Depois que
Luiz Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura se tornaram vovôs, passaram a contar,
em meio a suas crônicas, artes da Lucinda e da Alice, suas respectivas
netinhas. Eles, escritores altamente conceituados, colunistas dos principais
jornais do País, assumem publicamente a posição de avós “babados” sem qualquer
constrangimento. Aliás, constrangimento por quê? O tempo dos cronistas
conservadores, cerimoniosos, já passou. Além do mais, como benefício, os
comentários sobre as netas os aproximam de seus leitores, particularmente daqueles que também têm a
felicidade de ter netos.
Os netos pequenos,
vamos nos lembrar, são crianças desta novíssima geração. Portanto, vêm ao mundo
com a missão específica de nos encantar e embasbacar, surpreendendo-nos toda
hora com observações, comentários e ações que não esperamos de miúdos como
eles. E crescem, ficam menos miúdos, evoluem no conhecimento e passam a ser
nossos instrutores na operação de equipamentos eletrônicos, como o telefone
celular, por exemplo.
Já falei de
meus netos em crônica do ano passado (“Crianças de Hoje”). Eles continuam
evoluindo aceleradamente, seus focos de interesse vão mudando, mas continuam
nos surpreendendo sempre.
O que me fez
escrever esta crônica foi minha observação sobre o encanto e a importância do
relacionamento de avós com os netos, algo que venho observando de perto nestes
últimos anos e que tenho comentado com amigos, especialmente com colegas graduados
em “vovoísmo”.
Algumas
questões surgem. Por exemplo, é entendimento geral que, depois que tiveram
tanto trabalho para educar os filhos, mesclando amor, orientação e disciplina,
os avós não têm obrigação de educar os netos; mais do que isso, não devem se
intrometer nas ações dos filhos e noras, das filhas e genros, pois manda a
prudência evitarmos desentendimentos na família. Mas a ideia, bastante
difundida, de que os avós têm o direito de fazer todas as vontades dos netos,
“estragando-os”, é um exagero. Os avós devem
procurar dar toda a orientação possível, baseados em sua experiência de
vida mas, também, procurando
atualizar-se quanto aos usos e costumes e, até, quanto aos conhecimentos
gerais. Ouvir uma resposta do tipo “Vovô, isso aí já era!” não seria nada
agradável.
Contudo, temos
o sagrado direito de curtir os netos, acompanhar seu desenvolvimento, conversar
com eles ouvindo suas histórias, acompanhando os assuntos que lhes interessam
na escola, tomando conhecimento de seus livros, jogos eletrônicos, filmes (no cinema
e em DVDs) e atividades esportivas.
Poder curtir
os netos é uma felicidade muito grande.
E os netos?
O que acham de nós? Eles gostam do que fazemos para eles e com eles?
Podemos ter
uma resposta a essas perguntas se observarmos as reações dos netos a nossas
ações e comentários e as referências que nossos filhos fazem dos avós deles. E,
também, se procurarmos, nós mesmos, lembrar de nossos avós.
Quanto às
reações dos netos, basta prestarmos atenção em alguns pontos básicos: Eles
gostam de ir à casa dos avós? Encontram distração e companhia lá? Comem e
brincam bem?
Por exemplo,
nosso neto carioca, aproximando-se agora dos dez anos, tem uma agenda pesada de
escola, aulas de natação, futebol e tênis, está na fase de armar legos
sofisticados, vai a cinemas, teatros e visita e é visitado por amigos e colegas.
Assim mesmo, sempre que pode, vem nos visitar. Ele almoça ou janta conosco (a vovó procura
fazer seus pratos preferidos); fazemos uma sessão, a três, de jogos que vêm variando
ao longo do tempo, desde víspora (também chamado loto e bingo), uno, dominó, até
monopólio; às vezes, ele vai um pouco ao computador da vovó. Conversa muito (principalmente
com a avó) e alguns dias, no fim de semana, dorme conosco. Podemos supor que
ele gosta de nossa companhia e que vai guardar boas recordações dos avós.
Como outro
exemplo, uso aqui o que contou o Veríssimo em sua coluna de 23 de maio último no
O Globo: ele participa, mediante representações de vários papéis, dos “faz-de-contas” da Lucinda. Ele não pode ter dúvida: ela está gostando muito da convivência com o avô e não vai se esquecer
desses bons momentos.
De uns
tempos para cá, já adultos, meus filhos comentam atitudes e ensinamentos de
seus avós. Dos avôs, lembram-se bem do jeito de cada um. Como tiveram maior
convivência com o avô materno, educador firme e prático que os orientou e
influenciou muito, recordam-se bem do que ele lhes transmitiu. Das avós,
lembram a dedicação extremada de uma e os diálogos com a outra, além do carinho
de ambas.
Quando
nasci, meu avô materno já havia falecido, de forma que conheci as duas avós e o
avô paterno. Não tive muita convivência com eles, pois morava em São Paulo e
eles no Paraná; apenas visitávamo-nos, periodicamente. Além da lembrança de nossos
encontros e conversas, tenho uma recordação especial de minha avó Balbina, mãe
de meu pai. Professora, ela gostava de poesia e presenteava os netos com
cadernos em que transcrevia versos, manualmente. Estávamos no início dos anos 40 do
século passado e ela não tinha máquina de escrever.
Abaixo, a
cópia de uma página do caderno que encontrei em meus guardados.
Gostávamos,
meus irmãos e eu, de ouvir suas histórias da infância, a qual ela passou, em grande
parte, nas ilhas da Baía de Paranaguá. Era exímia na preparação de peixes, o
que fazia mesmo quando bem idosa. Viveu 95 anos.
Um relacionamento notório com o avô foi o de Arnaldo Jabor, destacado por ele mesmo em seus escritos. A tal ponto, que entendi que esse relacionamento é mostrado no seu filme "A Suprema Felicidade", no qual o protagonista estaria, na realidade, interpretando a figura do avô do Jabor.
O cartaz de anuncio do filme, abaixo, é bem significativo.
É importante
lembrar que o papel de avós pode ser representado por tios ou tios-avós.
No meu caso,
meu tio e padrinho, casado com a irmã mais velha de minha mãe, em cuja casa
esta se criou, foi quem considero meu terceiro avô – ele tinha idade para o
papel. Morava no Paraná, mas passei várias temporadas em sua casa. Minha tia
era uma pessoa de extrema bondade e paciência e ele, entre meus dez e quinze
anos, me ensinou muitas coisas práticas que não se aprendiam na escola. Tinha
larga experiência comercial e habilidades manuais necessárias a um chefe de
família, no Paraná daquele tempo; como a de marcenaria, por exemplo.
Casais sem
filhos também podem assumir funções de avós, como amigos meus que mantêm
convivência estreita com sobrinhos-netos e outros que, sendo agora tios
dedicados, certamente vão assumir o papel quando se tornarem tios-avós.
Educar os
filhos se apresenta cada vez mais difícil, porque eles são crianças e jovens
que recebem uma quantidade imensa de informação pelos mais variados meios, são
estimulados o tempo todo a consumir mais – brinquedos, equipamentos e jogos
eletrônicos em constante evolução – viajam para o exterior, estudam idiomas em
escolas bilíngues, praticam mais de uma modalidade de esporte e, o que é muito
preocupante, estão muito sujeitos a desvios de conduta.
Por outro
lado, pai e mãe são ambos profissionais, trabalham fora de casa e têm outras
atividades, sociais e esportivas. Durante a semana, o tempo dedicado aos filhos
não é o que gostariam que fosse.
Nesse
cenário, os avós podem ajudar e devem fazê-lo na medida das possibilidades,
tomando os cuidados que já mencionei. Sempre temperando orientação e conselhos
com argumentação inteligente e amor. Este, o tempero natural, que temos em
abundância, é o mais importante.
Washington
Luiz Bastos Conceição
Notas
1. Dedico esta crônica à Vovó Leilah, minha esposa, que amanhã comemora o aniversário com os netos.
2. Para quem se interessar: forneço abaixo o “link”
para o trailer do filme mencionado.
Trailer Oficial de "A Suprema Felicidade",
dirigido por Arnaldo Jabor:
Observação: A
fonte do cartaz do filme foi o site:


Muito bom. Meu único neto tem 8 meses e vou tentar seguir teus conselhos. Abraços
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCaro Anônimo:
ResponderExcluirDesejo que você curta muito esse neto. E que venham outros!
Um abraço.
Washington
Adorei o poema transcrito pela sua avó Balbina... Eu me lembro de ajudar minha avó a colocar a roupa para "quarar" no campinho em frente ao conjunto da Light... rsss... Meu filho tem hoje muitas lembranças do tempo que passou perto da avó e tudo o que ela fazia por e com ele.. Hoje ele saber o quanto foi "enganado" por ela para comer melhor, por exemplo.. Obrigada pelo texto e pela lembrança da importância dessas figuras em nossas vidas.
ResponderExcluirPara nós, avós, é confortante saber que deixaremos lembranças. Temos de fazer com que elas sejam muito boas.
ResponderExcluirObrigado pela atenção.