terça-feira, 7 de julho de 2015

O jornal e a força do hábito

Outra manhã, ao me levantar, fui à sala, destranquei e abri a porta de entrada do apartamento, e – decepção! – nada de jornal no “hall”. Já estava me dirigindo ao interfone para perguntar ao porteiro do prédio se o entregador tinha faltado ou se atrasado (como aconteceu algumas vezes), quando me lembrei de que era o dia em que passávamos, em casa, a uma nova modalidade de assinatura: agora, de segunda a sexta, o jornal é digital – lemos na internet – e sábado e domingo recebemos a versão impressa.

Já faz algum tempo que me pergunto e discuto com amigos a tendência dos jornais escritos se tornarem digitais, disponíveis apenas na internet para serem lidos nos computadores, “tablets” e telefones celulares. Tratei do assunto na crônica que publiquei em novembro de 2012, “O jornal impresso vai se tornar obsoleto?”. Nessa eu comentei que, cada vez mais, o jornal priorizava assuntos e detalhes de notícias, segundo o critério dos editores, estimulando a leitura complementar no seu site. E, apesar dessa evolução, concluí que “vamos, por bastante tempo, ler os jornais impressos, pois a passagem total para a leitura eletrônica, embora estimulada por fortes fatores econômicos, será gradativa e demorada.”
Essa minha expectativa não mudou, pelas razões que expus na crônica e, mais, devido à eficiência do sistema de distribuição domiciliar aos assinantes montado pelos principais jornais, muito aproveitado para a veiculação de propaganda impressa (anúncios, encartes, etc.). De qualquer forma, a tendência é dos jornais e revistas se “digitalizarem” cada vez mais.

A solução que adotamos agora, seguindo o que já fizeram meus filhos, não visou a, apenas, economizar um pouco, compensando a recente alta do preço da assinatura, mas também a resolver alguns pequenos problemas de nosso dia a dia. Por exemplo: Leilah, minha mulher, lia todo o jornal no dia e eu, muitas vezes, deixava algum artigo para ler “com calma” nos dias seguintes. Como consequência, ou os jornais velhos se empilhavam na saleta, o que Leilah detestava, ou ela os punha fora e eu tinha de procurar na área de serviço, destino temporário deles, aquele que continha a matéria que me interessara. Raramente a encontrava. Um “stress” desnecessário. Outro problema era a perda, às vezes, de um caderno que costumávamos ler, quando separávamos para descartar (tarefa que dava algum trabalho) os anúncios e encartes, os quais raramente nos interessavam.
Além das inconveniências, analisei, por outro lado, o que perderia durante a semana ao ficar sem o jornal impresso: a página de passatempo, onde fazia, na sesta, as palavras cruzadas e enfrentava o logodesafio (formação de palavras com letras apresentadas fora de ordem). Decidi que, de segunda a sexta, imprimiria a página para fazer esses exercícios (que, dizem, são bons para prevenir o Alzheimer).
Cerca de três semanas depois da mudança, constatei que ainda não me adaptara a ela e estava lendo menos, pois, ao ligar o computador, iniciava minhas atividades habituais e deixava a leitura para depois. Mesmo considerando que alguns eventos familiares agitaram esses dias, percebi que me faltou estabelecer um novo “modus operandi”.
Hoje, comecei a seguir um novo programa de leitura: de manhã, após o café, ligo o computador e vou direto ao jornal digital, o que substitui o processo de recolher o jornal impresso do “hall”. Depois, ainda no computador, passo aos afazeres (correspondência e escrita, principalmente).
Leilah está lendo o jornal em seu Ipad, o que já faz há algum tempo com a revista semanal que assinamos nas duas versões, digital e impressa.
Quanto ao ganho do leitor, é inegável que há muito mais matéria na edição digital, o assinante pode ler números anteriores, textos e imagens podem ser aumentados (zoom), enfim, os recursos disponíveis são muito convenientes.
Por que, então, ainda mantivemos os jornais impressos nos fins de semana? Porque consideramos a solução adotada um primeiro passo e porque ainda queríamos ter, especialmente no domingo, aquela sensação de pegar o jornal, a revista, os suplementos, espalhá-los na saleta de leitura e gozar aquele relaxamento de fim de semana, ainda válido para aposentados. E também (por que não dizer?) o papel de jornal velho faz falta em casa, às vezes, mesmo depois do advento dos sacos de plástico e do papel toalha.

Para mim, a dificuldade de adaptação ao jornal digital é a força do hábito de leitura em papel, arraigado há tantos anos. Essa dificuldade será resolvida, simplesmente, com a criação de um novo hábito de leitura. E este irá, em pouco tempo, adquirir sua própria força.

Washington Luiz Bastos Conceição