Vivemos nestes
dias, cada vez mais intensamente, o clima da copa do mundo de futebol que será
realizada aqui no Brasil, com início dentro de vinte dias. Estamos na situação
constrangedora de mostrar falhas na organização do evento, de grandeza mundial
acima de nossa capacidade de realizá-lo bem. Ao mesmo tempo,
porém, não deixamos de torcer, muitos de forma apaixonada, pela seleção
brasileira. A mídia, em suas várias formas, está nos proporcionando intensamente
notícias as mais variadas e uma publicidade fortíssima relacionada ao evento.
Não dá para ignorarmos a copa.
Como já programara no
início o ano, estou publicando, hoje, minha terceira crônica deste ano sobre o
assunto, enfocando meu sentimento de torcedor da seleção, meu relacionamento
com ela ao longo dos anos. Hoje, venho contar como vivi, já veterano, a Copa de
1994 dos Estados Unidos, a copa do tetracampeonato. De meu livro “História do
Terceiro Tempo”, publicado em 2009, transcrevo a seguir essa história,
acrescentando algumas ilustrações.
“O tetra – A copa do coração
Estados Unidos, 1994
O estádio de
futebol (futebol americano) da Universidade de Stanford estava festivo, lotado,
naquele dia claro de junho de 1994. Era a estreia da seleção brasileira de
futebol, contra a seleção russa. Aos 61 anos, eu sentia fortemente aquele
momento – era muita emoção para o garoto que cresceu praticando um único
esporte, todo dia, e que torcia à distância pelo seu time do coração e, apaixonadamente, pela seleção brasileira, com a visão fanática, consagrada, de Nelson Rodrigues: a da Pátria de chuteiras.
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| O Estádio de Stanford (configuração atual) |
Estava com
Leilah, minha mulher; Cássio (filho), Julia (nora), Ron, pai da Julia, e amigos
deles.
Cássio, meu
segundo filho, foi para a Califórnia em 1981, quando conseguiu ser admitido
para o curso de Engenharia em Stanford. Demos toda a força. Aconteceu que ele
não voltou mais; formou-se, conseguiu trabalho lá, casou-se com uma colega de
turma e é, hoje, pai de dois filhos, Andre e Ian, que, descontando a corujice
do avô, são encantadores. Bom de bola, Cássio é louco por futebol (o nosso),
organiza e gerencia os times dos filhos, e joga até hoje com outros veteranos.
Pois bem,
quando os Estados Unidos foram escolhidos o país sede da Copa de 1994, planejei
logo marcar minha viagem à Califórnia para junho; quando o Brasil caiu na chave
da Califórnia, vibrei; quando os jogos iniciais do Brasil foram marcados para
Stanford, não queria acreditar. Disse ao Cássio: “Meu filho, é muita
coincidência!”. Ele respondeu: “Não meu pai, é simplesmente uma convergência”.
Cresceu minha esperança de que aquela seleção, que foi tão mal em 90, voltasse
a ser campeã.
E lá
estávamos nós, sentados exatamente nos lugares marcados, aguardando o início do
jogo. Minha emoção era de dupla origem: estávamos no mesmo estádio em que, oito
anos antes, havíamos assistido à festa de formatura do Cássio e da Julia; um
evento inesquecível por sua organização, pela beleza do dia e, principalmente,
pela sensação vaidosa de ter contribuído para aquela conquista do filho.
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| O uniforme do torcedor. Na camisa, a terceira estrela, conquistada em 1970 |
Voltando à
copa: “ganhamos” aquele jogo contra a Rússia; “ganhamos” de Camarões, quando pudemos
apreciar de perto Romário, Bebeto e companhia enfrentando aqueles africanos que
nos pareciam gigantescos; voamos a Detroit para assistir, num enorme estádio
coberto, a Brasil versus Suécia, um empate difícil.
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| O Estádio Silverdome, em Pontiac, Michigan, perto de Detroit |
Depois, na
fase seguinte, oitavas de final, quiseram os deuses que enfrentássemos a
seleção da casa que, havia pouco tempo era uma seleção medíocre, tinha evoluído, mediante um preparo
altamente profissional, a ponto de se classificar para a fase seguinte.
E era 4 de julho!
O jogo foi
em Stanford. Foi muito difícil, o Brasil ficou com dez jogadores desde o
primeiro tempo, mas o magro um a zero permitiu à seleção prosseguir, chegar à
final e levantar a taça.
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| Brasil X Estados Unidos - Meola, Bebeto e Lala |
Depois do
jogo com os Estados Unidos, Leilah e eu voltamos para o Rio e assistimos pela
TV aos últimos jogos, com os filhos daqui e seus amigos, naquele ambiente de
torcida jovem e barulhenta. Finalmente, a taça, conquista sofrida e, por isso
mesmo, mais emocionante. O Cássio assistiu nos estádios a todos os jogos,
viajando para Dallas e para Pasadena, onde a seleção brasileira de futebol se
tornou tetracampeã mundial.
Mas as
lembranças dessa copa não se restringem aos jogos. A própria imprensa americana,
tão alheia ao “soccer”, que é como chamam nosso futebol lá, se mostrou curiosa
e espantada com o comportamento das torcidas, as comemorações, com o ambiente
que se formou em torno da copa. Havia o temor generalizado das torcidas tipo
“hooligans”, desordeiros de triste fama na Europa, por isso o espanto do “San
Francisco Chronicle”, no dia seguinte ao jogo com a Rússia, com a festa da
torcida brasileira num shopping center tipo “plaza” (prédios térreos com área
de estacionamento) o Town & Country, situado no cruzamento da “Camino Real”
com “Embarcadero” em Palo Alto, próximo ao estádio. Era uma onda de camisas
amarelas, a mão do número 1 da Brahma, batucadas, samba no pé, shows de
embaixadinhas, tudo animado com cerveja, mas muito pacífico – era a festa de
uma torcida só, radiante com o resultado.
Essa festa
se repetiu no jogo contra Camarões e contra os Estados Unidos. Alguns
americanos, ao nos ver com a camisa amarela, nos cumprimentavam pela vitória,
outros sambaram conosco.
Em Detroit,
houve o encontro com a torcida sueca, muito barulhenta, soprando cornetas,
ostentando seus chifres de vikings e vestidos com as cores azul e amarela em
tonalidades diferentes das nossas. Num certo momento, suecos e brasileiros
dançaram juntos, rodando as bandeiras. Não vi conflito. Era uma grande festa e
o resultado ajudou. Nesse jogo encontramos os amigos Cisneros, que moraram no
Rio. O casal, Genaro e Martha, mais ou menos da nossa idade, e os filhos, Bill
e Bob, colegas dos nossos na Escola Americana do Rio. Agora, o casal mora no
Canadá, terra dela, e os filhos nos Estados Unidos. O reencontro foi uma
comemoração à parte.
Na
Califórnia, a seleção ficou hospedada em um hotel em Los Gatos, uma daquelas
pequenas cidades extremamente agradáveis da região próxima a San Francisco,
vizinha a San José. O Ron, pai da Julia, tinha uma loja de decoração na avenida
principal da cidade e participou das boas-vindas da população local à nossa
seleção. Entre outras coisas, os empresários locais mandaram confeccionar uma
camiseta com um projeto gráfico muito bonito. Na frente, o símbolo local: uma
faixa com o nome da cidade sobre dois gatos de perfil; neste caso, os gatos
pintados de amarelo, um com uma viseira verde e o outro com óculos escuros;
mais os dizeres: acima, “World Cup ’94”, e, abaixo, “welcomes Brasil’s
Team”, (vejam só: Brasil com “s”!). Nas
costas, a bandeira do Brasil, uma bola de futebol e a mensagem “Boa Sorte”.
Tenho esse talismã até hoje.
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| A camisa de boas vindas - frente e costas - e os detalhes |
Em Los Gatos,
estimulados por dias gostosos de verão, os torcedores brasileiros se reuniam na
praça central da cidade, com shows musicais, muito samba, numa espécie de
festival. E a população local se deliciava.
Quando vamos
à Califórnia, sempre visitamos Los Gatos, pois é um lugar muito simpático.
Aquela pacata cidade milionária, provavelmente, nunca mais teve dias tão
animados.
Rio de Janeiro, novembro de 2008."
A lembrança das experiências
vividas, dizem os conhecedores do assunto, é mais nítida, mais marcante, quando
os acontecimentos são associados a emoções fortes. Passados vinte anos,
recordo-me muito bem daqueles dias excitantes e agradáveis da Copa de 1994, o
que me levou a chamá-la a “Copa do Coração”.
Washington Luiz
Bastos Conceição
Nota: As
fotos do uniforme e da camisa de Los Gatos são de minha autoria. As demais
foram copiadas:
- Estádio de Stanford, do site:
- Estádio de Pontiac, Michigan e Cena da partida
Brasil x Estados Unidos, do site:






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