Caros leitoras e leitores:
Há alguns anos, tive dificuldade para escrever
crônicas por algum tempo e contei aos leitores que sofri uma espécie de
bloqueio.
Nestes primeiro semestre, voltei a ter
dificuldade semelhante. Desta vez, as razões são de duas naturezas.
Em primeiro lugar, pela fase difícil pela qual
estamos passando na família, a qual estamos chamando de “novo normal”, ou seja,
a situação de “homecare” da Leilah, que requer atendimento em casa semelhante
ao de um hospital de recuperação. Estou tendo bastante trabalho com a gerência
das operações domésticas, mas os cuidados de que ela necessita estão a
cargo de profissionais.
Em segundo lugar, pelo profundo desânimo
causado pelos acontecimentos altamente preocupantes, desagradáveis, destes
últimos tempos, no Brasil e no exterior. No país. problemas econômicos e
duelos políticos, em nível extremamente incivilizado neste ano de eleições; e,
no mundo todo, conflitos em geral, até guerras. São acontecimentos que, como
princípio, não comento no blog, pois este foi criado para eu escrever
para amigos e nele não cabem polêmicas.
Porém, a Copa do Mundo da FIFA de 2026, a
megacopa, recém finalizada, é assunto para uma crônica minha. Triste pela
desclassificação da seleção brasileira, o velho torcedor de copas decidiu se
manifestar.
Quanto foi anunciada a copa de futebol da FIFA de
2026 nos Estados Unidos, Canadá e México, recordei-me da copa de 1994 nos
Estados Unidos, quando fomos para lá, Leilah e eu, para assistir, nos estádios,
aos jogos da seleção brasileira. Essa aventura está contada em meu livro
“Falando de Futebol”, na seção em que narro minhas experiências como torcedor
de copas do mundo, desde 1950. Na copa de 1994, o Brasil conquistou seu tetra
campeonato. Chamei-a “A copa do coração”.
Neste ano, eu não estava otimista, embora, como
sempre, alimentando esperança – “Quem sabe?”.
Essa posição realista era baseada na minha
observação dos jogos, aos quais assisto com assiduidade, tanto de clubes da
Europa onde atuam os melhores jogadores do mundo, como também dos jogos das
seleções de países em amistosos e outras competições. E a comparação do
desempenho de algumas dessas seleções com o da seleção brasileira em suas
recentes apresentações não era favorável à nossa.
Minha avaliação, ao se iniciar a copa, era que
tínhamos: bons jogadores, que não fazem feio na Europa, alguns reconhecidamente
craques; um técnico experiente e campeão nos torneios dos clubes mais fortes da
Europa; e nossa seleção, que havia tido dificuldade para se classificar nas
eliminatórias da América do Sul, havia evoluído significativamente. Contudo, me
parecia pouco provável que conseguíssemos o hexacampeonato.
A megacopa, como passou a ser chamada a copa
mundial de futebol da FIFA de 2026, foi um projeto de extraordinária amplitude,
extremamente complexo; um torneio de 48 seleções de países de todos os
continentes, disputado nos três países da América do Norte, em 16 estádios de
grande capacidade de público, no período de 11 de junho a 19 de julho.
Recebeu público e imprensa do mundo todo e os
jogos foram transmitidos por televisão para toda a população do planeta.
Os espetáculos de abertura e encerramento, bem
como as cerimônias protocolares de abertura em todos os jogos, foram
admiráveis.
Nos 39 dias de copa, eu, o velho torcedor, firme na televisão, pude assistir a vários dos jogos da primeira fase, a de grupos, torcendo ardorosamente pela nossa seleção e, sem nervosismo, por algumas de outras seleções, especialmente aquelas que pudessem derrubar alguma daquelas favoritas ou mais estreladas (com a italiana ausente, participavam a alemã com quatro estrelas de campeã da copa, a argentina com três e a francesa e a uruguaia com duas).
Apreciei jogos muito bons, com belas jogadas e
gols belíssimos, alguns emocionantes, com incríveis viradas de placar.
São do conhecimento geral os resultados e
acontecimentos mais marcantes dos jogos, nas diferentes fases, de modo que não
vou recapitular aqui o andamento do torneio e passo a fazer minhas observações
sobre as características do futebol jogado, a atitude de jogadores e o
extraordinário ambiente de festa da copa proporcionado pela FIFA, em estreita
colaboração com os governos dos países sede.
As aberturas dos jogos, feitas com o gramado decorado com imensas bandeiras das nações representadas na partida, apresentando o desfile de entrada dos jogadores e a execução dos hinos (cantados pelos jogadores e torcidas) me pareceram adequadas à grandiosidade do evento. Nas aberturas do torneio em cada um dos três países sede e na partida final, foram acrescentados shows de artistas e grupos famosos, comuns nas competições dos Estados Unidos e nas Olimpíadas. Os eventos a que assisti foram bem-organizados.
Essa organização só foi perturbada quando as condições
atmosféricas ameaçadoras provocaram interrupções e atrasos.
O aumento de 32 para 48 países no torneio (daí ser
chamado megacopa) deu a oportunidade de participação a algumas seleções
praticamente desconhecidas do público mundial. Alguns dos estreantes
conseguiram resultados acima dos esperados, destacando-se a de Cabo Verde, que
passou invicta à fase seguinte àquela de grupos e deu um trabalho enorme à
favorita seleção argentina, que viria a ser a vice-campeã.
Dentre seleções consideradas fortes, a Alemanha e
o Brasil decepcionaram ao cair nas oitavas de final (partidas que envolvem 16
equipes).
Não assisti a todos os jogos, o que me seria
praticamente impossível, por causa de horários desfavoráveis e simultaneidade
de jogos. Contudo, minha situação de aposentado de trabalho fora de casa
(lembrando: sou, atualmente, Gerente de Operações Domésticas) me permitiu
assistir a várias partidas emocionantes, com lances e gols maravilhosos, nos
quais, quase sempre, eu desejava a vitória de um deles e torcia; em alguns
casos, fortemente, sempre por aquela seleção que tivesse menos títulos
mundiais, já que a conquista do hexacampeonato para a seleção de meu país está
me parecendo cada vez mais difícil. O registro de único pentacampeão é um
consolo.
No afunilamento da competição, várias dentre as
favoritas se encontraram e, no final, surpreendeu-me a derrota da França para a
Espanha (embora tenha me agradado); na final, a forma de jogar da seleção
espanhola e seu notável desempenho superaram a garra e as artimanhas dos
argentinos. A partida pelo terceiro lugar foi totalmente aberta, com uma
atuação inicial demolidora da Inglaterra e uma forte reação da França no
segundo tempo, dando-nos a oportunidade de assistir a dez gols de duas seleções
com destacados craques do futebol mundial. Minha admiração pelo Belingham,
craque de primeira grandeza, eficaz e lutador, me levou a torcer pela
Inglaterra.
Quanto ao desempenho e a desclassificação precoce
da seleção brasileira, o que eu, seu torcedor inveterado, tenho a dizer: embora
nada otimista quanto à obtenção do hexacampeonato (como mencionei no início da
crônica) esperava que o time avançasse mais na competição. Na fase de grupos,
sabia que a seleção marroquina seria um adversário muito difícil, porém não
esperava que viesse a jogar melhor do que a brasileira. Consolei-me com o empate.
Nos outros dois jogos dessa fase, vi que a seleção melhorou e venceu,
classificando-se em primeira do grupo. Passou pelo Japão na fase das 16
partidas, embora com dificuldade, o que era esperado (em jogo amistoso recente,
na fase de preparação, a seleção japonesa derrotou a nossa).
Nas oitavas, sabíamos que a seleção norueguesa
seria “osso duro de roer”, como se dizia antigamente. Esta tem um conjunto bom,
conta com Haalan, o artilheiro demolidor da “Premier League” (principal
campeonato de clubes da Inglaterra) e com bons jogadores de clubes importantes
da Europa, com altura média bem maior do que a dos brasileiros, o que é
importante no futebol atual. Perdemos o jogo. A infelicidade da perda de um
pênalti no início da partida, que abalou os brasileiros, e, depois, a perda de
algumas boas oportunidades de marcar, nos levaram ao resultado de um a dois.
Para mim, a tristeza e o alívio, já que torcer
demanda muita energia deste idoso. Afinal, verifiquei que minha expectativa
realista quanto à conquista do hexa, nesta copa, tinha fundamento. Daquele dia
em diante cliquei no cérebro o botão de espectador do torneio.
Entretanto, não gostei da atitude da crítica feroz
aos jogadores, por parte de vários jornalistas de televisão, pelos comentários
ácidos que fizeram, não só pela atuação dos jogadores brasileiros como pela
atitude deles, falando em coragem, ânimo, espírito de luta, que me pareceram
injustos; alguns estúrdios, como falar que o Vinicius Jr. deveria ter tomado a
bola do Bruno Guimarães para bater o mencionado pênalti contra a Noruega, sendo
este jogador aquele indicado pela comissão técnica para fazê-lo. E Bruno vinha
tendo ótima atuação na copa. Imagino o que não falariam se acontecesse do
Vinicius Jr. insistir em bater o pênalti e não fazer o gol.
Por acaso, reli naqueles dias o que escreveu Nelson Rodrigues em uma de suas crônicas sobre a copa de 1966, quando nossa seleção não passou da fase de grupos e fomos bastante prejudicados pelas faltas violentas que vitimaram o Pelé. Ele critica desaforadamente, no seu estilo bombástico, jornalistas brasileiros que cobriram aquela copa (os quais ele chamou, pejorativamente, de “entendidos”) pelos comentários que fizeram, fortemente desfavoráveis, à seleção brasileira. A crônica está no livro “A Pátria de Chuteiras”. Embora de forma diferente, moderada e não divulgada, minha reação aos comentários de agora foi semelhante à do notável cronista e dramaturgo patrício, apaixonado por futebol.
Obviamente, não devemos desistir de nossa posição
de destaque no futebol mundial, ou seja, não podemos nos render ao “complexo de
vira-latas” (expressão criada por Nelson Rodrigues). Espero que os dirigentes
da Confederação Brasileira de Futebol façam um programa intenso de trabalho
para voltarmos ao topo das seleções nacionais de futebol. Além das ações
habituais de seleção e preparação física e técnica, há algumas considerações a
fazer com relação à situação dos jogadores. Por exemplo, o fato da maioria deles
estar presa a contratos milionários em grandes clubes; a disponibilidade deles
para jogos e treinamento da seleção; a preparação psicológica necessária para
situações de pressão e, muito importante, a identificação e a designação de um
jogador líder dentro do campo (modelo: o Didi em 1958 e 1962).
Concluindo a crônica, não posso deixar de comentar
que procuro imaginar como será, em geral, o ambiente de trabalho nos clubes,
com exercícios individuais e treinamento coletivo, desses jogadores
extraordinários, no topo de sua profissão por um tempo relativamente curto.
Eles têm uma carga pesada de trabalho, pois, além dos campeonatos e copas de
cada país, muitos participam de torneios de clubes campeões, muito importantes.
E penso: Qual será seu sentimento quando convocados para as seleções nacionais?
Talvez uma mistura de satisfação, honra, destaque, com a responsabilidade
frente às torcidas de seus patrícios, praticamente de toda a população de
seu país, apaixonados e exigentes. E qual será a recomendação dos dirigentes de
seus clubes, que assumiram a responsabilidade de pagamento de altíssimos
valores pelos jogadores, quanto ao risco de contusões que possam afastá-los dos
jogos dos clubes após a disputa de jogos pela seleção nacional de cada um (já
há questionamento sobre as datas FIFA, nas quais acontece jogadores
voltarem aos clubes contundidos nos jogos das seleções).
Penso também na situação de maior ou menor emoção
de cada jogador, nos jogos entre seleções, ao jogar contra companheiros de
clubes por uma ou mais temporadas, especialmente alguns de quem se fizeram
amigos. Poderá ser um acordo tipo “Amigos, amigos, mas seleções à parte”, mas
não me parece ser tão fácil assim. As imagens de Alison, goleiro da seleção
brasileira, abraçando Robertson, da seleção escocesa, após nossa vitória sobre
esta, mostrou um amigo consolando o outro, dois companheiros de vários anos no
Liverpool, clube inglês. Observei atitude semelhante entre Kane, da seleção
inglesa, e Olise, da francesa, companheiros no Bayern de Munique, após a vitória
da Inglaterra sobre a França na disputa pelo terceiro lugar na copa.
Seja como for, não me parece fácil a vida dos
jogadores nas respectivas seleções. Os desafios que eles enfrentam são de
várias naturezas. Na preparação para as próximas copas, os dirigentes têm de
analisar, cuidadosamente, as condições gerais de cada jogador com potencial
para participar da seleção e trabalhar cada caso para otimizar a produtividade
do elenco.
Como é do conhecimento geral, é muito difícil
servir bem a dois senhores ao mesmo tempo. E, especialmente, agradar a mais de
200 milhões de torcedores.
Washington Luiz Bastos Conceição
Nota:
Para o caro leitor ou prezada leitora que tiver
interesse em ler “A Copa do Coração”, crônica publicada em 1o. de junho de
2014, informo o link correspondente:
https://washingtonconceicao.blogspot.com/2014/06/