sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Pequeno, poderoso e indispensável

Criticado em todas as formas de comunicação – comentários em conversas, artigos, caricaturas, vídeos – o uso universal, intenso, compulsivo, do telefone celular estabeleceu-se, parece, de forma definitiva. O que mais se vê hoje são pessoas digitando em seus aparelhos, em qualquer situação e ambiente (os usuários mais treinados, especialmente os jovens, usam os polegares com extrema rapidez).
A crítica é geral, mas é, na verdade, uma autocrítica, pois devem ser raríssimas as pessoas que podem dispensar o uso dessa extraordinária forma de comunicação. Falo por mim, meus parentes e meus amigos que criticamos o uso exagerado do aparelho, mas nos vemos, com frequência, verificando mensagens em meio a um almoço, por exemplo. Mesmo pedindo desculpas, explicando que espero uma notícia importante, cometo, de vez em quando, essa indelicadeza.
Ou seja, não temos escapatória. O próprio e-mail, ótima forma de comunicação assíncrona que substituiu cartas impressas e telefonemas, passou a ter seu uso restrito a negócios e ao mal afamado telemarketing. As conversas informais de grupos de amigos, parentes e, até, informações para acompanhamento médico são feitas através do whatsapp, na esmagadora maioria dos casos.

Neste ponto, paro para pensar nos benefícios do uso do celular e seus “aplicativos”: se esse tipo de comunicação não fosse conveniente para as pessoas – às vezes o assunto é importante ou urgente – estaríamos todos presos ao aparelhinho milagroso?
Passei a relacionar mentalmente o que temos feito, nós mesmos, eu e minha mulher, por meio do whatsapp: comunicamo-nos rapidamente com os filhos e amigos, individualmente e em grupos, tanto para tratarmos de assuntos sérios como para “bater um papo” à distância (alguns estão mesmo longe, em outro país); complementamos as consultas médicas informando o profissional sobre a evolução de um tratamento, pedidos ou resultados de exames ou um mal-estar súbito (já enviei, certa vez, foto de um pequeno ferimento na perna para primeira avaliação da geriatra); fazemos pedidos de pequenas compras às diaristas, para trazerem na vinda para nossa casa (o que é muito conveniente para idosos).
Bem, até agora falei só do whatsapp, mas lembremo-nos de que o celular é, também, computador de bolso ligado à internet, gravador de som, câmera fotográfica e de vídeo, e relógio. E mais, uma coleção de livros, prontos para você ler onde quiser, quando quiser, bastando para isso baixar um aplicativo tipo “Kindle”.
Como câmera, temos utilizado muito o celular para registrar e ilustrar comunicações de eventos; almoços e festas de aniversário, por exemplo. Este recurso serve também para ilustrar mensagens nas mais variadas atividades profissionais. Recentemente, na reforma de um apartamento, usamos fotos para registrar as condições dos tubos de água. Em outra oportunidade, para envernizar uma bancada em nossa sala, tivemos de desconectar os fios de uma instalação de aparelhos de televisão e de som, com seus periféricos; fotografamos previamente a situação das conexões originais para reconstituí-las corretamente.
Como computador, o celular tem substituído, pelo menos parcialmente, os desktops e laptops. Um dos companheiros de nosso almoço periódico de aposentados ex-IBM declarou que todo trabalho e leitura que fazia no computador faz agora no celular.
Ligado à internet, o aparelho oferece uma enciclopédia de bolso. Outro colega do mesmo grupo, sempre atento às novidades tecnológicas, usa muito bem esse recurso. Às vezes, em meio a nossa conversa, surge uma dúvida que ele resolve de imediato mediante consulta ao Google.

Minha avaliação é que, por mais que se possa criticar o hábito da imensa maioria das pessoas, de utilização ininterrupta e intensa do celular, este oferece benefícios muito valiosos, tanto nas atividades de trabalho quanto no relacionamento social. Apenas, espero que essas pessoas consigam o equilíbrio necessário para largar um pouco o celular quando: atravessarem a rua, especialmente com o sinal fechado para elas; estiverem dirigindo automóvel ou outro veículo; participarem de reuniões sociais ou de trabalho; estiverem à mesa acompanhadas; assistirem a palestras; dirigirem carrinhos no supermercado. Enfim, quando se espera de cada uma a atenção necessária aos outros viventes.

Washington Luiz Bastos Conceição




Nota:

A título de ilustração e como curiosidade, conto que, neste dias, estou recorrendo ao celular e ao computador no pequeno projeto sentimental de editar, em e-book, o livro de poesias de meu pai que mencionei na crônica anterior (“Osmar – Os primeiros passos”). Um dos meus primos do Paraná mostrou interesse em ler o livro todo. Como tenho apenas meu exemplar, com preciosa dedicatória do autor, surgiu-me a ideia do projeto, que requer copiar o livro, o que comecei a fazer na base do “faça você mesmo” (“do it yourself”). Primeiro, pensei em digitar (tempo não me falta), mas datilografia não é minha praia. Logo, testei a digitalização do livro, mediante a “scanner” de mesa; a operação, difícil e demorada, não funcionou a contento. Orientado por um amigo para digitalizar o livro usando um aplicativo do celular que processa fotos das páginas, não consegui instalá-lo e não insisti porque sou um fotógrafo medíocre. Decidi, então, usar o seguinte processo, que já está em operação: usando o recurso de conversão de voz para texto do celular, leio os versos e obtenho um texto no aplicativo “Notes”; a seguir, envio o texto por e-mail para mim mesmo e recebo no computador; neste, copio para um arquivo “Word”, no qual trabalho pontuando e formatando o texto. Este arquivo, no final, será usado para a preparação do e-book. Sei que alguns de meus e leitores poderão criticar meu sistema e apresentar ideias diferentes, talvez melhores; porém, dentro de minhas possibilidades, essa me pareceu a solução mais adequada aos meus recursos.

sábado, 29 de julho de 2017

Osmar - Os primeiros passos

Cara leitora ou prezado leitor:
A publicação da crônica “O Republicano”, em junho, reacendeu meu desejo de escrever sobre meu pai, uma pessoa que viveu a evolução do Brasil ao longo do século XX e acompanhou as transformações extraordinárias do mundo todo. Nascido e criado no interior do Estado do Paraná, graduou-se professor em Curitiba, e se casou em Ponta Grossa. Depois de poucos anos, mudou-se para o Estado de São Paulo, morando inicialmente no interior e depois na Capital, cidade que ele amava e na qual se formou em Direito, criou os filhos e viveu até falecer, aos 79 anos. Formou com Jurema, minha mãe, um casal feliz e corajoso.
Sinto que ele não tenha deixado um livro de memórias, que as tinha muito interessantes e ilustrativas, mas posso contar algumas de suas histórias – as que ele contou aos filhos e aquelas que presenciei. Pretendo publicá-las em forma de crônicas e reuni-las em um livro. Já escrevi duas: além da “O Republicano”, acima mencionada, “Uma escola com seu nome”, publicada em abril de 2012.





Morretes
A quem vai a passeio a Curitiba, Paraná (estado do sul do Brasil), é oferecida, certamente, uma excursão na ferrovia Curitiba-Paranaguá, uma obra notável de engenharia realizada no século XIX (foi inaugurada em 1885). Fiz esse passeio mais de uma vez, por trem mesmo e por litorina, uma espécie de ônibus sobre trilhos. Apreciei muito as paisagens impressionantes na descida da Serra do Mar e, como engenheiro, os detalhes da obra, extremamente ousada para a época de sua execução.
Antes de chegar a Paranaguá, o trem para em Morretes, cidade que fica ao pé da serra.
Foi nessa pequena cidade que João Alves da Conceição e Balbina Bastos Conceição ganharam seu filho caçula, Osmar Bastos Conceição, meu pai, no ano de 1901. Único filho homem, suas irmãs eram Carolina, Aracy e Anete.
João era de Antonina e Balbina era de Paranaguá, ambos professores de escolas públicas, o que os fazia mudar de cidade de tempos em tempos. De Morretes se transferiram para Castro, cidade situada na região paranaense chamada Campos Gerais e próxima a Ponta Grossa.

Castro
Conforme informa a Wikipedia, Castro foi, inicialmente, um pouso de tropeiros, às margens do rio Iapó, no histórico Caminho de Sorocaba, que ligava esta cidade paulista ao Rio Grande do Sul. Em Cruz Alta (nesse estado), eram reunidos muares, trazidos da região de Corrientes, na Argentina. De lá, os tropeiros levavam os animais para a Feira de Sorocaba, que foi o maior ponto de comercialização de muares, no Brasil, do final do século XVIII até o final do século XIX.
O “Pouso do Iapó” se firmou como povoação e, em 1857, se tornou a cidade de Castro.

As recordações de infância de Osmar eram de Castro. Para nós, seus filhos, contava casos típicos de cidade do interior daquele início de século. Por exemplo, a passagem do circo pela cidade e os comentários todos que provocava. Mas foi em seu livro de poesia “Emoções que ficam”, escrito quando estudante de Direito, que falou de sua vida em Castro. Em versos leves, alternando emoção e bom humor, apresentou a família – irmãs, mãe, pai e avó – e narrou suas histórias daquela fase da vida.
Os versos expressam, realmente, suas emoções. Ele não se preocupou em descrever a cidade daquele tempo: a pavimentação das ruas, o sistema de iluminação pública, o abastecimento de água, as construções, por exemplo; e mais, como era o dia a dia das pessoas e quais seus recursos. Até sua casa ele trata de maneira afetiva, dizendo que ela:
“Foi para mim um pequenino mundo,
Pleno de graça, de esplendor fecundo”.
Como ilustração, transcrevo alguns versos do livro:

PROTETOR E GUIA

Estrela amiga e benfeitora, alçada
Sobre os rumos primeiros de um destino,
Ao mais tênue clarão de uma alvorada!
Com que extremado culto ainda o contemplo:
Guia, outrora, do filho pequenino,
Do filho moço, hoje, o mais nobre exemplo.

Mestre-escola, tribuno, polemista,
Curandeiro de bairro, João Caetano
Nas horas vagas... Diligência mista,
Era de ouvir-se, em qualquer festa, então,
O infalível convite, honroso, lhano:
“Tem a palavra o Seu João Conceição”.

Varão, contudo, de índole severa,
Meu pai, na angústia ou na prosperidade,
Bondosamente, para todos era
O popular “Seu” Conceição que havia
De, a toda lei, salvar a humanidade
Com três gotas, talvez, de homeopatia...

MINHA MÃE

Soberana de um plácido reinado,
Com seu pródigo amor – lume sagrado
A encher de encantos meu feliz solar!
– Minha mãe, santa mãe, logo à noitinha,
Por mim que, criança, mal ao mundo vinha,
Ia, aos milagres da fé, crente, rezar.

Quando, mais tarde, cavaleiro andante,
Parti, galhardo, em busca ao meu levante,
Ávido de honras, de emoções, senhor!
– Minha mãe, santa mãe, constância infinda!
Por mim que, moço, mal vivera ainda,
Rogava, em prece, um guia protetor.

E o tempo veio, traiçoeiro, mudo,
Tudo apagando, avassalando tudo,
Sobre os escombros dos castelos meus!
– Minha mãe, santa mãe, num devaneio,
Por mim que, homem agora, em nada creio,
Suplica aos céus: “Dai-lhe o perdão – meu Deus!”


PATRIOTISMO

Com que vaidade, moço, já, me lembro
Daquele gesto de heroísmo infante
Com que num doce e encantador novembro
Vi terminar meu ano de estudante.

A escola, outrora, “era risonha e franca”...
“Seu” mestre, um velho já de voz cansada,
Férula à mão, tradicional carranca,
Do que “marcou” não dispensava nada.

Daí o preceito bárbaro, traiçoeiro,
Da maldita e cruel pedagogia:
Decorar, cada aluno, um trecho inteiro
De gramática, história e geografia.

Por isso e em meio ao natural vexame
Que a imponência do ato a inspirar vinha,
Pus, sob o horror do malfadado exame,
Ao léu da sorte, toda a glória minha.

“Pois, muito bem, Sr. Osmar... (Sorrindo,
O Dr. Braga dava medo) Vai
Relatar-me o Sr. um ponto lindo:
A guerra entre o Brasil e o Paraguai”.

E o examinando que tão bem guardara,
De cor os fatos principais da História,
Pelo temor que lhe infundia a vara,
Ou o uso da horrível palmatória,

Assume uns ares de comando e ufano,
Como se o próprio Osório ali se achasse,
Entra a falar no Ditador Solano,
Em Mitre e Flores, em D. Pedro.. A face

Em fogo, o coração bem brasileiro,
Palavra firme (E o São Lacerda, então?)
– “Mas que menino! Viu?” – “E este é o primeiro”...
Sabe, de fato, História, como não?

Depois Cerro Corá, a guerra finda!
Nosso altivo pendão desagravado!
– “Que belo exame!” – “E que matéria linda!”
– “Parabéns, parabéns... Está aprovado”.

E ao retornar pra junto aos meus, contente,
Presa dos olhos de convivas tantos,
Dei de encontro a sorrir na minha frente,
Com o velho amigo “Seu” João Félix dos Santos:

“Gostei de ouvir! Há de você dar panos
Pras mangas logo... Isso nem tem "tarveis"!
O que para os outros exigiu cinco anos,
Você, brincando, em dez minutos fez”.

Veio a juventude e Osmar teve de bater asas – foi estudar em Curitiba e lá se formou professor de Português e de História da Civilização. Em seguida, em busca de trabalho e (parece-me) de aventura, mudou-se para Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
As histórias desse novo tempo pretendo contar em crônicas futuras, que passo a ficar devendo aos meus caros leitores.

Washington Luiz Bastos Conceição

Notas:
1) A referência a João Caetano talvez seja mesmo ao ator e encenador famoso.
2) Pesquisei, mas não descobri a quem meu pai se referia quando mencionou “São Lacerda”.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Até quando?"

Talvez seja coisa da idade, mas não tolero afirmações de políticos e governantes que façam pouco de nossa inteligência, nosso conhecimento e nossa boa vontade.
Exemplos dessas afirmações são de ex-presidentes, um se dizendo a alma mais honesta do Brasil, outra, ao fazer um discurso “brilhante”, com uma atitude pretensamente didática, explica que não podemos estocar vento. Outro exemplo, recente, é a afirmação do atual presidente dizendo-se tranquilo em meio a um furacão político que poderá liquidá-lo. Tais manifestações me fazem pensar que esses poderosos temporários acham que o povo brasileiro é constituído de imbecis, ingênuos, crédulos e ignorantes, os quais aceitam qualquer declaração dos políticos, por mais absurda que seja. Mesmo os eleitores que neles votaram merecem maior consideração, pois a decisão do voto está sujeita às circunstâncias de cada eleição (ideologia, escolha do “menos pior” e outras). Vejo por trás dessas declarações a influência nefanda do marketing mentiroso, praticado hoje em larga escala.

Um caso recente, que me levou a escrever esta crônica, se destaca pela malícia:
Em 20 de junho, o jornal “O Globo” publicou a seguinte notícia:
Base do IPTU (no Rio) pode subir até 60%.
Proposta negociada pelo prefeito Marcelo Crivella com vereadores prevê reajuste de até 60% na planta de valores, base de cálculo do IPTU. Cerca de 860 mil imóveis devem continuar isentos. Com a crise econômica reduzindo os orçamentos das famílias, o IPTU de 2018 pode atingir ainda mais o bolso dos cariocas”...
Onze dias depois, primeiro de julho, na seção de Ancelmo Gois do Jornal “O Globo”, foi publicada a seguinte nota:
Aumento do IPTU
Do prefeito Crivella sobre suas razões para querer rever as taxas de IPTU no Rio:
— Enquanto o imposto per capita nas cidades de São Paulo e Niterói é, respectivamente, R$ 626,84 e R$ 620,11, na cidade do Rio é de apenas R$ 358,28. Isso apesar de o preço do imóvel em Niterói ser mais baixo que no Rio.
É. Pode ser.”
Pergunto ao caro leitor ou prezada leitora: você já tinha ouvido uma referência de IPTU “per capita”? Sua muito provável resposta é não, pois o imposto é cobrado por área de terreno ou de construção, ou seja, por metro quadrado, que leva em conta a localização do imóvel e o desenvolvimento urbano do bairro.
Usando esse recém-inventado critério de referência, eu poderia reclamar com a Prefeitura por estar pagando mais IPTU “per capita” do que, por exemplo, um casal vizinho do prédio que tenha um filho e que more em um apartamento de mesma área que o meu. Neste, moramos somente minha esposa e eu.
Ainda quanto à nota de primeiro de julho: mesmo que, por curiosidade, se quisesse apurar esse índice “per capita”, teriam de ser levadas em consideração as quantidades de imóveis isentos e a população favelada, o que não sei se foi feito. E mais, por que comparar apenas com os municípios de São Paulo e Niterói e não com as outras capitais de estados, por exemplo? Os números não seriam favoráveis à argumentação de necessidade de aumento do IPTU no Rio?
Essa comparação estranha levanta imediatamente a suspeita de tentativa de enganar o público para justificar um aumento extremamente incongruente com a situação econômica atual dos munícipes.

No atual regime de governo, somente pelo voto nos livraremos dos políticos desonestos e ridículos, mas me parece que vai ser um processo demorado, em etapas.
Enquanto a renovação de nossos governantes e representantes não acontece, aos maus políticos devemos perguntar, como faria Cícero se falasse Português:
“Até quando, “excelências”, nobres homens públicos, vocês vão abusar de nossa paciência? Até quando?”

Washington Luiz Bastos Conceição 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Republicano

Acompanhar o terrível noticiário político destes dias está me fazendo mal à saúde, literalmente. O velho organismo está muito menos resistente e tenho de recorrer à força da mente para não sucumbir.
O que, em parte, me consola é meu pai não estar mais aqui para receber o impacto das caóticas notícias nossas de cada dia. Ele já se foi faz tempo, morreu aos 79 e em abril último teria completado 116 anos.
Osmar Bastos Conceição, como já contei em crônica anterior, graduou-se, primeiro, professor de Português e História da Civilização, no Paraná; mais tarde, já pai de família, formou-se bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, na famosa faculdade do Largo de São Francisco. Nesta, foi contemporâneo de futuras celebridades, como, por exemplo, Ulysses Guimarães e Jânio Quadros. Deste, foi colega de turma.
Era republicano convicto, desde os tempos da chamada República Velha, assim denominada pelos políticos que vieram depois dela. Esta é injustiçada por grande parte dos historiadores, que dão ênfase à aliança de Minas e São Paulo, os quais nem sempre estiveram de acordo ou controlaram sozinhos a política na República; e fazem referência às oligarquias mineira e paulista sem mencionar a oligarquia gaúcha. Desta última, fazia parte Getúlio Vargas que, tendo sido derrotado nas eleições, tomou o poder chefiando o golpe militar de 1930 que depôs o Presidente Washington Luiz, em final de mandato.
Getúlio ficou no poder por 15 anos, em regime ditatorial.
Osmar abominava aquela pesada ditadura fascista e repudiava o populismo demagógico implantado por Getúlio.
Imagine, então, cara leitora ou prezado leitor, como estaria ele se sentindo nestes dias!
Procurei imaginar qual seria sua reação e me veio à lembrança a seguinte passagem:

Nos idos de 1945, o Brasil voltava ao regime democrático. Getúlio, ainda no poder, marcou, em fevereiro, eleições para 2 de dezembro, mas dava sinais de que queria permanecer no governo. Com os candidatos à presidência já em campanha, surgiu um movimento a favor de mantê-lo no cargo: o queremismo. Em São Paulo (e provavelmente pelo Brasil todo) cartazes com a frase “Nós queremos Getúlio” foram colados em muros e tapumes de construções. Àqueles que ansiavam pela volta do País à democracia esse movimento causou profunda indignação.
Nossa família morava em Heliópolis, então um pequeno e pacato bairro afastado do centro da cidade. Tínhamos de ir com frequência ao centro, onde estavam localizados os escritórios das principais empresas, repartições públicas, as grandes lojas, os bancos. Contas de luz e água, por exemplo, tinham de ser pagas na “cidade”. Escolas ficavam no centro ou em suas proximidades. Mesmo quando o destino era outro bairro, tinha-se de ir ao centro porque era de lá que partiam os bondes e ônibus para os bairros.

Estudante, 13 anos de idade, eu também costumava ir ao centro. Tomava o bonde Fábrica no Sacomã e viajava até a Praça João Mendes, passando pelos bairros do Ipiranga, Cambuci e Liberdade. Dali, rumava habitualmente para a Praça da Sé, no topo da qual, fazia muitos anos, estava em construção a portentosa Catedral gótica da cidade. Um dia, ao fazer esse trajeto, observei que os tapumes da construção, muito convidativos para a colagem de cartazes, receberam, às centenas, pequenos cartazes de uns 25 por 35 centímetros, simples, letras pretas em fundo branco, com a frase “Nós queremos Getúlio”. Contudo, o projeto gráfico foi infeliz e deixou um espaço em branco ao lado de “Nós”. Mais ou menos assim:


Ah! Foi “mamão com açúcar” para aqueles que se indignaram com o movimento; eles aproveitaram o espaço para qualificar os queremistas, “enriquecendo” a frase. Parei para ler o que escreveram em cada cartaz, no espaço oferecido (a lápis e a tinta, não existiam ainda os “pincéis atômicos”). Se havia palavrões não me lembro, mas a qualificação não era nada elogiosa, algo como “os burros”, “os bandidos”, “os sem-vergonhas”, alterando a frase para, por exemplo, “Nós, os imbecis, queremos Getúlio”. De repente, me detive em um dos cartazes em que fora acrescentado “os cachorros”. Naquele tempo, embora o cachorro já fosse considerado o melhor amigo do homem, chamar uma pessoa de cachorro equivalia a chamá-la de canalha. Mas o que me chamou a atenção nele foi a letra – inconfundível – de meu pai. A catedral estava no trajeto dele para o trabalho e ele não perdeu a oportunidade de registrar sua repulsa ao movimento.
Osmar não era mal humorado, mas tinha uma atitude discreta, séria. Difícil imaginá-lo, de terno e gravata, rabiscando cartazes na rua. Porém, os políticos, especialmente Getúlio, mexiam, realmente, com o homem.

Anos mais tarde, em 1954, ele acompanhou todo o desenrolar da crise (o “mar de lama”) do governo de Getúlio, então presidente em regime democrático. Osmar sobreviveu.

Quanto a mim, agora, contando com a força inercial do País e com aqueles que possam ter influência na sua recuperação, resta esperar por dias melhores.

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

1) Jurema, minha filha, sugeriu que eu ilustrasse a crônica com uma foto de algo manuscrito pelo meu pai. Para tanto, apresento abaixo foto de sua dedicatória para mim em seu livro de poesias e, também, da capa deste. Os prezados leitores, certamente, vão concordar com minha afirmação de que a letra dele era, para mim, inconfundível.



2) Minha afirmação acima sobre a ênfase dada por grande parte dos historiadores à aliança de Minas e São Paulo se baseou no texto abaixo de Cláudia M. R. Viscardi, doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no capítulo “Nova ordem, velhos pactos” do livro “História do Brasil para Ocupados”, organizado por Luciano Figueiredo.

“Ao contrário do que se diz, São Paulo e Minas não estiveram sempre de acordo nem controlaram sozinhos a política na Primeira República. Análises recentes das sucessões presidenciais na Primeira República (1889-1930) mostram que a famosa aliança entre Minas Gerais e São Paulo, chamada de política do “café com leite”, não controlou de forma exclusiva o regime republicano. Havia outros quatro estados, pelo menos, com acentuada importância no cenário político: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Os seis, para garantirem sua hegemonia, possuíam uma forte economia e (ou) uma elite política compacta e bem representada no Parlamento. E, juntos ou separados, participaram ativamente de todas as sucessões presidenciais ocorridas no período. Além desses estados, havia dois coadjuvantes respeitáveis: o Exército e o Executivo.”

sábado, 17 de junho de 2017

Equívoco

Na sua origem, os esportes se constituem em divertimento dos praticantes, que passam a competir. Na evolução das competições, os participantes se organizam, profissionalizam-se e os esportes se tornam espetáculos e negócios de entretenimento. Com a transmissão de jogos pela televisão, jogos do mundo inteiro, esses negócios se agigantaram movimentando grandes somas de dinheiro.
O caro leitor ou prezado leitora que me brinda com sua atenção há algum tempo, já terá percebido que vou falar de futebol. Desta vez, entretanto, não vou contar que fui varzeano em São Paulo desde os treze anos e peladeiro veterano até os cinquenta, nem comentar meu comportamento como torcedor da Seleção Brasileira e do Corinthians, nem criticar a atuação dos locutores de televisão na transmissão dos jogos.
Nesta crônica, vou comentar uma decisão da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) sobre a classificação dos clubes que competem no campeonato brasileiro de futebol, o “Brasileirão”. Mais especificamente, sobre o primeiro critério de desempate no caso de dois ou mais clubes alcançarem a mesma pontuação. É algo que me incomoda há, pelo menos, três temporadas.
Tratando-se de campeonato (e não de uma copa, nem torneio), no qual, ao longo da temporada, os times jogam duas vezes contra cada um dos outros participantes, o critério de classificação é a quantidade de pontos obtidos no final da competição. Em alguns casos, dois ou mais clubes podem alcançar a mesma pontuação, de forma que há a necessidade de estabelecer critérios de desempate sucessivos até que, permanecendo a igualdade, recorre-se ao sorteio. Na maior parte dos casos o primeiro critério já estabelece o desempate.
Por que me incomoda – e acho que devia incomodar os dirigentes dos clubes também, além dos torcedores – o primeiro critério estabelecido pela CBF? Porque ele pode determinar qual se classifica para competir pela Taça Libertadores ou pela Copa Sul Americana de Clubes ou, ainda, qual deles cai para a segunda divisão (a temida queda para a série B). As três situações têm significado muito importante para as finanças e o prestígio dos clubes.

Sou do tempo em que, nos campeonatos de futebol, no mundo todo, aos times, em cada jogo, a vitória rendia dois pontos, o empate um ponto e a derrota zero. Ou seja, uma vitória valia dois empates. Acontece que era comum clubes jogarem pelo empate, mantendo-se na defensiva (a Seleção Suíça, por exemplo, era célebre por seu chamado “ferrolho”), o que prejudicava o espetáculo. Para estimular a busca da vitória pelos contendores, a FIFA (Federação Internacional de Futebol) decidiu, já faz tempo, creditar três pontos pela vitória, mantendo um ponto para o empate e zero para a derrota. Ou seja, uma vitória passou a valer três empates, estimulando, assim, os clubes a tentarem ganhar o jogo. Quanto aos critérios de desempate no caso de duas ou mais equipes conseguirem o mesmo número de pontos, são adotados principalmente, como primeiro critério, o saldo de gols (gols marcados menos gols sofridos). Como alternativa, utilizada, por exemplo, na Liga dos Campeões da Europa na fase de grupos, o primeiro critério é o resultado do confronto direto entre os clubes empatados em pontos.
Entrei nas minúcias acima para mostrar que já há, internacionalmente, critérios estabelecidos para desempate que estão funcionando bem nas competições por pontos.
Contudo, a CBF resolveu inovar e estabeleceu, como primeiro critério de desempate para dois clubes com a mesma pontuação, a quantidade de vitórias, esquecendo que os três pontos por vitória já premiaram, na contagem, o esforço do vencedor.
Esse critério, que vem vigorando há algumas temporadas, parece-me injusto porque na igualdade de pontos (com o mesmo número de jogos), o clube que consegue uma vitória a mais sofre duas derrotas a mais; para duas vitórias a mais são quatro derrotas a mais e assim por diante. Desta forma, o clube que perdeu mais é premiado – e na proporção de duas derrotas a mais para cada vitória a mais.
Para esclarecer, um exemplo: em 2016, a Ponte Preta e o Grêmio fizeram o mesmo número de pontos (53). Os pontos da Ponte foram obtidos com 15 vitórias e 8 empates (15X3+8X1=53) e os do Grêmio com 14 vitórias e 11 empates (14X3+11X1=53). Como ambos jogaram 38 partidas, a Ponte sofreu 38-(15+8)=15 derrotas e o Grêmio 38-(14+11)=13. A Ponte foi classificada em oitavo e o Grêmio em nono lugar.

Quando, no campeonato de 2014, o Corinthians Paulista perdeu para o Internacional o terceiro lugar por causa da aplicação desse critério, o clube de Porto Alegre entrou diretamente na fase de grupos da Libertadores e o primeiro teve de disputar previamente, com o Once Caldas da Colômbia, a qualificação para a competição propriamente dita; em duas partidas, no regime de “mata-mata”. Ou seja, levou vantagem o Internacional, que sofreu quatro derrotas a mais e teve menor saldo de gols.
Os números foram:

Classifi-cação
Clube
Pon-tos
Jo-gos
Vitó-rias
Empa-tes
Derro-tas
Saldo de Gols
3o.
Interna-cional
69
38
21
6
11
12
4o.
Corinthians
69
38
19
12
7
18

Quando fiz essa constatação, enviei um e-mail a um jornalista esportivo, então muito conceituado, pedindo que ele analisasse o assunto e, se concordasse comigo, pusesse o assunto em discussão para sensibilizar a CBF e conseguir a alteração do critério. Não recebi resposta, nem ao menos a acusação do recebimento do e-mail, e resolvi não insistir.
Contudo, um dia destes, decidi comentar o assunto com amigos e eles, talvez por delicadeza, me deram atenção; ficaram intrigados, e reconheceram que um critério equivocado, injusto, pode ser prejudicial financeiramente ao clube que teve melhor desempenho. A reação deles me animou a publicar esta crônica.

Fazer mudanças é necessário, sempre com o objetivo de conseguir melhorar algo – um produto, um processo empresarial, uma forma de prestar serviços – o que quer que seja. Mas simplesmente mudar para se mostrar diferente, único, não é evoluir; deve haver uma avaliação preliminar, seja observando experiência alheia, seja por ensaios ou testes cuidadosos, antes de implantar alterações.
Além disso, nos casos em que mudanças não dão certo, ou seja, mostram-se prejudiciais na prática, os responsáveis devem voltar atrás e projetar outras formas de aperfeiçoamento.
No caso exposto, tenho esperança de que alguma pessoa influente convença a CBF a corrigir o equívoco. Quem sabe, essa pessoa será um dos meus caros leitores?

Washington Luiz Bastos Conceição



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Maninho vai a São Paulo

Cara leitora ou prezado leitor:
Nesta fase caótica da vida brasileira, o noticiário sobre os acontecimentos no País, na televisão e nos jornais, tornou-se excepcionalmente intenso e terrivelmente chocante. Contra minha vontade e de uma forma irracional, afetou-me demais, a ponto de não me animar a escrever minhas modestas crônicas para os amigos. Parece-me que, frente às notícias e artigos dos comentaristas nos jornais, elas se tornam inoportunas, fora do contexto.
Entretanto, buscando assunto para me comunicar com meus atenciosos leitores, procurei imaginar o que estaria comentando nestes tempos o mestre João Ubaldo, de tão saudosa memória, e reli suas crônicas do período 2015-2016 reunidas no livro “A Gente se Acostuma a Tudo”.
Estava me preparando para comentar algumas delas, que me pareceram muito atuais, quando sobreveio a devastadora revelação de diálogos do atual presidente da República com um dos maiores empresários do País (dono da “maior processadora de carne do planeta”, como dizem os jornalistas), diálogos esses gravados pelo empresário para serem acrescentados às provas de sua delação premiada junto à Procuradoria Geral da República. Tsunami e hecatombe foram expressões largamente utilizadas pelos jornalistas que, trabalhando como loucos, estão excitadíssimos, vibrando com o noticiário espantoso que se renova diariamente.
Esperançoso que estava com o programa de reformas deste governo para a recuperação das finanças públicas do País, perdi meu requebrado e continuei no estupor que me impede de escrever uma simples crônica desde o início do mês passado.

Todavia, lembrando-me de que recorro a filmes, especialmente aqueles de puro entretenimento, para me aliviar da carga das más notícias, fiz uma analogia e pensei que seria interessante, para meus leitores se distraírem um pouco, transcrever no blog um dos causos que conto em meu primeiro livro, o “Histórias do Terceiro Tempo”.
Segue, então, a história:

“Maninho vai a São Paulo
Nos idos de 1941, minha família morava na Rua Oscar Freire, quase esquina de Teodoro Sampaio, no bairro de Cerqueira César, em São Paulo. Eu tinha nove anos.
A família de Tia Annette (irmã de meu pai) e Tio Joãozinho morava em Ponta Grossa. O segundo filho, o Maninho, ou melhor, Sebastião Garcia de Lima, tinha uns dezoito ou dezenove anos; tinha interrompido os estudos e jogava futebol. Como fiquei sabendo depois, tinha começado a jogar no Operário de Ponta Grossa e depois se transferiu para o Atlético Paranaense em Curitiba. Meus tios ficaram preocupados, pois ele já tinha prestado o serviço militar e precisava trabalhar.
Meu pai conseguiu um emprego para ele em São Paulo, através de um amigo, na Companhia Mecânica Importadora.
Combinado tudo por carta – telefone era coisa rara e telegrama era para comunicações urgentes, notícias de morte ou de doença grave – foi marcada a viagem dele, de trem. A confirmação da data foi feita por telegrama.
Na data e hora marcada, meu pai foi esperar o Maninho na Estação da Sorocabana, que ele (meu pai) conhecia muito bem. Conhecia também o sobrinho, claro. Esperou até a saída do último passageiro, perguntou ao pessoal da estação se havia algum recado para ele, foi ao ponto dos carros de aluguel e aos pontos de ônibus e de bonde. Nada de Maninho.
Preocupado, voltou para casa para ver se o sobrinho tinha ido sozinho para casa. Não tinha. Concluiu que o Maninho tinha perdido o trem e avisou minha tia que ele não tinha chegado.
Contudo, de Ponta Grossa confirmaram que ele tinha embarcado. Mas então, ele não tinha o endereço? Perdeu? Estava errado?
Meu pai fez o roteiro das delegacias de polícia e hospitais, bateu-se por uns dois dias – e nada de Maninho!
Amigos, São Paulo não era a megalópole que é agora, mas a cidade grande era difícil para qualquer pessoa de fora, especialmente um rapaz de 19 anos. Vocês podem imaginar o nervosismo de meus pais e dos pais dele lá no Paraná?
Meu pai não era religioso, não praticava religião, mas tinha uma devoção por Santo Antonio. Ele frequentava muito o centro de São Paulo – naquele tempo, Praça da Sé, Rua Direita, São Bento, Praça do Patriarca. Nesta, ficava a igreja de Santo Antônio. Com o insucesso de sua busca, ele foi lá rezar e pedir ajuda ao Santo. Pediu muito.
Ao sair da Igreja, encontrou o Maninho sentado em um dos bancos da praça.
Não fiquei sabendo direito qual tinha sido a dificuldade dele com o endereço, apenas soube que, ao não encontrar meu pai na estação, resolveu se hospedar em um hotel próximo. Maninho, embora jovem, não era bobo. Suponho (agora é pura especulação e não tenho mais com quem conferir) que ele, tendo esquecido ou perdido nosso endereço, pensou em enviar um telegrama para Ponta Grossa, mas deu um tempo, foi ao centro achando que lá encontraria meu pai – e encontrou!
De qualquer forma, continuo creditando o “salvamento” a Santo Antônio.

Após o susto, Maninho foi tratar da vida, começou a trabalhar e se hospedou conosco. No ano seguinte, o Brasil acabou entrando na guerra, a Segunda Guerra Mundial, que estava se desenrolando na Europa desde 1939. Maninho foi convocado pelo Exército, e foi para Curitiba.

O Brasil criou a FEB, Força Expedicionária Brasileira, convocando militares da reserva para combater junto com os de carreira. Os soldados eram organizados em escalões, que iam sendo preparados e enviados sucessivamente para a campanha da Itália, cumprindo um programa acertado com o Exército Americano, responsável por aquela campanha.
A cada envio de escalão, a torcida das famílias era para que seus rapazes fossem deixados para depois. Era uma emoção! Em casa não era diferente, estávamos todos torcendo para o Maninho ir ficando em Curitiba. E ele foi ficando. Porém, depois que o quinto escalão partiu, parecia que, finalmente, ele tinha de seguir no sexto. O quinto escalão da FEB foi o último e o Maninho não foi para a Itália. Deu baixa no Exército como sargento e voltou a São Paulo."

Washington Luiz Bastos Conceição