sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Osmar e Jurema chegam a São Paulo


Cara leitora ou prezado leitor:
Dou, aqui, continuação às histórias de meus pais.
Na primeira crônica desta série, “Osmar – Primeiros Passos”, escrevi sobre sua origem, infância e adolescência. Na sequência, as crônicas: “Osmar – O jovem professor”, sobre um período de sua juventude; “Osmar encontra Jurema”, encontro que aconteceu em Ponta Grossa, no Paraná, e resultou em seu casamento; “Osmar e Jurema – O novo casal e a turbulência política de seu tempo”, que trata de seus primeiros anos de casados, ainda em Ponta Grossa; “Osmar e Jurema em Mirassol”, sobre a mudança da família para Mirassol, no Estado de São Paulo, e sua temporada naquela cidade.
Hoje, vou lhes descrever a chegada do casal a São Paulo e o ambiente da cidade no início da década de 1930.

Em 1935, embora adaptados a Mirassol, Osmar, Jurema e filhos se mudaram para a capital do estado porque Osmar iria começar seu curso de Direito na Faculdade do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo. Naquele ano, Túlio completaria cinco anos e Washington, três.
Novamente, viagem de trem, agora no sentido inverso: Rio Preto a Araraquara e, desta, para São Paulo. Como bagagem, não estariam levando muita coisa, pois iriam morar numa pensão que, provavelmente, conheceram quando foram de Ponta Grossa para São Paulo. Alugar casa ou apartamento em local próximo ao centro estava acima das possibilidades financeiras do casal. A pensão, excelente para a moradia de pequenas famílias, foi um achado e marcou agradavelmente a vida de nossa família.

Chamava-se Pensão Brasil e ficava na esquina da Avenida São João com a rua Duque de Caxias. Sua localização era muito conveniente, pois era próxima ao centro e à estação da Estrada de Ferro Sorocabana, que recebia o trem do Paraná, e a da Luz, aonde chegava o trem de Rio Preto. A primeira, estava a uma distância de cerca 800 metros e a outra, de pouco mais de um quilômetro. O veículo de aluguel que fazia o transporte de passageiros das estações para os respectivos destinos, o taxi daquele tempo, era uma pequena carruagem aberta, com uma coberta preta (nós o chamávamos “trole”, mas o nome correto, parece-me, é “tílburi”). Lembro-me de uma foto que mostrava uma grande quantidade delas estacionada na praça em frente à estação da Sorocabana.
Para ir da pensão ao centro seguia-se pela avenida São João, que passava pelo Vale do Anhangabaú e chegava em rampa à Rua Líbero Badaró e à Rua de São Bento, quarteirão onde se projetava, dominante, o primeiro arranha-céu da cidade, o Edifício Martinelli. Este trajeto era feito normalmente de bonde (já elétrico) até a Praça do Correio, junto ao Anhangabaú, mas, passeando, dava para ir a pé.
Para dar uma ideia do edifício da pensão, vou descrevê-lo na base do melhor esforço de memória. Era um prédio grande de três andares, construído no alinhamento da rua. No andar térreo, tinha lojas com uns cinco metros de pé direito (para mim, criança, parecia muito alto). A pensão ficava nos andares superiores, com acesso por uma escada de mármore. Sua construção parecia mesmo destinada à instalação de um hotel: no primeiro andar, na frente, que dava para a avenida São João, havia uma sala de estar e o salão de refeições (a seguir, a cozinha). Em direção aos fundos, um longo e largo corredor, à esquerda do qual ficavam os quartos e banheiros daquele andar. Suas janelas davam para um grande pátio interno, retangular. Para esse pátio também davam as janelas do fundo do salão de refeições, da cozinha e das áreas de serviço. Os demais quartos ficavam no andar superior. Nosso quarto era no primeiro andar.

Em 1935, Getúlio Vargas continuava no poder comandando o chamado “Governo Provisório”.
De 1930 e 1932, o estado de São Paulo foi governado por interventores nomeados pelo governo federal (foram sete nomes, dos quais três, provisórios, ficaram no cargo menos de um mês). Durante a revolução de 1932, o então interventor, Pedro Manuel de Toledo, foi aclamado presidente. Após a derrota da rebelião, seguiu-se um período tumultuado, de humilhação para os paulistas, sob o governo do interventor Valdomiro Castilho de Lima que fora o general comandante das tropas federais na frente sul. Sua passagem pelo governo do estado se caracterizou por um permanente conflito com o setor cafeeiro.
Em agosto de 1933, procurando reconciliação com São Paulo, o presidente Getúlio Vargas nomeou Armando de Sales Oliveira interventor federal no estado. Este era paulista, engenheiro pela Escola Politécnica e empresário. Casado com a filha de Júlio Mesquita, diretor-proprietário do jornal O Estado de S. Paulo, assumira, com a morte do sogro, em 1927, a presidência da sociedade anônima proprietária do jornal.
Apesar da derrota da revolução constitucionalista, o movimento em favor da volta a um regime constitucional se manteve ativo, de tal modo que, em 1933, o governo de Getúlio promoveu em todo o País as eleições para a escolha de uma assembleia constituinte. A assembleia foi instalada em novembro daquele ano e a constituição foi promulgada em junho de 1934.
Segundo a Constituição, as eleições para presidente da República seriam diretas, com exceção da primeira, de modo que, três dias depois da promulgação da Constituição, Getúlio Vargas foi eleito presidente, pela grande maioria dos constituintes.
Em seguida, foram convocadas as assembleias constituintes estaduais, com a promulgação das quais os deputados elegeriam os governadores. No estado de São Paulo, em 1935, os deputados paulistas elegeram Armando de Sales Oliveira. De interventor, ele passou a governador.

Além das alterações políticas, o início da década de 1930 trouxe ao Brasil sérias dificuldades econômicas, principalmente porque a exportação do café (seu principal produto) foi profundamente impactada pela crise mundial de 1929. O País enfrentou essas dificuldades exportando algodão e substituindo produtos importados por produtos locais, mediante o desenvolvimento da indústria (especialmente de produtos têxteis, papel, vestuário e calçados). Quanto ao café, para reduzir a oferta do produto e, assim, segurar o preço, o governo federal resolveu comprar o estoque excedente e destruí-lo (lembro-me de ter lido na infância, talvez em um dos livros de Monteiro Lobato, sobre a queima de café pelo governo; muito admirado, não entendi nada).
Em São Paulo, que intensificou seus esforços no desenvolvimento industrial, destacou-se Roberto Simonsen, engenheiro civil pela Escola Politécnica, que, após atividades importantes em serviços públicos e participação na revolução de 1932, foi deputado constituinte em 1933 e federal por São Paulo de 1935 a 1937, além de presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Dono de uma rica biografia, foi, ainda, membro de várias instituições importantes, nacionais e internacionais. Quando o Brasil voltou ao regime democrático, em 1945, foi eleito senador, cargo que ocupava quando faleceu.
Outra figura notável foi Roberto Mange. Engenheiro pela Escola Politécnica de Zurique e professor de Engenharia Mecânica na Escola Politécnica de São Paulo, foi superintendente da Escola Profissional de Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e organizou o Serviço de Ensino e Seleção Profissional da Estrada de Ferro Sorocabana. Em 1931 fundou o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT).

Quando chegamos a São Paulo, meu pai se empregou em um centro de treinamento que, pela lembrança que tenho de ver as revistas com ilustrações de trens que ele levava para casa, era o serviço de ensino da Sorocabana organizado por Roberto Mange. Concomitantemente, como era seu objetivo e a razão de sua mudança de Mirassol, iniciou imediatamente seus estudos de Direito na Faculdade do Largo São Francisco.
Como ele conseguia conciliar as atividades da Faculdade e do trabalho, eu apenas posso imaginar. Vejo, hoje, que a solução de moradia foi muito boa, pois não sobrecarregava minha mãe. Além de tudo, eles tiveram um apoio valiosíssimo da dona da pensão, Dona Rosinha, mulher extraordinária que tratou de Jurema como se fosse filha dela. Foi uma espécie de tia e madrinha de minha mãe, muito amiga dela até o final da vida.

Nossa vida na Pensão Brasil merece uma crônica à parte.

Washington Luiz Bastos Conceição



Referências históricas
  • Toledo, Roberto Pompeu. A capital da vertigem: Uma história de São Paulo de 1900 a 1954. Objetiva. (Kindle Edition.)
  • Fausto, Boris. Getúlio Vargas. Companhia das Letras.
  • Quadros, Jânio e Franco, Afonso Arinos de Melo. História do Povo Brasileiro.J. Quadros Editores Culturais.
  • Wikipédia. Roberto Simonsen, Roberto Mange e História de São Paulo.