foi que o senhor ficou sabendo dessa história?”. O professor respondeu: “Eu era um dos guardas que estavam ao lado de Tiradentes”.
Nós, os alunos, entendemos que se tratava de um exercício bem humorado de análise da narração histórica. Ainda assim, lançou dúvidas sobre qual das versões seria a verdadeira, pois o objetivo da coroa portuguesa era abortar a insurreição e intimidar os colonos. A pessoa sacrificada poderia ter sido alguém já condenado e não Tiradentes, o importante dentista, militar e minerador.


Depois que os políticos e chefes de estado passaram a usar propaganda maciça enganosa no melhor estilo de Goebels, ficou muito difícil o trabalho dos historiadores. Em compensação, estes são ajudados pelos abundantes registros da mídia, que se vale de recursos tecnológicos cada vez mais avançados. Não dá mais para um político afirmar, sem cair no ridículo, “Eu não disse isso!”, quando existe um vídeo que poderá desmenti-lo. O uso desses registros é um bem precioso adquirido pela democracia, do qual não podemos abrir mão.

Espero que o ensino de História seja, hoje, bem melhor e, principalmente, que não estejam mais enganando as crianças.

Washington Luiz Bastos Conceição