domingo, 8 de outubro de 2017

Discurso dos 85 anos

Há cinco anos publiquei a crônica “Quatre Vingts”, em que comento minhas sensações ao chegar aos oitenta anos. Neste setembro, completei oitenta e cinco. Na comemoração, desta vez em “petit comité”, fiz um discurso que, me pareceu, foi mais apreciado pelos parentes e amigos do que minhas falas em outras ocasiões. Não foi gravado, de modo que me pediram para publicá-lo no blog. Como, contra meu hábito, o discurso foi preparado (eu tinha um rascunho), pude reconstituí-lo na íntegra e o apresento a seguir.

[Abertura]
Agradeço, sensibilizado, aos presentes pela gentileza do comparecimento.
Comemorações de meu aniversário, como esta, vêm sendo feitas em cada década. Desta vez não se trata de mais uma década, mas apenas de mais um lustro. Acontece que poucas pessoas chegam aos 90 e convém não apostar. Um amigo nosso comemorou os 90 quando completava 89. Intencionalmente, pois ele não estava bem de saúde. O que depois, infelizmente, se mostrou ter sido uma boa ideia.
O importante é que estamos recebendo, hoje, com enorme satisfação, nossos queridos parentes e amigos. Destacamos a grande gentileza daqueles de fora, que se dispuseram a vir ao Rio, exclusivamente para este almoço, nestes dias tão conturbados que vive a Cidade Maravilhosa. Associo cada um de todos vocês a eventos importantes de minha vida.
Meu agradecimento vai também à Leilah, aos filhos e cônjuges, pela ideia, planejamento e realização deste almoço; em especial, à Jurema, anfitriã e coordenadora do trabalho e ao Fran e ao Bruno, pelo programa musical da reunião.

Quero lhes falar por uns 15 minutos. Peço àqueles que estiverem de acordo que permaneçam como estão agora. [sem interrupção] Muito obrigado!

[Introdução]
Costumo falar nas reuniões de aniversário da família. Nessas ocasiões, meu foco, claro, é o aniversariante. Hoje, está mais difícil, porque tenho de falar sobre mim mesmo.
Confesso que me custa crer que eu tenha alcançado essa idade toda. Ao reunir fotografias para a apresentação que chamei “Viagem pelo Tempo”, re-encontrei vários Washingtons que cumprimentei amistosamente, recordando de forma clara as fases de minha vida, da infância à juventude, desta à maturidade e desta à velhice. Contudo, não me entristeci, não exclamei “Bons tempos não voltam mais, belos tempos de rapaz!”, mas gostei de me ver: o jovem, o noivo, o pai de família e, mais recentemente, o avô.
Bem, para começar, para aqueles que me perguntam “Como você se sente aos 85 anos?”, estou respondendo: “Admirado!”. Mas, agora, vou entrar em detalhes, claro, porque não é uma resposta simples e porque desejo que vocês, ao atingirem e ultrapassarem esta minha idade, estejam em melhor estado físico e mental do que o meu.

[Preguiça]
Para começar, de uma forma geral, sinto que o Washington, estudioso, esportista de anos atrás, trabalhador até a aposentadoria, é hoje muito preguiçoso. Não sei se por razões físicas ou psicológicas. Preguiça de sair de casa, preguiça de fazer exercício físico, preguiça...
Contudo, a meu favor, devo dizer que, quando um desafio se apresenta requerendo ação, reajo positivamente.

[Ranzinzice]
Reconheço que pratico um pouco de ranzinzice e que me deixo irritar com facilidade.
Por exemplo, com os telefonemas abusivos de telemarketing. Em geral, enquanto não adoto a tecnologia de bloqueio, trato de evitar o diálogo e desligar o telefone, mas, às vezes, cometo indelicadezas. Em seguida me arrependo, porque sei que a operadora está fazendo um trabalho difícil e que pessoas amigas já tiveram essa atividade; eu mesmo já programei telemarketing junto a empresas. Contudo, outro dia, recebi um desses telefonemas num momento difícil – Leilah não estava passando bem – e, quando a pessoa se apresentou como “fulana” da companhia telefônica da qual sou cliente, perguntei qual o assunto. Ela respondeu com outra pergunta: “Estou falando com o titular da linha?”; pedi para ela repetir, o que ela fez de forma agressiva. Aborreci-me e respondi: “O titular da linha é o Neymar!” e desliguei.
Outro exemplo: Como todos os idosos com que troco ideias, não gosto quando as pessoas vêm com aquela hipocrisia de chamar velhice de “melhor idade” (que só pode ser melhor do que aquelas que vêm depois). Tampouco me agrada quando, no atendimento de médicos e enfermeiros, eles pedem “me dá o bracinho aqui”, “estique a perninha”, etc. Recentemente, me submeti a uma ultrassonografia abdominal; quando a médica me pediu para eu encolher a “barriguinha”, comentei: “Doutora, não dá para chamar esta barrigona de barriguinha!. Construída ao longo de 80 anos, serviu muito bem de travesseiro para meu neto carioca, quando pequeno".
Também me irritam declarações e expressões de jornalistas no seu afã de noticiar em primeira mão ou de comentar assuntos dos quais não têm o necessário conhecimento e criticam tudo. Por exemplo, quando noticiaram a inundação de Houston pelo furacão “Harvey”, criticaram a construção da cidade, sem considerar que é economicamente impossível fazer um sistema urbano de esgotamento de águas pluviais que enfrente um furacão de categoria 4!
Alguns anúncios na televisão também são difíceis de aturar – aqueles de pessoas falando e andando, por exemplo, e os de automóvel, que procuram chamar sua atenção com cenas mirabolantes e, ao final, você não nota qual a marca do veículo anunciado. E as frases, que pretendem ser geniais: aquela “O carro X você não dirige, você sente.” me fez pensar na seguinte cena: um guarda de trânsito detém o motorista, pede para este lhe mostrar sua carteira de habilitação e ele responde: “Seu guarda, este carro eu não dirijo, eu sinto!”. Talvez a frase pudesse ser aproveitada pela Uber, ligeiramente modificada: “Conosco você não dirige, você senta!”.

[Preocupação excessiva]
Reconheço que tenho uma preocupação excessiva com coisas que, realmente, não posso influenciar. As notícias, principalmente do País, com que somos bombardeados pela TV, diariamente, estavam, até há pouco tempo, me levando à loucura; desta, Leilah, os filhos e os amigos estão me ajudando a escapar; estou conseguindo moderar minhas reações e, lembrando-me do livro "Os 7 hábitos das pessoas altamente eficientes", de Stephen Covey, me conformar com o fato de meu círculo de influência ser muito menor do que o círculo de minhas preocupações.

[Memória]
Enfrento também as dificuldades naturais que a idade trás.
Memória é algo que, realmente, o idoso perde. Não tem jeito. De forma curiosa, lembro-me de coisas pouco importantes de um passado distante e me esqueço de acontecimentos ou conversas recentes. Acho absurdo me esquecer do que jantei ontem e me lembrar, por exemplo, de um anúncio que ouvia no rádio aos 10 anos de idade, em visita a Ponta Grossa. O anúncio começava com a frase que usei há pouco “Bons tempos não voltam mais, belos tempos de rapaz!”, falada em tom de queixa de dor por um homem mais velho; em seguida, vinha o “gingle”, cantado por outra pessoa que lhe recomendava o remédio:
“Pronto Alívio Radway, remédio que já usei em diversas ocasiões,
contra dores, queimaduras, torcicolos, torceduras, reumatismo, contusões; pronto alívio encontrei, em pouco tempo me curei com o Pronto Alívio Radway.”
Meu Deus! Como é possível eu me lembrar disso? Eu, que vivo me esquecendo de nomes e de palavras que conheço bem!
Há exercícios que podem nos ajudar a preservar a memória. Estou praticando alguns. Minha mãe, que faleceu lúcida aos 97 anos, se exercitava decorando números de telefone e datas de aniversário dos parentes e amigos.
Há alguns dias, recebi pelo whatsapp uma mensagem com uma dessas frases sobre idosos, que era mais ou menos assim: “o pior de ficar velho é que, quando você acha que sabe tudo, começa a esquecer”. Embora eu nunca tenha tido a pretensão de saber tudo, de muita coisa, certamente, já me esqueci. Exemplos: na matemática, cálculo diferencial e integral; cálculo vetorial e de matrizes; na termodinâmica, entropia e entalpia; na música, o reconhecimento de conhecidas peças clássicas ou os nomes de seus autores.

[Novos conhecimentos]
Em compensação, nestes últimos anos, estou aprendendo coisas novas: usar “aplicativos” no computador e no celular; escrever e publicar livros, impressos e digitais; publicar crônicas no blog, etc. Também, estou me aperfeiçoando em algumas atividades domésticas essenciais.
E, principalmente, onde tenho progresso diário, aprendo nomes de alguns males e doenças e nomes de remédios: o meu conhecimento de anos atrás, que incluía apenas Aspirina, vitamina C, xaropes, Novalgina, Luftal e alguns outros medicamentos, foi muito ampliado, não só por causa das novas necessidades do casal, como também pela especificação requerida pelos genéricos. Agora, Novalgina é Dipirona, Aspirina é Ácido Acetilsalicílico, Luftal é Simeticona. Uso, faz tempo, um remédio para regularizar a pressão, o Micardis HCT e agora fiquei muito feliz por saber que HCT é, simplesmente, “Hidroclorotiazida”; de alguns deles, Leilah e eu ficamos íntimos, e os chamamos por apelido: o Bissulfato de Clopidogrel é o “Clopido”, o Pantoprazol é o “Panto”. Há algumas semanas, eu fazia uma compra na drogaria, quando um senhor alto, encorpado, com aparência de bem mais moço do que eu, falando alto, tentava dizer à balconista o nome do remédio de que precisava. Ouvindo suas tentativas, interferi: “É o Besilato de Anlodipino!”. Ele vibrou: “Esse mesmo! Tomo esse remédio faz tempo, mas não consigo guardar o nome dele.” Tive meu dia de glória!

[Atividades atuais]
Embora reconhecendo que minha produtividade caiu, por várias razões, continuo com meus escritos. Venho publicando no blog, em média, uma crônica por mês. Como faço periodicamente, pretendo reunir as mais recentes em um novo livro de crônicas.
Estou iniciando o projeto de outro livro, em que contarei histórias de meu pai, inseridas no cenário do Brasil do século vinte. Caminha devagar, porque é, para mim, um grande desafio. Anuncio aqui para forçar meu comprometimento.
Entretanto, não há dúvida de que minha atividade mais importante, nestes últimos anos, tem sido cuidar da Leilah. É difícil para mim, porque tenho presenciado tudo que lhe tem acontecido, as dores e sustos que tem sofrido. Contudo, sua coragem, determinação e os cuidados médicos excelentes estão vencendo a luta, o que me dá a certeza de que teremos tempos melhores. Espero voltarmos a sair mais de casa para programas não relacionados com tratamento médico, voltarmos a fazer as viagens de que gostamos, aproveitando-as dentro de nossas limitações de idade. E, claro, encontrarmos vocês com maior frequência.

[Fechamento]
Quando estudei Espanhol no primeiro ano do Curso Colegial (eu tinha 15 anos), o livro de meu professor trazia, após cada lição, uma frase, talvez originária da sabedoria popular. Uma delas re-encontrei recentemente e, penso, é provável que vocês já conheçam. Após todos meus anos de vida, estou convencido de que é verdadeira e valiosa. Termino este meu discurso com ela, traduzida para o Português:
“A felicidade não é coisa fácil: é difícil encontrá-la em nós mesmos e impossível achá-la em outro lugar”.

Muito obrigado pela atenção.

Washington Luiz Bastos Conceição


Nota:
As anotações entre colchetes, em vermelho, serviram para organizar o discurso, não entraram na fala. Achei conveniente mantê-los no texto para orientar o leitor.