domingo, 25 de janeiro de 2015

Da taquigrafia eletrônica e da escrita formal

Cena antiga, de uns 60 anos atrás: em um amplo escritório, um executivo bem vestido, camisa social de mangas compridas e gravata (havia tirado o paletó e o guardara em um armário ao lado) estava sentado em ampla poltrona de couro de encosto alto, atrás de uma escrivaninha enorme. Era o chefe, como eram chamados os gerentes naquele tempo. Sentada em uma de duas cadeiras de braço que ficavam à frente da mesa, uma jovem vestida e penteada discretamente, anotava a lápis, em um pequeno bloco de capa dura que tinha em mão, o que o chefe lhe ditava. Era a correspondência daquela manhã. O chefe falava rapidamente e ela o acompanhava, raramente pedindo para ele repetir alguma frase ou palavra.
Como ela conseguia acompanhá-lo? Usando uma escrita compactada mediante símbolos e abreviações, chamada taquigrafia.
Esta era uma operação que já avançara em produtividade (ganho de tempo), mas que, hoje, nos parece curiosa.
Em seguida, ela iria para sua pequena sala, à entrada do escritório do chefe, para datilografar o texto ditado.

Anúncios antigos em jornal, oferecendo emprego para secretária, incluíam, no perfil da pessoa procurada, prática de datilografia e taquigrafia (também chamada estenografia).
Datilografia era a escrita mediante máquinas de escrever, essencial para a secretária produzir a correspondência e os relatórios do chefe; era o que hoje se chama digitação e implicava o conhecimento de operação da máquina (colocação de papel, inserção de papel carbono para obtenção de cópias e posicionamento de tabuladores). A máquina de escrever mecânica exigia, ainda, esforço de pressão dos dedos, o qual diminuiu muito quando ela passou a ser elétrica (o ruído também diminuiu). Quando ainda não faziam o ditado, o chefe fornecia à secretária rascunhos manuscritos para que ela datilografasse. A operação era feita em duas etapas: primeiro a minuta e, depois da revisão desta, o documento definitivo.
O processo todo evoluiu do rascunho para o ditado feito pelo chefe, o que resultava em ganho de tempo, especialmente quando a secretária tomava notas usando a taquigrafia. Quem não tivesse conhecimento dos símbolos utilizados, não compreenderia um texto taquigrafado.

A operação foi, mais tarde, aperfeiçoada mediante a gravação do ditado pelo gerente, onde e quando ele quisesse, de forma que o tempo da secretária seria economizado. Na década de 1960 os gravadores de som comuns ainda eram de rolo de fita magnética (e não cassetes), o que levou a IBM a desenvolver um gravador com comandos específicos para a operação de ditado, o qual usava "cintas" magnéticas (fitas de acetato mais largas). O gerente entregava as fitas para a secretária que datilografava ao ouvi-las em seu aparelho, usando um fone de ouvido. Com esse novo recurso, a taquigrafia deixou de ser necessária no processo.
A necessidade de ganhar produtividade nos serviços de escritórios levou organizações de grande porte à redução do número de secretárias, aproveitando melhor suas habilidades específicas e lhes dando tempo para atenderem mais de um gerente. A datilografia passou a ser feita por um grupo de digitadoras com o nome pomposo de Centro de Processamento da Palavra, as quais, trabalhando em terminais ligados a um computador central (ainda não havia micro computadores) recebiam dos gerentes as fitas gravadas, digitavam o texto, imprimiam e o enviavam de volta. Nessas organizações, a comunicação escrita informal passou a ser feita mediante mensagens trocadas pelos gerentes ou profissionais nos terminais da rede interna ligada ao sistema central, de forma semelhante ao que se faz hoje pela internet, que ainda não existia. O software permitia até que se trocassem mensagens escritas “on line” (a operação chamada “chat”).
Depois, com o advento dos microcomputadores e da internet, a comunicação eletrônica teve evolução muito rápida, de tal forma que, atualmente, as cartas e relatórios impressos se restringem àqueles necessários para documentação.

Estamos, agora, na era da correspondência eletrônica global, mediante e-mail e mensagens em geral, na qual cada diretor, cada profissional, enfim, cada pessoa, no trabalho ou não, escreve suas próprias cartas e memorandos, sem auxílio de secretária, sem ditado, usando suas próprias habilidades de escrita e digitação.
Contudo, permanece a necessidade de ser mais produtivo, de transmitir, sem gastar muito tempo, uma informação, um pedido ou uma resposta, de forma que o destinatário possa compreendê-la. Por essa razão, considerando-se que o e-mail é informal, o uso de abreviações se tornou comum e é aceito por todos. No caso de mensagens enviadas de um “tablet” ou telefone celular, é essencial.
Está sendo criada, então, uma escrita abreviada que tem o mesmo objetivo da taquigrafia – escrever mais depressa. Ainda não há um glossário de abreviações, mas há diversas já consagradas pelo uso, como “abs”, “bjs”, “vc”, “q”, “tb”, etc. Risos e risadas são representados por “rsrs”, “hahaha”, “RaRaRa”, “kkkk”, conforme a preferência do remetente, mas não vejo problema nessa variedade de “vocabulário”.

E-mail ultrainformal, com abreviações.
Nada tenho contra a escrita abreviada de e-mails, desde que a mensagem cumpra seu objetivo de comunicar – mas ela não deve ser considerada substituta da redação completa e correta em nosso idioma, não só quanto à ortografia como – e principalmente – quanto à concordância e ao uso apropriado das palavras.
Uma coisa é uma comunicação escrita rápida, informal, outra muito diferente é o texto de uma proposta de negócios, um relatório técnico, uma crônica, uma notícia de jornal, um comentário político, enfim, uma comunicação formal. Este tipo de comunicação requer uma redação que se enquadre nas regras do idioma. Por esta razão, todo profissional, mesmo que não tenha grau universitário, precisa saber escrever corretamente.
Em minha longa vida de trabalho, observei que os profissionais que se expressavam corretamente por escrito levavam vantagem sobre colegas que, embora no mesmo nível técnico, não tinham essa habilidade. As atividades normais do trabalho, até as científicas, requerem competência redacional para a elaboração de apresentações, relatórios, propostas comerciais e planos empresariais.

Em suma, a comunicação eficaz, hoje em dia, requer o uso de mensagens eletrônicas informais, com abreviações ou não, por sua agilidade, rapidez, e por poder ser feita mediante dispositivos portáteis. Por outro lado, quando formal, a comunicação eficaz requer o uso de textos técnicos ou de negócios redigidos corretamente.

Dentre os profissionais igualmente competentes no que fazem, aqueles que têm boa redação valem mais.

Washington Luiz Bastos Conceição