terça-feira, 22 de abril de 2014

Histórias Policiais


Romances e contos de literatura policial continuam tendo muito sucesso de vendas. Este tipo de história (de mistério, crime, suspense e casos de tribunal) tem atraído muito os leitores de livros. Exemplo recente é a trilogia Millenium de Stieg Larsson, três livros volumosos “que todo mundo leu”. Também li.
Minha leitura de entretenimento sempre incluiu romances e contos policiais. Há algum tempo, minha preferência recaiu sobre livros de John Grisham. São “turnpagers”, é difícil interromper sua leitura. Eu os apreciei muito; se não tiver lido todos, faltam poucos. É o tipo de escritor que “escreve sobre o que conhece muito bem”. Advogado, suas histórias de ações criminais, investigações e disputas jurídicas são carregadas de detalhes muito interessantes. Após um início difícil como escritor, conseguiu vender muito bem seus livros e suas histórias foram levadas para o cinema. Ganhou muito dinheiro com seu talento e com grande esforço e perseverança. Entre seus livros (mais de trinta) estão, por exemplo: “Tempo de Matar” (A Time to Kill), “A Firma” (The Firm),  “O Dossiê Pelicano” (The Pelican Brief), "O Juri” (The Runaway Jury). Quem não os leu, pode ter assistido aos filmes. Como exceção, “A Casa Pintada” (A Painted House) não tem cenas de tribunal, mas é uma impressionante história de crime e suspense.
Antes do Grisham, li autores do gênero policial, como Agatha Christie, com suas incríveis histórias de detetive; John Le Carré e Ian Fleming, tratando de espionagem e de muita ação. Tudo ficção da boa, sem muito compromisso com a realidade.
Minha iniciação nas histórias policiais se deu com a “Mistério Magazine”, revista mensal lançada nos Estados Unidos em 1941, que li com regularidade, em Português, na década de 1950. Para mim, era uma época de muito estudo na Politécnica, com exercícios e projetos, trabalho técnico intenso, sempre em luta contra o tempo. Quando entrava em férias, o que eu menos queria era ler coisa pesada, queria descansar por algum tempo dos assuntos de Cálculo, Termodinâmica, Geometria Analítica, Eletrotécnica, Mecânica, Resistência de Materiais e outros. Recorria, então, à leitura de entretenimento, que incluía contos policiais, especialmente aqueles publicados na Mistério Magazine. Esta trazia, com frequência, contos de vários autores renomados no gênero e de outros, famosos, que participavam esporadicamente; dentre estes, Agatha Christie, Dashiel Hammett, George Simenon, Conan Doyle e Erle Stanley Gardner.
O que eu encontrava muito interessante nessa leitura era o desafio para o leitor deslindar o mistério antes do final da história, ou adivinhar como ela iria terminar. Sim, porque havia tipos diferentes de enredo: o tipo mais comum era aquele do trabalho do detetive, o de descobrir quem praticou o crime cometido, descrito no início da história; em outros casos, o criminoso era identificado desde o início pelo autor e a curiosidade era saber como ele tinha cometido o crime ou porque o tinha cometido; ou, então, acompanhar a ação da captura do criminoso.
Em geral, o autor jogava limpo com o leitor: nas histórias de detetive havia, normalmente, mais de um suspeito. No final, entretanto, quando o detetive esclarece o crime, os fatos que o levaram à conclusão haviam todos sido mencionados no decorrer da narração. O leitor experiente desconfiava que o criminoso não seria o suspeito mais exposto e poderia ter uma ideia antecipada do resultado, mas continuava interessado e lia sempre até o fim.
Dentre os protagonistas dos contos de detetive, lembro-me de alguns: um deles, um ex-policial, era consultado por um amigo, que estava ainda na ativa, e resolvia os mistérios; em geral se encontravam em um bar. O ex-policial gostava de xerez e tinha o cacoete de passar a mão em frente ao nariz como se estivesse espantando uma mosca. Outros detetives, personagens de autores famosos, também conheci na  Mistério Magazine:  o detetive Hercule Poirot, personagem de Agatha Christie; Perry Mason, de Stanley Gardner; Inspetor Maigret, de Simenon. Nero Wolfe e seu super-assistente Archie Goodwin, personagens de Rex Stout, que apareciam frequentemente com histórias muito boas, sempre muito intrincadas.
 
Rex Todhunter Stout
em 1931
Tentei obter pelo menos um exemplar da revista daquele tempo, para reler e recordar as histórias, mas não tive sucesso. Resolvi, então, focar um dos autores como exemplo e escolhi Rex Stout; comprei três e-books dele e refresquei a memória.
Detetive particular altamente conceituado, Nero Wolfe era realmente brilhante. Além disso, era campeão em excentricidade. Famoso e caro, vivia e trabalhava em Manhattan, em sua casa de três andares, à Rua 35, oeste, cerca da Décima Primeira Avenida.
Nero Wolfe era muito gordo (pesava uns 130 quilos), não saia de casa, onde tinha seu escritório e atendia clientes e autoridades, os quais ele fazia com que fossem visitá-lo mesmo que se tratasse de pessoas muito importantes. Raramente abria exceções e, assim mesmo, quando achava essencial para sua investigação pessoal.
 
Localização da Casa de Nero Wolfe
 
Quem fazia todo o trabalho externo, que exigia muita ação, era seu detetive assistente, Archie Goodwin. Este era, na verdade, o mocinho das histórias, que são narradas por ele, na primeira pessoa. Descrevia-se, imodestamente, mas sem muito alarde, como alto, forte, bem apanhado, atraente para as mulheres e recorria à força quando necessário. Fazia também o trabalho de supervisão das atividades dos outros detetives da equipe (estes eram chamados para tarefas específicas), além da administração do escritório e da casa. Archie morava na casa, onde tinha um quarto amplo e confortável e desfrutava a comida altamente sofisticada de Wolfe. Também eram residentes Fritz, o mordomo-cozinheiro, e Horstmann, o jardineiro, que cuidava da valiosíssima coleção de orquídeas que Wolfe mantinha na estufa do terraço de cobertura. Havia só homens na casa, mas Wolfe recebia muito bem as clientes. Como naquele tempo ainda não havia a obrigatoriedade de permear as histórias com cenas de sexo, o relacionamento com as mulheres, tratado sem detalhes, ficava por conta do Archie que, aparentemente, tinha também sucesso nesse quesito.
Agora, prezado leitor ou cara leitora, considere que Stout escreveu os contos e novelas de Nero Wolfe de 1934 a 1963. A casa do detetive foi mantida (até onde eu li), mas as condições de vida na cidade (e no mundo inteiro, claro!) mudou substancialmente, tanto quanto à tecnologia de uma forma geral, quanto à política nacional e internacional. Dos três livros que li agora, dois foram publicados na década de 1930 e o outro em 1949. A diferença de recursos disponíveis aparece nos detalhes, por exemplo: o Archie registrava as entrevistas com clientes mediante taquigrafia; as pessoas, além de usarem taxi, usavam o automóvel próprio na ilha e estacionavam com facilidade nas ruas de Manhattan; tinham de usar, por várias razões, telefones públicos (felizmente para eles, já disponíveis naquele tempo); as viagens para a Europa, mesmo as de negócios, eram feitas de navio.
O comportamento de Wolfe era realmente de uma excentricidade enervante para os clientes em geral e para seus auxiliares em particular. De reconhecida inteligência e competência em seu tipo de trabalho, ele se portava como um gênio. No escritório, sentava-se à mesa em uma poltrona especialmente projetada para seu peso e seu tamanho; tomava muita cerveja entre as refeições (aparentemente, isto o ajudava a pensar e a chegar à solução do crime); mantinha horário rígido no trabalho, no cuidado com as orquídeas e nas refeições, embora, em situações de emergência, trabalhasse no escritório até de madrugada. Seu relacionamento com o Inspetor Cramer, o chefe de polícia, era muito especial; este detestava ter de recorrer a Wolfe para solucionar os casos, mas reconhecia que precisava dele e o admirava profissionalmente, apesar do outro ser extremamente convencido de sua habilidade e usar de todas as artimanhas para revelar suas conclusões apenas no final da história, depois de conseguir as provas para acusar o criminoso. Em geral, esse final acontecia no escritório, em uma reunião com todos os envolvidos.
Os diálogos entre Cramer e Wolfe, sempre com a participação do Archie para fazer os registros necessários, eram primorosos. Em uma ocasião, entretanto, Cramer fez uma declaração a Wolfe que não deixa de ser um elogio: “... você é esperto a metade do que pensa que é, e isso já o coloca, cabeça e ombros, acima de todo mundo, desde Júlio César.”
Das três histórias de Stout que li agora, eu me lembrava de uma, muito vagamente, praticamente do título apenas. Como as li em Inglês, pude notar que a fala dos personagens correspondia muito bem ao ambiente de cada um. Por exemplo, o Inglês de Wolfe era mais rebuscado, com palavras arcaicas, correspondendo à sua origem europeia e educação refinada, ao passo que o Archie usava uma linguagem mais simples e a gíria daquele tempo. Tive de recorrer com frequência ao dicionário embutido no Kindle.
 
Depois de algum tempo, cheguei à conclusão de que embora, no início, eu buscasse apenas entretenimento na leitura dos contos policiais, eles me levaram ao hábito de analisar fatos e pessoas, buscar informação, conjecturar e diagnosticar, reforçando assim minha habilidade lógica. Seria exagero dizer que essa leitura, nos tempos da Mistério Magazine, funcionou como cursos de férias?
 
Washington Luiz Bastos Conceição 


Nota: A foto foi copiada da Wikipedia e o mapa, do Google.