sábado, 29 de julho de 2017

Osmar - Os primeiros passos

Cara leitora ou prezado leitor:
A publicação da crônica “O Republicano”, em junho, reacendeu meu desejo de escrever sobre meu pai, uma pessoa que viveu a evolução do Brasil ao longo do século XX e acompanhou as transformações extraordinárias do mundo todo. Nascido e criado no interior do Estado do Paraná, graduou-se professor em Curitiba, e se casou em Ponta Grossa. Depois de poucos anos, mudou-se para o Estado de São Paulo, morando inicialmente no interior e depois na Capital, cidade que ele amava e na qual se formou em Direito, criou os filhos e viveu até falecer, aos 79 anos. Formou com Jurema, minha mãe, um casal feliz e corajoso.
Sinto que ele não tenha deixado um livro de memórias, que as tinha muito interessantes e ilustrativas, mas posso contar algumas de suas histórias – as que ele contou aos filhos e aquelas que presenciei. Pretendo publicá-las em forma de crônicas e reuni-las em um livro. Já escrevi duas: além da “O Republicano”, acima mencionada, “Uma escola com seu nome”, publicada em abril de 2012.





Morretes
A quem vai a passeio a Curitiba, Paraná (estado do sul do Brasil), é oferecida, certamente, uma excursão na ferrovia Curitiba-Paranaguá, uma obra notável de engenharia realizada no século XIX (foi inaugurada em 1885). Fiz esse passeio mais de uma vez, por trem mesmo e por litorina, uma espécie de ônibus sobre trilhos. Apreciei muito as paisagens impressionantes na descida da Serra do Mar e, como engenheiro, os detalhes da obra, extremamente ousada para a época de sua execução.
Antes de chegar a Paranaguá, o trem para em Morretes, cidade que fica ao pé da serra.
Foi nessa pequena cidade que João Alves da Conceição e Balbina Bastos Conceição ganharam seu filho caçula, Osmar Bastos Conceição, meu pai, no ano de 1901. Único filho homem, suas irmãs eram Carolina, Aracy e Anete.
João era de Antonina e Balbina era de Paranaguá, ambos professores de escolas públicas, o que os fazia mudar de cidade de tempos em tempos. De Morretes se transferiram para Castro, cidade situada na região paranaense chamada Campos Gerais e próxima a Ponta Grossa.

Castro
Conforme informa a Wikipedia, Castro foi, inicialmente, um pouso de tropeiros, às margens do rio Iapó, no histórico Caminho de Sorocaba, que ligava esta cidade paulista ao Rio Grande do Sul. Em Cruz Alta (nesse estado), eram reunidos muares, trazidos da região de Corrientes, na Argentina. De lá, os tropeiros levavam os animais para a Feira de Sorocaba, que foi o maior ponto de comercialização de muares, no Brasil, do final do século XVIII até o final do século XIX.
O “Pouso do Iapó” se firmou como povoação e, em 1857, se tornou a cidade de Castro.

As recordações de infância de Osmar eram de Castro. Para nós, seus filhos, contava casos típicos de cidade do interior daquele início de século. Por exemplo, a passagem do circo pela cidade e os comentários todos que provocava. Mas foi em seu livro de poesia “Emoções que ficam”, escrito quando estudante de Direito, que falou de sua vida em Castro. Em versos leves, alternando emoção e bom humor, apresentou a família – irmãs, mãe, pai e avó – e narrou suas histórias daquela fase da vida.
Os versos expressam, realmente, suas emoções. Ele não se preocupou em descrever a cidade daquele tempo: a pavimentação das ruas, o sistema de iluminação pública, o abastecimento de água, as construções, por exemplo; e mais, como era o dia a dia das pessoas e quais seus recursos. Até sua casa ele trata de maneira afetiva, dizendo que ela:
“Foi para mim um pequenino mundo,
Pleno de graça, de esplendor fecundo”.
Como ilustração, transcrevo alguns versos do livro:

PROTETOR E GUIA

Estrela amiga e benfeitora, alçada
Sobre os rumos primeiros de um destino,
Ao mais tênue clarão de uma alvorada!
Com que extremado culto ainda o contemplo:
Guia, outrora, do filho pequenino,
Do filho moço, hoje, o mais nobre exemplo.

Mestre-escola, tribuno, polemista,
Curandeiro de bairro, João Caetano
Nas horas vagas... Diligência mista,
Era de ouvir-se, em qualquer festa, então,
O infalível convite, honroso, lhano:
“Tem a palavra o Seu João Conceição”.

Varão, contudo, de índole severa,
Meu pai, na angústia ou na prosperidade,
Bondosamente, para todos era
O popular “Seu” Conceição que havia
De, a toda lei, salvar a humanidade
Com três gotas, talvez, de homeopatia...

MINHA MÃE

Soberana de um plácido reinado,
Com seu pródigo amor – lume sagrado
A encher de encantos meu feliz solar!
– Minha mãe, santa mãe, logo à noitinha,
Por mim que, criança, mal ao mundo vinha,
Ia, aos milagres da fé, crente, rezar.

Quando, mais tarde, cavaleiro andante,
Parti, galhardo, em busca ao meu levante,
Ávido de honras, de emoções, senhor!
– Minha mãe, santa mãe, constância infinda!
Por mim que, moço, mal vivera ainda,
Rogava, em prece, um guia protetor.

E o tempo veio, traiçoeiro, mudo,
Tudo apagando, avassalando tudo,
Sobre os escombros dos castelos meus!
– Minha mãe, santa mãe, num devaneio,
Por mim que, homem agora, em nada creio,
Suplica aos céus: “Dai-lhe o perdão – meu Deus!”


PATRIOTISMO

Com que vaidade, moço, já, me lembro
Daquele gesto de heroísmo infante
Com que num doce e encantador novembro
Vi terminar meu ano de estudante.

A escola, outrora, “era risonha e franca”...
“Seu” mestre, um velho já de voz cansada,
Férula à mão, tradicional carranca,
Do que “marcou” não dispensava nada.

Daí o preceito bárbaro, traiçoeiro,
Da maldita e cruel pedagogia:
Decorar, cada aluno, um trecho inteiro
De gramática, história e geografia.

Por isso e em meio ao natural vexame
Que a imponência do ato a inspirar vinha,
Pus, sob o horror do malfadado exame,
Ao léu da sorte, toda a glória minha.

“Pois, muito bem, Sr. Osmar... (Sorrindo,
O Dr. Braga dava medo) Vai
Relatar-me o Sr. um ponto lindo:
A guerra entre o Brasil e o Paraguai”.

E o examinando que tão bem guardara,
De cor os fatos principais da História,
Pelo temor que lhe infundia a vara,
Ou o uso da horrível palmatória,

Assume uns ares de comando e ufano,
Como se o próprio Osório ali se achasse,
Entra a falar no Ditador Solano,
Em Mitre e Flores, em D. Pedro.. A face

Em fogo, o coração bem brasileiro,
Palavra firme (E o São Lacerda, então?)
– “Mas que menino! Viu?” – “E este é o primeiro”...
Sabe, de fato, História, como não?

Depois Cerro Corá, a guerra finda!
Nosso altivo pendão desagravado!
– “Que belo exame!” – “E que matéria linda!”
– “Parabéns, parabéns... Está aprovado”.

E ao retornar pra junto aos meus, contente,
Presa dos olhos de convivas tantos,
Dei de encontro a sorrir na minha frente,
Com o velho amigo “Seu” João Félix dos Santos:

“Gostei de ouvir! Há de você dar panos
Pras mangas logo... Isso nem tem "tarveis"!
O que para os outros exigiu cinco anos,
Você, brincando, em dez minutos fez”.

Veio a juventude e Osmar teve de bater asas – foi estudar em Curitiba e lá se formou professor de Português e de História da Civilização. Em seguida, em busca de trabalho e (parece-me) de aventura, mudou-se para Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
As histórias desse novo tempo pretendo contar em crônicas futuras, que passo a ficar devendo aos meus caros leitores.

Washington Luiz Bastos Conceição

Notas:
1) A referência a João Caetano talvez seja mesmo ao ator e encenador famoso.
2) Pesquisei, mas não descobri a quem meu pai se referia quando mencionou “São Lacerda”.

9 comentários:

  1. Adorei... me fez voltar nos tempos...

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    1. Cara Suely: É sempre com grande satisfação que recebo seus comentários. Que bom que você gostou!

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  2. Muito bom! Aguardando a continuação...

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    1. Caro Edison Junior: Mais uma vez, agradeço sua atenção e seu estímulo.

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  3. Washington. Gostei dos versos do tio, como gostei de vê-lo falar dos pais. Lembro dele com carinho, de seu vasto conhecimento que sempre me impressionava muito. Espero a continuação. Abraços.

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    1. Isa:
      Concluí, pelo estilo, que o comentário abaixo é seu, embora pudesse ser de um de nossos primos.
      Obrigado pela atenção.
      É possível que, quando Osmar chegar a Ponta Grossa, eu precise de alguma ajuda sua.
      Um grande abraço.
      Washington

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  4. Do Luiz Cezar: Deliciosas reminiscências essas do seu último escrito. É sempre bom quando você invoca a carismática figura do tio Osmar. Gostei muito do pouco que você registrou sobre os primórdios da vida da dele, como estudante e depois professor vocacionado, como ele sempre se revelou. As poesias me comoveram e provocaram doce agitação naquela área mais sensível do nosso íntimo, em que deixamos guardadas as primeiras impressões e emoções vividas no despertar da juventude. Que poesias adoráveis! Desde cedo tio Osmar dominava a língua a forma e a técnica literária, que usava com maestria e, ao mesmo tempo, simplicidade no transmitir os sentimentos.
    Feliz você, que da vida do pai conseguiu preservar esses registros preciosos.

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    1. Caro Cezar: É um desafio, para mim, escrever as histórias de meu pai, as quais eu gostaria que tivessem sido escritas por ele próprio. Nesta crônica, pude me valer de seus versos. Foi uma experiência muito agradável. Obrigado pela sua atenção e palavras generosas.

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  5. Do amigo Ybarra, sobre a dúvida de quem seria "São Lacerda" (Nota 2):
    Seria por acaso o Mauricio Lacerda, polemista mais forte que o filho Carlos?
    Minha resposta:
    Ybarra: Calculo que essa história de meu pai ocorreu entre 1912 e 1915.
    Pesquisei na internet e achei na Wikipédia:
    "Maurício Paiva de Lacerda (Vassouras, 1 de junho de 1888 — Rio de Janeiro, 23 de novembro de 1959) foi um político, tribuno e escritor brasileiro. Era filho do deputado federal, ex-ministro da Viação e Obras Públicas e ministro do STF Sebastião de Lacerda. Deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro eleito para as legislaturas de 1912, 1915 e 1918.
    Prefeito de Vassouras de 1915 a 1920, e de 1932 a 1935.[2]
    Foi pai do jornalista político, jornalista e escritor Carlos Lacerda."
    Portanto, é bem provável que sua fama tenha chegado à Castro daqueles dias.
    Obrigado, valeu!

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