Cara leitora ou prezado leitor:
Esta é a segunda crônica da série, iniciada com
“D. Izaura e sua gente – Introdução”.
A casa
Na crônica anterior, chamei a casa de palacete,
talvez exagerando um pouco. Mais precisamente, era um grande e sólido sobrado
do início do século vinte, construído no alinhamento da rua, com três níveis: subsolo,
térreo e andar superior. Na fachada (dando para a rua), janelas típicas da
época, três por andar. Para a iluminação e a ventilação do subsolo, eram pequenas
janelas, com grade de ferro e folhas de madeira, pouco acima do piso da calçada.
Nos outros andares, janelões com vidraças e folhas pesadas de madeira. No
restante da casa, janelas semelhantes. O acesso à casa era ao lado do sobrado, mediante
um pequeno portão para pedestres e um grande para automóveis. A porta da
entrada da casa, propriamente dita, era lateral, com uns quatro degraus de
escada. Os automóveis podiam ir ao fundo da casa, antes do quintal. Durante
algum tempo, eram guardados nesse espaço, em linha, dois automóveis. Não havia
garagem, certamente não prevista no projeto do sobrado.
Para uma ideia da fachada, um desenho esquemático,
de memória. Na realidade, a fachada ostentava a decoração comum da época de sua
construção.

O projeto da casa era avançado para sua época,
destinando os cômodos do andar térreo para as atividades diurnas de uma
família, inclusive reuniões sociais, e os dormitórios no andar superior, com um
banheiro em cada piso. No subsolo, a área de serviços e de acomodação dos
empregados.
No caso da família Corrêa, salas foram utilizadas como dormitórios sem prejuízo das atividades diurnas. Havia muito espaço, o pé direito era bem alto (uns 4 metros, no mínimo) e os quartos e salas, em sua maioria, eram bem grandes.
Fiz um esboço das plantas dos andares térreo e
superior, também de memória:
Na crônica anterior, de introdução, mencionei quem
morava na casa quando conheci a família:
“Quando comecei a frequentar a casa, lá moravam
com os pais (Izaura e Juca): José Maurício (o doutor Zeca, pois ele era
médico), ainda solteiro; Gentil, também solteiro, que compartilhava um quarto
com o Doutor; Yolanda, o marido, Lauro, e o Sérgio, filho deles; Olga, o
marido, Vianna, e o filho Antônio Augusto (o Tonico), que tinha cinco anos.”
Quanto à ocupação dos cômodos: no andar superior:
quarto 1: Izaura e Juca; quarto 2: Olga, Vianna e Tonico; quarto 3: Yolanda e
Lauro; quarto 4: Sérgio. Andar inferior: sala 1: quarto do Doutor e Gentil; sala
3: refeições durante a semana; sala 2: grandes refeições e salão de dança nas
festas; copa: local onde tomávamos, Sérgio e eu, o chá das 5 da tarde, com D.
Izaura, e era onde ela escutava as novelas pelo seu rádio.
O quintal da casa era extenso, com algumas
árvores. Transcrevo a seguir os comentários da Leilah e do primo Antônio
Augusto sobre o quintal.
De Leilah: “O quintal vai ser motivo de muitas
lembranças pois era um pomar. Tinha árvores de ameixas amarelinhas, uma delícia;
pitangas bem vermelhinhas; laranjas etc. Para mim e para o Sérgio era um mundo
encantado...”
Do primo Antônio Augusto: “Na copa havia uma
porta que dava para um terraço e dali, em poucos degraus, no quintal. Este, muito grande, mas que acabava afunilado
nos fundos em direção à avenida Liberdade. E, por falar em quintal, não era
qualquer casa que tinha uma enorme paineira com mais de 20 metros de altura e
que precisava de alguns homens para abraçá-la. Muita gente não conhece seu
fruto que por fora parece um abacate ou cacau e por dentro tem uma espécie de
algodão branquinho e bolinhas pretas de semente.”
Para ilustrar, foto do primo Sérgio e da Leilah,
bem pequenos, em frente ao tronco da paineira.

Como se pode imaginar, com essa população e mais o
casal Glória e Lúcio, que morava próximo e se juntava diariamente aos
moradores, mais o caçula Armando, que trabalhava próximo e lá almoçava ou
jantava com frequência, o movimento da casa era intenso e sua manutenção trabalhosa.
O notável, para mim, era a convivência das pessoas. Não me recordo de alguma
discussão entre elas. Minha lembrança é de um comportamento harmonioso, de um
relacionamento amigável de pessoas de variados perfis. E poderia haver
diferença de posições políticas como havia, por exemplo, de torcida por clube
de futebol – um corinthiano, alguns palmeirenses e outros são-paulinos.
Tudo que fosse de uso comum era gerenciado por D.
Izaura, com a ajuda valiosa da Glória na cozinha. Itens pessoais, como garrafas
de vinho e de whisky, por exemplo, eram guardados nos quartos respectivos e usados
e oferecidos quando achassem apropriado. Nos quartos espaçosos, com armários
grandes, havia bastante lugar para tanto.
Na casa, não havia cachorro ou gato; animal de
estimação, só um papagaio animado chamado Mulata, que falava alguma coisa e só
dava trabalho quando conseguia sair do poleiro, o que acontecia raramente.
Vou falar das pessoas dessa família, com as quais convivi estreitamente durante os oito anos em que fui parceiro de estudos do Sérgio; e o resto da vida, depois que me tornei parente delas ao me casar com a Leilah. Porém, antes, na próxima crônica, minha esposa vai contar o que sabe de D. Izaura e sua gente em período anterior à minha entrada em cena. Os pais dela, quando se casaram, também moraram na Galvão Bueno e permaneceram mais alguns anos depois que ela nasceu. Ou seja, Leilah também foi moradora da casa da Galvão Bueno.
Washington Luiz Bastos Conceição
Notas:
1) Tonico era o apelido de Antônio Augusto quando criança. Ao crescer e se tornar estudante de direito, passou a ser chamado pelo nome. Depois, bacharel em direito, advogado, juiz e desembargador, hoje aposentado, é o senhor Antônio Augusto Corrêa Vianna, meu caro primo e compadre. Ele foi o neto que mais convivência teve com D. Izaura, pois morou com a avó desde que ele nasceu até o falecimento dela. Sua colaboração nesta série de crônicas é fundamental pois, além de fotos e de histórias que tem na memória, possui dados e documentos dos avós e tios, valiosos para a consistência das crônicas. Além do Antônio, já estou me valendo da colaboração da Leilah, Ciumara (sua irmã), também netas de Izaura e Juca Corrêa, e de Lígia, bisneta.
2) Minha parceria de estudos com o Sérgio compreendeu o curso colegial, o cursinho para o exame vestibular e os cinco anos de Politécnica. Fomos parceiros também na ACM (Associação Cristã de Moços), no CPOR (Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva) e no estágio de construção civil no SENAI (Serviço Nacional da Indústria), onde aprendemos a fazer argamassas de cal, cimento e areia, assentar tijolos, a dobrar ferro para concreto armado e a trabalhar em carpintaria, experiências básicas para o engenheiro civil daquele tempo.
3) Se você quiser ler ou reler a crônica anterior da série, clique em:
https://washingtonconceicao.blogspot.com/2025/02/d-izaura-e-sua-gente-introducao.html
***