segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Wilson Tiellet, colega, vizinho, amigo.


Quarenta anos atrás, na manhã do dia 11 de julho de 1993, eu estava trabalhando normalmente no escritório da matriz da IBM, no Rio, quando, agitados, colegas passaram a ouvir pelo rádio o noticiário de um acidente com um avião da Varig no aeroporto de Orly, em Paris. Uma vez confirmada a notícia do acidente, me perguntaram se aquele era o voo que um colega nosso ia fazer para uma viagem de férias para a Europa. Congelei, pois eu sabia de detalhes da viagem e era quase certo que ele estava naquele avião. Depois de algum tempo de ansiedade, a triste confirmação: nosso colega Wilson Tiellet, sua esposa e os dois filhos,  menores ainda, estavam entre os 123 mortos do desastre. A consternação das pessoas que os conheciam foi enorme, tanto na IBM, onde o amigo Tiellet era meu colega, quanto no nosso edifício, onde éramos vizinhos.






Conheci o Tiellet logo que entrei na IBM, em 1959. Eu estava em treinamento de marketing e suporte técnico para clientes de computadores eletrônicos, cuja comercialização a Empresa estava iniciando no Brasil. Simpático, um pouco mais velho do que eu, sotaque indicando que era do sul, ele trabalhava no Rio, na Matriz. Era o gerente responsável no País pela divisão de relógios – os “time systems” – e fez, para o nosso grupo de “trainees”, uma palestra sobre os produtos e serviços de sua divisão. Para ele, era importante que os futuros representantes da IBM junto aos clientes de computadores conhecessem os produtos de sua divisão. O “time system” era um conjunto de relógios interconectados, inclusive relógios de ponto, distribuídos por todas as instalações do cliente. O controle era feito pelo relógio mestre, que fazia o sincronismo do conjunto. O sistema todo era elétrico.
Na ocasião, fiquei sabendo que ele tinha sido um ótimo vendedor, sendo folclórica a história de uma venda que fez de relógios de ponto para dentistas em Curitiba.

Passei a ter mais contato com o Tiellet em 1970, quando, ao ser transferido para a  Matriz da IBM no Brasil, me mudei para o Rio. Ele era, então, responsável pela divisão de suprimentos para computadores eletrônicos. Seus produtos principais eram o cartão IBM e as fitas magnéticas. Não tínhamos muitos assuntos comuns de trabalho, mas nos aproximamos porque me tornei seu vizinho ao me mudar para o edifício do Leblon onde moro até hoje, o CPVA (Condomínio Parque Visconde de Albuquerque), apelidado “Meia Lua”.

Desde aquele ano, víamo-nos com frequência no prédio, na IBM e no transporte para o escritório. Ficamos amigos.


Os escritórios da IBM no Rio estavam distribuídos em alguns edifícios no centro da cidade, na região da confluência das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco. Não trabalhávamos no mesmo edifício, mas usávamos os mesmos ônibus, fretados, de uma organização chamada “Plano da Melhor Condução”. Eram ônibus confortáveis, semelhantes aos “frescões” de hoje. Pagávamos uma mensalidade por sua utilização em itinerário e horário predeterminados e o serviço era devidamente controlado. Naquele tempo, não era comum um casal ter mais de um automóvel, de modo que, se a esposa precisasse do veículo para levar crianças à escola, para compras e outras atividades domésticas, os maridos iam ao centro de condução, sem se preocupar com estacionamento e aproveitando o tempo para conversar ou ler no ônibus. Era o meu caso, do Tiellet e de vários outros colegas, que acabaram justificando economicamente o “Plano da Melhor Condução”.
De manhã, às sete e meia, Tiellet e eu tomávamos juntos o ônibus na esquina da Timóteo da Costa, nossa rua, com a Avenida Visconde de Albuquerque e íamos conversando sobre vários assuntos, tanto de trabalho como de atividades do edifício. Foi assim que acompanhei alguns de seus projetos na IBM e, por outro lado, que tomei conhecimento do trabalho que ele e alguns vizinhos tiveram para a conclusão da construção do nosso prédio.


A gerência de suprimentos da IBM no País requeria muita atenção, pois, evidentemente, os clientes de sistemas de processamento de dados daquele tempo não podiam prescindir dos principais meios de entrada de dados nos computadores, os cartões e as fitas magnéticas. A cartolina dos cartões, com características especiais de pureza para evitar contatos indevidos nas máquinas, era importada em rolos e cortada em medidas rigorosas no Brasil, produzindo os cartões, que eram impressos com os clichês de cada cliente. As fitas magnéticas (em grandes rolos) eram também importadas e, da mesma forma, não podiam faltar. Portanto, além da venda dos produtos, a operação do setor envolvia importação, produção, custos, e controle de estoques, que eram preocupações constantes do Tiellet.

Além das atividades usuais, surgiam necessidades especiais que tinham de ser atendidas. Por exemplo, em uma época em que as leitoras óticas ainda não estavam disponíveis ou eram muito caras, os cartões “mark sensing”, marcados com lápis especiais, serviram para correções de provas escolares de múltipla escolha. Em 1970, um grande projeto da divisão de suprimentos foi a Loteria Esportiva.

Você, caro leitor ou prezada leitora, talvez tenha acompanhado o lançamento e a implantação da loteria esportiva, a “Loteca”, e se lembre de que as apostas eram feitas em cartões, colocados em um estojo de plástico e perfurados mediante um punção.

Num tempo em que já havia a disponibilidade de grandes computadores para processar a imensa quantidade de apostas no País inteiro, a forma de introduzi-las no sistema foi o grande desafio, pois não tínhamos ainda os pequenos terminais especiais, as maquinetas que se conectam hoje aos sistemas para registrar  as apostas da Quina, da Sena e outras.
Cartão Port-a-punch IBM
(Fonte: Site IBM History)
 
 A equipe do projeto planejou o uso de um cartão especial, previamente serrilhado, que a IBM já oferecia para perfuração manual de dados em ambientes fora dos centros de processamento de dados – o cartão “Port-a-punch”.

 
Foi projetado então o cartão da Loteria Esportiva, com apostas em treze jogos, três palpites por jogo. Foi uma febre no Brasil em ano de Copa do Mundo (a do México, em que o Brasil se tornou tricampeão mundial). Após rodadas de teste do funcionamento total do sistema, foi implantada a “Loteca”.
Cartão da Loteca (Fonte Wikipedia)

 
O Tiellet vibrou muito com o sucesso do projeto, que teve repercussão   internacional, e, se bem me lembro, ele foi devidamente premiado pelo excelente resultado do negócio.

 
O projeto da Loteca foi um dos assuntos de nossas viagens de ônibus.

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Bem, o Tiellet colega eu já conhecia. Quem me surpreendeu muito agradavelmente foi o Tiellet vizinho. Surpreendeu porque ele usava toda sua seriedade e competência também na vida particular e no relacionamento com os amigos do prédio. Senti que estes o tratavam com muita consideração e logo fiquei sabendo que, além de seu bom relacionamento com todos, ele tinha tido uma atuação muito destacada na comissão dos condôminos durante a construção do prédio. Neste trabalho, alguns condôminos criaram entre si uma relação de amizade, de forma que, quando cheguei ao edifício, tinham estabelecido uma convivência duradoura, incluindo os familiares.


Eu já morava no edifício quando a quadra de esportes foi concluída. Houve uma festa de inauguração, iniciada com uma cerimônia religiosa na própria quadra. Esta estava toda enfeitada com bandeiras, colocaram-se cadeiras para a audiência e foi montada uma grande mesa, coberta com toalha branca; atrás desta, uma cruz tosca de madeira. Após o ato religioso, conduzida por um sacerdote convidado, falaram o síndico, o Tiellet, e mais um ou dois condôminos convidados. A seguir, houve duas partidas recreativas de futebol de salão, uma das moças e outra dos garotos, que animaram a festa e que literalmente inauguraram a quadra esportiva. O Tiellet foi, certamente, um dos organizadores da festa.

Inaugurada a quadra, formamos um grupo para jogar voleibol – criando o que passou a ser chamado o “vôlei dos coroas”. A escolha da modalidade esportiva, intencionalmente ou não, foi sábia, pois, não havendo contato físico entre adversários, evitou que houvesse conflito entre vizinhos. Em compensação, nem todos tinham experiência naquele esporte. Ao lado de alguns que praticavam ou haviam praticado o vôlei, outros aparentemente nunca tinham jogado; porém, nem por isso, foram rejeitados. Eu, por exemplo, havia jogado um pouco na juventude, no colégio e na ACM (Associação Cristã de Moços), com modesta atuação como levantador, mas havia alguns menos experientes do que eu. O Tiellet não mostrava muita habilidade, mas era muito aplicado. De qualquer forma, os times eram divididos de forma equilibrada, erros eram tolerados e reclamações estavam fora do contexto. Um detalhe importante: algumas esposas, experientes em vôlei de praia, também jogavam e não faziam feio.

O vôlei dos coroas era praticado na noite das quartas feiras e na manhã de sábados e domingos. Eu jogava no fim de semana, mais ou menos das dez horas à uma da tarde. Quando terminava o vôlei, completávamos a atividade esportiva com uma cervejinha no bar do próprio prédio e umas rodadas muito animadas de porrinha. Tudo com muita disciplina para evitar aborrecimento em casa.

Pouco a pouco, os jovens foram aderindo ao nosso vôlei, o que reforçava os times e melhorava o nível das partidas.

Chegamos a organizar torneios, inicialmente com a competição entre os três blocos do edifício (blocos A, B e C). O nosso bloco, meu e do Tiellet, era o Bloco A. No primeiro torneio, quando alguns jogadores praticamente não se conheciam, perdemos. Alguns meses mais tarde, fizemos novo torneio, também entre blocos. Dessa vez, o Tiellet resolveu estabelecer uma estratégia para o time. Lembro-me bem; fizemos, eu e ele, o planejamento no ônibus, a caminho do escritório, na semana que precedeu o torneio. Ele sempre levava no bolso do paletó um maço de cartões IBM, para anotações – o que fazia parte de seu marketing do produto. Ao nos sentarmos no ônibus, ele tirou os cartões e um lápis e passamos a marcar as posições dos jogadores na quadra, rodada a rodada. Nos torneios, os times eram de seis jogadores e a regra era ainda a antiga: para o time fazer um ponto, teria de estar em vantagem, ou seja, teria de ter sacado antes. Quando conseguia a vantagem, a reversão do saque, o time rodava. A contagem ia até 15. Normalmente, os times eram montados com três cortadores e três levantadores. O nosso tinha três bons cortadores e levantadores regulares, que formavam duplas na rede. Os outros blocos tinham elencos equivalentes. Nossa estratégia constituiu em posicionar nossos jogadores, em cada rodada, considerando a cobertura que alguns companheiros necessitavam dos mais hábeis, na rede e no fundo da quadra. Como substituições tinham de ser feitas, pois a ideia era de que todos os inscritos participassem do jogo, planejamos de forma que elas não enfraquecessem o time.
No fim da viagem, o Tiellet tinha no bolso, nos cartões, nosso esquema do jogo, que depois ele mostrou aos companheiros para discussão e sugestões. Bem, seguimos o plano. Não foi fácil, mas vencemos aquele torneio.


Na semana anterior à partida para Paris, Tiellet me chamou, muito animado, para mostrar seu plano de viagem e pedir algumas dicas, pois eu havia viajado de férias à Europa no ano anterior. Foi a última vez que conversamos.




Essas são algumas lembranças que tenho de meu amigo, as quais guardo com muito carinho e quis compartilhar com os leitores deste blog, entre os quais estão colegas da IBM e moradores do Meia Lua.

Após sua morte, como homenagem dos condôminos, modesta porém duradoura, a quadra de esportes ganhou seu nome.


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Washington Luiz Bastos Conceição

sábado, 14 de setembro de 2013

Os Milagres da Televisão


Raul Tabajara, locutor esportivo que militou muitos anos em São Paulo, narrava jogos pela televisão, nas décadas de 1950 e 1960, uma época em que os canais abertos transmitiam jogos locais ao vivo. Seu companheiro habitual era o repórter de campo Sílvio Luiz. A imagem ainda era em branco e preto, os jogos dominicais eram à tarde e os estádios lotavam nos jogos mais importantes. Como não havia, durante o jogo propriamente dito, propaganda nem comentários, o locutor tinha de fazer algumas observações nas pequenas interrupções, como bolas fora e contusões dos jogadores. Nessas observações, Tabajara se repetia, fazendo observações sobre o calor da tarde, por exemplo. Ele costumava se referir, com frequência, ao milagre da televisão, ou seja, à transmissão dos jogos, que proporcionava aos telespectadores de toda a cidade assistirem às partidas confortavelmente instalados na poltrona de casa – ou da casa do vizinho.
Toda vez que penso nos “milagres da televisão”, lembro-me da expressão do Tabajara, pois os “milagres” se multiplicaram com o tempo.


Nestes dias, assisto a programas dos vários canais locais, principalmente noticiário, filmes e transmissões esportivas nacionais e internacionais; estas, habitualmente, de jogos de futebol na Europa e jogos de tênis dos grandes torneios, como o "US Open", por exemplo, realizado em Nova York. Percorro também os canais das emissoras estrangeiras, detendo-me para ouvir um pouco de notícias em Português de Portugal, o idioma falado mais parecido com o nosso, e para, eventualmente, na TV francesa, assistir a um filme francês com legenda. Outro dia, num lance de muita sorte, assistimos a um espetáculo especial de ópera na RAI, a televisão italiana, em comemoração aos duzentos anos de nascimento de Verdi.

Embora eu não tenha o hábito de acompanhar novelas, aprecio a qualidade de nossa dramaturgia de televisão, reconhecida internacionalmente.

Além de toda essa oferta de programas, posso ir e voltar de um canal a outro, aproveitando intervalos na programação, mediante uso dos botões do aparelho de controle remoto.

Estou, portanto, me valendo da extraordinária evolução da televisão num período de cerca de cinquenta anos. Da recepção da emissora local, evoluímos para a de outras cidades, mediante o uso de torres de comunicação. Hoje, temos transmissões via satélite. E mais, com o advento da televisão a cabo, ficou disponível uma grande quantidade e variedade de canais. Mais recentemente, as facilidades de gravação de programas e de aluguel de filmes diretamente da rede ampliaram nosso cardápio para a escolha do entretenimento.

Ivete Sangalo no Rock in Rio 2013,
na minha televisão
Além do aperfeiçoamento dos sistemas de transmissão, os aparelhos receptores passaram a usar tecnologia cada vez mais avançada e nos brindam com imagens excelentes.

Plateia no Rock in Rio 2013

Quanto à apresentação de programas e anúncios, que era feita ao vivo, passamos a usar a gravação em “vídeo tape”. Hoje, é difícil imaginarmos apresentações de novelas ou de comerciais ao vivo, sujeitas a todo tipo de erros e imperfeições.
Nas transmissões de jogos de futebol, em particular, comparo o que a televisão pôde apresentar nas copas do mundo, ao longo dos anos. Durante a de 1958, na Suécia, torcíamos e sofríamos ouvindo a transmissão pelo rádio, cheia de estática das ondas curtas e, somente dois dias depois de cada jogo, podíamos assistir pela televisão ao filme (de celuloide), com imagens muito pobres, em branco e preto. Durante a copa de 1962, realizada no Chile, já pudemos assistir ao "vídeo tape" no dia seguinte, por um grande “esforço de reportagem” das equipes das emissoras, que enviavam as fitas por avião. Nessas duas copas e na de 1966, os torcedores sofreram e vibraram em torno dos aparelhos de rádio.
Na copa do México, em 1970, na qual a seleção brasileira se tornou tricampeã, já pudemos assistir aos jogos ao vivo.
Toda essa evolução tecnológica permite que os programas de nossas emissoras alcancem o país inteiro, nosso imenso Brasil, penetrando cidades de todos os tamanhos e nos mais remotos rincões. Por exemplo, tive a experiência de assistir a um jogo de futebol transmitido por uma das redes, em um aparelho de cristal líquido de um barzinho da zona rural, próximo a Goianá, pequena cidade mineira na região de Juiz de Fora. Foi uma constatação pessoal de que, em todas as regiões do País, as pessoas, por mais modestas que sejam, têm a oportunidade de assistir aos mesmos programas a que assisto em casa, com boa qualidade de imagem e som.

Refletindo sobre esse alcance da transmissão de nossas emissoras, fica fácil entender o grande interesse dos políticos pelo tempo grátis de que os partidos dispõem na propaganda eleitoral, tempo esse que é moeda nos acordos entre eles. Portanto, o papel da televisão ganha, cada vez mais, importância na informação ao público e na formação de opinião. O que nos leva à conclusão de que as emissoras têm agora um enorme desafio, o de manterem sua independência e imparcialidade. Vencer este desafio deverá ser o maior milagre da televisão.

Washington Luiz Bastos Conceição