sábado, 27 de abril de 2013

Zuza


Um livro sobre História Universal que me pareceu muito interessante, leve, até divertido, foi o “História de Roma”, de Indro Montanelli.

Li faz muito tempo e guardo dele a apresentação que o autor fez de seu enfoque: pessoas muito importantes, que influenciaram a história de nossa civilização, eram simplesmente humanas e, como tal, tinham o comportamento de qualquer mortal. Mostrá-los desta forma não é desrespeito, pelo contrário, os enaltece; porque, partindo de condições semelhantes, suas realizações foram de grande importância para a sociedade.
 
Já faz algum tempo que quero escrever sobre um colega do tempo da Universidade, comentando como era ele nessa fase de vida, como interagia com seus pares. Faço-o agora, com prazer e com saudade de nossa juventude.
Zuza, desde o primeiro ano de Engenharia, tornou-se popular. Sua simpatia, seu bom humor, logo chamou nossa atenção. Quando soube que ele era de Santos, confirmou a impressão que eu tinha dos santistas: talvez por influência da praia, eu achava que eles eram uma espécie de cariocas de São Paulo.
Ao entrarmos na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli, era natural que os estudantes oriundos do mesmo colégio formassem, de início, grupos dentro da classe. Gradativamente, entretanto, o relacionamento ia se expandindo, de forma que as “panelinhas” passaram a se restringir aos estudos em grupos. Já comentei, em outra crônica, que eu e o Sérgio Bastos, por exemplo, mantivemos a dupla que havíamos formado no Colégio Presidente Roosevelt e, amigos, continuamos estudando juntos. Entretanto, em várias atividades, tínhamos como terceiro parceiro – e depois amigo – o Sérgio Cataldi, que conhecemos na Poli.
Zuza tinha como parceiro mais frequente o Luiz Sérgio Marcondes Machado. Ambos, como eu, do curso de Engenharia Civil.
De início, os dois chamaram minha atenção no primeiro treino-teste de futebol dos calouros (éramos chamados “bichos”). O técnico do time da Escola queria selecionar os novos colegas para o elenco da Poli (primeiro e o segundo quadro) que disputava as competições multiesportivas entre faculdades,  principalmente a Pauli-Poli (Pauli era a Escola Paulista de Medicina) e a Mac-Poli, (Mac era a Escola de Engenharia Mackenzie), além do campeonato universitário do Estado. O local do treino era o campo da RAE (Repartição de Águas e Esgotos, avó da SABESP, empresa de saneamento do Estado de São Paulo, de hoje), no Bairro da Ponte Grande. Era próximo à Escola, esta instalada em edifícios na Avenida Tiradentes (a Cidade Universitária seria construída muitos anos depois).
Informado sobre o evento, tirei meu material do fundo do armário e fui ao treino. Fora de forma física e técnica, pois o ano anterior tinha sido totalmente dedicado aos estudos (conclusão do Colégio e, concomitantemente, no “cursinho”, preparação para o vestibular), não me dei nada bem, embora depois tenha podido participar dos treinos semanais. Já naquele treino, o Zuza brilhou, mostrou-se um meia armador muito hábil, driblava bem e era preciso nos passes. O Luiz Sérgio, muito rápido, também se destacou, jogando como atacante pela direita e aproveitando bem os lançamentos do Zuza. Os dois viriam a ser titulares do time da Poli durante todo o curso e o Zuza jogou também no time da Seleção Universitária de São Paulo.



Apesar da diferença de desempenho entre mim e Zuza, o futebol nos aproximou e tivemos uma boa convivência como colegas durante todo o curso. Ele não era “filhinho de papai”; se bem me lembro, tinha até de dar aulas particulares para ajudar nas despesas, pois não dava para estudar em São Paulo e morar com a família em Santos. Além disso, desde os primeiros anos, ele participou das atividades do Grêmio Politécnico, o órgão representativo dos alunos da Escola. Esta sua dedicação aos assuntos comuns dos alunos, seu destaque no futebol e sua simpatia tornaram-no conhecido de todos os colegas da Escola.
Particularmente, Zuza teve atuação importante durante uma crise séria entre os alunos e os diretores da Escola, que provocou a interferência destes no Grêmio e, consequentemente, uma greve dos alunos que acabou se estendendo a outras faculdades. Foi uma greve demorada (coisa de pelo menos dois meses) que acabou deslocando o ano letivo, inclusive a realização de provas, e reduzindo nossas férias. Independentemente de a greve ter sido considerada vitoriosa ou não (tenho ideia de que chegamos a um acordo razoável), a interação dos alunos foi importante e com implicações políticas normais na fase democrática que vivíamos naqueles anos (década de 1950). Talvez ele tivesse gosto por política antes desse evento, mas certamente aquelas atividades influenciaram sua escolha de vida anos depois.
Zuza teve um desempenho normal como estudante, seu trabalho no Grêmio não impediu que ele se formasse no tempo esperado (cinco anos). Mesmo quando, diferente de quase todos nós, se casou antes de terminar o curso.


 
Depois de formados, não nos vimos muito.
Recém-formado, fui trabalhar em um projeto de remanejamento do sistema de abastecimento de água de Santos, onde ele morava  e trabalhava como engenheiro da Prefeitura. Fui visitá-lo em sua casa, talvez duas vezes, e batemos bons papos, pondo os assuntos em dia.
No ano seguinte, ele teria uma atuação social importantíssima, ao ser designado para coordenar o atendimento aos moradores dos morros santistas vítimas dos terríveis deslizamentos ocorridos naquele ano. Ele se destacou muito nessa atividade que, a meu ver, foi o início de sua brilhante carreira política.
Foi eleito, ainda jovem, Deputado Federal por São Paulo. Lembro-me muito bem da satisfação que tive em votar nele, de sua votação altamente expressiva e, depois, do destaque que ganhou no exercício dos mandatos por sua aplicação aos trabalhos, especialmente em projetos de interesse público. Entre os mandatos de Deputado, foi Prefeito da cidade de São Paulo. Eleito Senador por São Paulo em 1986, exerceu o mandato de 1987 até 1994, quando se elegeu Governador do Estado de São Paulo. Exerceu o mandato de Governador de 1995 a 2001, ano em que faleceu.



A esta altura, você, cara leitora ou prezado leitor, já percebeu de quem estive falando até agora: do Sr. Mário Covas Jr., um dos mais importantes homens públicos na história recente do País. Pois é, na Escola ele era nosso querido colega Zuza.
 
 
Abaixo, uma foto tomada no dia de sua posse do cargo de Governador. (Fonte: Site do “O Estado de São Paulo”)


 
Não era objetivo desta crônica fazer um resumo biográfico, mas sim comentar características do colega, que não são normalmente mencionadas em biografias, e certamente contribuíram para o sucesso de sua brilhante carreira de homem público. Por exemplo, a realização de trabalho voluntário pela comunidade colegial, a preocupação por justiça no ambiente universitário, o bom relacionamento com as pessoas. Enfim, o termo que me vem à mente para resumir essas características, largamente utilizado para pessoas com qualidades reconhecidas de simpatia e liderança, é carisma.
 

 

 
Ao lado, Mário Covas faz um gesto de Zuza (Fonte: Portal da Fundação Mário Covas).

 
 
 
 



Depois de minhas visitas a ele em Santos, já mencionadas, encontramo-nos poucas vezes, não só por termos tido caminhos diferentes na vida, mas, principalmente, porque eu me mudei para o Rio de Janeiro em 1970 e passei a participar apenas das comemorações da turma nos aniversários de nossa formatura. Estas passaram, de almoços ou jantares anuais, para reuniões maiores a cada cinco anos, com destaque para os vinte, os vinte e cinco, os quarenta e os cinquenta anos.

Mário Covas, habitualmente, comparecia. Eventuais conversas políticas se restringiam àqueles mais interessados e envolvidos com assuntos públicos. Claro, havia colegas de posições opostas às dele, mas a ênfase dos encontros, alguns deles realizados em hotéis fora de São Paulo (Lindóia e Águas de São Pedro, por exemplo), era nos vermos e conferirmos os resultados do avançar da idade em cada um de nós. Lembro-me que, desde o vigésimo aniversário (talvez antes) tínhamos de nos reapresentar, pois os perfis haviam mudado; os rostos mostravam rugas; os cabelos tinham embranquecido e as calvas, aumentado. Não deixava de ser divertido – ríamos de nós mesmos – e tínhamos histórias para contar. Principalmente, recordávamos de nossos feitos notáveis no tempo de estudantes.

 
No começo da década de 1990, provavelmente em 1992, fui a Brasília a trabalho e fiz uma visita ao Mário, em seu gabinete de Senador. Embora apenas uma visita de cortesia, de antigos colegas, pois eu não tinha nenhum assunto específico a tratar com ele, recebeu-me muito bem, sem pressa, para uma conversa de amigos; provavelmente, falamos sobre as respectivas atividades e tomamos um café.

 
Nosso encontro seguinte – e o último – foi na comemoração dos quarenta anos de formados, em 1995. Ele era Governador do Estado e nos deu a honra de participar da festa com os colegas.
 

 
 
Ao lado, a foto, naquela comemoração, que guardo com muito carinho, onde estamos os dois com o colega Nazir Abdo (à esquerda), aquele que projetou nosso quadro de formatura nos idos de 1955. Na ocasião, foi necessário usarmos crachás com os nomes em letras graúdas, para identificação mais fácil dos colegas. Como você pode observar, o Mário teve o cuidado de também usar o seu. Precisava?





Pouco a pouco, ao longo dos anos, perdemos colegas e hoje o elenco está bem reduzido. Zuza nos deixou em 2001.

A capa da revista Veja de 14 de março de 2001 estampa uma fotografia recente de um Mario Covas simpático, pensativo e sorridente, ao lado da chamada “Ética e Política” e destaca: “Porque Covas se tornou um símbolo do que o País quer dos políticos”.

Quanto a mim, sempre que meu domicílio eleitoral permitiu, votei nele – voto de convicção, de confiança total no candidato, voto de esperança no futuro do País. Infelizmente, pude votar assim poucas vezes, pois na maioria das eleições tenho votado com o objetivo de evitar o que  acho a solução pior – e não tenho tido sucesso.

 
Pelo exposto, caro leitor ou prezada leitora, você percebeu que ter sido colega do Zuza é uma honra para mim. Pois é mesmo – e uma honra muito grande.


Washington Luiz Bastos Conceição





 
 

3 comentários:

  1. Washington, nesta época de vale tudo, de salve-se quem puder, é muito bom lembrar que já existiu um Brasil diferente. A gente esquece.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Obrigado pelo comentário.
    Na verdade, a gente não esquece totalmente.

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