sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Marchinhas de carnaval – entrando na onda

Nestas semanas que precederam o carnaval, as marchinhas de carnaval levantaram o assunto polêmico das letras politicamente incorretas de algumas delas. Assunto que, aliás, nos distrai do pesado noticiário dos últimos tempos.
Um bloco de mulheres, no Rio, o “Mulheres Rodadas”, decidiu censurar aquelas marchinhas (“Olha a cabeleira do Zezé!” e “Maria sapatão” são as mais mencionadas). Artur Xexéo, outros colunistas conhecidos e até programas de televisão trataram do assunto.
Essa discussão me fez pensar nas marchinhas que animaram meus carnavais desde minha infância, hoje tão longínqua, analisando suas características.

Vivi, durante grande parte de minha já longa vida, em uma sociedade com hábitos e manifestações hoje considerados politicamente incorretos. De certa forma, o próprio Carnaval era – e ainda é - um tanto incorreto, na medida em que cada indivíduo, ao se expandir na folia, se comporta de maneira diferente da usual. Em um ambiente em que todos estão se divertindo, porém, há uma tolerância mútua. O mesmo talvez se aplique às letras das marchinhas, que são pura gozação, mas podem ofender suas vítimas.
Percorrendo de memória meus tempos de carnaval, observo que, no tempo do rádio e dos discos de “vitrola”, o carnaval era a melhor oportunidade do ano para gravar e vender música nacional. Sambas e marchinhas eram tocados no rádio, nos bailes e nos desfiles de rua, incluindo os corsos (desfiles em automóveis). Adicionalmente, eram lançados filmes com um enredo básico, entremeado de shows carnavalescos que aproveitavam os espetáculos realizados em cassinos. Nestes filmes, protagonizavam os cômicos, como Oscarito e Grande Otelo, os grandes cantores populares e vedetes famosas. Além das marchinhas, eram produzidos sambas, que o leigo aqui ousa descrever como sambas-canção acelerados. Alguns destes, lançados no carnaval, ficaram famosos e são cantados e tocados até hoje fora de temporadas carnavalescas (“É com esse que eu vou”, e “Não me diga adeus” são exemplos).
Nos bailes que frequentei em minha juventude, as bandas alternavam séries de marchinhas e séries de sambas, fazendo os foliões passarem da “pulação” e dos "trenzinhos" para uma dança aos pares, um pouco mais calma e “aproximativa”.

Quanto à análise das marchinhas que estou fazendo agora, cheguei, inevitavelmente, à constatação de que as gravadoras se baseavam no comportamento habitual dos carnavalescos para produzir novas músicas cada ano. Portanto, todo ano eram lançadas novas marchinhas, divulgadas no rádio e depois também na televisão, que acabavam sendo tocadas nos bailes junto àquelas mais conhecidas de carnavais passados. Por essa razão, até hoje se canta “A Jardineira”, “Mamãe eu quero”, “Allah-la-ô” e muitas outras (o mesmo acontecendo com alguns sambas).
Observei que havia um cardápio básico para o assunto das letras que costumavam animar o público: elogio à bebida, crítica social e reclamações, referência às pessoas fantasiadas, gozações e provocações em geral, versões de músicas conhecidas e, ainda, aquelas de referência a filmes.
Exemplos de marchinhas desse cardápio são:
De incentivo aos beberrões: “Você pensa que cachaça é água? ... pode me faltar tudo na vida... só não quero que me falte a danada da cachaça” e “As águas vão rolar ... eu passo a mão no saca-rolhas e bebo até me acabar”.
Aproveitando a oportunidade de reclamar e criticar: “Rio de Janeiro, cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”; “Maria Candelária é alta funcionária... trabalha de fazer dó... começa ao meio-dia... à uma, vai ao dentista; às duas, vai ao café; às três, vai à modista e às quatro assina o ponto e dá no pé; que grande vigarista que ela é!”; e “Você conhece o pedreiro Waldemar?... faz tanta casa e não tem casa pra morar”.
Fazendo referência às fantasias: “Oh tirolesa, oh tirolesa, eu te conheço desde o outro carnaval... sei que tu moras num subúrbio da Central”; “Espanhola, eu quero, quero, quero ver você sambar... joga fora a castanhola que eu lhe dou um pandeiro pra tocar”; “Vem odalisca pro meu harém, vem, vem, vem...”; “Japonesa, japonesa, por favor, não vá daqui, se um dia eu te perder sou capaz de enlouquecer e pratico o hara-kiri”; “Esta noite eu tive um sonho com você, Pierrot, mas chegou o Arlequim e o sonho se acabou”.
Provocando e gozando grupos de pessoas: “Nós, nós os carecas, com as mulheres somos os maiorais...”; “Você já viu um barrigudo dançar?... Quá, quá quá, quá...”; “Tá, tá, tá tá na hora, va, va, vale tudo agora...”; “A mulher do padeiro trabalhava noite e dia...”; “Olhe a cabeleira do Zezé, vai ver que ele é...”; “Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal!...”.
Quanto às versões ou adaptações de músicas conhecidas, bem como de referências a filmes de sucesso, lembro-me de: “Minueto tu és no Municipal, o maior, sem igual...” (do Minueto, de Beethoven); “Faltou-me inspiração eu roubei do Guarani...” (da ópera de Carlos Gomes); “Ai quem me dera Dalila, Dalila se eu fosse Sansão...” (referente ao filme com Victor Mature e Hedy Lamar); “Não existe mulher igual à Gilda...” (referente ao filme com Rita Hayworth e Glenn Ford).
Fora desse cardápio usual estão marchinhas de sucesso inesgotável, como “Aurora (se você fosse sincera...)”, “A Jardineira (por que estás tão triste?...)”; “Mamãe eu quero”; “Chiquita bacana (lá da Martinica)”, “Sassaricando”, “Tristeza”, “Bandeira branca”, ”Máscara Negra”, por exemplo. A cara leitora e o caro leitor se lembrarão de outras – é uma longa lista.

Voltando ao assunto das letras politicamente incorretas – há, provavelmente, várias delas – espero que se mostre uma questão menor, sem influência nos festejos de carnaval.

Contudo, eu não podia finalizar esta crônica sem mencionar a marchinha campeã de todas elas, aquela que se tornou hino e é cantada pelos brasileiros no mundo inteiro, com muita simpatia e entusiasmo; e por todos os cariocas, natos e naturalizados, com fervor e paixão. Como você já deduziu, cara leitora ou prezado leitor, estou falando de “Cidade Maravilhosa!”.

Washington Luiz Bastos Conceição


3 comentários:

  1. E hoje tem sertanejo universitário e pagode dos "mano" e o funk grosseiro...e isto passou a ser o carnaval politicamente correto? Um horror...

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  2. Sem falar dos sambas enredo que tinham letras enormes mas que faziam muito sucesso e até hoje são cantados. Nem esses são feitos mais como antes e nem fazem tanto sucesso...

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  3. Seu texto me lembrou um musical que fez enorme sucesso há alguns anos, Sassaricando, e a que assisti no Teatro João Caetano. A sequência das marchinhas e sambas através de suas letras contava uma parte da História do Brasil. Um pouco com essa ideia de contar historia atraves da musica assisti esta semana a um musical que comemorava os 50 anos dos festivais da Record, onde pontificaram Chico Buarque, Elis Regina, Sergio Ricardo, Tom Jobim e outros.

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