domingo, 10 de janeiro de 2016

William Ouweneel, meu amigo

Em minha crônica “Uma vez por ano”, publicada em dezembro último, comentei minha carta de final de ano e transcrevi algumas das respostas recebidas dos amigos.
Não contei, entretanto, que também escrevo uma versão em Inglês para alguns amigos dos Estados Unidos. Desta vez, atrasei-me e acabei enviando a versão (por e-mail) após o Natal, com os votos de feliz ano novo e com meu “relatório”, o resumo da evolução da família e de nossos principais eventos do ano.
Um dos destinatários foi meu amigo de longa data, da minha faixa etária, o Bill Ouweneel. Meu e-mail para ele não “passou”; recebi aquela mensagem: “Delivery to the following recipient failed permanently:”. Como, em correspondência anterior, ele me disse que não estava bem, fiquei seriamente preocupado. Tentei então ter alguma informação do meu amigo. Primeiro, simplesmente, pesquisei no Google “William Ouweneel” e a resposta foi uma série de informações sobre “Willen Ouweneel”, biólogo, filósofo e teólogo holandês, provavelmente um parente do Bill, pois seu pai era também holandês. Depois, tentei Bellingham, Wa (estado de Washington), sua cidade. Pesquisei no site da principal universidade de lá, onde ele prestou serviços voluntários, e não encontrei seu nome. Suspendi a busca e fui dormir com a dúvida. Era 1º. de janeiro.
Na manhã do dia seguinte, resolvi juntar “Bellingham Wa” e “Ouweneel” na pesquisa e encontrei, de estalo: “William M. Ouweneel Obituary”, uma publicação no site do “The Bellingham Herald”. Ele falecera em junho de 2015.
A triste notícia só não foi mais chocante porque eu estava preparado para ela.


Já escrevi sobre minha amizade com Bill em meu primeiro livro, o “Histórias do Terceiro Tempo”, quando contei a história “Os Três Caballeros”, a qual, mais tarde, também publiquei em meu blog.
Faço um resumo agora do que conto nessa história sobre meu amigo.
Conheci o Bill quando fiz minha primeira viagem de trabalho a Nova York, em 1967. Naquela ocasião, passei antes pelo México para um programa de duas semanas. Antes de seguir viagem, ao me despedir do Jorge Martinez, colega da IBM do México que também se tornou meu amigo, disse a este que estava indo para Nova York. Ele resolveu, então, ligar para um grande amigo seu da IBM de lá e sugeriu que nos encontrássemos. Fez o telefonema e ficou acertado que eu ligaria para o seu amigo quando chegasse. Deu-me o número do telefone do Bill Ouweneel e insistiu para que eu o chamasse, pois, disse, ele era ótima pessoa.
Cheguei a Nova York num fim de semana. Na segunda à noite, liguei para o Ouweneel. Esperava um atendimento cordial, talvez a marcação de um encontro na hora do almoço, pois a informação que eu tinha era de que os americanos não eram de “fazer sala” para colegas de fora. Em geral, moravam no subúrbio e tinham de tomar o trem para casa às seis da tarde. Mas o Bill me surpreendeu – me convidou para jantar no dia seguinte, no apartamento dele. Casado com Joan, sem filhos, era dos poucos que moravam em Manhattan. Descendente de holandeses, branquíssimo, com um rosto jovem e uma calva precoce, rapava a cabeça à maneira do Yul Brinner.
Depois, no sábado, quando eu iria voltar ao Brasil, o casal me levou ao Museu de Arte Moderna – o MoMA – para apreciarmos, principalmente, Guernica e obras de escultura de Picasso.
A partir de então mantive contato com o Bill pelo correio interno IBM e por cartões de Natal. No início de 1968, designado para um trabalho em Chicago, num projeto especial da IBM, mudei-me para aquela cidade em maio de 1968, com a família. Comuniquei a mudança ao amigo. Lá, usávamos o telefone e tínhamos a expectativa de reencontrar-nos. Bill e Joan foram nos visitar nos feriados de Thanksgiving, em novembro de 1968, após visitarem os pais dele em Indiana. Foi muito simpática e agradável a visita deles; nessa ocasião, a Leilah os conheceu e a amizade se estendeu e se consolidou.
Depois da visita e antes de nossa volta ao Brasil, Bill me surpreendeu com a notícia de que tinha sido convidado para trabalhar na IBM do Brasil, no Rio de Janeiro, em designação temporária – e tinha aceitado.
Antes de se mudar, fez um curso de imersão de Português e chegou ao Brasil falando muito bem nosso idioma; fluentemente, com pouco sotaque.
Quando voltei ao Brasil, transferido para a matriz da IBM no Rio, mudei-me com a família. Os Ouweneel já estavam instalados num bom apartamento em Copacabana. Aproveitaram o Rio e conheceram várias regiões do País fazendo turismo interno. Tivemos ótima convivência com eles, até sua volta para os Estados Unidos, em 1971.
Nos anos seguintes, estive com o Bill algumas vezes em Nova York, uma vez no Rio, durante viagens a trabalho, minhas e dele. Saímos da IBM aproximadamente na mesma época. Ao se aposentarem, ele e Catherine, sua esposa (ele e Joan haviam se divorciado fazia tempo), após uma seleção cuidadosa, decidiram se mudar para Bellingham, uma cidade muito simpática no estado de Washington, perto de Seattle e de Vancouver (Canadá).
Em 1994, visitamos o casal. Sua casa, muito confortável, fica de frente para o mar, numa encosta tomada por um bosque. Fazia um pouco de frio, o que a tornava muito aconchegante. O macarrão delicioso que Catharine preparou, acompanhado de um ótimo vinho, foi um almoço inesquecível. Ela, professora, resolveu, ao se aposentar, dedicar-se à alta cozinha, de tal forma que passara a treinar “chefs”. Presenteou a Leilah com sua receita de macarrão com salmão que passamos a usar no Brasil, com total aprovação dos amigos.
Em 2002, ao planejar a viagem para visitar meu filho Cássio e família na Califórnia, entrei em contato com o Bill e comentei que ele, Jorge Martínez e eu nunca tínhamos estado juntos, os três, ao mesmo tempo. E eu os conhecia havia trinta e cinco anos! Então, fiz uma brincadeira no e-mail lembrando um filme de Disney, do tempo da segunda guerra mundial, em que um americano, um brasileiro e um mexicano se encontraram e ficaram amigos – o Pato Donald, o Zé Carioca e o Panchito (Pancho Pistolas, segundo o Jorge). Ele conhecia o filme “Los Tres Caballeros” e, com esse nome, nasceu nosso projeto: marcamos encontro em Seattle, num fim de semana de maio. Leilah e eu voamos da Califórnia; Jorge, da Cidade do México; o Bill  preparou o programa, reservou o hotel, marcou os jantares e, dirigindo de Bellingham, nos esperou em Seattle.
Hospedados em um bom hotel no centro da cidade, que oferecia degustação diária de vinho e um bom restaurante, aproveitamos muito bem o fim de semana. Nossos programas se concentraram no centro da cidade, incluindo a tradicional visita ao mercado de peixe e a visita ao Benaroya Hall, sala de concertos da Orquestra Sinfônica de Seattle. O jantar de despedida foi no hotel “Four Seasons”, o preferido do Jorge. Jantar de alto nível que fechou o programa de forma brilhante.
O Jorge faleceu no ano seguinte. Emocionado, o Bill me mandou um e-mail agradecendo a ideia do programa. “Los Tres Caballeros” foi um evento inesquecível.


O que não está na história dos "tres caballeros" é que o Bill voltou ao Brasil em 1972 e trabalhou durante três anos em Brasília para o governo dos Estados Unidos, emprestado pela IBM.
Também não comentei que ele gostou muito do Brasil, se adaptou ao nosso tipo de vida, fez amizade com os colegas e demonstrou muito profissionalismo em seu trabalho.
Quanto à sua vida de aposentado em Bellingham, parece-me que Bill a aproveitou bem. Notável foi que ele deixou crescer uma grande barba branca de Papai Noel, contrastante com sua calva.
Lendo seu obituário, fiquei sabendo de algumas de suas atividades que ele não comentou comigo.
Uma delas foi que, após deixar a IBM, Bill foi presidente de uma firma de consultoria educacional (sua especialização na IBM) em Princeton, Nova Jersey.
Outra, que fez também carreira como “wine educator” depois de obter o diploma de “Cellar Master” na “International Wine Academy” em Napa, Califórnia. Mais um amigo que acrescento à minha lista de entendedores de vinho.
O obituário também me deu uma ideia melhor de seu trabalho voluntário em Bellingham, que incluiu dirigir o Grupo de Apoio à Neuropatia Periférica (doença que o atingiu) e outros projetos de serviço público.

Depois do encontro em Seattle, não estive mais com o Bill. Mantivemos uma correspondência rarefeita que acabou se resumindo na carta de final de ano.


Junto ao obituário, o site do “The Bellingham Herald” oferece ao leitor a oportunidade de registrar uma mensagem no “Guest Book”. Registrei a minha, apresentando-me como amigo e comentando que eu era o “caballero” remanescente.

Washington Luiz Bastos Conceição 



4 comentários:

  1. Sinto muito pela sua perda... mas lembrar os momentos dos encontros, das alegrias, sempre ajuda e é exatamente assim que todos os que nos deixam deveriam ser lembrados...

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  2. De Isa Siefert:
    Que história linda, Washington. Daquelas amizades que desconhecem distância, tempo, diferenças de cultura e idioma e constroem um alicerce confiável, durável por toda uma vida. Pena que não foi possível usufruírem do convívio mais frequente, do direito pleno de aproveitar essa afinidade. Parabéns ao "caballero" remanescente.

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