sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Depoimento


No almoço quinzenal com meus amigos idosos, conversamos sobre tecnologia, a evolução do planeta, política, os problemas do país e do mundo. Controlamo-nos para não falar de doenças, mas, de vez em quando, surge o assunto de nossos males da idade: achaques e coisas mais sérias, como problemas de coluna e cardiológicos, quedas com fraturas e consequentes cirurgias, e as temíveis demências senis. Em especial, já discutimos as recomendações largamente divulgadas sobre como evitar o mal de Alzheimer, as quais tratam da alimentação, cuidados com a saúde, exercícios físicos e exercícios mentais. Dentre estes últimos, mencionamos palavras cruzadas, exercícios de memória, jogos de cartas, inclusive aqueles solitários, como a paciência, por exemplo. Recentemente, comentamos que atividades sociais dos idosos também são recomendadas e nos congratulamos mutuamente por mantermos nosso encontro no almoço quinzenal e nossas conversas em grupo no WhatsApp.

O Alzheimer tem frequentado amplamente o noticiário. Nesta semana, foi divulgado pela mídia um importante trabalho de pesquisa de cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro que descobriram um caminho para prevenir e provavelmente tratar a doença. Eles concluíram que a irisina, um hormônio produzido pelos músculos quando praticamos exercícios, protege o cérebro e restaura a memória afetada pela doença. Resta, ainda, fazer testes em humanos, mas o estudo traz a esperança de que se possa até aplicar a irisina nos pacientes, de forma semelhante à aplicação de insulina nos diabéticos.
Enquanto não temos medicamentos desse tipo, devemos procurar seguir as recomendações acima mencionadas.

Quanto aos exercícios mentais, acredito que possa ser útil a divulgação de meu caso de idoso maior de 85 anos (grupo de idade cuja probabilidade de desenvolver o mal é de 40%, segundo os cientistas). Por essa razão, decidi contar o que tenho feito para evitar o Alzheimer, fazendo o depoimento abaixo, na base de “a quem interessar possa”.



Venho me prevenindo contra o mal já faz algum tempo. Embora meu cuidado maior com a alimentação seja recente e a prática de exercícios físicos esteja aquém do recomendável, uso a escrita como atividade que, de uma forma amena e agradável, substitui o trabalho. E faço alguns exercícios mentais há anos usando, principalmente, os jogos de Sudoku e de FreeCell.
Na minha rotina de aposentado, o Sudoku me acompanha na hora da sesta. Para jogá-lo, não uso o computador. Compro os livretes na banca de jornal e uso lápis 2B (agora importados do Vietnam), aos quais acrescento uma borracha branca. Como as regras do jogo são muito simples, comecei a jogar sem qualquer instrução e fui me aperfeiçoando, gradativamente, usando um método próprio e, nos jogos mais difíceis, análises de situações e muita perseverança. Não é um exercício de memória, mas os formatos variam e cada jogo apresenta situações diferentes, o que atende a recomendação geral de variação de ações para evitar o Alzheimer. 
Outro exercício que faço na sesta é o logodesafio, que consiste em formar palavras com letras apresentadas de forma desordenada. Para tanto, uso o jornal impresso. Neste caso, o desafio é de memória, de conhecimento e a ordenação das letras esparsas.
No computador, jogo FreeCell de forma intercalada com outras atividades, como, por exemplo, a correspondência por e-mail. Em 2018, fui muitas vezes diretamente ao jogo para me desligar do noticiário terrível que tivemos durante a campanha eleitoral ou para me distrair de preocupações pessoais.
Diferentemente de um amigo que experimentou o FreeCell, achou-o fácil e perdeu o interesse, fixei-me nele considerando que, como no caso do Sudoku, cada partida é diferente e, jogando na modalidade aleatória, encontro diferentes graus de dificuldade. Em 2018, usando novas flexibilidades do programa, adotei o critério de, independentemente do tempo gasto em cada partida, manter 100% de vitórias.
Sinto que me desenvolvi no jogo ao observar melhor o quadro inicial das cartas, ao buscar novos caminhos quando a dificuldade se apresenta e ao perseverar para manter a invencibilidade. Quando a partida fica demorada, posso interromper e continuar no dia seguinte.
O programa fornece os resultados acumulados. No ano passado, cheguei, admirado, a cinco mil partidas jogadas. Abaixo, cópia do quadro estatístico:



Compilando meus registros, calculei que joguei em 2018, em média, catorze partidas por dia correspondendo a uma duração total diária de uma hora e dez minutos.
Em resumo, além da utilização normal do cérebro, meus exercícios mentais são: escrever, ler, e jogar Sudoku, Logodesafio e FreeCell.

Bem, o caro leitor ou prezada leitora deverá estar querendo perguntar: “E daí, Washington, você está bem?”, “A cabeça está boa?”.
Vou responder resumidamente: sinto algumas dificuldades de memória (às vezes uma palavra me foge em meio a uma conversa e levo algum tempo para lembrar-me dela; outras vezes me distraio e não atendo um pedido da Leilah feito minutos antes); faço muita coisa automaticamente (o que estou combatendo mediante variação de procedimentos); de vez em quando dirijo-me a um cômodo da casa e tenho de me lembrar do que ia buscar lá; esqueço-me, às vezes momentaneamente, do nome de pessoas e de lugares conhecidos.
Conforme comentei no meu “Discurso de 85 anos”, para reduzir as dificuldades de memória faço exercícios como, por exemplo, decorar nomes de remédios, especialmente os genéricos.
Por outro lado, lembro-me com detalhes de cenas de um passado remoto, de letras de músicas bem antigas, algumas do meu tempo de criança. Daí sentir-me confortável ao escrever memórias.
Quanto ao raciocínio, sinto-me o mesmo de sempre, não devo ter problemas.


Espero que o depoimento interesse e seja útil a alguns leitores.
Contudo, devo confessar que tenho uma dúvida: a minha “jogatina” se tornou hábito ou vício?
Pessoas que trabalham em empresas fabricantes de cigarros se referem ao uso do fumo como hábito e não como vício. Bem, se desconsiderarmos o prazer que o fumante tem ao inalar a fumaça, levar o cigarro à boca é um hábito. Para deixar de fumar, há aqueles que recorrem ao cigarro eletrônico e, como fez um colega uruguaio da IBM, fumam apagado. Ele mantinha constantemente um cigarro à boca, mas não o acendia. Funcionou. Apenas, se queixava de que, frequentemente, alguém se oferecia para lhe acender o cigarro.
No meu caso, parece-me que os jogos se tornaram um hábito. Para aqueles que acharem que é vício, peço notarem que não fazem mal à saúde e que não são onerosos, pois o material é pouco e o tempo do aposentado é barato.

Contudo, não tenho dúvida de que, para mim, escrever é o exercício mental mais efetivo, pelo prazer que me dá e por ajudar a manter o relacionamento com os amigos leitores.

Washington Luiz Bastos Conceição



Notas:

1. As notícias na mídia, nesta semana, sobre a pesquisa dos cientistas brasileiros foram:
  • Na televisão, entrevistas com professores da UFRJ nos canais BandNews e GloboNews e reportagem no Jornal Nacional, exibidas em 07/01/19.
  • No jornal “O Globo”, reportagem publicada na edição de 08/01/19.
2. Hoje, 11 de janeiro, lembrei-me de que, há 63 anos, em outro 11 de janeiro, realizou-se a solenidade de formatura da minha turma da Escola Politécnica da Universidade São Paulo, no Cine Nacional, no bairro da Lapa, em São Paulo. Iniciou-se às 20 horas, com os formandos entrando no palco ao som da Marcha Triunfal da ópera Aída, de Verdi.



5 comentários:

  1. Washington, sobre jogos serem mania ou vicio, tem alguns que realmente viram vícios. Por exemplo, eu adoro fazer quebra-cabeças online, adoro Letroca e Sudoku, mas faço quando estou esperando um avião no aeroporto, ou antes de dormir. O Eduardo já é vidrado num Candy Crush. Vamos sair para jantar, chamamos o elevador e lá está ele jogando... rsss... às vezes dou bronca, mas quase sempre deixo prá lá.

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  2. Do primo Ruy:
    Excelentes suas considerações sobre o "mal do alemão", Washington. Tema recorrente em rodas de idosos, todos temem os progressivos lapsos de memória e procuram jogos e atividades que supostamente atrasem seus efeitos. De minha parte, acho que se conseguirmos resolver com alguma presteza nossos sudokus e cruzadas diários estaremos livres dessa ameaça, hehehe.

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  3. Washington. Se há coisa que nos mete medo é essa ameaça sempre presente,do mal de Alzheimer feito espada de Dâmocles, sobre a cabeça dos idosos. Usa-se as armas que nos recomendam os especialistas, torcendo que tenham razão .Renho uma "vasta literatura" a respeito, que me manda uma amiga de Sâo Paulo, que faz um curso sobre o assunto. Que bom que você e amigos mantêm essa reunião quinzenal, uma das recomendações. Santinha tem uma vida social bem mais movimentada que eu. Faço palavras cruzadas e tento o sudoku, mas raramente fecho um. Não sou boa nos números. No mais, minha vida é bem caseira e, a não ser pelas atividades da Liga das Senhoras Católicas, da qual sou secretária. É uma organização de trabalho social, atendemos quase 700 crianças em nossas três creches e isso me gratifica muito. No mais, é o serviço caseiro que também me agrada. E vamos levando, esperando merecer a graça de estarmos livres desse mal. Abraços Isa.

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  4. Oi Washington!
    Isso, o importante é manter a atividade, mental e física. Se a física está aquém, incremente!

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  5. Henrique Oswaldo Pimentel12 de janeiro de 2019 18:09

    Washington, eu quase assinaria embaixo dos seus comentários... com pequenas alterações.Nos jogos sou viciado também no freecell mas nunca vou chegar no seu recorde de 5.000.. fico nuns 200, por ai, mas também invencível! Alterno com o Spider, que é bem mais difícil de vencer. Mas faço mais fé nas cruzadas da Recreativa e a minha preferida é a PhD com suas cruzadas em branco. Também sou seu parceiro na falta de exercício físico...

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