sábado, 17 de junho de 2017

Equívoco

Na sua origem, os esportes se constituem em divertimento dos praticantes, que passam a competir. Na evolução das competições, os participantes se organizam, profissionalizam-se e os esportes se tornam espetáculos e negócios de entretenimento. Com a transmissão de jogos pela televisão, jogos do mundo inteiro, esses negócios se agigantaram movimentando grandes somas de dinheiro.
O caro leitor ou prezado leitora que me brinda com sua atenção há algum tempo, já terá percebido que vou falar de futebol. Desta vez, entretanto, não vou contar que fui varzeano em São Paulo desde os treze anos e peladeiro veterano até os cinquenta, nem comentar meu comportamento como torcedor da Seleção Brasileira e do Corinthians, nem criticar a atuação dos locutores de televisão na transmissão dos jogos.
Nesta crônica, vou comentar uma decisão da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) sobre a classificação dos clubes que competem no campeonato brasileiro de futebol, o “Brasileirão”. Mais especificamente, sobre o primeiro critério de desempate no caso de dois ou mais clubes alcançarem a mesma pontuação. É algo que me incomoda há, pelo menos, três temporadas.
Tratando-se de campeonato (e não de uma copa, nem torneio), no qual, ao longo da temporada, os times jogam duas vezes contra cada um dos outros participantes, o critério de classificação é a quantidade de pontos obtidos no final da competição. Em alguns casos, dois ou mais clubes podem alcançar a mesma pontuação, de forma que há a necessidade de estabelecer critérios de desempate sucessivos até que, permanecendo a igualdade, recorre-se ao sorteio. Na maior parte dos casos o primeiro critério já estabelece o desempate.
Por que me incomoda – e acho que devia incomodar os dirigentes dos clubes também, além dos torcedores – o primeiro critério estabelecido pela CBF? Porque ele pode determinar qual se classifica para competir pela Taça Libertadores ou pela Copa Sul Americana de Clubes ou, ainda, qual deles cai para a segunda divisão (a temida queda para a série B). As três situações têm significado muito importante para as finanças e o prestígio dos clubes.

Sou do tempo em que, nos campeonatos de futebol, no mundo todo, aos times, em cada jogo, a vitória rendia dois pontos, o empate um ponto e a derrota zero. Ou seja, uma vitória valia dois empates. Acontece que era comum clubes jogarem pelo empate, mantendo-se na defensiva (a Seleção Suíça, por exemplo, era célebre por seu chamado “ferrolho”), o que prejudicava o espetáculo. Para estimular a busca da vitória pelos contendores, a FIFA (Federação Internacional de Futebol) decidiu, já faz tempo, creditar três pontos pela vitória, mantendo um ponto para o empate e zero para a derrota. Ou seja, uma vitória passou a valer três empates, estimulando, assim, os clubes a tentarem ganhar o jogo. Quanto aos critérios de desempate no caso de duas ou mais equipes conseguirem o mesmo número de pontos, são adotados principalmente, como primeiro critério, o saldo de gols (gols marcados menos gols sofridos). Como alternativa, utilizada, por exemplo, na Liga dos Campeões da Europa na fase de grupos, o primeiro critério é o resultado do confronto direto entre os clubes empatados em pontos.
Entrei nas minúcias acima para mostrar que já há, internacionalmente, critérios estabelecidos para desempate que estão funcionando bem nas competições por pontos.
Contudo, a CBF resolveu inovar e estabeleceu, como primeiro critério de desempate para dois clubes com a mesma pontuação, a quantidade de vitórias, esquecendo que os três pontos por vitória já premiaram, na contagem, o esforço do vencedor.
Esse critério, que vem vigorando há algumas temporadas, parece-me injusto porque na igualdade de pontos (com o mesmo número de jogos), o clube que consegue uma vitória a mais sofre duas derrotas a mais; para duas vitórias a mais são quatro derrotas a mais e assim por diante. Desta forma, o clube que perdeu mais é premiado – e na proporção de duas derrotas a mais para cada vitória a mais.
Para esclarecer, um exemplo: em 2016, a Ponte Preta e o Grêmio fizeram o mesmo número de pontos (53). Os pontos da Ponte foram obtidos com 15 vitórias e 8 empates (15X3+8X1=53) e os do Grêmio com 14 vitórias e 11 empates (14X3+11X1=53). Como ambos jogaram 38 partidas, a Ponte sofreu 38-(15+8)=15 derrotas e o Grêmio 38-(14+11)=13. A Ponte foi classificada em oitavo e o Grêmio em nono lugar.

Quando, no campeonato de 2014, o Corinthians Paulista perdeu para o Internacional o terceiro lugar por causa da aplicação desse critério, o clube de Porto Alegre entrou diretamente na fase de grupos da Libertadores e o primeiro teve de disputar previamente, com o Once Caldas da Colômbia, a qualificação para a competição propriamente dita; em duas partidas, no regime de “mata-mata”. Ou seja, levou vantagem o Internacional, que sofreu quatro derrotas a mais e teve menor saldo de gols.
Os números foram:

Classifi-cação
Clube
Pon-tos
Jo-gos
Vitó-rias
Empa-tes
Derro-tas
Saldo de Gols
3o.
Interna-cional
69
38
21
6
11
12
4o.
Corinthians
69
38
19
12
7
18

Quando fiz essa constatação, enviei um e-mail a um jornalista esportivo, então muito conceituado, pedindo que ele analisasse o assunto e, se concordasse comigo, pusesse o assunto em discussão para sensibilizar a CBF e conseguir a alteração do critério. Não recebi resposta, nem ao menos a acusação do recebimento do e-mail, e resolvi não insistir.
Contudo, um dia destes, decidi comentar o assunto com amigos e eles, talvez por delicadeza, me deram atenção; ficaram intrigados, e reconheceram que um critério equivocado, injusto, pode ser prejudicial financeiramente ao clube que teve melhor desempenho. A reação deles me animou a publicar esta crônica.

Fazer mudanças é necessário, sempre com o objetivo de conseguir melhorar algo – um produto, um processo empresarial, uma forma de prestar serviços – o que quer que seja. Mas simplesmente mudar para se mostrar diferente, único, não é evoluir; deve haver uma avaliação preliminar, seja observando experiência alheia, seja por ensaios ou testes cuidadosos, antes de implantar alterações.
Além disso, nos casos em que mudanças não dão certo, ou seja, mostram-se prejudiciais na prática, os responsáveis devem voltar atrás e projetar outras formas de aperfeiçoamento.
No caso exposto, tenho esperança de que alguma pessoa influente convença a CBF a corrigir o equívoco. Quem sabe, essa pessoa será um dos meus caros leitores?

Washington Luiz Bastos Conceição



3 comentários:

  1. Washington, esse assunto e outros tantos, como juízes de futebol, estão tornando a vida do torcedor um inferno..e o pior, esse inferno tem nome - CBF. Nunca vi tanta decisão errada e corrupção envolvendo os campeonatos... uma tristeza...

    ResponderExcluir
  2. Excelente exposicão do problema de critério de desempate no Brasileirão. Espero que a CBF reveja o critério.

    ResponderExcluir