segunda-feira, 29 de maio de 2017

Maninho vai a São Paulo

Cara leitora ou prezado leitor:
Nesta fase caótica da vida brasileira, o noticiário sobre os acontecimentos no País, na televisão e nos jornais, tornou-se excepcionalmente intenso e terrivelmente chocante. Contra minha vontade e de uma forma irracional, afetou-me demais, a ponto de não me animar a escrever minhas modestas crônicas para os amigos. Parece-me que, frente às notícias e artigos dos comentaristas nos jornais, elas se tornam inoportunas, fora do contexto.
Entretanto, buscando assunto para me comunicar com meus atenciosos leitores, procurei imaginar o que estaria comentando nestes tempos o mestre João Ubaldo, de tão saudosa memória, e reli suas crônicas do período 2015-2016 reunidas no livro “A Gente se Acostuma a Tudo”.
Estava me preparando para comentar algumas delas, que me pareceram muito atuais, quando sobreveio a devastadora revelação de diálogos do atual presidente da República com um dos maiores empresários do País (dono da “maior processadora de carne do planeta”, como dizem os jornalistas), diálogos esses gravados pelo empresário para serem acrescentados às provas de sua delação premiada junto à Procuradoria Geral da República. Tsunami e hecatombe foram expressões largamente utilizadas pelos jornalistas que, trabalhando como loucos, estão excitadíssimos, vibrando com o noticiário espantoso que se renova diariamente.
Esperançoso que estava com o programa de reformas deste governo para a recuperação das finanças públicas do País, perdi meu requebrado e continuei no estupor que me impede de escrever uma simples crônica desde o início do mês passado.

Todavia, lembrando-me de que recorro a filmes, especialmente aqueles de puro entretenimento, para me aliviar da carga das más notícias, fiz uma analogia e pensei que seria interessante, para meus leitores se distraírem um pouco, transcrever no blog um dos causos que conto em meu primeiro livro, o “Histórias do Terceiro Tempo”.
Segue, então, a história:

“Maninho vai a São Paulo
Nos idos de 1941, minha família morava na Rua Oscar Freire, quase esquina de Teodoro Sampaio, no bairro de Cerqueira César, em São Paulo. Eu tinha nove anos.
A família de Tia Annette (irmã de meu pai) e Tio Joãozinho morava em Ponta Grossa. O segundo filho, o Maninho, ou melhor, Sebastião Garcia de Lima, tinha uns dezoito ou dezenove anos; tinha interrompido os estudos e jogava futebol. Como fiquei sabendo depois, tinha começado a jogar no Operário de Ponta Grossa e depois se transferiu para o Atlético Paranaense em Curitiba. Meus tios ficaram preocupados, pois ele já tinha prestado o serviço militar e precisava trabalhar.
Meu pai conseguiu um emprego para ele em São Paulo, através de um amigo, na Companhia Mecânica Importadora.
Combinado tudo por carta – telefone era coisa rara e telegrama era para comunicações urgentes, notícias de morte ou de doença grave – foi marcada a viagem dele, de trem. A confirmação da data foi feita por telegrama.
Na data e hora marcada, meu pai foi esperar o Maninho na Estação da Sorocabana, que ele (meu pai) conhecia muito bem. Conhecia também o sobrinho, claro. Esperou até a saída do último passageiro, perguntou ao pessoal da estação se havia algum recado para ele, foi ao ponto dos carros de aluguel e aos pontos de ônibus e de bonde. Nada de Maninho.
Preocupado, voltou para casa para ver se o sobrinho tinha ido sozinho para casa. Não tinha. Concluiu que o Maninho tinha perdido o trem e avisou minha tia que ele não tinha chegado.
Contudo, de Ponta Grossa confirmaram que ele tinha embarcado. Mas então, ele não tinha o endereço? Perdeu? Estava errado?
Meu pai fez o roteiro das delegacias de polícia e hospitais, bateu-se por uns dois dias – e nada de Maninho!
Amigos, São Paulo não era a megalópole que é agora, mas a cidade grande era difícil para qualquer pessoa de fora, especialmente um rapaz de 19 anos. Vocês podem imaginar o nervosismo de meus pais e dos pais dele lá no Paraná?
Meu pai não era religioso, não praticava religião, mas tinha uma devoção por Santo Antonio. Ele frequentava muito o centro de São Paulo – naquele tempo, Praça da Sé, Rua Direita, São Bento, Praça do Patriarca. Nesta, ficava a igreja de Santo Antônio. Com o insucesso de sua busca, ele foi lá rezar e pedir ajuda ao Santo. Pediu muito.
Ao sair da Igreja, encontrou o Maninho sentado em um dos bancos da praça.
Não fiquei sabendo direito qual tinha sido a dificuldade dele com o endereço, apenas soube que, ao não encontrar meu pai na estação, resolveu se hospedar em um hotel próximo. Maninho, embora jovem, não era bobo. Suponho (agora é pura especulação e não tenho mais com quem conferir) que ele, tendo esquecido ou perdido nosso endereço, pensou em enviar um telegrama para Ponta Grossa, mas deu um tempo, foi ao centro achando que lá encontraria meu pai – e encontrou!
De qualquer forma, continuo creditando o “salvamento” a Santo Antônio.

Após o susto, Maninho foi tratar da vida, começou a trabalhar e se hospedou conosco. No ano seguinte, o Brasil acabou entrando na guerra, a Segunda Guerra Mundial, que estava se desenrolando na Europa desde 1939. Maninho foi convocado pelo Exército, e foi para Curitiba.

O Brasil criou a FEB, Força Expedicionária Brasileira, convocando militares da reserva para combater junto com os de carreira. Os soldados eram organizados em escalões, que iam sendo preparados e enviados sucessivamente para a campanha da Itália, cumprindo um programa acertado com o Exército Americano, responsável por aquela campanha.
A cada envio de escalão, a torcida das famílias era para que seus rapazes fossem deixados para depois. Era uma emoção! Em casa não era diferente, estávamos todos torcendo para o Maninho ir ficando em Curitiba. E ele foi ficando. Porém, depois que o quinto escalão partiu, parecia que, finalmente, ele tinha de seguir no sexto. O quinto escalão da FEB foi o último e o Maninho não foi para a Itália. Deu baixa no Exército como sargento e voltou a São Paulo."

Washington Luiz Bastos Conceição