quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Republicano

Acompanhar o terrível noticiário político destes dias está me fazendo mal à saúde, literalmente. O velho organismo está muito menos resistente e tenho de recorrer à força da mente para não sucumbir.
O que, em parte, me consola é meu pai não estar mais aqui para receber o impacto das caóticas notícias nossas de cada dia. Ele já se foi faz tempo, morreu aos 79 e em abril último teria completado 116 anos.
Osmar Bastos Conceição, como já contei em crônica anterior, graduou-se, primeiro, professor de Português e História da Civilização, no Paraná; mais tarde, já pai de família, formou-se bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, na famosa faculdade do Largo de São Francisco. Nesta, foi contemporâneo de futuras celebridades, como, por exemplo, Ulysses Guimarães e Jânio Quadros. Deste, foi colega de turma.
Era republicano convicto, desde os tempos da chamada República Velha, assim denominada pelos políticos que vieram depois dela. Esta é injustiçada por grande parte dos historiadores, que dão ênfase à aliança de Minas e São Paulo, os quais nem sempre estiveram de acordo ou controlaram sozinhos a política na República; e fazem referência às oligarquias mineira e paulista sem mencionar a oligarquia gaúcha. Desta última, fazia parte Getúlio Vargas que, tendo sido derrotado nas eleições, tomou o poder chefiando o golpe militar de 1930 que depôs o Presidente Washington Luiz, em final de mandato.
Getúlio ficou no poder por 15 anos, em regime ditatorial.
Osmar abominava aquela pesada ditadura fascista e repudiava o populismo demagógico implantado por Getúlio.
Imagine, então, cara leitora ou prezado leitor, como estaria ele se sentindo nestes dias!
Procurei imaginar qual seria sua reação e me veio à lembrança a seguinte passagem:

Nos idos de 1945, o Brasil voltava ao regime democrático. Getúlio, ainda no poder, marcou, em fevereiro, eleições para 2 de dezembro, mas dava sinais de que queria permanecer no governo. Com os candidatos à presidência já em campanha, surgiu um movimento a favor de mantê-lo no cargo: o queremismo. Em São Paulo (e provavelmente pelo Brasil todo) cartazes com a frase “Nós queremos Getúlio” foram colados em muros e tapumes de construções. Àqueles que ansiavam pela volta do País à democracia esse movimento causou profunda indignação.
Nossa família morava em Heliópolis, então um pequeno e pacato bairro afastado do centro da cidade. Tínhamos de ir com frequência ao centro, onde estavam localizados os escritórios das principais empresas, repartições públicas, as grandes lojas, os bancos. Contas de luz e água, por exemplo, tinham de ser pagas na “cidade”. Escolas ficavam no centro ou em suas proximidades. Mesmo quando o destino era outro bairro, tinha-se de ir ao centro porque era de lá que partiam os bondes e ônibus para os bairros.

Estudante, 13 anos de idade, eu também costumava ir ao centro. Tomava o bonde Fábrica no Sacomã e viajava até a Praça João Mendes, passando pelos bairros do Ipiranga, Cambuci e Liberdade. Dali, rumava habitualmente para a Praça da Sé, no topo da qual, fazia muitos anos, estava em construção a portentosa Catedral gótica da cidade. Um dia, ao fazer esse trajeto, observei que os tapumes da construção, muito convidativos para a colagem de cartazes, receberam, às centenas, pequenos cartazes de uns 25 por 35 centímetros, simples, letras pretas em fundo branco, com a frase “Nós queremos Getúlio”. Contudo, o projeto gráfico foi infeliz e deixou um espaço em branco ao lado de “Nós”. Mais ou menos assim:


Ah! Foi “mamão com açúcar” para aqueles que se indignaram com o movimento; eles aproveitaram o espaço para qualificar os queremistas, “enriquecendo” a frase. Parei para ler o que escreveram em cada cartaz, no espaço oferecido (a lápis e a tinta, não existiam ainda os “pincéis atômicos”). Se havia palavrões não me lembro, mas a qualificação não era nada elogiosa, algo como “os burros”, “os bandidos”, “os sem-vergonhas”, alterando a frase para, por exemplo, “Nós, os imbecis, queremos Getúlio”. De repente, me detive em um dos cartazes em que fora acrescentado “os cachorros”. Naquele tempo, embora o cachorro já fosse considerado o melhor amigo do homem, chamar uma pessoa de cachorro equivalia a chamá-la de canalha. Mas o que me chamou a atenção nele foi a letra – inconfundível – de meu pai. A catedral estava no trajeto dele para o trabalho e ele não perdeu a oportunidade de registrar sua repulsa ao movimento.
Osmar não era mal humorado, mas tinha uma atitude discreta, séria. Difícil imaginá-lo, de terno e gravata, rabiscando cartazes na rua. Porém, os políticos, especialmente Getúlio, mexiam, realmente, com o homem.

Anos mais tarde, em 1954, ele acompanhou todo o desenrolar da crise (o “mar de lama”) do governo de Getúlio, então presidente em regime democrático. Osmar sobreviveu.

Quanto a mim, agora, contando com a força inercial do País e com aqueles que possam ter influência na sua recuperação, resta esperar por dias melhores.

Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

1) Jurema, minha filha, sugeriu que eu ilustrasse a crônica com uma foto de algo manuscrito pelo meu pai. Para tanto, apresento abaixo foto de sua dedicatória para mim em seu livro de poesias e, também, da capa deste. Os prezados leitores, certamente, vão concordar com minha afirmação de que a letra dele era, para mim, inconfundível.



2) Minha afirmação acima sobre a ênfase dada por grande parte dos historiadores à aliança de Minas e São Paulo se baseou no texto abaixo de Cláudia M. R. Viscardi, doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no capítulo “Nova ordem, velhos pactos” do livro “História do Brasil para Ocupados”, organizado por Luciano Figueiredo.

“Ao contrário do que se diz, São Paulo e Minas não estiveram sempre de acordo nem controlaram sozinhos a política na Primeira República. Análises recentes das sucessões presidenciais na Primeira República (1889-1930) mostram que a famosa aliança entre Minas Gerais e São Paulo, chamada de política do “café com leite”, não controlou de forma exclusiva o regime republicano. Havia outros quatro estados, pelo menos, com acentuada importância no cenário político: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Os seis, para garantirem sua hegemonia, possuíam uma forte economia e (ou) uma elite política compacta e bem representada no Parlamento. E, juntos ou separados, participaram ativamente de todas as sucessões presidenciais ocorridas no período. Além desses estados, havia dois coadjuvantes respeitáveis: o Exército e o Executivo.”

Um comentário:

  1. Nem eu estou aguentando mais as notícias e até já deixei de assistir aos noticiários... mas elas chegam até mim de qualquer jeito (rsss...). Pelo menos vamos tentar lavar essa roupa suja até o final e torçer para renascermos das cinzas como as fênix.

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