sábado, 15 de outubro de 2016

Vivendo a História

Há alguns anos, ao caminharmos pelo calçadão da praia conversávamos, meu amigo Gentil e eu, sobre vários assuntos. Como não podia deixar de ser, também falávamos sobre política nacional, particularmente sobre a fase turbulenta que já se iniciara. E, por comparações históricas, acabamos comentando a figura de Getúlio Vargas e de sua atuação como governante.
Falei-lhe, então, da posição antigetulista de meu pai, ilustrando com algumas histórias; essa posição passou de pai para filho.

Meu pai, Osmar Bastos Conceição, uma pessoa muito séria e muito equilibrada, detestava Getúlio Vargas. Melhor dizendo, detestava o comportamento político do ditador. Professor e advogado, republicano, admirava os políticos que, antes de Vargas, tinham uma atitude séria, condizente com a importância dos respectivos cargos, e que obedeciam a constituição vigente.
Por essa razão, ele me deu o nome do presidente Washington Luiz. Batizar filhos com o nome do presidente durante seu mandato era comum. Não foi o meu caso, pois nasci dois anos depois de Washington Luiz ter sido deposto por Getúlio. Este, derrotado na eleição que escolheu o sucessor de Washington Luiz, liderou a revolução que derrubou o presidente no final de seu mandato e tomou o poder que, como ditador, manteve por 15 anos.
Durante o período da ditadura Vargas, meu pai evitava discutir o assunto com os filhos, o que agora interpreto como uma precaução para evitar problemas com os meninos e a família, pois estávamos sob um regime ditatorial fascista. Entretanto, por presenciar suas conversas com amigos, conhecia muito bem sua posição firme, sua certeza de que um regime democrático seria melhor para o País.
Claro, ele me influenciou com sua opinião, mas aquilo que me transmitiu, mesmo sem querer, foi reforçado pela vivência que tive da ditadura Vargas. Cresci e fui educado sob aquele regime.

O Gentil me ouvia, mas ponderava que o Getúlio em seu governo introduziu aperfeiçoamentos na legislação trabalhista e promoveu o desenvolvimento industrial do País. Mencionou um livro sobre Vargas que achara muito bom e acabou me presenteando com ele. Como meu amigo me dera uma ideia geral sobre a abordagem do autor e eu estava entretido com outras leituras e meus escritos, demorei em ler o livro, o que fiz recentemente.
Trata-se de “Getúlio Vargas”, de Boris Fausto, da série “Perfis Brasileiros” da Companhia das Letras, publicado em 2006. Apresentado como o traçado do perfil do governante do Brasil que, no período republicano, esteve mais tempo no poder, o livro cobre desde os anos de sua formação até sua morte, passando pelos primeiros anos de governo, pelo Estado Novo, por sua queda como ditador e sua volta como presidente eleito.
Gostei muito do livro, não só porque me pareceu um notável trabalho de fácil leitura, como também por ter o autor mantido uma neutralidade exemplar, extremamente profissional.
Fatos de que eu tinha ideia, por leitura e narrações e, principalmente aqueles que acompanhei desde quando, ainda criança, passei a tomar conhecimento de assuntos sérios, foram surgindo na leitura como recordações muito fortes – lembrei-me de muita coisa daqueles anos vividos. O livro organizou essas recordações, acrescentando análises valiosas as quais não pude ignorar.
Em resumo, trata-se de um ótimo livro sobre um período importante da História do Brasil.

No primeiro capítulo, um parágrafo me impressionou, porque resume com muita propriedade o posicionamento das pessoas em relação a Getúlio:
“Em torno de sua personalidade e de sua ação política, ergueram-se um culto e uma repulsa. O culto foi tecido com a imagem do homem que esteve à frente das transformações econômicas e sociais, como um nacionalista que resistiu aos trustes estrangeiros, como o primeiro estadista que veio em socorro dos “humildes”, implantando no país uma legislação trabalhista. A repulsa batia em teclas pessoais – a frieza, o caráter dissimulado – e em traços negativos do homem público, entre eles o autoritarismo, que atingiu sua forma plena no Estado Novo, e a manipulação assistencialista dos trabalhadores.”
Ao ler este parágrafo, reconheci as razões da repulsa de meu pai, a qual também desenvolvi, especialmente considerando que o autoritarismo acima mencionado se traduziu em uma ditadura para valer, terrível, com censura total da imprensa e prisões e torturas de políticos.
Além de suas várias manobras políticas, incluindo traições bastante conhecidas (das quais foram vítimas os comunistas de Prestes e os integralistas de Plínio Salgado, por exemplo), Getúlio fazia uma propaganda política intensa e obrigatória, mediante seu Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP. Como principal meio de comunicação, utilizava o rádio, pois não havia televisão naquele tempo. Criou a “Hora do Brasil”, de transmissão obrigatória por todas as emissoras de rádio. A Rádio Nacional, estatizada em 1940, dominava a programação musical contratando artistas que acabavam se tornando colaboradores de Getúlio na promoção da imagem do ditador, principalmente como protetor dos trabalhadores (da indústria) e como “Pai dos Pobres”. Introduziu, assim, a prática do populismo, que hoje tem seguidores que excedem seu desempenho. Um exemplo que ilustra o trabalho abrangente da imagem: todas as repartições públicas ostentavam com destaque a foto do presidente (de terno, com a faixa) e todos os estabelecimentos privados eram obrigados a fazer o mesmo – até o sapateiro do bairro, que dependurava a foto na parede onde também exibia avisos como o habitual “Fiado só amanhã”.
Um resultado dessa propaganda toda que influenciou mais de uma geração foi a eleição de Getúlio após o período ditatorial. Nessa ocasião, Francisco Alves, O Rei da Voz, gravou a marcha que dizia “Bota o retrato do velho, outra vez, bota no mesmo lugar...”.
Em acréscimo ao comportamento político do ditador e a toda essa propaganda enganosa, uma forte razão para minha repulsa à figura de Getúlio foi seu programa de lavagem cerebral para as crianças e jovens que, como eu, foram criados e educados no período da ditadura.
Por exemplo, no curso de História do Brasil, a matéria era dada de uma forma detalhada. Aprendíamos bastante sobre o Brasil colônia, nossa independência e o período imperial. Porém, a partir da proclamação da República, o livro se encerrava com uma sucessão de fotografias dos presidentes, quatro por página, tendo como único texto as legendas indicando o nome do presidente e o período de seu governo, em ordem cronológica. No final, uma foto de página inteira de Getúlio Vargas e a data inicial, apenas, de seu período de governo. Lembro-me de minha primeira dúvida: por que o mandato (eu não conhecia a palavra) dos outros era de quatro anos e o do Getúlio já passava dos 10 anos? Não me lembro dos professores tocarem no assunto.
Outro exemplo: foi criada a disciplina de Educação Moral e Cívica, que tratava da educação física e do ensino de ordem moral. Havia aulas específicas e era exigido que as crianças fossem alinhadas no pátio da escola em formação militar antes de entrarem para as aulas. Essa exigência era fielmente atendida em Ponta Grossa, minha cidade, onde estudei por dois semestres. Cantávamos, então, vários hinos, incluindo a Canção do Soldado, o Cisne Branco (a Canção do Marinheiro, de que eu gostava muito), os hinos da Independência, da Bandeira, ao Duque de Caxias e, pasme a cara leitora ou o prezado leitor, o hino ao Estado Novo!
Após a democracia ser restabelecida, em 1945, houve um trabalho intenso nas escolas (eu já estava no ginásio) para explicar aos alunos o que era Constituição, Assembleia Constituinte, Senado, Cãmara dos Deputados, Governador do Estado, Assembleia Legislativa e as regras gerais do regime democrático. Os professores de História foram encarregados da missão.

Por tudo que expus, é impossível, para mim, ter uma posição fria e neutra quanto a Getúlio Vargas.
Essa talvez seja a grande diferença entre quem viveu e sofreu certo período da História e quem escreve sobre o mesmo período, ainda que de forma equilibrada, pesando as realizações, os erros e os defeitos dos governantes.

Em minhas elucubrações, tento prever como os historiadores, no futuro, contarão e avaliarão a história do período difícil que estamos vivendo, hoje, no Brasil. Se eles não tiverem vivido este período, suas narrações e análises serão, muito provavelmente, diferentes daquelas que eu e meus leitores faríamos.


Washington Luiz Bastos Conceição