segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Wilson Tiellet, colega, vizinho, amigo.


Quarenta anos atrás, na manhã do dia 11 de julho de 1993, eu estava trabalhando normalmente no escritório da matriz da IBM, no Rio, quando, agitados, colegas passaram a ouvir pelo rádio o noticiário de um acidente com um avião da Varig no aeroporto de Orly, em Paris. Uma vez confirmada a notícia do acidente, me perguntaram se aquele era o voo que um colega nosso ia fazer para uma viagem de férias para a Europa. Congelei, pois eu sabia de detalhes da viagem e era quase certo que ele estava naquele avião. Depois de algum tempo de ansiedade, a triste confirmação: nosso colega Wilson Tiellet, sua esposa e os dois filhos,  menores ainda, estavam entre os 123 mortos do desastre. A consternação das pessoas que os conheciam foi enorme, tanto na IBM, onde o amigo Tiellet era meu colega, quanto no nosso edifício, onde éramos vizinhos.






Conheci o Tiellet logo que entrei na IBM, em 1959. Eu estava em treinamento de marketing e suporte técnico para clientes de computadores eletrônicos, cuja comercialização a Empresa estava iniciando no Brasil. Simpático, um pouco mais velho do que eu, sotaque indicando que era do sul, ele trabalhava no Rio, na Matriz. Era o gerente responsável no País pela divisão de relógios – os “time systems” – e fez, para o nosso grupo de “trainees”, uma palestra sobre os produtos e serviços de sua divisão. Para ele, era importante que os futuros representantes da IBM junto aos clientes de computadores conhecessem os produtos de sua divisão. O “time system” era um conjunto de relógios interconectados, inclusive relógios de ponto, distribuídos por todas as instalações do cliente. O controle era feito pelo relógio mestre, que fazia o sincronismo do conjunto. O sistema todo era elétrico.
Na ocasião, fiquei sabendo que ele tinha sido um ótimo vendedor, sendo folclórica a história de uma venda que fez de relógios de ponto para dentistas em Curitiba.

Passei a ter mais contato com o Tiellet em 1970, quando, ao ser transferido para a  Matriz da IBM no Brasil, me mudei para o Rio. Ele era, então, responsável pela divisão de suprimentos para computadores eletrônicos. Seus produtos principais eram o cartão IBM e as fitas magnéticas. Não tínhamos muitos assuntos comuns de trabalho, mas nos aproximamos porque me tornei seu vizinho ao me mudar para o edifício do Leblon onde moro até hoje, o CPVA (Condomínio Parque Visconde de Albuquerque), apelidado “Meia Lua”.

Desde aquele ano, víamo-nos com frequência no prédio, na IBM e no transporte para o escritório. Ficamos amigos.


Os escritórios da IBM no Rio estavam distribuídos em alguns edifícios no centro da cidade, na região da confluência das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco. Não trabalhávamos no mesmo edifício, mas usávamos os mesmos ônibus, fretados, de uma organização chamada “Plano da Melhor Condução”. Eram ônibus confortáveis, semelhantes aos “frescões” de hoje. Pagávamos uma mensalidade por sua utilização em itinerário e horário predeterminados e o serviço era devidamente controlado. Naquele tempo, não era comum um casal ter mais de um automóvel, de modo que, se a esposa precisasse do veículo para levar crianças à escola, para compras e outras atividades domésticas, os maridos iam ao centro de condução, sem se preocupar com estacionamento e aproveitando o tempo para conversar ou ler no ônibus. Era o meu caso, do Tiellet e de vários outros colegas, que acabaram justificando economicamente o “Plano da Melhor Condução”.
De manhã, às sete e meia, Tiellet e eu tomávamos juntos o ônibus na esquina da Timóteo da Costa, nossa rua, com a Avenida Visconde de Albuquerque e íamos conversando sobre vários assuntos, tanto de trabalho como de atividades do edifício. Foi assim que acompanhei alguns de seus projetos na IBM e, por outro lado, que tomei conhecimento do trabalho que ele e alguns vizinhos tiveram para a conclusão da construção do nosso prédio.


A gerência de suprimentos da IBM no País requeria muita atenção, pois, evidentemente, os clientes de sistemas de processamento de dados daquele tempo não podiam prescindir dos principais meios de entrada de dados nos computadores, os cartões e as fitas magnéticas. A cartolina dos cartões, com características especiais de pureza para evitar contatos indevidos nas máquinas, era importada em rolos e cortada em medidas rigorosas no Brasil, produzindo os cartões, que eram impressos com os clichês de cada cliente. As fitas magnéticas (em grandes rolos) eram também importadas e, da mesma forma, não podiam faltar. Portanto, além da venda dos produtos, a operação do setor envolvia importação, produção, custos, e controle de estoques, que eram preocupações constantes do Tiellet.

Além das atividades usuais, surgiam necessidades especiais que tinham de ser atendidas. Por exemplo, em uma época em que as leitoras óticas ainda não estavam disponíveis ou eram muito caras, os cartões “mark sensing”, marcados com lápis especiais, serviram para correções de provas escolares de múltipla escolha. Em 1970, um grande projeto da divisão de suprimentos foi a Loteria Esportiva.

Você, caro leitor ou prezada leitora, talvez tenha acompanhado o lançamento e a implantação da loteria esportiva, a “Loteca”, e se lembre de que as apostas eram feitas em cartões, colocados em um estojo de plástico e perfurados mediante um punção.

Num tempo em que já havia a disponibilidade de grandes computadores para processar a imensa quantidade de apostas no País inteiro, a forma de introduzi-las no sistema foi o grande desafio, pois não tínhamos ainda os pequenos terminais especiais, as maquinetas que se conectam hoje aos sistemas para registrar  as apostas da Quina, da Sena e outras.
Cartão Port-a-punch IBM
(Fonte: Site IBM History)
 
 A equipe do projeto planejou o uso de um cartão especial, previamente serrilhado, que a IBM já oferecia para perfuração manual de dados em ambientes fora dos centros de processamento de dados – o cartão “Port-a-punch”.

 
Foi projetado então o cartão da Loteria Esportiva, com apostas em treze jogos, três palpites por jogo. Foi uma febre no Brasil em ano de Copa do Mundo (a do México, em que o Brasil se tornou tricampeão mundial). Após rodadas de teste do funcionamento total do sistema, foi implantada a “Loteca”.
Cartão da Loteca (Fonte Wikipedia)

 
O Tiellet vibrou muito com o sucesso do projeto, que teve repercussão   internacional, e, se bem me lembro, ele foi devidamente premiado pelo excelente resultado do negócio.

 
O projeto da Loteca foi um dos assuntos de nossas viagens de ônibus.

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Bem, o Tiellet colega eu já conhecia. Quem me surpreendeu muito agradavelmente foi o Tiellet vizinho. Surpreendeu porque ele usava toda sua seriedade e competência também na vida particular e no relacionamento com os amigos do prédio. Senti que estes o tratavam com muita consideração e logo fiquei sabendo que, além de seu bom relacionamento com todos, ele tinha tido uma atuação muito destacada na comissão dos condôminos durante a construção do prédio. Neste trabalho, alguns condôminos criaram entre si uma relação de amizade, de forma que, quando cheguei ao edifício, tinham estabelecido uma convivência duradoura, incluindo os familiares.


Eu já morava no edifício quando a quadra de esportes foi concluída. Houve uma festa de inauguração, iniciada com uma cerimônia religiosa na própria quadra. Esta estava toda enfeitada com bandeiras, colocaram-se cadeiras para a audiência e foi montada uma grande mesa, coberta com toalha branca; atrás desta, uma cruz tosca de madeira. Após o ato religioso, conduzida por um sacerdote convidado, falaram o síndico, o Tiellet, e mais um ou dois condôminos convidados. A seguir, houve duas partidas recreativas de futebol de salão, uma das moças e outra dos garotos, que animaram a festa e que literalmente inauguraram a quadra esportiva. O Tiellet foi, certamente, um dos organizadores da festa.

Inaugurada a quadra, formamos um grupo para jogar voleibol – criando o que passou a ser chamado o “vôlei dos coroas”. A escolha da modalidade esportiva, intencionalmente ou não, foi sábia, pois, não havendo contato físico entre adversários, evitou que houvesse conflito entre vizinhos. Em compensação, nem todos tinham experiência naquele esporte. Ao lado de alguns que praticavam ou haviam praticado o vôlei, outros aparentemente nunca tinham jogado; porém, nem por isso, foram rejeitados. Eu, por exemplo, havia jogado um pouco na juventude, no colégio e na ACM (Associação Cristã de Moços), com modesta atuação como levantador, mas havia alguns menos experientes do que eu. O Tiellet não mostrava muita habilidade, mas era muito aplicado. De qualquer forma, os times eram divididos de forma equilibrada, erros eram tolerados e reclamações estavam fora do contexto. Um detalhe importante: algumas esposas, experientes em vôlei de praia, também jogavam e não faziam feio.

O vôlei dos coroas era praticado na noite das quartas feiras e na manhã de sábados e domingos. Eu jogava no fim de semana, mais ou menos das dez horas à uma da tarde. Quando terminava o vôlei, completávamos a atividade esportiva com uma cervejinha no bar do próprio prédio e umas rodadas muito animadas de porrinha. Tudo com muita disciplina para evitar aborrecimento em casa.

Pouco a pouco, os jovens foram aderindo ao nosso vôlei, o que reforçava os times e melhorava o nível das partidas.

Chegamos a organizar torneios, inicialmente com a competição entre os três blocos do edifício (blocos A, B e C). O nosso bloco, meu e do Tiellet, era o Bloco A. No primeiro torneio, quando alguns jogadores praticamente não se conheciam, perdemos. Alguns meses mais tarde, fizemos novo torneio, também entre blocos. Dessa vez, o Tiellet resolveu estabelecer uma estratégia para o time. Lembro-me bem; fizemos, eu e ele, o planejamento no ônibus, a caminho do escritório, na semana que precedeu o torneio. Ele sempre levava no bolso do paletó um maço de cartões IBM, para anotações – o que fazia parte de seu marketing do produto. Ao nos sentarmos no ônibus, ele tirou os cartões e um lápis e passamos a marcar as posições dos jogadores na quadra, rodada a rodada. Nos torneios, os times eram de seis jogadores e a regra era ainda a antiga: para o time fazer um ponto, teria de estar em vantagem, ou seja, teria de ter sacado antes. Quando conseguia a vantagem, a reversão do saque, o time rodava. A contagem ia até 15. Normalmente, os times eram montados com três cortadores e três levantadores. O nosso tinha três bons cortadores e levantadores regulares, que formavam duplas na rede. Os outros blocos tinham elencos equivalentes. Nossa estratégia constituiu em posicionar nossos jogadores, em cada rodada, considerando a cobertura que alguns companheiros necessitavam dos mais hábeis, na rede e no fundo da quadra. Como substituições tinham de ser feitas, pois a ideia era de que todos os inscritos participassem do jogo, planejamos de forma que elas não enfraquecessem o time.
No fim da viagem, o Tiellet tinha no bolso, nos cartões, nosso esquema do jogo, que depois ele mostrou aos companheiros para discussão e sugestões. Bem, seguimos o plano. Não foi fácil, mas vencemos aquele torneio.


Na semana anterior à partida para Paris, Tiellet me chamou, muito animado, para mostrar seu plano de viagem e pedir algumas dicas, pois eu havia viajado de férias à Europa no ano anterior. Foi a última vez que conversamos.




Essas são algumas lembranças que tenho de meu amigo, as quais guardo com muito carinho e quis compartilhar com os leitores deste blog, entre os quais estão colegas da IBM e moradores do Meia Lua.

Após sua morte, como homenagem dos condôminos, modesta porém duradoura, a quadra de esportes ganhou seu nome.


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Washington Luiz Bastos Conceição

sábado, 14 de setembro de 2013

Os Milagres da Televisão


Raul Tabajara, locutor esportivo que militou muitos anos em São Paulo, narrava jogos pela televisão, nas décadas de 1950 e 1960, uma época em que os canais abertos transmitiam jogos locais ao vivo. Seu companheiro habitual era o repórter de campo Sílvio Luiz. A imagem ainda era em branco e preto, os jogos dominicais eram à tarde e os estádios lotavam nos jogos mais importantes. Como não havia, durante o jogo propriamente dito, propaganda nem comentários, o locutor tinha de fazer algumas observações nas pequenas interrupções, como bolas fora e contusões dos jogadores. Nessas observações, Tabajara se repetia, fazendo observações sobre o calor da tarde, por exemplo. Ele costumava se referir, com frequência, ao milagre da televisão, ou seja, à transmissão dos jogos, que proporcionava aos telespectadores de toda a cidade assistirem às partidas confortavelmente instalados na poltrona de casa – ou da casa do vizinho.
Toda vez que penso nos “milagres da televisão”, lembro-me da expressão do Tabajara, pois os “milagres” se multiplicaram com o tempo.


Nestes dias, assisto a programas dos vários canais locais, principalmente noticiário, filmes e transmissões esportivas nacionais e internacionais; estas, habitualmente, de jogos de futebol na Europa e jogos de tênis dos grandes torneios, como o "US Open", por exemplo, realizado em Nova York. Percorro também os canais das emissoras estrangeiras, detendo-me para ouvir um pouco de notícias em Português de Portugal, o idioma falado mais parecido com o nosso, e para, eventualmente, na TV francesa, assistir a um filme francês com legenda. Outro dia, num lance de muita sorte, assistimos a um espetáculo especial de ópera na RAI, a televisão italiana, em comemoração aos duzentos anos de nascimento de Verdi.

Embora eu não tenha o hábito de acompanhar novelas, aprecio a qualidade de nossa dramaturgia de televisão, reconhecida internacionalmente.

Além de toda essa oferta de programas, posso ir e voltar de um canal a outro, aproveitando intervalos na programação, mediante uso dos botões do aparelho de controle remoto.

Estou, portanto, me valendo da extraordinária evolução da televisão num período de cerca de cinquenta anos. Da recepção da emissora local, evoluímos para a de outras cidades, mediante o uso de torres de comunicação. Hoje, temos transmissões via satélite. E mais, com o advento da televisão a cabo, ficou disponível uma grande quantidade e variedade de canais. Mais recentemente, as facilidades de gravação de programas e de aluguel de filmes diretamente da rede ampliaram nosso cardápio para a escolha do entretenimento.

Ivete Sangalo no Rock in Rio 2013,
na minha televisão
Além do aperfeiçoamento dos sistemas de transmissão, os aparelhos receptores passaram a usar tecnologia cada vez mais avançada e nos brindam com imagens excelentes.

Plateia no Rock in Rio 2013

Quanto à apresentação de programas e anúncios, que era feita ao vivo, passamos a usar a gravação em “vídeo tape”. Hoje, é difícil imaginarmos apresentações de novelas ou de comerciais ao vivo, sujeitas a todo tipo de erros e imperfeições.
Nas transmissões de jogos de futebol, em particular, comparo o que a televisão pôde apresentar nas copas do mundo, ao longo dos anos. Durante a de 1958, na Suécia, torcíamos e sofríamos ouvindo a transmissão pelo rádio, cheia de estática das ondas curtas e, somente dois dias depois de cada jogo, podíamos assistir pela televisão ao filme (de celuloide), com imagens muito pobres, em branco e preto. Durante a copa de 1962, realizada no Chile, já pudemos assistir ao "vídeo tape" no dia seguinte, por um grande “esforço de reportagem” das equipes das emissoras, que enviavam as fitas por avião. Nessas duas copas e na de 1966, os torcedores sofreram e vibraram em torno dos aparelhos de rádio.
Na copa do México, em 1970, na qual a seleção brasileira se tornou tricampeã, já pudemos assistir aos jogos ao vivo.
Toda essa evolução tecnológica permite que os programas de nossas emissoras alcancem o país inteiro, nosso imenso Brasil, penetrando cidades de todos os tamanhos e nos mais remotos rincões. Por exemplo, tive a experiência de assistir a um jogo de futebol transmitido por uma das redes, em um aparelho de cristal líquido de um barzinho da zona rural, próximo a Goianá, pequena cidade mineira na região de Juiz de Fora. Foi uma constatação pessoal de que, em todas as regiões do País, as pessoas, por mais modestas que sejam, têm a oportunidade de assistir aos mesmos programas a que assisto em casa, com boa qualidade de imagem e som.

Refletindo sobre esse alcance da transmissão de nossas emissoras, fica fácil entender o grande interesse dos políticos pelo tempo grátis de que os partidos dispõem na propaganda eleitoral, tempo esse que é moeda nos acordos entre eles. Portanto, o papel da televisão ganha, cada vez mais, importância na informação ao público e na formação de opinião. O que nos leva à conclusão de que as emissoras têm agora um enorme desafio, o de manterem sua independência e imparcialidade. Vencer este desafio deverá ser o maior milagre da televisão.

Washington Luiz Bastos Conceição



sábado, 20 de julho de 2013

Los Tres Caballeros

Já faz algum tempo, programei a publicação desta minha história no blog, o que decidi fazer hoje.

Originalmente publicada no meu primeiro livro, “O Histórias do Terceiro Tempo”, é a história de três colegas de uma empresa multinacional que, vivendo cada um em seu país, encontraram-se e fizeram uma amizade tão improvável quanto duradoura.

Duas coincidências me fizeram tomar a decisão de publicá-la aqui, hoje. A primeira foi o desejo de meu neto carioca, o Bruno, mencionado no texto, de, ontem, rever o filme, depois de muito tempo sem vê-lo. A segunda foi meu sobrinho mais velho, com quem eu não falava há mais de um ano, comentar em telefonema de hoje que a história foi muito apreciada por seu irmão.

Portanto, do “Histórias do Terceiro Tempo”, transcrevo abaixo “Los Tres Caballeros”. Apesar do título, o idioma é o Português.



LOS TRES CABALLEROS

Quando observo o Bruno, meu neto de quatro anos neste ano de 2007, assistindo, todo animado, à fita de vídeo do filme “Você já foi à Bahia?”, fico cismando sobre as coisas estranhas da vida.

Ele tinha apenas dois anos quando lhe mostrei o filme pela primeira vez, para me livrar da repetição cansativa do desenho animado das histórias de uma vaquinha que era o DVD que ele tinha aqui em casa. Como ele já gostava muito de música e de dançar acompanhando os filmes e CDs, resolvi arriscar e ver se ele gostava.

O filme, um desenho animado musical de Walt Disney, foi feito na ocasião da segunda guerra mundial, com o objetivo de aproximação simpática dos Estados Unidos com a América Latina; tem, como temas principais, as visitas do Pato Donald à Bahia (daí o nome em Português) e ao México. Na primeira, o anfitrião foi o papagaio Zé Carioca e, na segunda, o galo Panchito (mexicano), mas também com a companhia do Zé. Daí o nome original do filme – Los Tres Caballeros.

Pois o Bruno gostou e continua pedindo para assistir ao filme quando vem visitar os avós. De início ele se interessava pela música e danças, sua preferida era a da Adelita, heroína revolucionária do folclore mexicano; mas, depois, passou a se divertir também com as estripulias dos três personagens, especialmente do Donald.

Mas por que eu disse que fico cismando sobre as coisas estranhas da vida? Por que eu tenho essa fita em casa?

Agora começa minha história – a história de três caras que a vida fez encontrarem-se e tornarem-se amigos.


Em 1967 eu trabalhava na IBM, em São Paulo, já fazia sete anos. Era então Gerente do “Centro Educacional”, setor responsável pelo treinamento em Informática que a Empresa dava ao pessoal de seus clientes (o Gerente de Informática de um deles, de gozação, me chamava de “Magnífico Reitor”). Além dos cursos aos clientes eu coordenava também o treinamento técnico do próprio pessoal IBM, profissionais e gerentes. Naquele ano, a IBM decidiu dar um curso puxado, no mundo inteiro, aos seus gerentes da área de vendas, para desenvolver o uso de teleprocessamento pelos clientes, ou seja, o uso de terminais ligados ao computador central de cada Empresa, o que era um passo difícil em matéria de tecnologia. Especialmente treinado nos Estados Unidos para esse trabalho, um grupo de gerentes técnicos foi incumbido de dar o curso em todos os países em que a IBM operava. Para o Brasil, vieram o Jorge Martinez, do México, e o Fernando Villanueva, do Chile. Como eu era o coordenador, acabei fazendo também o papel de anfitrião em São Paulo, até no fim de semana, pois o curso durou quinze dias. Fiz as honras da casa, proporcionando-lhes um tour no fim de semana e acabei até levando-os à casa de meu sogro no bairro do Pacaembu, de modo que eles conheceram minha família. Meu domínio do Espanhol facilitou a comunicação e fizemos boa camaradagem.

Naquela ocasião, eu andava um tanto inquieto com relação ao meu trabalho na IBM, pois já tinha desenvolvido bastante o treinamento a clientes em São Paulo e estava procurando novos desafios. Entretanto, treinamento e visitas à IBM nos Estados Unidos eram uma oportunidade rara, mesmo para gerentes; precisava haver uma razão específica para os diretores aprovarem uma viagem dessas. Até 67, além de treinamento e reuniões no Brasil, eu tinha apenas participado de uma convenção em Caracas e feito dois cursos internacionais em Buenos Aires. Com quase cinco anos na gerência do Centro Educacional e com a responsabilidade adicional de coordenação de cursos a executivos de clientes em São Paulo, eu vinha havia algum tempo pleiteando uma visita à matriz americana para observar e discutir as novas diretrizes, organização, métodos e recursos que poderíamos vir a aplicar na IBM do Brasil. Não estava fácil, pois a prioridade era para os programas de venda – por exemplo, a preparação do representante IBM junto à Petrobrás.

“Eis senão quando”, surgiu a necessidade de enviar um profissional do Brasil ao México para um curso sobre um software aplicativo de controle de estoques, sofisticado, que poderia trazer novos negócios à IBM – o IMPACT (Inventory Management Program for Accounting and Control – os americanos gostam muito de acrônimos). Fui convidado para assistir ao curso em Cuernavaca, cidade próxima à Capital, onde a IBM tinha um centro de treinamento para executivos. Aceitei, mas vendi a ideia de estender a viagem para a Cidade do México para visitar o Departamento de Educação da IBM do México, do qual o Jorge Martinez era gerente, e para Nova York, para fazer a visita ao Departamento de Educação da matriz internacional, a IBM World Trade Co., visita esta que eu vinha propondo havia tempo. O acréscimo de despesas não era muito, pois a viagem ao México era via Miami.

Assim foi que, em outubro de 1967, fiz o curso em Cuernavaca, visitei a IBM do México e, no fim de semana, conheci a Cidade do México, que estava em grandes preparativos para as Olimpíadas de 1968.

O Jorge foi muito hospitaleiro. Um pouco mais alto e mais forte do que eu, com jeitão de árabe rico, sempre muito bem vestido, me levou para jantar em restaurantes muito bons (um deles, o do Lago, em Chapultepec). Designou pessoas de seu grupo para me atender no trabalho, pois enfrentou um problema muito sério naquela semana: um dos seus instrutores morreu em Caracas, onde estava em viagem a serviço.

Ao me despedir, contei ao  Jorge que ia a Nova York. Ele resolveu, então, ligar para um grande amigo seu da IBM de lá e sugerir que nos encontrássemos. Fez o telefonema e ficou acertado que eu ligaria para o seu amigo quando chegasse. Deu-me o número do telefone do Bill Ouweneel e insistiu para que eu o chamasse, pois, disse, ele era ótima pessoa.

Foi, portanto, minha primeira vez em Nova York.

Não tive problemas, pois aproveitei as dicas dos colegas que haviam estado lá antes. Hospedei-me num hotel na Lexington Avenue, antigo mas razoavelmente confortável. Encontrei dois colegas do Brasil e fizemos alguns programas juntos, inclusive o passeio de barco em torno da ilha de Manhattan (Circle Line). Cumpri minha agenda de trabalho na IBM, em Nova York e Poughkeepsie, atendido por um colega simpático, o Brad Foss, que depois eu iria encontrar em Chicago, quando trabalhei lá.

Eu havia chegado a Nova York num fim de semana. Na segunda à noite, sem muito palpite, liguei para o Ouweneel. Esperava um atendimento cordial, talvez a marcação de um encontro na hora do almoço, pois a informação que eu tinha era de que os americanos não eram de “fazer sala” para colegas de fora. Em geral, moravam no subúrbio e tinham de tomar o trem para casa às seis da tarde. Mas o Bill me surpreendeu – me convidou para jantar no dia seguinte, no apartamento dele. Casado, sem filhos, era dos poucos que moravam em Manhatan, nem tinha automóvel (quando precisava, alugava). Se não me falha a memória, levei umas flores para a Joan, mulher dele, que também trabalhava na IBM, na Divisão de Máquinas de Escrever. Ambos claros e altos, ela loira, cabelo cortado curto, ele, descendente de holandeses, branquíssimo, com um rosto jovem e uma calva precoce, rapava a cabeça à maneira do Yul Brinner. Muito simpáticos e atenciosos, os dois. Foi um jantar muito fino e muito agradável; falamos, claro, do Brasil e eles me mostraram um belo livro, ilustrado, com coisas nossas, em que Pelé figurava com destaque.

Como eu iria voltar ao Brasil no sábado à noite, me levaram para visitar o Museu de Arte Moderna – o MoMA – e apreciar, principalmente, Guernica e obras de escultura de Picasso. Almoçamos no museu e eles ainda me acompanharam à Schwartz, loja famosa de brinquedos onde comprei presentes para as crianças. Naquela semana fiz dois grandes amigos, mas não podia adivinhar como nossa amizade iria ser tão duradoura e com acontecimentos tão imprevisíveis.

Programa concluído em Nova York, voltei a São Paulo com informações importantes para meu trabalho aqui no Brasil, com as histórias da viagem e com presentes para a família, como era de praxe.

Durante 1967, mantive contato com o Jorge e o Bill por correio interno IBM (o e-mail surgiria muitíssimo mais tarde) e por cartões de Natal, até que, no início de 1968, fui designado para um trabalho em Chicago, num projeto especial da IBM, que durou cerca de dois anos. Era a preparação de lançamento de um computador compacto, o menor e mais barato jamais produzido pela IBM, e que iniciaria, de certa forma, a introdução dos sistemas eletrônicos nas pequenas e médias empresas. Muito antes dos PC´s, lançados na década de 1980, o Sistema/3 viria a ser um dos maiores sucessos de venda da IBM no mundo todo. Entretanto, àquela altura, por causa da lei antitruste americana, o projeto era ultra confidencial, uma das razões dos participantes do projeto, um grupo internacional, ficarem instalados em Chicago, em um edifício não IBM.

Mudei-me para Chicago em maio de 1968, com a família: Leilah e três filhos (Luiz, sete anos; Cássio, cinco; e Francisco, dois e meio). Jurema ainda não havia nascido.

Comuniquei a mudança aos dois amigos, usávamos o telefone, e tínhamos a expectativa de reencontrar-nos. Bill e Joan foram nos visitar nos feriados de Thanksgiving, em novembro de 1968, após visitarem os pais dele em Indiana. Foi muito simpática e agradável a visita deles; nessa ocasião, a Leilah os conheceu e a amizade se estendeu e se consolidou.

Visitamos o Jorge em nossa viagem de volta dos Estados Unidos ao Brasil, em 1969, quando fizemos a proeza - o casal (a Leilah grávida) e os filhos - de fazer o trajeto, com uma enorme bagagem, pela costa oeste dos Estados Unidos para conhecer São Francisco, Los Angeles, Disneyland (ainda não existia a Disneyworld); depois, fizemos escala no México, para a Leilah poder apreciar a arquitetura, os museus, as pirâmides, o balé, enfim, tudo de bonito e diferente que aquele país oferecia e oferece ao visitante. O Jorge, como de hábito, nos recebeu muito bem, foi um cicerone atencioso, fazendo questão de nos levar, com sua mãe, a Puebla, sua cidade natal. Um bonito passeio.

Voltamos ao Brasil, Jurema nasceu depois de quinze dias e fui transferido para a IBM Matriz no Rio, promovido para uma gerência de produto, cujo principal objetivo era o marketing do Sistema/3.

Antes de nossa volta, mas depois da visita do Bill e da Joan a Chicago, recebi um telefonema do Bill com uma notícia surpresa, daquelas que os americanos gostam de preparar assim: “Guess what!”. Ele tinha sido convidado – e já tinha aceitado – para uma designação temporária no Brasil para ser o Gerente do Departamento de Educação da Matriz da IBM, no Rio! Estava fazendo um curso de imersão de Português, o que viria a lhe tornar, no Brasil, uma grata exceção – um americano falando um ótimo Português, fluente, com pouco sotaque. Frustrou um pouco as secretárias aqui, pois estas gostavam de usar o seu Inglês, em geral muito bom.

Quando nos mudamos para o Rio, os Ouweneel já estavam instalados, num bom apartamento em Copacabana e a Joan até deu u’a mão para a Leilah na instalação do nosso apartamento. Convivemos no Rio por cerca de dois anos e continuamos muito amigos. Ambos aproveitaram o Rio e conheceram várias regiões do País fazendo turismo interno – eu me lembro de que fizeram o roteiro histórico de Minas e voltaram encantados. Voltaram aos Estados Unidos em 1971.

Ainda na década de 70, estive com o Bill algumas vezes em Nova York, uma vez no Rio, viagens a trabalho minhas e dele. Saímos da IBM aproximadamente na mesma época. Ao se aposentar, ele e Katherine, sua nova esposa (ele havia se divorciado da Joan havia vários anos) decidiram se mudar para Bellingham, uma pequena cidade encantadora no estado de Washington, perto de Seattle e de Vancouver (Canadá). Em 1994, visitamos o casal. Sua casa, muito confortável, fica de frente para o mar, numa encosta tomada por um bosque. Fazia um pouco de frio, o que tornava a casa muito aconchegante. O macarrão delicioso que Katherine preparou, acompanhado de um ótimo vinho, foi um almoço inesquecível. Ela, professora que se aposentara na mesma época em que o Bill deixou a IBM, passou a se dedicar mais à alta cozinha, de tal forma que passara a treinar “chefs”. Ela deu à Leilah sua receita de macarrão com salmão que passamos a usar no Brasil, com total aprovação dos amigos.

 
Encontrei novamente o Jorge quando estive no México em 1974, para outro curso internacional IBM em Cuernavaca, desta vez para gerentes de gerentes, e visitei sua família. Ele havia saído da IBM e se estabelecera com negócio próprio na área de Informática, fornecendo equipamento e serviços complementares para instalações de computadores, especialmente IBM. Nessa ocasião, estava noivo de Maria Eugenia, o que me surpreendeu porque ele me parecia um solteirão convicto.

Em 1978, quando era gerente de informática na Brasividro, empresa fabricante de louça vitrificada, formada por uma associação da Nadir Figueiredo (brasileira) e Cristales Mexicanos, Leilah foi a trabalho para Monterrey. Tirei férias na IBM e a acompanhei. Esticamos uns dias para fazer um pouco de turismo naquele país tão rico de história e tradições. Visitei o casal Jorge e família, pondo a vida em dia. Depois desta viagem, só voltaríamos ao México em 2002, quando Jurema foi trabalhar em Monterrey por dois anos.

Entre as visitas ao Bill e ao Jorge, mantive com os dois uma correspondência rarefeita, mesmo depois do advento do e-mail, baseada principalmente nos cartões de Natal, que costumo escrever, imprimir e enviar a amigos e parentes, com um resumo de minhas notícias do ano.

Em 2003, Leilah e eu visitamos o Jorge na Cidade do México, quando ele estava no hospital, na UTI, em estado muito grave, após uma queda acidental quando se exercitava na rua, mas não tenho certeza de ele ter me reconhecido. Nosso encontro com seus familiares, inclusive com Maria Eugenia, foi muito triste porque a expectativa era das piores. Ele faleceu naquele ano.

Restou a lembrança de nosso encontro em 2002, o projeto “Los Tres  Caballeros”, que aconteceu assim:

Costumamos visitar Cássio, meu segundo filho, e família na Califórnia com certa frequência. Ao planejar nossa viagem de 2002, entrei em contato com o Bill e comentei que ele, Jorge e eu nunca tínhamos estado juntos, os três ao mesmo tempo. E eu os conhecia havia trinta e cinco anos! Então, fiz uma brincadeira no e-mail lembrando um filme de Disney, do tempo da segunda guerra, em que um americano, um brasileiro e um mexicano se encontraram e ficaram amigos - o Pato Donald, o Zé Carioca e o Panchito (Pancho Pistolas, segundo o Jorge). Ele conhecia o filme “Los Tres Caballeros” e, com esse nome, nasceu nosso projeto: marcamos encontro em Seattle, num fim de semana de maio. Leilah e eu voamos da Califórnia; Jorge, da Cidade do México; o Bill  preparou o programa, reservou o hotel, marcou os jantares e, dirigindo de Bellingham, nos esperou em Seattle.

A capa do estojo da fita de vídeo

O hotel, o “Vintage Park”, no centro da cidade, não poderia ser mais agradável e hospitaleiro. Ao nos registrarmos, bastou nos apresentarmos como um dos “Três Caballeros”, pois o Bill havia falado do encontro para o gerente e, com isso, conseguiu um desconto e um tratamento muito simpático. Cada apartamento tinha o nome de uma vinícola do estado, então o segundo maior produtor de vinho dos Estados Unidos (passara Nova York) e toda tarde, às cinco, havia uma degustação grátis para os hóspedes. O restaurante também era excelente.

Leilah era a única mulher, pois Katherine tinha compromissos e não pôde ir e, só fiquei sabendo lá, o Jorge e a Maria Eugenia estavam divorciados. Fizemos vários programas na cidade, alguns os quatro, outros sem a Leilah quando ela  saía com a Diane, que mora em Seattle. Esta, mãe da Julia (minha nora americana), é extremamente gentil e fez questão de fazer alguns passeios com a Leilah, entre outros, uma visita ao Museu de Arte de Seattle.

Nossos programas se concentraram no centro da cidade, incluindo a tradicional visita ao mercado de peixe, a visita ao Benaroya Hall, sala de concertos da Orquestra Sinfônica de Seattle, construída com as mais avançadas técnicas de som, e algumas lojas de artigos eletrônicos. Os dois, Bill e Jorge, aproveitaram muito, entusiasmados, parecia que voltavam a muitos anos atrás quando, mais jovens, se tornaram amigos. Leilah e eu nos divertíamos com o jeito deles.

O jantar de despedida foi no hotel “Four Seasons”, o preferido do Jorge. Jantar de alto nível que fechou o programa de forma brilhante. No final do jantar, o Bill nos presenteou o vídeo do filme.

A data e as assinaturas dos tres caballeros
Quando o Jorge faleceu, o Bill me mandou um e-mail agradecendo, emocionado, a ideia do programa. “Los Tres Caballeros” foi um evento inesquecível.


Cada vez que o Bruno termina de ver o filme, paro o vídeo, ejeto a fita e abro o estojo para guardá-la. Antes de fechá-lo, releio emocionado, na sua face interna, as assinaturas: “Jorge”, “Bill” e “Washington”, e a data: “16/05/02”.

 


Rio de Janeiro, setembro de 2007






Washington Luiz Bastos Conceição




sábado, 27 de abril de 2013

Zuza


Um livro sobre História Universal que me pareceu muito interessante, leve, até divertido, foi o “História de Roma”, de Indro Montanelli.

Li faz muito tempo e guardo dele a apresentação que o autor fez de seu enfoque: pessoas muito importantes, que influenciaram a história de nossa civilização, eram simplesmente humanas e, como tal, tinham o comportamento de qualquer mortal. Mostrá-los desta forma não é desrespeito, pelo contrário, os enaltece; porque, partindo de condições semelhantes, suas realizações foram de grande importância para a sociedade.
 
Já faz algum tempo que quero escrever sobre um colega do tempo da Universidade, comentando como era ele nessa fase de vida, como interagia com seus pares. Faço-o agora, com prazer e com saudade de nossa juventude.
Zuza, desde o primeiro ano de Engenharia, tornou-se popular. Sua simpatia, seu bom humor, logo chamou nossa atenção. Quando soube que ele era de Santos, confirmou a impressão que eu tinha dos santistas: talvez por influência da praia, eu achava que eles eram uma espécie de cariocas de São Paulo.
Ao entrarmos na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli, era natural que os estudantes oriundos do mesmo colégio formassem, de início, grupos dentro da classe. Gradativamente, entretanto, o relacionamento ia se expandindo, de forma que as “panelinhas” passaram a se restringir aos estudos em grupos. Já comentei, em outra crônica, que eu e o Sérgio Bastos, por exemplo, mantivemos a dupla que havíamos formado no Colégio Presidente Roosevelt e, amigos, continuamos estudando juntos. Entretanto, em várias atividades, tínhamos como terceiro parceiro – e depois amigo – o Sérgio Cataldi, que conhecemos na Poli.
Zuza tinha como parceiro mais frequente o Luiz Sérgio Marcondes Machado. Ambos, como eu, do curso de Engenharia Civil.
De início, os dois chamaram minha atenção no primeiro treino-teste de futebol dos calouros (éramos chamados “bichos”). O técnico do time da Escola queria selecionar os novos colegas para o elenco da Poli (primeiro e o segundo quadro) que disputava as competições multiesportivas entre faculdades,  principalmente a Pauli-Poli (Pauli era a Escola Paulista de Medicina) e a Mac-Poli, (Mac era a Escola de Engenharia Mackenzie), além do campeonato universitário do Estado. O local do treino era o campo da RAE (Repartição de Águas e Esgotos, avó da SABESP, empresa de saneamento do Estado de São Paulo, de hoje), no Bairro da Ponte Grande. Era próximo à Escola, esta instalada em edifícios na Avenida Tiradentes (a Cidade Universitária seria construída muitos anos depois).
Informado sobre o evento, tirei meu material do fundo do armário e fui ao treino. Fora de forma física e técnica, pois o ano anterior tinha sido totalmente dedicado aos estudos (conclusão do Colégio e, concomitantemente, no “cursinho”, preparação para o vestibular), não me dei nada bem, embora depois tenha podido participar dos treinos semanais. Já naquele treino, o Zuza brilhou, mostrou-se um meia armador muito hábil, driblava bem e era preciso nos passes. O Luiz Sérgio, muito rápido, também se destacou, jogando como atacante pela direita e aproveitando bem os lançamentos do Zuza. Os dois viriam a ser titulares do time da Poli durante todo o curso e o Zuza jogou também no time da Seleção Universitária de São Paulo.



Apesar da diferença de desempenho entre mim e Zuza, o futebol nos aproximou e tivemos uma boa convivência como colegas durante todo o curso. Ele não era “filhinho de papai”; se bem me lembro, tinha até de dar aulas particulares para ajudar nas despesas, pois não dava para estudar em São Paulo e morar com a família em Santos. Além disso, desde os primeiros anos, ele participou das atividades do Grêmio Politécnico, o órgão representativo dos alunos da Escola. Esta sua dedicação aos assuntos comuns dos alunos, seu destaque no futebol e sua simpatia tornaram-no conhecido de todos os colegas da Escola.
Particularmente, Zuza teve atuação importante durante uma crise séria entre os alunos e os diretores da Escola, que provocou a interferência destes no Grêmio e, consequentemente, uma greve dos alunos que acabou se estendendo a outras faculdades. Foi uma greve demorada (coisa de pelo menos dois meses) que acabou deslocando o ano letivo, inclusive a realização de provas, e reduzindo nossas férias. Independentemente de a greve ter sido considerada vitoriosa ou não (tenho ideia de que chegamos a um acordo razoável), a interação dos alunos foi importante e com implicações políticas normais na fase democrática que vivíamos naqueles anos (década de 1950). Talvez ele tivesse gosto por política antes desse evento, mas certamente aquelas atividades influenciaram sua escolha de vida anos depois.
Zuza teve um desempenho normal como estudante, seu trabalho no Grêmio não impediu que ele se formasse no tempo esperado (cinco anos). Mesmo quando, diferente de quase todos nós, se casou antes de terminar o curso.


 
Depois de formados, não nos vimos muito.
Recém-formado, fui trabalhar em um projeto de remanejamento do sistema de abastecimento de água de Santos, onde ele morava  e trabalhava como engenheiro da Prefeitura. Fui visitá-lo em sua casa, talvez duas vezes, e batemos bons papos, pondo os assuntos em dia.
No ano seguinte, ele teria uma atuação social importantíssima, ao ser designado para coordenar o atendimento aos moradores dos morros santistas vítimas dos terríveis deslizamentos ocorridos naquele ano. Ele se destacou muito nessa atividade que, a meu ver, foi o início de sua brilhante carreira política.
Foi eleito, ainda jovem, Deputado Federal por São Paulo. Lembro-me muito bem da satisfação que tive em votar nele, de sua votação altamente expressiva e, depois, do destaque que ganhou no exercício dos mandatos por sua aplicação aos trabalhos, especialmente em projetos de interesse público. Entre os mandatos de Deputado, foi Prefeito da cidade de São Paulo. Eleito Senador por São Paulo em 1986, exerceu o mandato de 1987 até 1994, quando se elegeu Governador do Estado de São Paulo. Exerceu o mandato de Governador de 1995 a 2001, ano em que faleceu.



A esta altura, você, cara leitora ou prezado leitor, já percebeu de quem estive falando até agora: do Sr. Mário Covas Jr., um dos mais importantes homens públicos na história recente do País. Pois é, na Escola ele era nosso querido colega Zuza.
 
 
Abaixo, uma foto tomada no dia de sua posse do cargo de Governador. (Fonte: Site do “O Estado de São Paulo”)


 
Não era objetivo desta crônica fazer um resumo biográfico, mas sim comentar características do colega, que não são normalmente mencionadas em biografias, e certamente contribuíram para o sucesso de sua brilhante carreira de homem público. Por exemplo, a realização de trabalho voluntário pela comunidade colegial, a preocupação por justiça no ambiente universitário, o bom relacionamento com as pessoas. Enfim, o termo que me vem à mente para resumir essas características, largamente utilizado para pessoas com qualidades reconhecidas de simpatia e liderança, é carisma.
 

 

 
Ao lado, Mário Covas faz um gesto de Zuza (Fonte: Portal da Fundação Mário Covas).

 
 
 
 



Depois de minhas visitas a ele em Santos, já mencionadas, encontramo-nos poucas vezes, não só por termos tido caminhos diferentes na vida, mas, principalmente, porque eu me mudei para o Rio de Janeiro em 1970 e passei a participar apenas das comemorações da turma nos aniversários de nossa formatura. Estas passaram, de almoços ou jantares anuais, para reuniões maiores a cada cinco anos, com destaque para os vinte, os vinte e cinco, os quarenta e os cinquenta anos.

Mário Covas, habitualmente, comparecia. Eventuais conversas políticas se restringiam àqueles mais interessados e envolvidos com assuntos públicos. Claro, havia colegas de posições opostas às dele, mas a ênfase dos encontros, alguns deles realizados em hotéis fora de São Paulo (Lindóia e Águas de São Pedro, por exemplo), era nos vermos e conferirmos os resultados do avançar da idade em cada um de nós. Lembro-me que, desde o vigésimo aniversário (talvez antes) tínhamos de nos reapresentar, pois os perfis haviam mudado; os rostos mostravam rugas; os cabelos tinham embranquecido e as calvas, aumentado. Não deixava de ser divertido – ríamos de nós mesmos – e tínhamos histórias para contar. Principalmente, recordávamos de nossos feitos notáveis no tempo de estudantes.

 
No começo da década de 1990, provavelmente em 1992, fui a Brasília a trabalho e fiz uma visita ao Mário, em seu gabinete de Senador. Embora apenas uma visita de cortesia, de antigos colegas, pois eu não tinha nenhum assunto específico a tratar com ele, recebeu-me muito bem, sem pressa, para uma conversa de amigos; provavelmente, falamos sobre as respectivas atividades e tomamos um café.

 
Nosso encontro seguinte – e o último – foi na comemoração dos quarenta anos de formados, em 1995. Ele era Governador do Estado e nos deu a honra de participar da festa com os colegas.
 

 
 
Ao lado, a foto, naquela comemoração, que guardo com muito carinho, onde estamos os dois com o colega Nazir Abdo (à esquerda), aquele que projetou nosso quadro de formatura nos idos de 1955. Na ocasião, foi necessário usarmos crachás com os nomes em letras graúdas, para identificação mais fácil dos colegas. Como você pode observar, o Mário teve o cuidado de também usar o seu. Precisava?





Pouco a pouco, ao longo dos anos, perdemos colegas e hoje o elenco está bem reduzido. Zuza nos deixou em 2001.

A capa da revista Veja de 14 de março de 2001 estampa uma fotografia recente de um Mario Covas simpático, pensativo e sorridente, ao lado da chamada “Ética e Política” e destaca: “Porque Covas se tornou um símbolo do que o País quer dos políticos”.

Quanto a mim, sempre que meu domicílio eleitoral permitiu, votei nele – voto de convicção, de confiança total no candidato, voto de esperança no futuro do País. Infelizmente, pude votar assim poucas vezes, pois na maioria das eleições tenho votado com o objetivo de evitar o que  acho a solução pior – e não tenho tido sucesso.

 
Pelo exposto, caro leitor ou prezada leitora, você percebeu que ter sido colega do Zuza é uma honra para mim. Pois é mesmo – e uma honra muito grande.


Washington Luiz Bastos Conceição