sábado, 27 de abril de 2013

Zuza


Um livro sobre História Universal que me pareceu muito interessante, leve, até divertido, foi o “História de Roma”, de Indro Montanelli.

Li faz muito tempo e guardo dele a apresentação que o autor fez de seu enfoque: pessoas muito importantes, que influenciaram a história de nossa civilização, eram simplesmente humanas e, como tal, tinham o comportamento de qualquer mortal. Mostrá-los desta forma não é desrespeito, pelo contrário, os enaltece; porque, partindo de condições semelhantes, suas realizações foram de grande importância para a sociedade.
 
Já faz algum tempo que quero escrever sobre um colega do tempo da Universidade, comentando como era ele nessa fase de vida, como interagia com seus pares. Faço-o agora, com prazer e com saudade de nossa juventude.
Zuza, desde o primeiro ano de Engenharia, tornou-se popular. Sua simpatia, seu bom humor, logo chamou nossa atenção. Quando soube que ele era de Santos, confirmou a impressão que eu tinha dos santistas: talvez por influência da praia, eu achava que eles eram uma espécie de cariocas de São Paulo.
Ao entrarmos na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli, era natural que os estudantes oriundos do mesmo colégio formassem, de início, grupos dentro da classe. Gradativamente, entretanto, o relacionamento ia se expandindo, de forma que as “panelinhas” passaram a se restringir aos estudos em grupos. Já comentei, em outra crônica, que eu e o Sérgio Bastos, por exemplo, mantivemos a dupla que havíamos formado no Colégio Presidente Roosevelt e, amigos, continuamos estudando juntos. Entretanto, em várias atividades, tínhamos como terceiro parceiro – e depois amigo – o Sérgio Cataldi, que conhecemos na Poli.
Zuza tinha como parceiro mais frequente o Luiz Sérgio Marcondes Machado. Ambos, como eu, do curso de Engenharia Civil.
De início, os dois chamaram minha atenção no primeiro treino-teste de futebol dos calouros (éramos chamados “bichos”). O técnico do time da Escola queria selecionar os novos colegas para o elenco da Poli (primeiro e o segundo quadro) que disputava as competições multiesportivas entre faculdades,  principalmente a Pauli-Poli (Pauli era a Escola Paulista de Medicina) e a Mac-Poli, (Mac era a Escola de Engenharia Mackenzie), além do campeonato universitário do Estado. O local do treino era o campo da RAE (Repartição de Águas e Esgotos, avó da SABESP, empresa de saneamento do Estado de São Paulo, de hoje), no Bairro da Ponte Grande. Era próximo à Escola, esta instalada em edifícios na Avenida Tiradentes (a Cidade Universitária seria construída muitos anos depois).
Informado sobre o evento, tirei meu material do fundo do armário e fui ao treino. Fora de forma física e técnica, pois o ano anterior tinha sido totalmente dedicado aos estudos (conclusão do Colégio e, concomitantemente, no “cursinho”, preparação para o vestibular), não me dei nada bem, embora depois tenha podido participar dos treinos semanais. Já naquele treino, o Zuza brilhou, mostrou-se um meia armador muito hábil, driblava bem e era preciso nos passes. O Luiz Sérgio, muito rápido, também se destacou, jogando como atacante pela direita e aproveitando bem os lançamentos do Zuza. Os dois viriam a ser titulares do time da Poli durante todo o curso e o Zuza jogou também no time da Seleção Universitária de São Paulo.



Apesar da diferença de desempenho entre mim e Zuza, o futebol nos aproximou e tivemos uma boa convivência como colegas durante todo o curso. Ele não era “filhinho de papai”; se bem me lembro, tinha até de dar aulas particulares para ajudar nas despesas, pois não dava para estudar em São Paulo e morar com a família em Santos. Além disso, desde os primeiros anos, ele participou das atividades do Grêmio Politécnico, o órgão representativo dos alunos da Escola. Esta sua dedicação aos assuntos comuns dos alunos, seu destaque no futebol e sua simpatia tornaram-no conhecido de todos os colegas da Escola.
Particularmente, Zuza teve atuação importante durante uma crise séria entre os alunos e os diretores da Escola, que provocou a interferência destes no Grêmio e, consequentemente, uma greve dos alunos que acabou se estendendo a outras faculdades. Foi uma greve demorada (coisa de pelo menos dois meses) que acabou deslocando o ano letivo, inclusive a realização de provas, e reduzindo nossas férias. Independentemente de a greve ter sido considerada vitoriosa ou não (tenho ideia de que chegamos a um acordo razoável), a interação dos alunos foi importante e com implicações políticas normais na fase democrática que vivíamos naqueles anos (década de 1950). Talvez ele tivesse gosto por política antes desse evento, mas certamente aquelas atividades influenciaram sua escolha de vida anos depois.
Zuza teve um desempenho normal como estudante, seu trabalho no Grêmio não impediu que ele se formasse no tempo esperado (cinco anos). Mesmo quando, diferente de quase todos nós, se casou antes de terminar o curso.


 
Depois de formados, não nos vimos muito.
Recém-formado, fui trabalhar em um projeto de remanejamento do sistema de abastecimento de água de Santos, onde ele morava  e trabalhava como engenheiro da Prefeitura. Fui visitá-lo em sua casa, talvez duas vezes, e batemos bons papos, pondo os assuntos em dia.
No ano seguinte, ele teria uma atuação social importantíssima, ao ser designado para coordenar o atendimento aos moradores dos morros santistas vítimas dos terríveis deslizamentos ocorridos naquele ano. Ele se destacou muito nessa atividade que, a meu ver, foi o início de sua brilhante carreira política.
Foi eleito, ainda jovem, Deputado Federal por São Paulo. Lembro-me muito bem da satisfação que tive em votar nele, de sua votação altamente expressiva e, depois, do destaque que ganhou no exercício dos mandatos por sua aplicação aos trabalhos, especialmente em projetos de interesse público. Entre os mandatos de Deputado, foi Prefeito da cidade de São Paulo. Eleito Senador por São Paulo em 1986, exerceu o mandato de 1987 até 1994, quando se elegeu Governador do Estado de São Paulo. Exerceu o mandato de Governador de 1995 a 2001, ano em que faleceu.



A esta altura, você, cara leitora ou prezado leitor, já percebeu de quem estive falando até agora: do Sr. Mário Covas Jr., um dos mais importantes homens públicos na história recente do País. Pois é, na Escola ele era nosso querido colega Zuza.
 
 
Abaixo, uma foto tomada no dia de sua posse do cargo de Governador. (Fonte: Site do “O Estado de São Paulo”)


 
Não era objetivo desta crônica fazer um resumo biográfico, mas sim comentar características do colega, que não são normalmente mencionadas em biografias, e certamente contribuíram para o sucesso de sua brilhante carreira de homem público. Por exemplo, a realização de trabalho voluntário pela comunidade colegial, a preocupação por justiça no ambiente universitário, o bom relacionamento com as pessoas. Enfim, o termo que me vem à mente para resumir essas características, largamente utilizado para pessoas com qualidades reconhecidas de simpatia e liderança, é carisma.
 

 

 
Ao lado, Mário Covas faz um gesto de Zuza (Fonte: Portal da Fundação Mário Covas).

 
 
 
 



Depois de minhas visitas a ele em Santos, já mencionadas, encontramo-nos poucas vezes, não só por termos tido caminhos diferentes na vida, mas, principalmente, porque eu me mudei para o Rio de Janeiro em 1970 e passei a participar apenas das comemorações da turma nos aniversários de nossa formatura. Estas passaram, de almoços ou jantares anuais, para reuniões maiores a cada cinco anos, com destaque para os vinte, os vinte e cinco, os quarenta e os cinquenta anos.

Mário Covas, habitualmente, comparecia. Eventuais conversas políticas se restringiam àqueles mais interessados e envolvidos com assuntos públicos. Claro, havia colegas de posições opostas às dele, mas a ênfase dos encontros, alguns deles realizados em hotéis fora de São Paulo (Lindóia e Águas de São Pedro, por exemplo), era nos vermos e conferirmos os resultados do avançar da idade em cada um de nós. Lembro-me que, desde o vigésimo aniversário (talvez antes) tínhamos de nos reapresentar, pois os perfis haviam mudado; os rostos mostravam rugas; os cabelos tinham embranquecido e as calvas, aumentado. Não deixava de ser divertido – ríamos de nós mesmos – e tínhamos histórias para contar. Principalmente, recordávamos de nossos feitos notáveis no tempo de estudantes.

 
No começo da década de 1990, provavelmente em 1992, fui a Brasília a trabalho e fiz uma visita ao Mário, em seu gabinete de Senador. Embora apenas uma visita de cortesia, de antigos colegas, pois eu não tinha nenhum assunto específico a tratar com ele, recebeu-me muito bem, sem pressa, para uma conversa de amigos; provavelmente, falamos sobre as respectivas atividades e tomamos um café.

 
Nosso encontro seguinte – e o último – foi na comemoração dos quarenta anos de formados, em 1995. Ele era Governador do Estado e nos deu a honra de participar da festa com os colegas.
 

 
 
Ao lado, a foto, naquela comemoração, que guardo com muito carinho, onde estamos os dois com o colega Nazir Abdo (à esquerda), aquele que projetou nosso quadro de formatura nos idos de 1955. Na ocasião, foi necessário usarmos crachás com os nomes em letras graúdas, para identificação mais fácil dos colegas. Como você pode observar, o Mário teve o cuidado de também usar o seu. Precisava?





Pouco a pouco, ao longo dos anos, perdemos colegas e hoje o elenco está bem reduzido. Zuza nos deixou em 2001.

A capa da revista Veja de 14 de março de 2001 estampa uma fotografia recente de um Mario Covas simpático, pensativo e sorridente, ao lado da chamada “Ética e Política” e destaca: “Porque Covas se tornou um símbolo do que o País quer dos políticos”.

Quanto a mim, sempre que meu domicílio eleitoral permitiu, votei nele – voto de convicção, de confiança total no candidato, voto de esperança no futuro do País. Infelizmente, pude votar assim poucas vezes, pois na maioria das eleições tenho votado com o objetivo de evitar o que  acho a solução pior – e não tenho tido sucesso.

 
Pelo exposto, caro leitor ou prezada leitora, você percebeu que ter sido colega do Zuza é uma honra para mim. Pois é mesmo – e uma honra muito grande.


Washington Luiz Bastos Conceição





 
 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Reverência a Caymmi


No ano que vem vamos comemorar o centenário de Dorival Caymmi, aniversariante de abril. Adiantando-me um pouco às comemorações, decidi, como modesta homenagem, transcrever neste blog parte do capítulo “A Música e Eu” de meu primeiro livro “Histórias do Terceiro Tempo”, onde conto como, ainda menino, interessei-me pela música de Caymmi e tornei-me seu admirador a vida inteira.

Muito se escreveu e se falou sobre ele – e continuam escrevendo e falando – mas reitero aqui minha história de admirador anônimo, um dos muitos que certamente houve, há e haverá em nossa terra.
 


 

Na introdução do capítulo, confesso minha ignorância musical:
 
“A MÚSICA E EU
 
Introdução
 
Nunca estudei música, não tenho bom ouvido e, quando tento cantar, desafino. Enfim, sou um ignorante que, humildemente, gosta de ouvir vários gêneros de música: desde marchinhas de carnaval, sambas, bossa nova, música brasileira em geral, boleros e tangos, até óperas e música clássica. Variado, não é?
Vocês poderão dizer: “Caramba (ou outra interjeição que costumem usar mais), Washington, deve ser tudo o que os seus contemporâneos curtiram ao longo da vida – qual é a novidade?”.
O que venho contar a vocês é como, em que circunstâncias especiais de que me lembro até hoje, adquiri minhas preferências musicais. O que espero é que minhas histórias lhes pareçam pitorescas e acendam as próprias recordações, mesmo que as épocas e os lugares sejam diferentes.”
 


No tópico específico sobre Caymmi, escrevi:
 
“REVERÊNCIA A DORIVAL CAYMMI
 
Nota: Na semana de 12 a 15 de agosto de 2008, eu vinha trabalhando no rascunho deste tópico. No dia 16, sábado, Caymmi faleceu, aos 94 anos. Confesso que fiquei bastante chocado com a coincidência. Foi difícil retomar o trabalho. Triste, tive de mudar o tempo do verbo em várias sentenças.
 
Tenho um CD de músicas do Caymmi, “Caymmi Inédito”, em que artistas contemporâneos – Jorge Amado, Caetano Veloso, Tom Jobim e Carybé - fazem depoimentos sobre ele e sua música. É uma bela homenagem de seus amigos. Declarações semelhantes foram publicadas agora pelo O Globo, na ocasião de sua morte, abordando diversas características do artista e do homem. Dona Canô, mãe de Caetano, sintetizou: “Dorival não foi só um grande artista, isso todo mundo já sabe, ele foi um grande homem”.
O que me perguntei sempre é se Caymmi, famoso, admirado e respeitado no ambiente musical, reunindo grandes plateias em seus shows, teve ideia de que ele é também admirado por anônimos não artistas como eu, que ouviram e apreciaram suas músicas a vida inteira, pelo Brasil afora.
Venho lhes contar como me tornei, ainda garoto, admirador de Caymmi, e como o acompanhei desde então.
 



 
De como fiquei fã do Caymmi
 
Nos idos de 1943 (eu tinha dez anos) passei todo o segundo semestre em Ponta Grossa, Paraná, minha terra, na casa de meus padrinhos, Tio Lascínio e Tia Jósea, esta a irmã mais velha de minha mãe. Eu morava em São Paulo mas fazia uma temporada em Ponta Grossa, como acontecera no ano anterior. A razão era aliviar um pouco a barra de minha mãe, que cuidava dos três filhos numa época difícil – segunda guerra, racionamentos, exercícios de blackout na cidade, dificuldades de toda ordem. Também, como no ano anterior, cursei o segundo semestre na Escola de Aplicação da Escola Normal.
O ambiente lá era diferente, mais tranquilo, mas as atividades eram praticamente as mesmas: estudar, brincar com os amigos, basicamente jogar futebol, na rua e nos campinhos, futebol de mesa (lá era um jogo com tampinhas de garrafa, em vez de botões, como eu jogava em São Paulo), cinema nos finais de semana. Várias tardes por semana saía com meu tio que, embora idoso, fazia um trabalho de vendas pela cidade. Eu caminhava bastante e aprendia muita coisa com ele.
Vocês devem estar pensando: “O que isso tudo tem a ver com música?”.
 
Bem, todas as filhas de minha madrinha, que eram quatro, estudaram piano no Conservatório. Os dois filhos estudaram violino e o mais velho, Clóvis, se tornou músico, violoncelista e chegou a reger a Orquestra Sinfônica da Universidade do Paraná. Uma das minhas primas, a Cita, tentou me ensinar piano, mas não passei dos exercícios de notas duplas – a falta de vocação era total!
Sendo esse o ambiente da casa, que tipo de música se ouvia no rádio? De manhã ainda sintonizavam a emissora local, a Rádio Clube Pontagrossense, para ouvir notícias e música variada, inclusive música brasileira. Eu me lembro, por exemplo, de Orlando Silva cantando “Aos pés da Santa Cruz”. De tarde, essa emissora apresentava, o tempo todo, um programa tipo serviço de alto-falante de parquinhos de diversões (no Rio, mafuás) – o “Gentilezas”. Entre os comerciais, a locutora dizia, por exemplo: “Agora vamos apresentar “Tico-tico no fubá”, que fulano dedica a fulana com votos de feliz aniversário, sicrana dedica a sicrano, etc.”. O programa era um porre, as músicas eram sempre as mais populares, muito repetidas, e a lista de dedicatórias, imensa. Que faziam minhas primas para ouvir programas melhores? Ouviam, em ondas curtas, principalmente, a rádio Incarnación, de Assunção, a Belgrano e a El Mundo, de Buenos Aires, e a El Espectador, de Montevidéu. Eu também ouvia, quando estava em casa; os programas eram melhores e comecei a me familiarizar com o Espanhol, idioma que passei a aprender com muito interesse.
À noite, a rádio Nacional do Rio de Janeiro entrava em ondas curtas, bem melhor do que as emissoras de São Paulo. Contudo, depois do jantar, às nove horas, meu tio colava o ouvido no rádio para ouvir, pela BBC de Londres, o noticiário da guerra (a Segunda Guerra Mundial) em português. Era uma época de muita tensão, pois Hitler ainda estava em vantagem, devastador.
Música brasileira, portanto, fora da época do carnaval, eu ouvia muito pouco.
 
Minha prima Risoleta, filha mais velha de Tia Jósea, casada com Amadeu, morava a sete quadras da casa de minha tia e, com o Edison, seu filho, ainda bebê, passava as tardes na casa da mãe. Quando o marido viajava (ele era dentista e tinha clientes também no norte do Paraná) ela voltava para casa após o jantar; eu a acompanhava e, às vezes, dormia na casa dela. Numa dessas vezes, ela ligou o rádio na Nacional, que estava apresentando um programa que me interessou de pronto, com músicas que eu não conhecia – era o Caymmi, com “Acontece que eu sou baiano”, “Trezentas e sessenta e cinco igrejas”, "Lá vem a baiana", “O mar”, “A jangada voltou só”...
Minha afinidade com sua música e sua interpretação foi instantânea. A partir de então, fiquei fã dele, suas canções e seus sambas me acompanharam a vida inteira, através do rádio e dos discos - comprei, praticamente, todos os discos que ele fez, desde aqueles de 78 RPM até os CDs atuais, passando por uma quantidade respeitável de long-plays. Shows em auditório, ao vivo, assisti a apenas dois, o primeiro quando tinha uns vinte e poucos anos e o segundo quando já tinha entrado nos cinquenta – e ele comemorava seus 70 anos.



 
De como acompanhei Caymmi na minha juventude.
 
Eu sempre gostei de todo tipo de música que Caymmi fez: as canções praieiras, que mostram uma relação muito forte do homem nordestino com o mar, as folclóricas, os sambas brejeiros, urbanos, alegres e maliciosos (para a época), e as canções românticas.
Em suas temporadas no rádio em São Paulo, sempre reapresentava as mais conhecidas, que foram se tornando um repertório considerável, e acrescentava as novidades pouco a pouco – é famosa sua demora em compor, daí sua fama de preguiçoso.
Até meus treze anos, mais ou menos, eu ouvia Caymmi somente pelo rádio. Nessa ocasião, terminada a guerra e melhorando o poder aquisitivo de meu pai, ele comprou uma vitrola (toca-discos). Os discos eram de 78 RPM, mas já se podia empilhá-los, de forma que tocavam em sequência, caindo uns sobre os outros (a queda fazia barulho, mas os discos não quebravam); a agulha se posicionava automaticamente ao iniciar-se cada novo disco. Não era um primor de tecnologia? Eu, que tinha conhecido até vitrola de dar corda, a achava muito boa.
Vitrola em casa, a ordem era economizar na mesada para comprar alguns discos que se juntavam àqueles que ganhava de presente. Assim fui formando minha discoteca “caymmica”: “O mar”, “A jangada voltou só”, “Peguei um Ita no norte”, “É doce morrer no mar”, “A vizinha do lado”, “Trezentas e sessenta e cinco igrejas”, “Dora”... foram as primeiras. Eu me lembro de quando ele lançou “O Vento” e, na outra face do disco, “Festa de Rua”. Nessa ocasião Vovó Balbina, minha avó paterna, estava passando uma temporada em nossa casa. Ela nasceu em Paranaguá, no Paraná, e passou grande parte da infância nas ilhas próximas, morando em aldeias de pescadores. Quando toquei “O Vento”, ela escutava comigo e comentou: “Era assim mesmo, com esse assobio, que os pescadores do Paraná chamavam o vento.” Fiquei feliz com a evocação que a canção do Caymmi lhe trouxe.
Começaram, então, a partir dos meus quatorze anos, as festinhas com os colegas, os amigos, os parentes. Em algumas casas havia, além da vitrola, um piano; alguém levava um violão, e tocava, bem ou mal, música popular. Podiam estar aprendendo, mas não se faziam de rogados – e haja música, com todo o mundo cantando. Nesse ambiente de jovens, solto e descomprometido, eu sacava Caymmi. Mandava ver, abria o peito com a maior cara de pau, pois treinava em casa acompanhando os discos; mas nunca enganei ninguém, sempre disse que não sabia cantar, “apenas imitava o Caymmi”. E o coro ajudava – especialmente com o “Peguei um Ita no norte” e “Marina”. “Dora”, meus amigos, é difícil; com ela eu não me metia.
Quando eu já tinha uns vinte anos, fui com meu pai (grande deferência do velho, que tinha conseguido os ingressos) ao auditório da Rádio Excelsior, na Rua 24 de maio, em São Paulo, para assistir a um programa do Caymmi, que estava lá, em temporada.  Ele e seu violão. O auditório era pequeno, de forma que o ambiente ficava agradável, o público mais perto do artista. Nessa temporada, a novidade para mim foi “João Valentão”, canção da qual gostei muito, imediatamente, pela sua poesia, sua ambientação – um certo clima de “Capitães da Areia”, do Jorge Amado – e seu final. Curti o programa e a nova canção passou a fazer parte do meu repertório, com um papel importante no meu namoro com a Leilah, pois eu cantava “João Valentão” nas festinhas de família e terminava substituindo, no verso final (“porque não há sonho mais lindo do que sua terra não há!”) as palavras “sua terra não há” por “morena Leilah”. Era um sucesso!
O João Valentão era, na verdade o meu oposto, pois nunca fui valentão, nem brigão, nem dormia na praia, nem fazia coisas que até Deus duvida; minha única semelhança com ele é gostar de “quando a morena se encolhe e se chega pro lado querendo agradar”.
Na década de 1950, era publicada a “Realidade”, uma revista com assuntos variados que eu costumava ler de vez em quando. Um belo dia, ela publicou uma reportagem sobre Dorival Caymmi e sua família, com várias fotos. Fiquei conhecendo, além de sua mulher, Stella Maris, a Nana, mocinha, acho que não tinha nem quinze anos, o Dori e o Danilo, estes ainda garotos. Recortei as fotos e colei no primeiro álbum de doze discos de 78 RPM, como ilustração, ampliada depois com as fotos da inauguração da Praça Caymmi em Itapoã e mais algumas de que não me lembro agora. Infelizmente, após conservá-lo por longo tempo, o álbum desapareceu com a reforma de nosso apartamento.
 
No fim da década de 1950 e início de 60, os discos de 78 RPM foram gradativamente substituídos por long-plays. Entre as primeiras gravações de músicas de Caymmi em 33 RPM, de que tenho lembrança, estão um disco do pianista Pierre Kollman, sem vocal, e outro de Caymmi com Ari Barroso, um interpretando o outro.
Depois, as próprias gravadoras se incumbiram de relançar em long-plays as músicas gravadas em 78 RPM, juntando-as às novas. São dessa fase as gravações de shows antológicos como aquele com Vinicius e o Quarteto em Cy, no qual Caymmi apresenta “Das rosas” e “História de Pescadores” (cuja “Canção da Partida” soa como um hino).





De como venho acompanhando Caymmi, de minha maturidade à idade provecta.
Depois de uma temporada a trabalho nos Estados Unidos, voltamos ao Brasil e, no início de 1970, mudamo-nos para o Rio. Os meninos estavam crescidinhos: Luiz, com nove anos, Cássio com sete, Francisco com quatro, mas Jurema era recém-nascida. Os maiores já se interessavam por música e, ao longo da década, passamos todos a ouvir Simonal, Caetano, Roberto Carlos, Chico Buarque, os Beatles (não pretendo me lembrar da ordem) e o ambiente musical em geral incluía bossa nova, tropicália, os festivais, músicas de protesto velado (?) contra a ditadura. Eu, paralelamente, ia aumentando minha coleção de long plays de Caymmi, com regravações das músicas em 78 RPM e os lançamentos, com Caymmi, Gal e Maria Bethânia, principalmente.



Inesquecível o show da Gal cantando Caymmi, maravilhosa a interpretação das duas de “Mãe Menininha”. E a “Modinha de Gabriela”, sucesso na novela? Numa época de musica brasileira tão rica, Caymmi estava lá, ativo e mantendo seu nicho.

Agora, já na fase dos CDs, minha coleção migrou para regravações por laser e para os novos discos em que os filhos de Caymmi tiveram a bela ideia de gravar as músicas do pai. Parece-me que isto aconteceu a partir do show da “Família Caymmi” comemorando os 70 anos dele, ao qual fui assistir (pelas minhas contas, foi em 1984) no auditório então conhecido como Metropolitan, no Rio. Para mim, foi emocionante e inesquecível, tive vontade de subir ao palco e cantar junto, maluquice que talvez viesse a acontecer se não estivéssemos distantes do palco.

Ao longo do tempo, descobri que há uma espécie de fã clube secreto do Caymmi, tão secreto que um membro não sabe do outro. Quando vim morar no Rio em 1970 (ainda não tinha 40 anos) ficamos amigos de primos da Leilah, da nossa geração. Miriam, casada com Zé Luiz, médico, tocava piano (música clássica) e o marido tinha sido “crooner” de um conjunto musical no tempo de estudante. Nos aniversários, ele reunia os amigos, dentre eles alguns músicos, e todos tocavam e cantavam. Chamado a participar, puxei as músicas de Caymmi e foi um sucesso – descobri que esse primo era também, e continua sendo, grande fã do baiano.

De outra feita, em uma reunião de família em Ponta Grossa, no Paraná, o pessoal resolveu tocar e cantar. Não deu outra: um dos participantes, o Fernandão, – bem mais moço do que eu – atacou de Marina, caprichado. Todo mundo acompanhou e ele foi muito aplaudido.

Estive no Paraná em setembro de 2008, para visitar os parentes de lá, amigos muito queridos, na maioria mais moços do que eu. Pois no último dia da visita, fizemos uma reunião com música, cantamos, com um deles no violão, e Caymmi foi o destaque.

É claro que as novas gerações tiveram menos chance de ouvir e de se interessar por Caymmi, mas meus filhos conhecem muito bem suas canções e Francisco, o músico da família, tem seu “songbook”, o qual, aliás, me emprestou para eu tirar algumas dúvidas. Bruno, seu filho, meu neto de 5 anos, gosta de música e já ouviu e gostou de “Maracangalha”, “Roda Pião”, “O que é que a Baiana tem”... Se depender de mim, vai ouvir mais e certamente será outro fã do baiano."
 



Já faz quatro anos que publiquei esse livro.

Desde então, continuo ouvindo Caymmi e assistindo a DVDs de shows em que interpretam músicas de Caymmi.

A comemoração de meus oitenta anos, em setembro, foi animada por um trio formado pelo meu filho Francisco na guitarra, uma amiga no vocal e um amigo no violão. Eles apresentaram números de música brasileira em geral, um pouco de bossa nova e, especialmente para mim, vários de Caymmi. Convidado, voltei a fazer meu antigo papel de imitador do grande baiano. Desta vez, com toda a condescendência que merece um octogenário.

Caymmi continua sempre lembrado com admiração. Espero poder assistir às comemorações de seu centenário.


Washington Luiz Bastos Conceição
 


Complemento

Cara Leitora ou Prezado Leitor:

Para ilustração da crônica, sugiro usar os “links” indicados abaixo, conforme o seu tempo e preferência. Você poderá ouvir algumas das canções mencionadas e assistir a trechos de shows ilustrativos da obra notável de Caymmi.

Dorival Caymmi - Maracangalha (1957) – Áudio – 2min:47seg
http://www.youtube.com/watch?v=cdXrPqLNk_A

Dorival Caymmi - Nem eu (1952) – Áudio – 02:29
http://www.youtube.com/watch?v=ab7V0bQaPho

Dorival Caymmi - Samba da minha terra (1965) – Áudio – 01:50
http://www.youtube.com/watch?v=u2_ZwqgDIvs

Dorival Caymmi - João Valentão – Áudio - 2:58
http://www.youtube.com/watch?v=8ZBqe2sdfq4

Gal Costa e Dorival Caymmi cantam "Só Louco" – Vídeo – 3:04
http://www.youtube.com/watch?v=EaPt8zhC3Jw

Marina - Dorival Caymmi (ao vivo) – Vídeo – 3:51
http://www.youtube.com/watch?v=enUx5DMiFU8

Dorival Caymmi - É Doce Morrer No Mar - Heineken Concerts (1996) – Vídeo – 4:23
http://www.youtube.com/watch?v=yrA4JuN9nhU

Gal Costa & Maria Bethânia - Oração de Mãe Menininha (1985) – Vídeo – 4:32
http://www.youtube.com/watch?v=_x9mNq-eB6w

Gal Costa e Danilo Caymmi - Acontece que eu sou Baiano – Vídeo – 2:03
http://www.youtube.com/watch?v=IlcxsW073g0

Beth Carvalho - Joao Valentão (Dorival Caymmi) – Vídeo – 2:36
http://www.youtube.com/watch?v=WIpJXROjjX8

Maracangalha - Tom Jobim e Dorival Caymmi – Vídeo – 5:00
http://www.youtube.com/watch?v=fr9-2Wjy2RY