domingo, 24 de agosto de 2014

Bloqueio


Colunistas de jornais e revistas, profissionais experientes e competentes, de vez em quando se queixam da dificuldade de ter um bom assunto sobre o qual escrever naquele dia. Entretanto, para cumprir o compromisso, após fazerem  a ressalva, acabam escrevendo algo interessante. Alguns, ao que me parece, têm um estoque de crônicas às quais recorrem quando necessário.
Amador, sem compromisso formal com os amáveis leitores de meu blog, procuro publicar duas crônicas por mês, o que venho fazendo há mais de dois anos. Neste agosto, contudo, não consegui. Esta é a primeira do mês e só estou conseguindo escrevê-la porque resolvi comentar com os leitores a dificuldade que estou tendo, um bloqueio lamentável para mim.
Buscando razões para esse bloqueio, fui além das preocupações e cuidados com a saúde do casal, pois estes vêm me acompanhando há já algum tempo.
 
Passei a considerar, então, a tristeza, em diferentes graus, causada por perdas recentes de pessoas populares que, de maneiras distintas, me proporcionaram, com seu trabalho e sua arte, momentos agradáveis. Caso de Jair Rodrigues, cuja imagem para mim era do jovem cantor em seus shows animados, com músicas que guardo em meus discos, especialmente “Dois na Bossa” (ele e Elis Regina). Caso também de Ubaldo, João Ubaldo Ribeiro, com quem tive contatos descritos em minha crônica “Ubaldo, meu vizinho”. Estou sentindo muita falta de suas crônicas geniais no jornal de domingo. Para compensar, vou completar a leitura de sua obra, pois constatei que ainda não li todos seus livros.
 
Além desses, o caso do falecimento, mais recente, de Eduardo Campos, candidato à presidência da República, em acidente trágico, que chocou o País inteiro. Um político jovem e promissor de cuja carreira, confesso, eu tinha muito pouco conhecimento. Houve uma unanimidade de todos que se manifestaram em reconhecer que sua morte foi uma perda pública muito grande. Juntei-me aos milhões de brasileiros que a lamentam.
 
Mas, certamente, minha mais triste emoção foi causada pela perda de um grande amigo, de muitos anos. Credidio Rosa, pessoa extraordinária, agregadora, formava grupos de amigos em todo ambiente que frequentava. Nossa amizade se estendeu às respectivas famílias. Deixou-nos a lembrança de suas iniciativas, suas tiradas espirituosas, às vezes radicais, sempre inteligentes, e de seus gestos de amizade.
 
Um detalhe: os falecidos eram, todos,  mais novos do que eu; o Campos, muito mais, pois tinha a idade de um de meus filhos.
 
Meu bloqueio se manifestou como uma espécie de desânimo, uma sensação de que os assuntos de que costumo tratar são insignificantes frente à realidade dura das perdas. Tentei escrever algo apropriado para a ocasião, mas não consegui fazer coisa que prestasse. Desisti.
 
Espero que, após esta espécie de autoanálise e de explicação aos leitores, eu possa voltar logo aos meus escritos. E, especialmente, que possa lhes falar da figura ímpar do Credidio.
 

Washington Luiz Bastos Conceição