sexta-feira, 28 de junho de 2019

Osmar e Jurema – Vivendo o tempo da guerra - Segunda Parte


Cara leitora ou prezado leitor:
Nesta crônica sigo fazendo um resumo da evolução da segunda guerra mundial e dos acontecimentos no Brasil, procurando dar uma ideia do ambiente em que viveram Osmar e Jurema naqueles anos.

Em 1943, a guerra passara a ser favorável aos aliados. As batalhas de Midway e Guadalcanal foram grandes e significativas vitórias suas no Pacífico. Essas vitórias marcaram o “turning point”, a virada, na guerra contra o Japão. No norte da África, após as idas e vindas das batalhas no Egito e na Líbia, os aliados empreenderam, a partir do Egito, um ataque decisivo às tropas de Rommel, em sua marcha para oeste através da Líbia. Este ataque foi seguido por desembarques anglo-americanos no norte da África francesa, o que resultou na reunião das forças aliadas na região. Estas, em maio de 1943, conquistaram a Tunísia e as tropas do eixo se retiraram da África. No Mediterrâneo, palco de muitas batalhas aéreas e navais por sua importância como caminho dos navios mercantes que faziam o abastecimento de suas tropas, os aliados neutralizaram a marinha e a aviação italiana. Na Europa oriental, a Rússia deteve o avanço alemão na Batalha de Stalingrado, cidade às margens do rio Volga, próxima a Moscou, em fevereiro de 1943. A partir dessa batalha, a União Soviética passou a contra-atacar a Alemanha.

Churchill e Roosevelt tiveram um encontro em Casablanca, em janeiro de 1943, no qual discutiram o desembarque das tropas aliadas na costa atlântica da França. Chegaram à conclusão de que os aliados ainda não estavam preparados para realizá-lo com sucesso. Decidiram, então, invadir a Itália, para derrubar Mussolini e fazer Hitler desviar tropas da frente russa.
Em julho, o 7º. Exército Americano, comandado pelo General Patton, e o 8º. Exército Britânico, comandado pelo General Montgomery, desembarcaram na Sicília e, após enfrentarem tropas italianas e alemãs, conquistaram a ilha em agosto. Nesse mesmo mês, Mussolini caiu; o Marechal Badoglio assumiu o governo italiano e negociou com os aliados um armistício, celebrado em 3 de setembro. Ou seja, a Itália se rendeu. Contudo, as tropas alemãs permaneceram, ocupando o país.
A conquista da Sicília propiciou aos aliados a abertura de uma nova frente de combate, ao desembarcarem na Itália continental, frente de enorme importância estratégica. A árdua campanha na Itália, que duraria até 1945, passou a ser travada entre os aliados e a Alemanha.

Em maio de 1943, em nova reunião, desta vez em Washington, Churchill e Roosevelt concordaram em realizar a invasão da costa francesa. Em agosto do mesmo ano, foi aprovado um plano que previa o desembarque em maio de 1944.
Em 6 de junho, os aliados desembarcaram na Normandia, iniciando a invasão da França ocupada pelos nazistas. Era uma ação esperada pelos alemães, que reforçaram fortemente suas posições na costa atlântica da França.
Houve uma série de operações prévias para despistar os alemães quanto aos locais dos desembarques, o que foi conseguido, pois os alemães esperavam que a invasão se desse mais ao Norte, em local próximo a Calais. Mesmo assim, os desembarques, realizados com poderosíssimo apoio naval, foram muito difíceis e custaram muitas baixas nas tropas aliadas. Os combates que se seguiram, constituindo a chamada Batalha da Normandia, foram encarniçados, com avanços e recuos dos aliados. Contudo, em 25 de agosto, Paris foi liberada.
Parecia, então, que a guerra na Europa estava bem próxima do fim, mas não foi o que aconteceu.


Após a declaração do estado de guerra com Alemanha e Itália, em agosto de 1942, o governo brasileiro estava preocupado com nossa população originária dos países do eixo, pois havia uma probabilidade de subversão ainda não avaliada. Os ataques criminosos de Hitler aos indefesos navios brasileiros provocaram grande revolta popular que poderia ter como consequência atos de violência contra as colônias alemãs, japonesas e italianas nos Estados do sudeste e do sul. A atuação moderadora de Getúlio Vargas foi da maior importância, sempre com o objetivo de impedir tais atos de violência. Pessoalmente, ele fez valer sua popularidade recorrendo a discursos, especialmente aos jovens mais exaltados, dizendo que não deveríamos usar com aqueles imigrantes ou seus descendentes os métodos cruéis que os nazistas usavam com populações inocentes.
Por outro lado, Getúlio sabia que o fato do Brasil, sob um governo ditatorial, se aliar às democracias contra as ditaduras do eixo iria fortalecer a oposição interna ao seu governo, pois ninguém acreditava na propaganda de um Estado Novo “democrático”.
Enquanto enfrentava essas dificuldades, o governo tratava de formar e treinar os contingentes da FEB (Força Expedicionária Brasileira), criada em 1943, para a participação ao lado dos aliados na campanha da Itália. Era uma força militar aero terrestre, formada por uma divisão de infantaria completa, uma esquadrilha de reconhecimento e um esquadrão de caças.
A partida do Primeiro Escalão (como era chamado cada contingente) se deu em julho de 1944, logo após desfilar na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Foi muito aplaudido. Getúlio, grande orador, dirigiu-se, assim, aos “pracinhas”: “Chegou a hora de honrar a pátria, a pátria tudo espera de vós e orgulha-se de vossa coragem consciente, de vossa dedicação. Que a bênção de Deus vos acompanhe, como vos acompanham nossos espíritos e os nossos corações, até o regresso, com a vitória”.
O segundo escalão partiria em setembro; o terceiro, em novembro; o quarto,  em fevereiro de 1945. Na Itália, os brasileiros desembarcaram em Nápoles. Como constituíam uma divisão integrada ao 5º. exército dos Estados Unidos, comandada pelo General Clark, recebiam, nas primeiras semanas, o equipamento e o treinamento adicional necessários sob a supervisão do comando americano.
Quando os brasileiros chegaram, os aliados já haviam conquistado a Sicília e estavam em plena campanha na Itália continental. Contra a expectativa dos generais aliados, Hitler decidiu resistir firmemente ao avanço das tropas aliadas na Itália para evitar que estas se aproximassem do sul da Alemanha. Enviou mais divisões “Panzer” àquela nova frente de guerra, chegando a desviar forças da frente oriental. Com a rendição do governo italiano, o exército nazista ocupara o território de seu antigo aliado e passara a tratar a população do país como traidores. Em condições extremas de mau tempo nas montanhas (muita chuva e muito frio), foram travadas batalhas que tocaram à barbárie. Houve casos de comandantes receberem a ordem de “não fazerem prisioneiros”.
A campanha da FEB na Itália iniciou-se em setembro de 1944, quando seu primeiro contingente, comandado pelo General Zenóbio da Costa, atuou junto a outras unidades americanas na liberação do Vale do rio Serchio (ao norte da cidade de Lucca), da ocupação alemã. A partir de novembro, os brasileiros, já constituindo uma divisão completa sob o comando do General Mascarenhas de Moraes, receberam a missão de expulsar dos Apeninos setentrionais as tropas alemãs que, de suas posições nas montanhas, impediam o avanço do 8º. Exército britânico na região entre o centro da Itália e o mar Adriático. Dentre estas posições estava Monte Castello. Após algumas tentativas fracassadas nos meses de novembro e dezembro, ficou claro que para a obtenção do sucesso em tal empreitada seria necessário um ataque conjunto por duas divisões, o que aconteceu em fevereiro e março de 1945. À FEB, se juntou a 10ª. divisão de montanha dos Estados Unidos. Os brasileiros tomaram Monte Castello e Castelnuovo e os americanos, Belvedere e Della Torraccia. Estas conquistas possibilitaram o início da ofensiva final de primavera, quando a divisão brasileira travaria, em Montese, sua última batalha na Itália.
As forças do 8º. exército britânico, após meses de combate, puderam avançar sobre Bolonha, ultrapassando as últimas posições da Linha Gótica, última linha de defesa dos nazistas na Itália.
Na campanha da Itália, a FAB (Força Aérea Brasileira), com sua esquadrilha de reconhecimento aéreo e seu esquadrão de caça, teve desempenho importante na destruição de depósitos de munição e de combustível, bem como de caminhões, tanques e locomotivas inimigos. Por tal desempenho, viria a receber honrosa citação do congresso dos Estados Unidos.

Os pracinhas combateram com bravura, com o sacrifício de centenas de mortos e milhares de feridos. Além disso, deixaram uma imagem muito boa junto à população italiana local.
A FEB adotou o lema "A cobra está fumando", uma resposta àqueles que, antes da campanha, diziam que seria "mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra na Europa". Daí os expedicionários usarem o distintivo abaixo:
A Cobra está fumando
Os brasileiros acompanhavam intensamente o andamento da guerra, vibrando e se preocupando com o noticiário do rádio e dos jornais. Até 1943, eu, como já contei, acompanhava as notícias da BBC de Londres com meu tio Lascínio, em Ponta Grossa. Depois, em São Paulo, lembro-me dos programas noticiosos da Rádio Tupi, PRG2, especialmente daquele rádio jornal da hora do almoço que, depois da invasão da Normandia, passou a se chamar “A Segunda Frente Sonora”.
A FEB foi um grande assunto para todos nós. Participar ativamente de uma guerra mundial contra ditaduras ameaçadoras, enviando tropas nossas para o “front”, era uma emoção nova.
Para esse sentimento contribuiu muito a propaganda do governo. Passei o segundo semestre de 1943 em Ponta Grossa, Paraná, e estudei por lá. Naquele ano, a lista de hinos que nós, crianças, cantávamos no pátio da escola era longa: incluía, entre outros, o Hino à Bandeira, o da Independência, a Canção do Marinheiro (o “Cisne Branco”, meu preferido), o Hino a Caxias e a Canção do Soldado. Nesta, alteraram a letra quando o Brasil declarou a guerra: o verso “porém se a Pátria amada for um dia ultrajada” passou a ser “porém como a Pátria amada foi agora ultrajada”. Aliás, Getúlio era muito bom de marketing, pois havia até um Hino ao Estado Novo!
Mesmo com tal cardápio de hinos, foi composta, especialmente para a FEB, a “Canção do Expedicionário”, um grande sucesso em termos de motivação. Escolhida por concurso, a canção-hino, música do maestro Spartaco Rossi com letra do poeta Guilherme de Almeida, ficou muito bonita e emocionante. A letra se inicia com o soldado se apresentando, mencionando as várias regiões do País, e combina poesias e músicas tradicionais brasileiras. Teve o mérito de ser feita para ser cantada fora do Brasil, onde o brasileiro se mostra mais patriota. E foi, também, muito cantada no Brasil. A “Canção do Expedicionário” mexe comigo até hoje.

Na ocasião do embarque dos escalões, o entusiasmo geral se abatia um pouco pela perspectiva de perdermos muitos de nossos soldados nos campos de batalha. Sabíamos todos que os combates eram encarniçados, de modo que ir para a guerra envolvia um risco de vida muito grande.
Maninho, filho de tia Anete, irmã de Osmar, fora convocado pelo exército em 1943 e estava em Curitiba, em preparação para integrar um dos escalões da FEB. A família torcia, desde a partida do primeiro escalão, para a guerra terminar antes de ele embarcar. O ano de 1944 foi de sobressalto para minha tia; a cada novo embarque ele permanecia em Curitiba, mas com a perspectiva de participar do seguinte; depois do quarto, era certo que chegaria a vez dele. Estava preparado e já era cabo. Quando não houve o embarque de um quinto escalão, a família respirou aliviada. Foi sorte? Talvez. Pensando bem, o mais provável é que ele, por ter escolaridade maior do que a média, tenha se tornado instrutor. Contudo, havia aqueles que achavam que o fato de ele jogar na seleção de futebol do exército em Curitiba teve influência em sua escalação. Maninho deu baixa do exército como sargento.



Nos anos de 1944 e 1945 as dificuldades de vida no Brasil, trazidas pela guerra, principalmente aquelas causadas pela falta de alimentos e de combustível, continuaram. Alterações importantes na vida de Osmar e Jurema, nesse período, foram o desenvolvimento dos filhos, com suas novas necessidades; a mudança de Tia Anete, irmã de Osmar, de Ponta Grossa para Heliópolis, com a família; e as visitas de Balbina e João, pais de Osmar. A descrição desses fatos e do cotidiano da família será o assunto da terceira parte de “Vivendo o tempo da guerra”.

Washington Luiz Bastos Conceição



Nota:
. Há vários áudios e vídeos da Canção do Expedicionário. Um deles, que apresenta a letra em destaque está no “link”:

Referências históricas:
· Toledo, Roberto Pompeu. A capital da vertigem: Uma história de São Paulo de 1900 a 1954. Objetiva. (Kindle Edition.)
· Quadros, Jânio e Franco, Afonso Arinos de Melo. História do Povo Brasileiro. J. Quadros Editores Culturais.
· Wikipedia.
. Evans, A.. A compacta história da Segunda Guerra. Universo dos Livros. Edição do Kindle.
. Beevor, Antony. The Second World War. Edição do Kindle.