segunda-feira, 28 de março de 2016

Para variar

Nestes dias difíceis, estamos mesmerizados pelo noticiário político, que está muito acelerado, com surpresas diárias e extremamente preocupantes. E mais, algumas notícias internacionais também têm sido assustadoras. Nossos assuntos domésticos, os da família, os contatos com os amigos e algumas saídas de casa que voltamos a fazer, eu e minha mulher, depois de longa quarentena, servem como distração, embora a crise econômica se mostre em toda parte.
Nosso entretenimento pela televisão, hoje, é assistir a filmes, torneios de tênis e, principalmente no meu caso, a partidas de futebol dos campeonatos europeus. Como complemento, assisto a algumas resenhas esportivas, nas quais aparecem com frequência comentários sobre o futebol como negócio e sua decadência no Brasil.
Pedindo licença aos leitores que não se interessam pelo assunto, é do futebol como negócio e como paixão, que vou tratar nesta crônica, expondo minhas considerações sem a presunção de indicar a solução ideal dos problemas que temos hoje.

Uma das questões mais discutidas é a inviabilidade, como negócio, de quase todos os principais clubes brasileiros de futebol e, como consequência, a crescente exportação de jogadores brasileiros.
Um projeto sério e abrangente deveria ser desenvolvido e realizado em conjunto pelos clubes e as federações, de modo que a receita dos clubes permitisse que eles mantivessem equipes de bons jogadores menos expostos a transferências para o exterior.
Em especial, um assunto meio tabu no Brasil, que é a transmissão por televisão de jogos locais, deve ser analisado, pois estou convencido de que haverá uma equação financeira que permita fazer essa transmissão sem afastar o público dos estádios. Por exemplo, os jogos de “basebol” nos Estados Unidos são transmitidos dessa forma e os estádios recebem um grande público. A receita dos ingressos em nossos estádios poderá ser muito melhorada se houver um sistema de carnês para toda a temporada. E mais, as briguentas torcidas uniformizadas deverão ser substituídas por famílias de sócios torcedores.
Da mesma forma que estão fazendo alguns treinadores brasileiros para se atualizar tecnicamente, deveríamos estudar como se mantêm os clubes em alguns países da Europa (Inglaterra, por exemplo). Assisto com frequência a jogos de lá na televisão (esta transmissão exportada é mais uma receita que os clubes de lá têm) e vejo os estádios lotados. Alguns clubes têm estádios menores, mas não deixam de ter alguns jogadores de renome, até das seleções dos respectivos países. Temos algo a aprender com eles.
Há muito por melhorar, também, na administração dos clubes e das federações, em alguns casos profundamente afetada por embates políticos.

Agora, a paixão nacional: a seleção brasileira de futebol, que tanto preocupa os torcedores nestes dias. A seleção perdeu sua hegemonia sobre rivais que, há alguns anos, eram vencidas com facilidade.
Vejo várias razões para esse fato e tenho algumas sugestões de ações.
Quase todos os nossos jogadores atuam fora do Brasil, viajam, têm pouco tempo para treinar e se entender com os companheiros. Além disso, o esquema tático da seleção é diferente do esquema do clube e a missão do jogador muda. Por outro lado, os adversários evoluíram. Procurar juntar alguns de nossos bons jogadores que jogam ou que jogaram recentemente no mesmo clube e recorrer mais àqueles que se destacam no País poderá dar melhores resultados.  
O futebol mudou. O esporte está mais rápido, mais violento, usam-se os braços impunemente, as entradas são mais fortes e é exigido do jogador que corra o campo todo. Antes, a habilidade dos brasileiros compensava a correria, o que não acontece hoje porque os jogadores das outras seleções também evoluíram “no trato da bola”. O aprimoramento das qualidades técnicas, bem como do estado físico e mental de nossos atletas, deve ser intensificado.
Ao observar o desempenho recente da seleção, parece-me que falta um líder dentro do campo, pois uma vantagem do adversário, mesmo que haja tempo para desfazê-la, desnorteia completamente os jogadores, os quais passam a errar terrivelmente. Os técnicos, que não têm conseguido resolver esse problema, devem identificar, desenvolver e incentivar o líder. Não me esqueço da atitude do Didi (grande craque do meio do campo) quando, na final da Copa de 1958, a Suécia fez um a zero e parecia, mais uma vez, que não conseguiríamos o título, apesar de termos uma ótima equipe: ele apanhou a bola no fundo do gol, colocou-a debaixo do braço e disse para os companheiros algo assim: “Agora, pessoal, vamos acabar com esses gringos”. Como todo brasileiro sabe, o resultado foi cinco a dois para a nossa seleção.

Washington Luiz Bastos Conceição 



terça-feira, 8 de março de 2016

Um dia inesquecível

O velho levantou cedo. Preocupado, não havia dormido direito, pois aquele dia seria muito especial. Sua mulher ia sofrer uma segunda cirurgia no mesmo quadril, uma substituição de prótese - operação dupla, portanto. Seria internada aquela manhã.
O velho tomou banho, barbeou-se, caprichou na aparência para não parecer abatido.
Como de habito, foi à cozinha preparar o café  da manhã. Pôs a água para ferver na chaleira - 500 ml; sobre  o bule, o filtro de papel em seu suporte. Tirou o pequeno pote de café do armário e deitou duas medidas do pó no filtro.
Quando a água entrou em ebulição, derramou-a no filtro. O cheiro  agradável do café ao receber a água se espalhou pela cozinha.
Fazia tudo automaticamente, por força do hábito (desde a cirurgia anterior, mais de dois anos atrás, ele assumira algumas tarefas na casa). Mas seu pensamento, vagando entre lembranças, se fixava no que iriam enfrentar naquele dia.
Deixou o café coando e foi à geladeira apanhar o mamão, a manteiga e o leite; no armário, pegou os talheres e pratos de sobremesa e arrumou a mesa. Só para um; hoje, tomaria o café sozinho, pois sua mulher tinha de se manter em jejum.
A seguir, foi ao quarto acordá-la, estava na hora de ela se levantar e se preparar para sair. Já  estava acordada e disse que estava bem.
O velho voltou à cozinha para terminar o café. Esquentou o leite na xicara usando o forno de micro-ondas e tostou os pães na sanduicheira. Levou tudo à mesa e tomou o café rapidamente, mas não se esqueceu do remédio para controle da pressão.

Durante todo o tempo pensava no que poderia acontecer naquele dia: a cirurgia deveria ser um sucesso, pois sua mulher, embora quase octogenária, era forte e saudável. Pela bateria de exames clínicos que fez para a avaliação do risco cirúrgico, estava bem, suportaria muito bem a  operação. Ela estava, porém, muito preocupada e queria deixar tudo organizado para o caso de vir a morrer. Nos dias que precederam a operação, explicou ao velho como fazia suas tarefas administrativas e financeiras da casa e da família, separou documentos, inclusive a escritura de autorização para sua cremação e fez recomendações diversas.
O velho não achou graça, não era hora de achar graça, mas manteve seu otimismo. Lembrou-se de um comentário de seu pai, feito havia muitos anos. Este lia, todo dia, o jornal todo, até os anúncios fúnebres, mesmo quando a classe dele ainda não estava sendo convocada para o descanso eterno (o Estadão dedicava uma folha inteira aos anúncios). Comentava que os homens, com exceções muito raras, faleciam antes das respectivas esposas, pois os anúncios, quando se referiam ás mulheres, diziam: “viúva do Sr. Fulano de Tal”; e, no caso do falecido ser homem, mencionava: “deixa viúva D. Beltrana”. O velho se lembrou dessa observação de seu pai, o que reforçou sua expectativa de que a operação seria um sucesso.

Ela se levantou, banhou-se, vestiu-se e ficou pronta para sair.
O velho se vestiu, pegou a pasta em que reunira, na véspera, todos os documentos e papéis necessários para a entrada no hospital e fez uma última verificação; pegou, também, a sacola com a roupa e os acessórios de que ela iria precisar no hospital.
Estavam ambos prontos, esperando a filha que iria buscá-los em seu automóvel. Esta chegou na hora combinada (eram seis da manhã) e os esperou embaixo, na garagem do prédio. A esposa, que caminhava com dificuldade, muniu-se da bengala; o casal saiu do apartamento, bateu a porta e tomou o elevador.
Deixar a casa foi um momento marcante para eles.
Chegando ao hospital, um dos recepcionistas foi buscar a paciente no automóvel com uma cadeira de rodas, a filha a ajudou a sair do carro e sentar-se na cadeira; o velho dirigiu-se à recepção do hospital para fazer o “checkin”. Como tudo tinha sido devidamente providenciado, com a necessária antecedência, não houve dificuldade e a paciente foi levada imediatamente para o quarto em que seria preparada para a cirurgia. Essa preparação, feita pelos profissionais de enfermagem, incluiu desde a troca de roupa até a colocação do dispositivo de acesso dos medicamentos líquidos em uma veia da mão. O velho e a filha permaneceram no quarto. A médica, clínica da paciente, que fizera todo o trabalho de avaliação do risco cirúrgico, visitou-a antes de se dirigir à seção de cirurgia, pois ela iria acompanhar todo o trabalho do cirurgião e seus assistentes.
Lá pelas dez horas, a médica anestesista, uma senhora de alto astral, que já havia feito no consultório uma avaliação da paciente e lhe deu as instruções específicas, iniciou o trabalho de preparação da cirurgia: procurando transmitir otimismo, animou a paciente e os acompanhantes, enquanto o sedativo preliminar era aplicado. Às onze, a paciente foi transferida, já sonolenta, da cama para a maca e retirada do quarto rumo à seção de cirurgia. O velho sentiu fortemente aquele momento emocionante de despedida, quando chamamos Deus para nos proteger. E mais, a sensação de vazio e de impotência para ajudar, a não ser rezando fortemente.
O jeito foi se distrair com coisas corriqueiras: tomar um café, depois almoçar, e movimentar-se pelo hospital.
Depois do almoço, o velho subiu para a sala de espera da sessão de cirurgia, um espaço do andar com o balcão e o posto de trabalho da atendente, vários assentos e, como de hábito, a televisão. Já havia algumas pessoas na sala, parentes e amigos de outros pacientes que, como o velho, estavam tentando acompanhar o desenrolar das operações mediante comunicação periódica da atendente com as salas de cirurgia. O velho tirou o seu “tablet” da pasta e mergulhou na leitura de um daqueles livrões, de Ken Follet, “Queda de gigantes”, romance histórico, que certamente iria ajudá-lo na longa espera. Inicialmente, tinha apenas a companhia da filha, mas logo chegaram os outros filhos, as noras e até a cunhada, que veio de São Paulo. Todos procurando animar o velho, mostrando confiança de que sairia tudo bem. Ao longo da tarde, ele interrompia frequentemente a leitura e ia pedir notícias à atendente; esta, habituada com esse tipo de trabalho e demonstrando empatia, transmitia as notícias de cada etapa do procedimento: “a paciente está sendo preparada”, “a paciente foi anestesiada e levada para a sala de cirurgia e está bem”, etc.. Até que, finalmente, o velho recebeu a notícia que demorou um século: a operação fora realizada com sucesso e a paciente estava na fase de recuperação na UTI pós-cirúrgica. E mais, que os médicos, ao encerrar o trabalho, iriam à sala falar conosco. Os parentes comemoraram, emocionados. Em seguida, passaram a planejar como fariam para ver a paciente na UTI, normalmente vedada a visitação.
Demorou um pouco, mas os médicos foram dar a boa nova aos parentes e amigos, da forma mais animadora possível. Apareceram, separadamente; primeiro a anestesista, depois a clínica e o cirurgião, o qual descreveu brevemente o que foi feito, dando ênfase à limpeza da infecção. Informaram também que a paciente permaneceria na UTI até o dia seguinte; depois, seria levada ao quarto.
Passado algum tempo, recorrendo a uma médica amiga, o velho e os filhos, em duplas separadas, conseguiram visitar a paciente, que ainda estava um pouco sedada mas, realmente, estava bem. 
Naquele dia, nada mais havia para o velho fazer no hospital, pois sua esposa estava sob controle; voltaria no dia seguinte, o mais cedo possível. Foi para casa em companhia da cunhada, escalada para cuidar dele.
Chegou em casa, trocou de roupa, pôs-se à vontade e preparou uma generosa dose de uísque com gelo e água mineral com gás. Saboreou-a lentamente.
“Graças a Deus foi tudo bem!” pensou em voz alta. Ele sabia que vinha, a seguir, um tratamento muito pesado para sua esposa, à base de antibióticos fortes, aplicados na veia mediante um cateter. Mas a operação fora um sucesso e ela sobreviveu.
Para o velho, foi um dia inesquecível.

Washington Luiz Bastos Conceição