domingo, 3 de dezembro de 2017

Um grande susto e uma ajuda preciosa

Em 31 de outubro último, fomos, minha esposa e eu, a uma clínica de exames laboratoriais e de imagem. Para acompanhamento de tratamento ortopédico, ela se submeteu a um exame de densitometria óssea. A espera pelo exame foi inusitadamente alta, mas Leilah fez o exame normalmente, tomou um chocolate e comeu biscoitos para se revigorar e saímos do edifício para chamarmos o carro que nos levaria para casa. Ela está com dificuldade de locomoção, de forma que, fora de casa, usa uma muleta canadense no braço direito e apoia seu braço esquerdo no meu braço direito para ganhar equilíbrio. Ela se encostou em um banco cedido pelo vigia do edifício vizinho ao laboratório, enquanto fui à beira da calçada para esperar o carro. Quando este chegou e confirmei que era aquele que tinha chamado, abri a porta da frente. Quando me virei para buscá-la ela já tinha deixado o banco, estava no meio da calçada e, num átimo, girou no ar a caiu por inteiro no piso de pedra portuguesa – para susto meu e do vigia do edifício que não estávamos suficiente próximos para ajudá-la (a calçada tem uns quatro metros de largura). Cheguei perto dela e me desesperei porque ela tinha desmaiado. Imediatamente fomos cercados por pessoas que estavam passando por ali. Entre as exclamações: “Chame uma ambulância!”, “Levem-na para o Miguel Couto” (hospital próximo que atende emergências), uma senhora aparentando uns sessenta anos, magra, de cabelos grisalhos, passou a orientar o atendimento à Leilah, que voltara a si (o desmaio deve ter durado um minuto, se tanto) mas não estava totalmente consciente e tinha sofrido um corte no supercílio. A mulher, com meu auxílio e do motorista do carro, com muito cuidado, girou a Leilah (esta tinha caído sobre seu lado esquerdo), levantou primeiro a cabeça e, quando se assegurou de que ela não tinha sofrido nada mais grave, levou-a ao automóvel com o auxílio do motorista, um homem forte, aparentando uns cinquenta anos. Este concordou em nos levar à emergência de um hospital com o qual nossa seguradora de saúde tem convênio. Antes de partir, agradeci a atenção da boa samaritana, perguntando se ela era médica. “Não, sou psicóloga.”, respondeu.
Eram umas cinco e meia da tarde.
Logo que entramos no carro, telefonei para nossa médica (clínica e geriatra); ela atendeu, contei-lhe rapidamente o ocorrido e que estávamos indo para a emergência do hospital. Ela disse que iria telefonar, imediatamente, para o hospital e falar com o médico de lá.
Em seguida, liguei para minha filha, dando-lhe a notícia com muito cuidado para que não se assustasse. Ela ficou de nos encontrar no hospital.
Ainda no caminho, eu quis saber quão consciente Leilah estava, fazendo-lhe as perguntas básicas: “Qual o seu nome? E o sobrenome inteiro? Sua data de nascimento? Mês e ano? Meu nome? Meu nome todo?”. Ela respondeu corretamente a todas as perguntas, o que me deixou otimista quanto às consequências do tombo. Não se queixou de dor e perguntou se estávamos indo para a casa. Contei-lhe que ela havia caído e que estávamos indo para a emergência do hospital. Ela não se lembrava de nada, nem de que tinha feito o exame no laboratório.
Chegamos, após uns quinze minutos de viagem. Ela foi recebida rapidamente e levada em cadeira de rodas para dentro da emergência. Agradeci muito ao motorista, que ainda ajudara a desembarcá-la do automóvel.
Enquanto ela recebia o primeiro atendimento, fiz os necessários registros na recepção. Ao encontrá-la em seu box, já deitada e devidamente monitorada por aparelhos, a médica da emergência me informou que nossa médica havia falado com ela e que iria mandar fazer os exames necessários para verificarem se a queda e o desmaio haviam causado algum dano à paciente.
Minha filha chegou ao hospital e passou a nos fazer companhia, interagindo com a médica e os enfermeiros.
Os vários exames, que incluíram tomografias do cérebro e do tórax e radiografia do braço esquerdo, não acusaram anormalidade, de forma que Leilah pôde voltar para casa lá pela meia-noite, com o corte do supercílio devidamente suturado.
Nos dias seguintes, ela se submeteu a novos exames e a cardiologista está, também, orientando seu tratamento. A questão básica é que, ao contrário do que me pareceu no momento da queda, Leilah não desmaiou porque caiu, mas caiu porque desmaiou. Tudo indica que se tratou (como aprendi nestes dias) de uma síncope vasovagal.
Os cuidados redobraram, mas ela está bem.

Cara leitora ou prezado leitor: como já fiz em outras crônicas, detalhei o ocorrido esperando que o relato de nossa experiência com assuntos médicos seja útil para os amigos. Porém, o que me levou a escrever esta foi, também, a necessidade de relatar a grande ajuda que eu, idoso de 85 anos, recebi quando minha mulher caiu na rua. A psicóloga foi altamente eficaz, o motorista extremamente atencioso e as pessoas que se juntaram à nossa volta procuraram colaborar de alguma maneira. Agradeci, sensibilizado, aos dois primeiros e, refletindo sobre a ação deles, tive a emocionante sensação de que ainda podemos encontrar pessoas com alto grau de espírito de solidariedade e, mesmo, de caridade. Nestes tempos de “Salve-se quem puder!”, é uma constatação auspiciosa.


Washington Luiz Bastos Conceição

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Alento

Nesta nossa situação, minha e de minha mulher, de idosos bem avançados na idade, manifestamos queixas, mas temos também de reconhecer o que ainda nos conforta nas batalhas diárias que travamos para aproveitar o que a vida ainda nos oferece.
Em algumas de minhas crônicas, comentei dificuldades que vimos passando, principalmente com as sucessivas cirurgias e tratamentos a que Leilah, mjnha mulher, vem se submetendo. Além dessas, as restrições normais da condição de idosos, quando as respectivas máquinas, desgastadas pelo contínuo funcionamento por tanto tempo, requerem atenção maior.
Hoje, quero falar sobre algo muito valioso que temos recebido, que é a atenção das pessoas com que nos relacionamos mais proximamente.
Recebemos o cuidado diário dos filhos e respectivas famílias e, em situações difíceis, também de parentes que vêm ao Rio para nos apoiar. Esse cuidado é fundamental e não nos tem faltado. E mais, temos a atenção de amigos e dos profissionais que nos tratam – que acabam ficando amigos também. Estes nos têm surpreendido com sua dedicação.

Nosso dentista, que trata do casal há anos, ficou nosso amigo já há algum tempo, quando ficamos mais velhos. Vem nos atendendo de uma forma especial, já recorremos a ele em emergências, sendo um exemplo importante a manhã em que íamos viajar a São Paulo e ele atendeu a Leilah, logo após aviso às sete da manhã. Ela pôde viajar e não perdemos o avião. Bem recentemente, há um mês, observando que, ao acompanhá-la em uma consulta, eu não estava me sentindo bem, ele me acompanhou até fora do prédio para tomarmos um taxi que nos levou à emergência cardíaca de um hospital próximo (felizmente, foi coisa passageira e me recuperei lá mesmo).
Além do ótimo atendimento, o dentista é extremamente compreensivo em relação a nossos frequentes adiamentos de consultas (por força maior), é generoso com os valores e prazos dos pagamentos e nos presenteia no Natal e no aniversário. E mais, como ficamos os três na sua sala, temos conversas muito interessantes sobre vários assuntos. É importante comentar que, embora tenhamos esse tipo de relacionamento, sua atitude profissional não se altera.
Contei a ele que meu pai teve um amigo que foi dentista da família por muitos anos, mas destaquei que nosso caso é diferente: temos um amigo dentista que, antes, era apenas nosso dentista. E lhe disse que iria fazer uma recomendação especial a cada leitora (ou leitor) do meu blog, o que faço agora: “Fique amiga (ou amigo) de seu dentista!”.

Há já alguns anos, com a idade avançando, Leilah e eu, principalmente ela, tivemos necessidade de maiores cuidados médicos e passamos a recorrer a mais especialistas de diferentes áreas (que não são poucas) e, cada vez menos, visitávamos o clínico geral. Assim, não havia uma coordenação dos diversos atendimentos. Quando Leilah teve sucessivas fraturas e, entre elas, teve de colocar um “stent”, os filhos concluíram que precisávamos de um médico clínico, de preferência geriatra, para coordenar o atendimento médico ao casal. E indicaram uma médica, conhecida deles, de sua mesma faixa etária, diretora da divisão de geriatria de um hospital muito conceituado aqui do Rio. Em 2015, quando Leilah estava tendo muita dificuldade em se recuperar da cirurgia do quadril esquerdo e sofria muita dor, o ortopedista constatou que a prótese colocada em cirurgia de emergência, dois anos antes, havia se soltado por causa de uma infecção. Nova cirurgia foi marcada, desta vez mais problemática, porque a troca de prótese seria uma operação dupla que iria requerer, ainda, uma desinfecção do fêmur. O ortopedista pediu então, que uma avaliação do risco cirúrgico e o posterior acompanhamento fossem feitos por clínico experiente. Nossa médica, após conferência com o ortopedista, assumiu o posto. Ela assistiu a toda a operação (que foi um sucesso) e, a seguir, liderou o tratamento pós-operatório em regime de “home care”, tratamento esse com antibióticos muito fortes; foi muito pesado para a Leilah, mas também teve êxito. No processo foi envolvida também a cardiologista, outra médica conceituada. Desde então, minha mulher passou a ser atendida por uma equipe que se comunica, discute os problemas da cliente, e que vem sendo expandida à medida que ela necessita de especialistas para novos problemas (que, infelizmente, têm ocorrido e que, felizmente, têm sido tratados com sucesso). O acompanhamento da “capitã” (a clínica geriatra) corresponde ao do antigo médico de cabeceira, mais intensivo ainda porque, além das visitas ao consultório e telefonemas, os recursos do "whatsap" e do e-mail são bastante utilizados, com mensagens, fotos e digitalização de laudos de exames. Ação importante, por mais de uma vez, foi a comunicação da médica com os médicos da emergência do hospital, orientando-os, quando Leilah teve de ser levada para lá às pressas.

Eu disse muito pouco em meu discurso dos 85 anos, quando afirmei que Leilah vem tendo um atendimento médico excelente.

Essa atenção toda que vimos recebendo é nosso alento.

Washington Luiz Bastos Conceição




domingo, 8 de outubro de 2017

Discurso dos 85 anos

Há cinco anos publiquei a crônica “Quatre Vingts”, em que comento minhas sensações ao chegar aos oitenta anos. Neste setembro, completei oitenta e cinco. Na comemoração, desta vez em “petit comité”, fiz um discurso que, me pareceu, foi mais apreciado pelos parentes e amigos do que minhas falas em outras ocasiões. Não foi gravado, de modo que me pediram para publicá-lo no blog. Como, contra meu hábito, o discurso foi preparado (eu tinha um rascunho), pude reconstituí-lo na íntegra e o apresento a seguir.

[Abertura]
Agradeço, sensibilizado, aos presentes pela gentileza do comparecimento.
Comemorações de meu aniversário, como esta, vêm sendo feitas em cada década. Desta vez não se trata de mais uma década, mas apenas de mais um lustro. Acontece que poucas pessoas chegam aos 90 e convém não apostar. Um amigo nosso comemorou os 90 quando completava 89. Intencionalmente, pois ele não estava bem de saúde. O que depois, infelizmente, se mostrou ter sido uma boa ideia.
O importante é que estamos recebendo, hoje, com enorme satisfação, nossos queridos parentes e amigos. Destacamos a grande gentileza daqueles de fora, que se dispuseram a vir ao Rio, exclusivamente para este almoço, nestes dias tão conturbados que vive a Cidade Maravilhosa. Associo cada um de todos vocês a eventos importantes de minha vida.
Meu agradecimento vai também à Leilah, aos filhos e cônjuges, pela ideia, planejamento e realização deste almoço; em especial, à Jurema, anfitriã e coordenadora do trabalho e ao Fran e ao Bruno, pelo programa musical da reunião.

Quero lhes falar por uns 15 minutos. Peço àqueles que estiverem de acordo que permaneçam como estão agora. [sem interrupção] Muito obrigado!

[Introdução]
Costumo falar nas reuniões de aniversário da família. Nessas ocasiões, meu foco, claro, é o aniversariante. Hoje, está mais difícil, porque tenho de falar sobre mim mesmo.
Confesso que me custa crer que eu tenha alcançado essa idade toda. Ao reunir fotografias para a apresentação que chamei “Viagem pelo Tempo”, re-encontrei vários Washingtons que cumprimentei amistosamente, recordando de forma clara as fases de minha vida, da infância à juventude, desta à maturidade e desta à velhice. Contudo, não me entristeci, não exclamei “Bons tempos não voltam mais, belos tempos de rapaz!”, mas gostei de me ver: o jovem, o noivo, o pai de família e, mais recentemente, o avô.
Bem, para começar, para aqueles que me perguntam “Como você se sente aos 85 anos?”, estou respondendo: “Admirado!”. Mas, agora, vou entrar em detalhes, claro, porque não é uma resposta simples e porque desejo que vocês, ao atingirem e ultrapassarem esta minha idade, estejam em melhor estado físico e mental do que o meu.

[Preguiça]
Para começar, de uma forma geral, sinto que o Washington, estudioso, esportista de anos atrás, trabalhador até a aposentadoria, é hoje muito preguiçoso. Não sei se por razões físicas ou psicológicas. Preguiça de sair de casa, preguiça de fazer exercício físico, preguiça...
Contudo, a meu favor, devo dizer que, quando um desafio se apresenta requerendo ação, reajo positivamente.

[Ranzinzice]
Reconheço que pratico um pouco de ranzinzice e que me deixo irritar com facilidade.
Por exemplo, com os telefonemas abusivos de telemarketing. Em geral, enquanto não adoto a tecnologia de bloqueio, trato de evitar o diálogo e desligar o telefone, mas, às vezes, cometo indelicadezas. Em seguida me arrependo, porque sei que a operadora está fazendo um trabalho difícil e que pessoas amigas já tiveram essa atividade; eu mesmo já programei telemarketing junto a empresas. Contudo, outro dia, recebi um desses telefonemas num momento difícil – Leilah não estava passando bem – e, quando a pessoa se apresentou como “fulana” da companhia telefônica da qual sou cliente, perguntei qual o assunto. Ela respondeu com outra pergunta: “Estou falando com o titular da linha?”; pedi para ela repetir, o que ela fez de forma agressiva. Aborreci-me e respondi: “O titular da linha é o Neymar!” e desliguei.
Outro exemplo: Como todos os idosos com que troco ideias, não gosto quando as pessoas vêm com aquela hipocrisia de chamar velhice de “melhor idade” (que só pode ser melhor do que aquelas que vêm depois). Tampouco me agrada quando, no atendimento de médicos e enfermeiros, eles pedem “me dá o bracinho aqui”, “estique a perninha”, etc. Recentemente, me submeti a uma ultrassonografia abdominal; quando a médica me pediu para eu encolher a “barriguinha”, comentei: “Doutora, não dá para chamar esta barrigona de barriguinha!. Construída ao longo de 80 anos, serviu muito bem de travesseiro para meu neto carioca, quando pequeno".
Também me irritam declarações e expressões de jornalistas no seu afã de noticiar em primeira mão ou de comentar assuntos dos quais não têm o necessário conhecimento e criticam tudo. Por exemplo, quando noticiaram a inundação de Houston pelo furacão “Harvey”, criticaram a construção da cidade, sem considerar que é economicamente impossível fazer um sistema urbano de esgotamento de águas pluviais que enfrente um furacão de categoria 4!
Alguns anúncios na televisão também são difíceis de aturar – aqueles de pessoas falando e andando, por exemplo, e os de automóvel, que procuram chamar sua atenção com cenas mirabolantes e, ao final, você não nota qual a marca do veículo anunciado. E as frases, que pretendem ser geniais: aquela “O carro X você não dirige, você sente.” me fez pensar na seguinte cena: um guarda de trânsito detém o motorista, pede para este lhe mostrar sua carteira de habilitação e ele responde: “Seu guarda, este carro eu não dirijo, eu sinto!”. Talvez a frase pudesse ser aproveitada pela Uber, ligeiramente modificada: “Conosco você não dirige, você senta!”.

[Preocupação excessiva]
Reconheço que tenho uma preocupação excessiva com coisas que, realmente, não posso influenciar. As notícias, principalmente do País, com que somos bombardeados pela TV, diariamente, estavam, até há pouco tempo, me levando à loucura; desta, Leilah, os filhos e os amigos estão me ajudando a escapar; estou conseguindo moderar minhas reações e, lembrando-me do livro "Os 7 hábitos das pessoas altamente eficientes", de Stephen Covey, me conformar com o fato de meu círculo de influência ser muito menor do que o círculo de minhas preocupações.

[Memória]
Enfrento também as dificuldades naturais que a idade trás.
Memória é algo que, realmente, o idoso perde. Não tem jeito. De forma curiosa, lembro-me de coisas pouco importantes de um passado distante e me esqueço de acontecimentos ou conversas recentes. Acho absurdo me esquecer do que jantei ontem e me lembrar, por exemplo, de um anúncio que ouvia no rádio aos 10 anos de idade, em visita a Ponta Grossa. O anúncio começava com a frase que usei há pouco “Bons tempos não voltam mais, belos tempos de rapaz!”, falada em tom de queixa de dor por um homem mais velho; em seguida, vinha o “gingle”, cantado por outra pessoa que lhe recomendava o remédio:
“Pronto Alívio Radway, remédio que já usei em diversas ocasiões,
contra dores, queimaduras, torcicolos, torceduras, reumatismo, contusões; pronto alívio encontrei, em pouco tempo me curei com o Pronto Alívio Radway.”
Meu Deus! Como é possível eu me lembrar disso? Eu, que vivo me esquecendo de nomes e de palavras que conheço bem!
Há exercícios que podem nos ajudar a preservar a memória. Estou praticando alguns. Minha mãe, que faleceu lúcida aos 97 anos, se exercitava decorando números de telefone e datas de aniversário dos parentes e amigos.
Há alguns dias, recebi pelo whatsapp uma mensagem com uma dessas frases sobre idosos, que era mais ou menos assim: “o pior de ficar velho é que, quando você acha que sabe tudo, começa a esquecer”. Embora eu nunca tenha tido a pretensão de saber tudo, de muita coisa, certamente, já me esqueci. Exemplos: na matemática, cálculo diferencial e integral; cálculo vetorial e de matrizes; na termodinâmica, entropia e entalpia; na música, o reconhecimento de conhecidas peças clássicas ou os nomes de seus autores.

[Novos conhecimentos]
Em compensação, nestes últimos anos, estou aprendendo coisas novas: usar “aplicativos” no computador e no celular; escrever e publicar livros, impressos e digitais; publicar crônicas no blog, etc. Também, estou me aperfeiçoando em algumas atividades domésticas essenciais.
E, principalmente, onde tenho progresso diário, aprendo nomes de alguns males e doenças e nomes de remédios: o meu conhecimento de anos atrás, que incluía apenas Aspirina, vitamina C, xaropes, Novalgina, Luftal e alguns outros medicamentos, foi muito ampliado, não só por causa das novas necessidades do casal, como também pela especificação requerida pelos genéricos. Agora, Novalgina é Dipirona, Aspirina é Ácido Acetilsalicílico, Luftal é Simeticona. Uso, faz tempo, um remédio para regularizar a pressão, o Micardis HCT e agora fiquei muito feliz por saber que HCT é, simplesmente, “Hidroclorotiazida”; de alguns deles, Leilah e eu ficamos íntimos, e os chamamos por apelido: o Bissulfato de Clopidogrel é o “Clopido”, o Pantoprazol é o “Panto”. Há algumas semanas, eu fazia uma compra na drogaria, quando um senhor alto, encorpado, com aparência de bem mais moço do que eu, falando alto, tentava dizer à balconista o nome do remédio de que precisava. Ouvindo suas tentativas, interferi: “É o Besilato de Anlodipino!”. Ele vibrou: “Esse mesmo! Tomo esse remédio faz tempo, mas não consigo guardar o nome dele.” Tive meu dia de glória!

[Atividades atuais]
Embora reconhecendo que minha produtividade caiu, por várias razões, continuo com meus escritos. Venho publicando no blog, em média, uma crônica por mês. Como faço periodicamente, pretendo reunir as mais recentes em um novo livro de crônicas.
Estou iniciando o projeto de outro livro, em que contarei histórias de meu pai, inseridas no cenário do Brasil do século vinte. Caminha devagar, porque é, para mim, um grande desafio. Anuncio aqui para forçar meu comprometimento.
Entretanto, não há dúvida de que minha atividade mais importante, nestes últimos anos, tem sido cuidar da Leilah. É difícil para mim, porque tenho presenciado tudo que lhe tem acontecido, as dores e sustos que tem sofrido. Contudo, sua coragem, determinação e os cuidados médicos excelentes estão vencendo a luta, o que me dá a certeza de que teremos tempos melhores. Espero voltarmos a sair mais de casa para programas não relacionados com tratamento médico, voltarmos a fazer as viagens de que gostamos, aproveitando-as dentro de nossas limitações de idade. E, claro, encontrarmos vocês com maior frequência.

[Fechamento]
Quando estudei Espanhol no primeiro ano do Curso Colegial (eu tinha 15 anos), o livro de meu professor trazia, após cada lição, uma frase, talvez originária da sabedoria popular. Uma delas re-encontrei recentemente e, penso, é provável que vocês já conheçam. Após todos meus anos de vida, estou convencido de que é verdadeira e valiosa. Termino este meu discurso com ela, traduzida para o Português:
“A felicidade não é coisa fácil: é difícil encontrá-la em nós mesmos e impossível achá-la em outro lugar”.

Muito obrigado pela atenção.

Washington Luiz Bastos Conceição



Nota:
As anotações entre colchetes, em vermelho, serviram para organizar o discurso, não entraram na fala. Achei conveniente mantê-los no texto para orientar o leitor.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Pequeno, poderoso e indispensável

Criticado em todas as formas de comunicação – comentários em conversas, artigos, caricaturas, vídeos – o uso universal, intenso, compulsivo, do telefone celular estabeleceu-se, parece, de forma definitiva. O que mais se vê hoje são pessoas digitando em seus aparelhos, em qualquer situação e ambiente (os usuários mais treinados, especialmente os jovens, usam os polegares com extrema rapidez).
A crítica é geral, mas é, na verdade, uma autocrítica, pois devem ser raríssimas as pessoas que podem dispensar o uso dessa extraordinária forma de comunicação. Falo por mim, meus parentes e meus amigos que criticamos o uso exagerado do aparelho, mas nos vemos, com frequência, verificando mensagens em meio a um almoço, por exemplo. Mesmo pedindo desculpas, explicando que espero uma notícia importante, cometo, de vez em quando, essa indelicadeza.
Ou seja, não temos escapatória. O próprio e-mail, ótima forma de comunicação assíncrona que substituiu cartas impressas e telefonemas, passou a ter seu uso restrito a negócios e ao mal afamado telemarketing. As conversas informais de grupos de amigos, parentes e, até, informações para acompanhamento médico são feitas através do whatsapp, na esmagadora maioria dos casos.

Neste ponto, paro para pensar nos benefícios do uso do celular e seus “aplicativos”: se esse tipo de comunicação não fosse conveniente para as pessoas – às vezes o assunto é importante ou urgente – estaríamos todos presos ao aparelhinho milagroso?
Passei a relacionar mentalmente o que temos feito, nós mesmos, eu e minha mulher, por meio do whatsapp: comunicamo-nos rapidamente com os filhos e amigos, individualmente e em grupos, tanto para tratarmos de assuntos sérios como para “bater um papo” à distância (alguns estão mesmo longe, em outro país); complementamos as consultas médicas informando o profissional sobre a evolução de um tratamento, pedidos ou resultados de exames ou um mal-estar súbito (já enviei, certa vez, foto de um pequeno ferimento na perna para primeira avaliação da geriatra); fazemos pedidos de pequenas compras às diaristas, para trazerem na vinda para nossa casa (o que é muito conveniente para idosos).
Bem, até agora falei só do whatsapp, mas lembremo-nos de que o celular é, também, computador de bolso ligado à internet, gravador de som, câmera fotográfica e de vídeo, e relógio. E mais, uma coleção de livros, prontos para você ler onde quiser, quando quiser, bastando para isso baixar um aplicativo tipo “Kindle”.
Como câmera, temos utilizado muito o celular para registrar e ilustrar comunicações de eventos; almoços e festas de aniversário, por exemplo. Este recurso serve também para ilustrar mensagens nas mais variadas atividades profissionais. Recentemente, na reforma de um apartamento, usamos fotos para registrar as condições dos tubos de água. Em outra oportunidade, para envernizar uma bancada em nossa sala, tivemos de desconectar os fios de uma instalação de aparelhos de televisão e de som, com seus periféricos; fotografamos previamente a situação das conexões originais para reconstituí-las corretamente.
Como computador, o celular tem substituído, pelo menos parcialmente, os desktops e laptops. Um dos companheiros de nosso almoço periódico de aposentados ex-IBM declarou que todo trabalho e leitura que fazia no computador faz agora no celular.
Ligado à internet, o aparelho oferece uma enciclopédia de bolso. Outro colega do mesmo grupo, sempre atento às novidades tecnológicas, usa muito bem esse recurso. Às vezes, em meio a nossa conversa, surge uma dúvida que ele resolve de imediato mediante consulta ao Google.

Minha avaliação é que, por mais que se possa criticar o hábito da imensa maioria das pessoas, de utilização ininterrupta e intensa do celular, este oferece benefícios muito valiosos, tanto nas atividades de trabalho quanto no relacionamento social. Apenas, espero que essas pessoas consigam o equilíbrio necessário para largar um pouco o celular quando: atravessarem a rua, especialmente com o sinal fechado para elas; estiverem dirigindo automóvel ou outro veículo; participarem de reuniões sociais ou de trabalho; estiverem à mesa acompanhadas; assistirem a palestras; dirigirem carrinhos no supermercado. Enfim, quando se espera de cada uma a atenção necessária aos outros viventes.

Washington Luiz Bastos Conceição




Nota:

A título de ilustração e como curiosidade, conto que, neste dias, estou recorrendo ao celular e ao computador no pequeno projeto sentimental de editar, em e-book, o livro de poesias de meu pai que mencionei na crônica anterior (“Osmar – Os primeiros passos”). Um dos meus primos do Paraná mostrou interesse em ler o livro todo. Como tenho apenas meu exemplar, com preciosa dedicatória do autor, surgiu-me a ideia do projeto, que requer copiar o livro, o que comecei a fazer na base do “faça você mesmo” (“do it yourself”). Primeiro, pensei em digitar (tempo não me falta), mas datilografia não é minha praia. Logo, testei a digitalização do livro, mediante a “scanner” de mesa; a operação, difícil e demorada, não funcionou a contento. Orientado por um amigo para digitalizar o livro usando um aplicativo do celular que processa fotos das páginas, não consegui instalá-lo e não insisti porque sou um fotógrafo medíocre. Decidi, então, usar o seguinte processo, que já está em operação: usando o recurso de conversão de voz para texto do celular, leio os versos e obtenho um texto no aplicativo “Notes”; a seguir, envio o texto por e-mail para mim mesmo e recebo no computador; neste, copio para um arquivo “Word”, no qual trabalho pontuando e formatando o texto. Este arquivo, no final, será usado para a preparação do e-book. Sei que alguns de meus e leitores poderão criticar meu sistema e apresentar ideias diferentes, talvez melhores; porém, dentro de minhas possibilidades, essa me pareceu a solução mais adequada aos meus recursos.

sábado, 29 de julho de 2017

Osmar - Os primeiros passos

Cara leitora ou prezado leitor:
A publicação da crônica “O Republicano”, em junho, reacendeu meu desejo de escrever sobre meu pai, uma pessoa que viveu a evolução do Brasil ao longo do século XX e acompanhou as transformações extraordinárias do mundo todo. Nascido e criado no interior do Estado do Paraná, graduou-se professor em Curitiba, e se casou em Ponta Grossa. Depois de poucos anos, mudou-se para o Estado de São Paulo, morando inicialmente no interior e depois na Capital, cidade que ele amava e na qual se formou em Direito, criou os filhos e viveu até falecer, aos 79 anos. Formou com Jurema, minha mãe, um casal feliz e corajoso.
Sinto que ele não tenha deixado um livro de memórias, que as tinha muito interessantes e ilustrativas, mas posso contar algumas de suas histórias – as que ele contou aos filhos e aquelas que presenciei. Pretendo publicá-las em forma de crônicas e reuni-las em um livro. Já escrevi duas: além da “O Republicano”, acima mencionada, “Uma escola com seu nome”, publicada em abril de 2012.





Morretes
A quem vai a passeio a Curitiba, Paraná (estado do sul do Brasil), é oferecida, certamente, uma excursão na ferrovia Curitiba-Paranaguá, uma obra notável de engenharia realizada no século XIX (foi inaugurada em 1885). Fiz esse passeio mais de uma vez, por trem mesmo e por litorina, uma espécie de ônibus sobre trilhos. Apreciei muito as paisagens impressionantes na descida da Serra do Mar e, como engenheiro, os detalhes da obra, extremamente ousada para a época de sua execução.
Antes de chegar a Paranaguá, o trem para em Morretes, cidade que fica ao pé da serra.
Foi nessa pequena cidade que João Alves da Conceição e Balbina Bastos Conceição ganharam seu filho caçula, Osmar Bastos Conceição, meu pai, no ano de 1901. Único filho homem, suas irmãs eram Carolina, Aracy e Anete.
João era de Antonina e Balbina era de Paranaguá, ambos professores de escolas públicas, o que os fazia mudar de cidade de tempos em tempos. De Morretes se transferiram para Castro, cidade situada na região paranaense chamada Campos Gerais e próxima a Ponta Grossa.

Castro
Conforme informa a Wikipedia, Castro foi, inicialmente, um pouso de tropeiros, às margens do rio Iapó, no histórico Caminho de Sorocaba, que ligava esta cidade paulista ao Rio Grande do Sul. Em Cruz Alta (nesse estado), eram reunidos muares, trazidos da região de Corrientes, na Argentina. De lá, os tropeiros levavam os animais para a Feira de Sorocaba, que foi o maior ponto de comercialização de muares, no Brasil, do final do século XVIII até o final do século XIX.
O “Pouso do Iapó” se firmou como povoação e, em 1857, se tornou a cidade de Castro.

As recordações de infância de Osmar eram de Castro. Para nós, seus filhos, contava casos típicos de cidade do interior daquele início de século. Por exemplo, a passagem do circo pela cidade e os comentários todos que provocava. Mas foi em seu livro de poesia “Emoções que ficam”, escrito quando estudante de Direito, que falou de sua vida em Castro. Em versos leves, alternando emoção e bom humor, apresentou a família – irmãs, mãe, pai e avó – e narrou suas histórias daquela fase da vida.
Os versos expressam, realmente, suas emoções. Ele não se preocupou em descrever a cidade daquele tempo: a pavimentação das ruas, o sistema de iluminação pública, o abastecimento de água, as construções, por exemplo; e mais, como era o dia a dia das pessoas e quais seus recursos. Até sua casa ele trata de maneira afetiva, dizendo que ela:
“Foi para mim um pequenino mundo,
Pleno de graça, de esplendor fecundo”.
Como ilustração, transcrevo alguns versos do livro:

PROTETOR E GUIA

Estrela amiga e benfeitora, alçada
Sobre os rumos primeiros de um destino,
Ao mais tênue clarão de uma alvorada!
Com que extremado culto ainda o contemplo:
Guia, outrora, do filho pequenino,
Do filho moço, hoje, o mais nobre exemplo.

Mestre-escola, tribuno, polemista,
Curandeiro de bairro, João Caetano
Nas horas vagas... Diligência mista,
Era de ouvir-se, em qualquer festa, então,
O infalível convite, honroso, lhano:
“Tem a palavra o Seu João Conceição”.

Varão, contudo, de índole severa,
Meu pai, na angústia ou na prosperidade,
Bondosamente, para todos era
O popular “Seu” Conceição que havia
De, a toda lei, salvar a humanidade
Com três gotas, talvez, de homeopatia...

MINHA MÃE

Soberana de um plácido reinado,
Com seu pródigo amor – lume sagrado
A encher de encantos meu feliz solar!
– Minha mãe, santa mãe, logo à noitinha,
Por mim que, criança, mal ao mundo vinha,
Ia, aos milagres da fé, crente, rezar.

Quando, mais tarde, cavaleiro andante,
Parti, galhardo, em busca ao meu levante,
Ávido de honras, de emoções, senhor!
– Minha mãe, santa mãe, constância infinda!
Por mim que, moço, mal vivera ainda,
Rogava, em prece, um guia protetor.

E o tempo veio, traiçoeiro, mudo,
Tudo apagando, avassalando tudo,
Sobre os escombros dos castelos meus!
– Minha mãe, santa mãe, num devaneio,
Por mim que, homem agora, em nada creio,
Suplica aos céus: “Dai-lhe o perdão – meu Deus!”


PATRIOTISMO

Com que vaidade, moço, já, me lembro
Daquele gesto de heroísmo infante
Com que num doce e encantador novembro
Vi terminar meu ano de estudante.

A escola, outrora, “era risonha e franca”...
“Seu” mestre, um velho já de voz cansada,
Férula à mão, tradicional carranca,
Do que “marcou” não dispensava nada.

Daí o preceito bárbaro, traiçoeiro,
Da maldita e cruel pedagogia:
Decorar, cada aluno, um trecho inteiro
De gramática, história e geografia.

Por isso e em meio ao natural vexame
Que a imponência do ato a inspirar vinha,
Pus, sob o horror do malfadado exame,
Ao léu da sorte, toda a glória minha.

“Pois, muito bem, Sr. Osmar... (Sorrindo,
O Dr. Braga dava medo) Vai
Relatar-me o Sr. um ponto lindo:
A guerra entre o Brasil e o Paraguai”.

E o examinando que tão bem guardara,
De cor os fatos principais da História,
Pelo temor que lhe infundia a vara,
Ou o uso da horrível palmatória,

Assume uns ares de comando e ufano,
Como se o próprio Osório ali se achasse,
Entra a falar no Ditador Solano,
Em Mitre e Flores, em D. Pedro.. A face

Em fogo, o coração bem brasileiro,
Palavra firme (E o São Lacerda, então?)
– “Mas que menino! Viu?” – “E este é o primeiro”...
Sabe, de fato, História, como não?

Depois Cerro Corá, a guerra finda!
Nosso altivo pendão desagravado!
– “Que belo exame!” – “E que matéria linda!”
– “Parabéns, parabéns... Está aprovado”.

E ao retornar pra junto aos meus, contente,
Presa dos olhos de convivas tantos,
Dei de encontro a sorrir na minha frente,
Com o velho amigo “Seu” João Félix dos Santos:

“Gostei de ouvir! Há de você dar panos
Pras mangas logo... Isso nem tem "tarveis"!
O que para os outros exigiu cinco anos,
Você, brincando, em dez minutos fez”.

Veio a juventude e Osmar teve de bater asas – foi estudar em Curitiba e lá se formou professor de Português e de História da Civilização. Em seguida, em busca de trabalho e (parece-me) de aventura, mudou-se para Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
As histórias desse novo tempo pretendo contar em crônicas futuras, que passo a ficar devendo aos meus caros leitores.

Washington Luiz Bastos Conceição

Notas:
1) A referência a João Caetano talvez seja mesmo ao ator e encenador famoso.
2) Pesquisei, mas não descobri a quem meu pai se referia quando mencionou “São Lacerda”.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Até quando?"

Talvez seja coisa da idade, mas não tolero afirmações de políticos e governantes que façam pouco de nossa inteligência, nosso conhecimento e nossa boa vontade.
Exemplos dessas afirmações são de ex-presidentes, um se dizendo a alma mais honesta do Brasil, outra, ao fazer um discurso “brilhante”, com uma atitude pretensamente didática, explica que não podemos estocar vento. Outro exemplo, recente, é a afirmação do atual presidente dizendo-se tranquilo em meio a um furacão político que poderá liquidá-lo. Tais manifestações me fazem pensar que esses poderosos temporários acham que o povo brasileiro é constituído de imbecis, ingênuos, crédulos e ignorantes, os quais aceitam qualquer declaração dos políticos, por mais absurda que seja. Mesmo os eleitores que neles votaram merecem maior consideração, pois a decisão do voto está sujeita às circunstâncias de cada eleição (ideologia, escolha do “menos pior” e outras). Vejo por trás dessas declarações a influência nefanda do marketing mentiroso, praticado hoje em larga escala.

Um caso recente, que me levou a escrever esta crônica, se destaca pela malícia:
Em 20 de junho, o jornal “O Globo” publicou a seguinte notícia:
Base do IPTU (no Rio) pode subir até 60%.
Proposta negociada pelo prefeito Marcelo Crivella com vereadores prevê reajuste de até 60% na planta de valores, base de cálculo do IPTU. Cerca de 860 mil imóveis devem continuar isentos. Com a crise econômica reduzindo os orçamentos das famílias, o IPTU de 2018 pode atingir ainda mais o bolso dos cariocas”...
Onze dias depois, primeiro de julho, na seção de Ancelmo Gois do Jornal “O Globo”, foi publicada a seguinte nota:
Aumento do IPTU
Do prefeito Crivella sobre suas razões para querer rever as taxas de IPTU no Rio:
— Enquanto o imposto per capita nas cidades de São Paulo e Niterói é, respectivamente, R$ 626,84 e R$ 620,11, na cidade do Rio é de apenas R$ 358,28. Isso apesar de o preço do imóvel em Niterói ser mais baixo que no Rio.
É. Pode ser.”
Pergunto ao caro leitor ou prezada leitora: você já tinha ouvido uma referência de IPTU “per capita”? Sua muito provável resposta é não, pois o imposto é cobrado por área de terreno ou de construção, ou seja, por metro quadrado, que leva em conta a localização do imóvel e o desenvolvimento urbano do bairro.
Usando esse recém-inventado critério de referência, eu poderia reclamar com a Prefeitura por estar pagando mais IPTU “per capita” do que, por exemplo, um casal vizinho do prédio que tenha um filho e que more em um apartamento de mesma área que o meu. Neste, moramos somente minha esposa e eu.
Ainda quanto à nota de primeiro de julho: mesmo que, por curiosidade, se quisesse apurar esse índice “per capita”, teriam de ser levadas em consideração as quantidades de imóveis isentos e a população favelada, o que não sei se foi feito. E mais, por que comparar apenas com os municípios de São Paulo e Niterói e não com as outras capitais de estados, por exemplo? Os números não seriam favoráveis à argumentação de necessidade de aumento do IPTU no Rio?
Essa comparação estranha levanta imediatamente a suspeita de tentativa de enganar o público para justificar um aumento extremamente incongruente com a situação econômica atual dos munícipes.

No atual regime de governo, somente pelo voto nos livraremos dos políticos desonestos e ridículos, mas me parece que vai ser um processo demorado, em etapas.
Enquanto a renovação de nossos governantes e representantes não acontece, aos maus políticos devemos perguntar, como faria Cícero se falasse Português:
“Até quando, “excelências”, nobres homens públicos, vocês vão abusar de nossa paciência? Até quando?”

Washington Luiz Bastos Conceição 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Republicano

Acompanhar o terrível noticiário político destes dias está me fazendo mal à saúde, literalmente. O velho organismo está muito menos resistente e tenho de recorrer à força da mente para não sucumbir.
O que, em parte, me consola é meu pai não estar mais aqui para receber o impacto das caóticas notícias nossas de cada dia. Ele já se foi faz tempo, morreu aos 79 e em abril último teria completado 116 anos.
Osmar Bastos Conceição, como já contei em crônica anterior, graduou-se, primeiro, professor de Português e História da Civilização, no Paraná; mais tarde, já pai de família, formou-se bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, na famosa faculdade do Largo de São Francisco. Nesta, foi contemporâneo de futuras celebridades, como, por exemplo, Ulysses Guimarães e Jânio Quadros. Deste, foi colega de turma.
Era republicano convicto, desde os tempos da chamada República Velha, assim denominada pelos políticos que vieram depois dela. Esta é injustiçada por grande parte dos historiadores, que dão ênfase à aliança de Minas e São Paulo, os quais nem sempre estiveram de acordo ou controlaram sozinhos a política na República; e fazem referência às oligarquias mineira e paulista sem mencionar a oligarquia gaúcha. Desta última, fazia parte Getúlio Vargas que, tendo sido derrotado nas eleições, tomou o poder chefiando o golpe militar de 1930 que depôs o Presidente Washington Luiz, em final de mandato.
Getúlio ficou no poder por 15 anos, em regime ditatorial.
Osmar abominava aquela pesada ditadura fascista e repudiava o populismo demagógico implantado por Getúlio.
Imagine, então, cara leitora ou prezado leitor, como estaria ele se sentindo nestes dias!
Procurei imaginar qual seria sua reação e me veio à lembrança a seguinte passagem:

Nos idos de 1945, o Brasil voltava ao regime democrático. Getúlio, ainda no poder, marcou, em fevereiro, eleições para 2 de dezembro, mas dava sinais de que queria permanecer no governo. Com os candidatos à presidência já em campanha, surgiu um movimento a favor de mantê-lo no cargo: o queremismo. Em São Paulo (e provavelmente pelo Brasil todo) cartazes com a frase “Nós queremos Getúlio” foram colados em muros e tapumes de construções. Àqueles que ansiavam pela volta do País à democracia esse movimento causou profunda indignação.
Nossa família morava em Heliópolis, então um pequeno e pacato bairro afastado do centro da cidade. Tínhamos de ir com frequência ao centro, onde estavam localizados os escritórios das principais empresas, repartições públicas, as grandes lojas, os bancos. Contas de luz e água, por exemplo, tinham de ser pagas na “cidade”. Escolas ficavam no centro ou em suas proximidades. Mesmo quando o destino era outro bairro, tinha-se de ir ao centro porque era de lá que partiam os bondes e ônibus para os bairros.

Estudante, 13 anos de idade, eu também costumava ir ao centro. Tomava o bonde Fábrica no Sacomã e viajava até a Praça João Mendes, passando pelos bairros do Ipiranga, Cambuci e Liberdade. Dali, rumava habitualmente para a Praça da Sé, no topo da qual, fazia muitos anos, estava em construção a portentosa Catedral gótica da cidade. Um dia, ao fazer esse trajeto, observei que os tapumes da construção, muito convidativos para a colagem de cartazes, receberam, às centenas, pequenos cartazes de uns 25 por 35 centímetros, simples, letras pretas em fundo branco, com a frase “Nós queremos Getúlio”. Contudo, o projeto gráfico foi infeliz e deixou um espaço em branco ao lado de “Nós”. Mais ou menos assim:


Ah! Foi “mamão com açúcar” para aqueles que se indignaram com o movimento; eles aproveitaram o espaço para qualificar os queremistas, “enriquecendo” a frase. Parei para ler o que escreveram em cada cartaz, no espaço oferecido (a lápis e a tinta, não existiam ainda os “pincéis atômicos”). Se havia palavrões não me lembro, mas a qualificação não era nada elogiosa, algo como “os burros”, “os bandidos”, “os sem-vergonhas”, alterando a frase para, por exemplo, “Nós, os imbecis, queremos Getúlio”. De repente, me detive em um dos cartazes em que fora acrescentado “os cachorros”. Naquele tempo, embora o cachorro já fosse considerado o melhor amigo do homem, chamar uma pessoa de cachorro equivalia a chamá-la de canalha. Mas o que me chamou a atenção nele foi a letra – inconfundível – de meu pai. A catedral estava no trajeto dele para o trabalho e ele não perdeu a oportunidade de registrar sua repulsa ao movimento.
Osmar não era mal humorado, mas tinha uma atitude discreta, séria. Difícil imaginá-lo, de terno e gravata, rabiscando cartazes na rua. Porém, os políticos, especialmente Getúlio, mexiam, realmente, com o homem.

Anos mais tarde, em 1954, ele acompanhou todo o desenrolar da crise (o “mar de lama”) do governo de Getúlio, então presidente em regime democrático. Osmar sobreviveu.

Quanto a mim, agora, contando com a força inercial do País e com aqueles que possam ter influência na sua recuperação, resta esperar por dias melhores.

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

1) Jurema, minha filha, sugeriu que eu ilustrasse a crônica com uma foto de algo manuscrito pelo meu pai. Para tanto, apresento abaixo foto de sua dedicatória para mim em seu livro de poesias e, também, da capa deste. Os prezados leitores, certamente, vão concordar com minha afirmação de que a letra dele era, para mim, inconfundível.



2) Minha afirmação acima sobre a ênfase dada por grande parte dos historiadores à aliança de Minas e São Paulo se baseou no texto abaixo de Cláudia M. R. Viscardi, doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no capítulo “Nova ordem, velhos pactos” do livro “História do Brasil para Ocupados”, organizado por Luciano Figueiredo.

“Ao contrário do que se diz, São Paulo e Minas não estiveram sempre de acordo nem controlaram sozinhos a política na Primeira República. Análises recentes das sucessões presidenciais na Primeira República (1889-1930) mostram que a famosa aliança entre Minas Gerais e São Paulo, chamada de política do “café com leite”, não controlou de forma exclusiva o regime republicano. Havia outros quatro estados, pelo menos, com acentuada importância no cenário político: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Os seis, para garantirem sua hegemonia, possuíam uma forte economia e (ou) uma elite política compacta e bem representada no Parlamento. E, juntos ou separados, participaram ativamente de todas as sucessões presidenciais ocorridas no período. Além desses estados, havia dois coadjuvantes respeitáveis: o Exército e o Executivo.”