sábado, 19 de novembro de 2016

Por que escolheram Dylan?

O Prêmio Nobel de Literatura deste ano, outorgado ao Bob Dylan, causou celeuma, foi intensamente comentado nos jornais, revistas e televisão. Vários articulistas se manifestaram, todos mostrando surpresa; alguns concordando com a decisão dos juízes de considerar poesia as letras de música, outros discordando. Mencionaram escritores que, na opinião de cada um, realizaram obras mais meritórias do que a de Dylan e lembraram, para comparação, escritores que, no passado, embora merecedores, não receberam o prêmio.
Um deles imaginou o diálogo dos juízes na reunião em que decidiram sobre a outorga do prêmio, sugerindo que a decisão foi tomada principalmente para chamar a atenção mundial para o prêmio, ou seja, sua motivação principal foi simplesmente o marketing do Nobel. Não concordei com a ideia, pois entendo que o prêmio já tem divulgação e comentários suficientes, em âmbito mundial, e não requer recursos de marketing dessa natureza.
Discordei de outro dos articulistas quando afirmou que a poesia é escrita para se ler só e em silêncio. Para mim, poesia é escrita para ser declamada ou cantada. Na juventude, assisti a algumas apresentações de declamação dos Jograis de São Paulo, um grupo formado por atores de teatro, das quais gostei muito. Em um dos espetáculos, alguns poemas eram letras de músicas; nestes casos, após a declamação pelos Jograis, Inezita Barroso cantava as músicas correspondentes. Uma delas começava assim: “Quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar, viu uma lua no céu, viu outra lua no mar...”. Foi um ótimo show que, se apresentado agora, seria uma demonstração de apoio aos juízes do Nobel.

Concordei, satisfeito, com a ideia da premiação, pois faz tempo que sinto poesia nas letras de música, nos “lyrics” associados à melodia.
Em meu primeiro livro, o “Histórias do Terceiro Tempo”, no capítulo “A Música e Eu”, escrevi sobre os tipos de música que acompanharam minha vida, que apreciei desde a infância e que continuo apreciando. Em particular, comentei as letras de canções nossas, de boleros, tangos, bossa nova – canções românticas, trágicas, brejeiras – e até letras de óperas (publicadas em libretos). Por exemplo, as letras de “João Valentão”, de Caymmi; de boleros, entre cujos autores, o grande destaque foi Agustín Lara, cognominado “O poeta da música” (“Solamente una vez”, de sua autoria, é um dos meus boleros preferidos); letras de tangos, em que destaquei “Yira, Yira”, extremamente trágica e pessimista, e “Tiempos Viejos”, profundamente saudosista. Quanto às óperas, que combinam música e teatro, destaquei no livro a ária “Credo in un Dio crudele”, da “Otelo”, de Verdi. Da bossa nova e de nossas canções mais recentes, as letras, principalmente de Vinicius e Chico Buarque, são inegavelmente poesias muito ricas.

O fato de os juízes do Nobel considerarem que letras de música são poesia – e, portanto, literatura – ao premiarem um autor de canções, parece-me plenamente aceitável.
Contudo, quanto à justiça na escolha do premiado, não tenho condições de concordar ou discordar. Tomei conhecimento de Bob Dylan por ser um artista cujo sucesso é do tempo de meus filhos, que compravam seus discos; eu também escutava, mas com interesse menor. “Blowing in the Wind” e "Mr. Tambourine Man", claro, ficaram na minha memória musical.
Quando pensei em escrever esta crônica, baixei um “song book” (e-book) do Dylan que traz a lista das músicas escritas por ele. Surpreso, contei 488 títulos. Depois, fui à Internet e achei um site que nos convida a ouvir "todas suas 583 músicas". Seja qual for o número correto, a produção de Dylan é muitíssimo respeitável.
Sobre a apreciação da outorga do prêmio, ilustrei-me com os excelentes artigos publicados por Jerônimo Teixeira, Sérgio Martins e Eurípides Alcântara na revista Veja em 19 de outubro último.

Afinal, por que escolheram Dylan? A resposta está no sopro do vento.


Washington Luiz Bastos Conceição


Notas:

1- Sobre o show mencionado, informo abaixo os links para acesso à Internet:

Inezita Barroso
Ismália – áudio (faixa de disco)
Ismália – vídeo de show

Os Jograis de São Paulo – história e áudio

Alphonsus de Guimaraens – Ismália e biografia

2- O e-book mencionado é: "Bob Dylan - The complete A-Z song book - All songs written by Bob Dylan". 

8 comentários:

  1. Pois é Papi, o Bob Dylan é da geração dos seus filhos e já no meu tempo de faculdade nós o classificávamos na categoria de “bard.” Essa é uma palavra de origem galesa, da era medieval em que histórias e estórias eram passadas oralmente, comumente pelos “bards” na forma de poemas e canções. Com tempo, a palavra bard foi usada para denominar as pessoas empregadas pelas famílias nobres para contar estórias, e compor versos e músicas. Então o termo bard ficou associado à pratica de combinar versos e poesia com artes mais populares, como música e teatro. Assim Shakepeare ficou sendo o “Bard of Avon.”
    Bob Dylan foi o bard da geração que viveu o Civil Rights Movement nos EUA e que cresceu tendo que reconciliar o movimento dos anos 60 com as realidades mais pragmáticas que nos defrontam quando ficamos adultos e temos que enfrentar o “real world.” Em 1981, no meu primeiro curso de literatura na faculdade, o meu “final paper” foi exatamente sobre o Bob Dylan, no qual a minha tese era que a poesia do Bob Dylan expressava a confusão e ansiedade vividas por essa geração, e que como todo poeta o Bob Dylan gerava mais emoções e apresentava mais perguntas do que ele providenciava respostas ou soluções.
    A poesia pode ser definida de varias maneiras, mas a minha definição preferida e esta: “Poetry is a literary work in which special intensity is given to the expression of feelings and ideas by the use of distinctive style and rhythm.” Em português: Poesia é uma forma literária em que uma intensidade especial é dada a expressão de sentimentos e ideias pelo uso distinto de estilo e ritmo.
    Então Pai, já se sabe de que lado do argumento eu estou. Sem dúvida o pessoal do Nobel resolveu se aventurar além de uma definição estreita do conceito de literatura, seja para chamar atenção ou (mais provável) para se modernizar. Mas pra mim nunca houve dúvida que o Bob Dylan seja um poeta—de poesia popular que se canta em vez de se ler. Mas cujos versos contem uma intensidade na expressão de sentimentos e ideais que não deixa nada a desejar em comparação aos mestres da poesia:

    1) Mestre de poesia (exemplo):

    Mi paraíso, un campo
    Sin ruiseñor
    Ni liras,
    Con un río discreto
    Y una fuentecilla.
    Sin la espuela del viento
    Sobre la fronda,
    Ni la estrella que quiere
    Ser hoja.

    Una enorme luz
    Que fuera
    Luciérnaga
    De otra,
    En un campo de
    Miradas rotas.

    Un reposo claro
    Y allí nuestros besos,
    Lunares sonoros
    Del eco,
    Se abrirían muy lejos.

    Y tu corazón caliente,
    Nada más.

    2) Bob Dylan

    If today was not a crooked highway,
    If tonight was not a crooked trail,
    If tomorrow wasn't such a long time,
    Then lonesome would mean nothing to ye at all.

    I can't see my reflection in the water,
    I can't speak the sounds to show no pain,
    I can't hear the echo of my footsteps,
    Or remember the sounds of my own name.

    There's beauty in that silver, singin' river,
    There's beauty in that rainbow in the sky,
    But none of these and nothin' else can touch the beauty
    That I remember in my true love's eyes.

    Yes, 'n' only if my own true love was waitin',
    If I could only hear her heart a-softly poundin',
    Yes, 'n' only if she was lyin' by me,
    Then I'd lie in my bed once again.

    3) Bob Dylan: e o verso clássico da musica Mr. Tamborine Man sobre a necessidade que todos sentimos de vez em quando de deixar de lado as pressões da vida cotidiana, de nos embriagar na beleza natural do mundo (mar, praia, céu estrelado...), no movimento livre do nosso corpo dentro desse mundo maravilhoso que nos rodeia...

    Then take me disappearing through the smoke rings of my mind
    Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves
    The haunted, frightened trees, out to the windy beach
    Far from the twisted reach of crazy sorrow.
    Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free
    Silhouetted by the sea, circled by the circus sands
    With all memory and fate driven deep beneath the waves
    Let me forget about today until tomorrow.


    E o Vinicius de Morais nao era poeta?

    Cassio

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    1. Cássio, meu filho:
      Fazia mais de um mês que eu pensava em escrever esta crônica e só consegui publicá-la ontem. Tinha dúvida sobre o interesse que poderia despertar nos leitores considerando os acontecimentos graves que estamos enfrentando nestes dias no País. Decidi publicá-la ontem e sinto que, somente pelo seu comentário (que, aliás, é uma crônica muito rica), valeu a pena. Espero que nossos leitores o apreciem como eu. Muito obrigado.
      Em tempo: esclarecendo para os leitores, o "mestre de poesia", do exemplo que você deu, é Federico Garcia Lorca e o poema é "Deseo".

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  2. Obrigado Washington e Cássio!
    O pessoal do Nobel agora seguramente estao de olho no trabalho de Chico Buarque. Quem melhor nos contou do mundo complexo que existe nas emoções entre pessoas? Aqui, por exemplo, na conclusão de "Quem Te Viu, Quem Te Vê":

    "Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
    Quero que você assista na mais fina companhia
    Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
    Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista

    Hoje o samba saiu procurando você
    Quem te viu, quem te vê
    Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
    Quem jamais a esquece não pode reconhecer"

    Abraços,
    Bill

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    1. Bill: Obrigado pela visita e pelo comentário; e parabéns por estar escrevendo em Português depois de tantos anos fora do Brasil.

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  3. Da Isa:
    Washington. Uma das razões de eu estar atrasada nos meus comentários sobre sua crônica foi que estive em Ponta-Grossa e, como você sabe, sou das antiguinhas: não carrego comigo a possibilidade de comunicação pela internet. Meu "computer" fica comportadinho à espera de minha volta. Como sempre, sua crônica me agradou. O assunto é bem atual, foi comentado e discutido, mas você soube dar sua opinião com toda a propriedade. Concordo com você e Cássio de que Dylan é um bardo inspirado e que há letras que são pura literatura e merecem respeito. Gostei do prêmio, uma renovação nos critérios dos julgadores. Só que depois as atitudes do premiado me desiludiram: me passaram uma impressão de arrogância, de menosprezo por uma instituição que lhe conferiu uma luxuosa homenagem, primeiro, ignorando o assunto e depois se recusando a comparecer à entrega. Aí me pareceu que haveria alguém mais merecedor: poderia ser outro cantador, outro letrista, que há aos montes,por aí e mesmo por aqui... Vou tentar acessar o espetáculo dos jograis, coisa que adoraria ter assistido. Tenho um livrinho precioso, finamente ilustrado, com a poesia Ismália de Alphonsus de Guimarães.Ilustração de Odilon Moraes.
    Isa

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    1. Isa:
      Muito obrigado, mais uma vez, pela visita, que muito me honra, e pelo comentário.

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  4. Tio, parabéns, adorei o texto e os comentários do Cássio.
    depois se tiver um tempo escute e observe a letra de jokerman. Poesia pura. Abs Ass baxote

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  5. Marcos:
    Vou procurar o Jokeman. Muito obrigado pela atenção.

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