sábado, 4 de fevereiro de 2017

Uma Antologia Especial

Era comum, no meu tempo de estudante secundário, tomarmos conhecimento de escritores e de suas obras mediante a leitura de antologias, que eram seleções de textos de autores importantes de nossa literatura. Era – e continua sendo – uma boa ideia, utilizada já há algum tempo em publicações como, por exemplo, “Obras Primas do Conto Universal” e, mais recentemente, “As Cem Melhores Crônicas Brasileiras”. Esta, uma publicação da Editora Objetiva, de 2007, com organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos, contém crônicas de 1850 aos anos 2000, organizadas por períodos, dos mais conhecidos e apreciados cronistas brasileiros. De vez em quando volto a ler algumas das crônicas – o livro serve também como referência.
Até agora, estou falando de escritores conceituados, famosos, profissionais.

Quando, no ano passado, a Editora Scortecci, especializada em publicar e imprimir livros em pequena tiragem, anunciou seu projeto de publicar a antologia “Mais do que Palavras”, aberta à participação de escritores em geral (com textos já publicados ou não), fiquei interessado e resolvi fazer a experiência. Decidi participar da antologia com um dos meus três contos que, como ensaio de ficção, foram publicados apenas como um pequeno e-book. Para publicar meu conto, comprei três páginas da antologia, com direito a receber 15 exemplares do livro.
A antologia foi publicada em dezembro de 2016, reunindo 74 autores em 228 páginas de texto.
Recebi meus exemplares. Abri a caixa com grande curiosidade e retirei um exemplar. Primeiro, examinei as capas; a seguir, folheei rapidamente o livro para observar sua composição gráfica. Nada espetacular, mas um trabalho discretamente bem feito. A seguir, fui ao Sumário e constatei que ele foi organizado em ordem alfabética de autor. Como não havia nenhum Wilson, Xisto, Yuri ou Zenon, por exemplo, meu nome encerrava a lista. Nas três últimas páginas, estavam meu resumo biográfico e meu conto, “O Irmão do Vitório”. Ambos impressos corretamente, pois a editora, após receber meu arquivo “Word”, fez a composição gráfica e me enviou para verificá-la. Funcionou.
Voltei ao sumário e percorri os nomes dos autores. Não achei conhecidos, com uma única exceção, e me surpreendi com alguns pseudônimos, um deles de mau gosto. Como esperava, observei que a presença feminina era muito forte. Folheei o livro e li algumas crônicas e poesias que não me agradaram.
Portanto, minha primeira impressão não foi boa, perguntei-me se tinha valido a pena participar da antologia. Era dezembro, vieram as festas.

Voltei à antologia só em janeiro, para examiná-la melhor. Decidi ler os textos e anotar as informações fornecidas no resumo biográfico por meus colegas autores, escritores independentes como eu. Eu queria ter uma ideia das características do grupo. Preparei, para tanto, uma planilha e anotei as informações.
Apurei, assim, que 45% dos autores são mulheres e 55% homens; e que 58% deles se dedicam mais à poesia e 42% à prosa (crônicas, principalmente, e contos).
Esperando uma porcentagem alta de professores, achei 35%, contra 65% das mais variadas profissões (médicos, odontologistas, engenheiros, etc.), dentre os que informaram qual a sua profissão, que foram 84% do total.
Dois outros pontos também me pareceram interessantes pesquisar: a idade dos autores e sua condição de estreantes ou não, duas informações que poucos quiseram informar. Quanto à idade, estabeleci amplas faixas: a dos jovens, até 30 anos; a dos “maduros”, de 31 a 65; e a dos idosos, de 66 em diante. Apurei, por informações diretas ou relacionadas com a idade, 8% de jovens, 26% de maduros e 8% de idosos. Dos demais 58% estimo que a maior parte esteja no grupo intermediário, de modo que a composição aproximada 10%; 80%; 10% me parece razoável. Quanto aos estreantes, aqueles que estavam fazendo sua primeira publicação, identifiquei 11%. Finalmente, constatei que os autores são de todas as regiões do Brasil, com preponderância do estado de São Paulo, seguido de Minas e Rio de Janeiro.

Cara leitora ou prezado leitor, reconheço que a maior parte de minha apuração não resultou em dados precisos. A principal razão é que o formato do resumo biográfico que precede cada texto é totalmente livre, não houve obrigatoriedade no fornecimento de informações, de modo que cada autor registrou o que lhe pareceu importante e suficiente. Vários foram muito lacônicos. Em um caso extremo, o resumo biográfico de um deles foi: “Economista, cronista e poeta”. Contudo, os dados me parecem satisfatórios para o que eu buscava saber dos colegas de antologia.
Quanto aos textos em si (Poesia, Contos e Crônicas) não me arvorei em crítico literário (a idade nos traz modéstia e prudência), mas anotei aqueles que, simplesmente, me agradaram. Superando minha expectativa inicial, foram 40% do total. Dentre estes, houve alguns que achei ótimos, criativos e bem escritos. Reconheço e enfatizo que a pessoa se agradar ou não de um trabalho literário é muito pessoal e tem muito a ver com sua formação e idade.

E por que estou chamando a “Mais do que palavras” uma antologia especial? Porque, diferente das tradicionais, os autores participam comprando as páginas que vão utilizar. São pessoas que desejam publicar seu trabalho, pela primeira vez ou não, e que não obedeceram propriamente a uma seleção. O conteúdo do livro é de responsabilidade dos respectivos autores, que têm o “copyright”.
O papel, muito importante, da Scortecci é fazer de seus negócios um estímulo a escritores independentes de todo o País proporcionando-lhes a oportunidade de publicar seus trabalhos em versão impressa.

Washington Luiz Bastos Conceição


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