terça-feira, 17 de maio de 2016

O Caso da Ciclovia

A imagem das violentas ondas fustigando a costa granítica da Avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro, e arremessando para o alto um tramo da estrutura da ciclovia recém-construída, permanecerá indelével em minha memória. Morreram duas pessoas, uma delas um amigo de amigos de meus filhos.
O noticiário da televisão foi impressionante: mostrou as ações de salvamento dos bombeiros que resgataram de helicóptero os dois corpos do mar revolto naquele dia de muito mau tempo; e acompanhou a busca de mais vítimas, que prosseguiu por alguns dias, pois havia a informação de que pelo menos mais três pessoas estavam naquele trecho da ciclovia no momento do desastre. Ninguém mais foi encontrado e não houve comunicação de desaparecidos.
O acontecimento será sempre lembrado com grande tristeza.

De imediato, a mídia passou a apresentar as discussões sobre as possíveis causas do acidente, ou seja, as falhas de projeto e de construção da estrutura.
Essas discussões e a exibição repetida do acidente me fizeram lembrar os tempos de estudante de engenharia, especialmente das aulas e projetos das cadeiras que tratavam de estabilidade das construções e de pontes e grandes estruturas. Como minhas atividades de engenharia tomaram outra direção, não me atrevi a enviar qualquer comentário para a seção de leitores de jornais; limitei-me a conversar com Leilah, minha esposa, que é arquiteta.
Quando os jornalistas estranharam que a viga do tabuleiro no trecho afetado estava simplesmente apoiada (e não ancorada) pensei nas várias pontes que usam essa solução – de estrutura isostática. E me lembrei de que, se a viga for presa aos pilares, formando um pórtico, a estrutura passa a ser hiperestática e fica sujeita a esforços decorrentes de recalque das colunas (quando o terreno cede à carga total da estrutura). Em resumo: o que aprendi foi que a estrutura isostática deve ser usada especialmente quando há probabilidade de ocorrer recalque nas fundações dos pilares.
Quando estava neste ponto de minhas elucubrações, resolvi recorrer à internet para pesquisar o assunto e verificar se em grandes pontes, pelo mundo afora, usaram vigas apoiadas.
Pude constatar que, entre outras soluções, foram muito utilizadas as chamadas vigas Gerber (vigas que se apoiam em outras vigas) e que houve um caso de alarme na ponte Rio-Niterói quando foi fotografada uma “rachadura” em uma das vigas da ponte (a “rachadura” é, na realidade, um dente de apoio de uma viga sobre a outra). Mais ainda, assisti a três pequenas aulas para universitários, ainda pela internet, sobre as características básicas das estruturas hipostáticas, isostáticas e hiperestáticas. Estranhei (talvez por falta de lembrança) a forma de tratar o assunto, mas me pareceu que tive a confirmação de meu conhecimento. Também encontrei na internet (youtube) vários vídeos sobre o acidente.
O que parece claro é que a carga do impacto das ondas foi subestimada ou simplesmente não foi prevista. Supondo que as fundações dos pilares estejam sobre rocha, o que estranho é adotarem estrutura isostática em um caso em que, aparentemente, a estrutura poderia ser hiperestática e a viga estaria presa aos pilares. De qualquer forma, o efeito das ondas teria de ser dimensionado adequadamente – e o velho amigo do engenheiro, o coeficiente de segurança, deveria ser de bom tamanho.

As perícias terão de esclarecer por que a estrutura não resistiu ao impacto das ondas. Vamos esperar pelo resultado.

Washington Luiz Bastos Conceição

Nota:
Dentre os vídeos acima mencionados, selecionei dois, cujos links indico abaixo:
Primeira notícia no RJ-TV:
Entrevista com engenheiros na TV:







5 comentários:

  1. Boa escrita meu amigo. Também tive as mesmas impressões no dia do acidente e cheguei a comentar com a Mônica minha esposa. Também fiz engenharia e também não a utilizei como "ela" merecia. rssss. Cai na área de TI e nela estou até hoje. Parabéns por mais um post lúcido e muito bem colocado. abraços.

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  2. Washington, eu acredito que o engenheiro estimou, orçou e a Prefeitura achou caro e mandou refazer com algo mais "palatável"...agora pagam o engenheiro porque aceitou e a população que não sabia de nada...

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  3. Washington,
    muito boa a sua analise. Embora formado em Engenharia de Estruturas, faz tanto tempo que minha opinião pode não ser muito válida. Mas. acho que em princípio não haveria necessidade de toda a estrutura ser hiperestática, visto que apoiada em rocha e a carga prevista seria minima. pedestres e bicicletas. Mas aquele trecho que caiu, em particular, estava sujeito a impactos verticais debaixo para cima e acho que esse fato não foi levado em consideração no cálculo. Aquele trecho deveria sim ser ancorado, hiperestático. Não toda a estrutura mas apenas aquele vão e os dois adjacentes. Não acredito que a falha tenha sido por causas financeiras. Na minha opinião os engenheiros calculistas receberam um projeto digamos, arquitetônico, a ser construído em solo firme e sem menção alguma à possibilidade de ondas atingirem a estrutura em algum ponto. Buscar o responsável pela falta dessa informação, ou culpar os calculistas por não terem ido ao local vai ser a discussão daqui para a frente.

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  4. Da amiga Miranda, arquiteta:
    Querido amigo, parte das "explicações" já saiu: o edital de licitação não previu as ondas . Acredite, foi divulgado na imprensa!
    Imagino que Leilah - arquiteta - mesmo não sendo especializada em estruturas, percebeu logo (foi o meu caso) QUE AQUELA PASSARELA FOI FEITA COMO SE ESTIVESSE SIMPLESMENTE ATRAVESSANDO UMA VIA QUALQUER!
    Agora, pergunto eu, independente do absurdo técnico inimaginável, se não seria o caso de se perguntar se naquele impressionantemente lindo costão rochoso seria o caso de enfiar aqueles ridículos pilaretes e ... tudo o mais. Qual a estrutura capaz de não estragar aquela especial paisagem esculpida com que a natureza - ou o bom Deus - privilegiou o Rio de Janeiro?

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  5. Da Isa:
    Claro que não posso opinar, primo, num assunto eminentemente técnico como o desta crônica. O que me impressionou, e por isso lhe dou os parabéns, foi que, apesar de sua carreira ter tomado um rumo diferente há tanto tempo, suas lembranças das lições da sala de aula estejam aí, fresquinhas, resguardadas do esquecimento que o tempo traz. Cabeça privilegiada, com certeza. Mesmo numa pessoa leiga causa espanto um erro tão primário, como esse, de não levar em conta a força violenta das ondas. E sobra a tristeza das vidas perdidas, da má imagem do país, pelo mundo afora, dos prejuízos que se acumulam por falta de cuidados. Por isso aprovo o "mantra" escolhido por Meirelles: vamos devagar porque temos pressa. Entendo que o que se faz com toda a atenção devida, não é preciso repensar e refazer.

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