terça-feira, 23 de outubro de 2012

José Cadilhe


Realmente, eu estava muito inspirado no dia (de abril deste ano) em que resolvi pedir a minha prima Isa permissão para publicar no blog uma crônica que ela havia escrito sobre Fernandes Pinheiro, cidade muito ligada à história dos Oliveira, família do pai dela e de minha mãe. Eu já havia lido esse trabalho, havia tempo, e me pareceu muito bom. Publiquei, então, “O Sabor da Erva Mate”, que foi muito apreciada pelos leitores do blog. O sucesso se repetiu e se ampliou com “Tema de Jurema” e “Um Conto... Uma História”.

O que não contei ainda a vocês foi que o avô materno da Isa, José Cadilhe, foi jornalista e escritor. Eu tinha muito pouca informação sobre ele, até que li a crônica abaixo. Vocês devem concluir, como eu, que o talento dela tem, provavelmente, algo de genético. Como se dizia antigamente, ela tem por quem puxar.

Mais uma vez, fico muito agradecido à cara prima por sua notável participação neste blog.

Washington Luiz Bastos Conceição




José Cadilhe

“AFINAL, POR QUEM OS SINOS DOBRAM?”
 

         José Cadilhe é hoje uma larga avenida no bairro da Água Verde, em Curitiba. Foi um poeta sensível, um jornalista combativo, um escritor de largos recursos, um teatrólogo versátil, um humorista de qualidade. Mas há quatro pessoas ainda neste mundo, três mulheres e um homem, para quem ele foi e é, simplesmente Papai.

         E é assim, deixando de lado títulos e troféus que seu talento conquistou, que quero lembrar e falar dele hoje: da sua figura humana, do seu jeito de ser, de suas esperanças, de sua coragem, dos seus medos...

         E falar sobre um homem, e não sobre sua obra, é mais difícil porque mexe com uma dimensão diferente da vida: mexe com as lembranças, com a vivência, mexe enfim com a emoção de toda uma família.

         Sabem, eu acho que os poetas são uma raça frágil, pessoas mais cheias de carências e vulnerabilidades do que o comum dos mortais; porque são médiuns, eu diria, não com a conotação que dá a essa palavra a doutrina espírita: médiuns porque intermediários entre o sagrado e o profano, entre o ver e o sentir, entre a ação e a emoção.

         E é por aí, partindo dessa premissa, que tento contar alguma coisa dele, relatando as lembranças de seus filhos nos acontecimentos que marcaram sua história.

         Começo pelo fim, contando que morreu aos 62 anos: não tão moço que não tivesse provado mil sabores e dissabores da vida. Nem tão velho que tivesse esquecido o ímpeto dessas emoções... Emoções que foram muitas em sua vida, tão violentas algumas que deixaram sequelas na alma.

         No seu primeiro casamento era apenas um adolescente: tinha 17 anos e vivia com sua mulher, sua prima Siomara Maravalhas, de 19, em Porto de Cima, Paraná, onde era telegrafista da estrada de ferro. Os filhos foram chegando e os dois primeiros, Irene, uma linda garotinha de 10 meses, e José, um menininho frágil e doentio, morreram. Foram essas mortes seu primeiro encontro com a tristeza.

         E essa tristeza ele extravasou em versos num livrinho lindamente manuscrito, onde tentava confortar a mãe inconsolável. Esse livro, uma joia que guardei no cofre por muitos anos, tem seu fac-símile à disposição do público na “Sala da Memória” do Teatro Guaíra.

         Desse casamento três filhas lhes restaram: Eloyna, Hilda e Maria da Luz, mas o destino novamente lhe roubou alguém querido: Siomara, sua mulher, se foi, morrendo aos 28 anos e ficando enterrada sozinha naquele ermo, porque a família, tentando botar alguma distância de tanta dor, mudou-se para Curitiba. As crianças com 6, 4 e 2 anos, foram viver com os avós maternos.

         Algum tempo depois Cadilhe casou-se de novo, com Adelaide Menezes, sua prima também, mas em segundo grau, e foi buscar suas meninas. Relutantes os avós lhe entregaram as duas mais velhas, mas conservaram Maria, a caçula, a quem criaram com mimos e luxos que ele nunca pode dar a seus outros filhos.

         A carreira de poeta se iniciava por aí: trabalhando ainda na Rede Ferroviária, nas suas horas vagas, nas noites sem sono, escrevia e escrevia... E assim foram nascendo poemas, peças teatrais, crônicas políticas e humorísticas. Encenou suas primeiras peças, por ele mesmo dirigidas, com sucesso de público e crítica, no Teatro Guaíra da R. Dr. Murici.

          Nas mesas de bar foi encontrando amigos-irmãos, desses que partilham todos os sentimentos: e era um prazer verdadeiro ouvi-los conversar. Gente que comungava sua paixão pela palavra, que fazia da palavra sua ferramenta para esculpir a vida.

         Há muitos anos a Rede Globo levou ao ar uma novela “O Feijão e o Sonho”, que contava a saga de um poeta dividido entre a necessidade de suprir o lado prático da vida e aquela compulsão de fazer versos, de viver num mundo abstrato onde a vida era escrita e descrita, talvez mais do que vivida.

         Uma das filhas de Cadilhe, vendo a novela comentou: “é a história de nossa vida”... Pois é, eram tantos os filhos, era tanta a luta, era o feijão e o sonho em guerra permanente, mas... quando caía a noite, a poesia vinha a seu encontro e lá ia ele... ”Montado de carona na garupa leve do vento”, partindo para a boemia que lhe aquecia a alma e servia de combustível para, no dia seguinte, pensar no feijão, bater o ponto e retomar o fardo.

         Mas nem só de poesia se ocupava sua mente: a política era também o seu forte, achava que os desmandos e arbitrariedades do governo deviam ser expostos e combatidos. E foi por isso que resolveu largar o emprego na Rede, mudar para Ponta Grossa, Paraná, e tocar seu próprio jornal. Assim nasceu o “Diário dos Campos”, um jornal aguerrido que fazia cobrança dos maus serviços públicos, que desancava o ensino deficiente, denunciava falcatruas e oferecia soluções para problemas que atravancavam o progresso. Sabia motivar a população e os empresários em campanhas beneficentes, e pelo Natal fazia distribuição de gêneros e presentes a famílias necessitadas, no Parque Honório, engalanado para a festa. Havia música e declamações e a sociedade toda comparecia.

         Além de toda essa atividade, continuou a escrever, encenar e dirigir peças, apresentadas agora no Teatro Sant’Ana de Ponta grossa. Eloyna, sua filha mais velha, quase sempre fazia o principal papel feminino e era ela também que, nos saraus da época, declamava os poemas do pai, com o sentimento certo e a graça de sua beleza juvenil.

         Em 1922, Hilda, sua segunda filha, casou-se e sogro e genro já amigos há algum tempo, encontraram e cultivaram afinidades diversas. Com mais um amigo dentro da família, as atividades do Jornal dando-lhe suporte financeiro, vendo suas peças serem encenadas por duas grandes companhias teatrais do Rio de Janeiro, a de Jaime Costa e a de Maria de Castro, parecia que, enfim, a vida lhe havia dado a trégua merecida. Ledo engano, como diria outro poeta. Esse mesmo ano lhe roubou a vida de Felisberto, o Bertinho, seu filho de 12 anos que morreu de tétano. Em 1924 é Eloyna, de 22 anos, que se vai, vítima de uma febre sem diagnóstico certo. Fosse ou não fosse tifo, era irrelevante: o que contava é que aquela moça tão linda que, dez dias antes, fizera enorme sucesso num baile a fantasia na festa de Sant’Ana, vestida de gueixa, estava morta agora.

         E não havia consolo para aquela família: a mudança para Ponta Grossa que parecia, em tudo e por tudo, auspiciosa, de repente tornou-se um pesadelo. Adelaide tinha filhos pequenos ainda e, mesmo de coração partido, não havia como fugir de suas tarefas.

         Mas Cadilhe desabou: fechou-se no quarto sem comer, sem beber, sem lavar-se. Não houve apelo que atendesse: sua mulher, seus filhos, o genro tão chegado a ele, outros amigos, todos se revezavam à porta, tentando tirá-lo do desespero. Seis dias depois saiu do quarto: um homem de quarenta e poucos anos que parecia ter mais de 60, barbado, macilento, mas estranhamente calmo: tomou um banho, vestiu-se, beijou mulher e filhos e disse: “Apesar de toda a dor, a vida continua”... E retomou o trabalho.

         Por algum tempo sem aquele ânimo combativo que era sua marca registrada, mas recuperando aos poucos a verve antiga: emagreceu, a basta cabeleira tornou-se branca, mas das cinzas foi surgindo um novo Cadilhe, mais machucado pela vida, mas ainda um guerreiro e, mais do que nunca, um poeta. Continuou a fazer oposição ao governo e escreveu uma crônica especialmente virulenta que, por motivos óbvios, foi distribuída no silêncio da madrugada, na forma de folhetos anônimos. Dia seguinte a cidade, infestada pelos folhetos, comentava a lucidez da análise política do momento. Seus escritos podiam não trazer a assinatura explícita, mas embora disfarçado o estilo, tinha o timbre inconfundível do seu talento. E então, como soe acontecer, o governo tentou a intimidação: sem poder provar que era dele a autoria, mandou a cavalaria cercar o quarteirão de sua residência e a cavalhada, tirando faíscas dos paralelepípedos, corria e atendia ordens de comando aos gritos.

         Dentro de casa as crianças se encolhiam, se abrigavam no colo da mãe e perguntavam aflitas: “Mãe, eles vão levar papai?” Não levaram, mas outros entreveros assim se sucederam. Em vez de se amedrontar, Cadilhe assumiu mais acirradamente as críticas pelo Jornal. E então, uma noite, nas horas mortas da madrugada, invadiram a redação, quebraram e destruíram as máquinas de escrever, os linotipos, as impressoras, os papeis.

         Ali, na rua Dr. Colares, estava o retrato deslavado e cínico do arbítrio da força e da força do arbítrio. Foi uma luta dura: com a ajuda de um cunhado, do genro e de partidários, recompôs o jornal, passou a andar armado, mas não desistiu da militância.

         Algum tempo depois, a Rede Ferroviária lhe ofereceu novo cargo e, por insistência da família, decidiu voltar a Curitiba.

         Com o respaldo do bom emprego e mais as atividades literárias muito mais ativas na capital, ele e sua gente conheceram tempos mais amenos.

         Mas a inquietude natural de seu temperamento forjava sempre algumas crises novas: pegava polêmicas acirradas com outros intelectuais, se apaixonava por uma nova musa, tinha depressões profundas e se refugiava em Antonina para morrer, dizia ele, no lugar onde havia nascido.

         Emergia dessas crises como que purificado e encontrava sempre à sua espera Adelaide, o anjo por detrás do homem, com sua compreensão, com seu perdão irrestrito.

         Até que um dia, numa madrugada brumosa, sentiu-se terrivelmente mal. Mulher e filhas, acordadas em sobressalto, tentavam os remédios já conhecidos. Vendo-o piorar, uma das filhas saiu de camisola e despenteada a correr pela rua em busca do telefone que lhe traria um médico. O mais próximo era do Corpo de Bombeiros, que ficava onde hoje é a Biblioteca Pública, a duas quadras de distância. Chamou o médico em desespero e voltou para casa.

         Mas Cadilhe, que tivera tantos encontros com a poesia, tantos encontros com o sucesso, que estivera cara a cara com a tristeza tantas vezes, tinha naquela madrugada um encontro inadiável com a paz.

         Era o dia 10 de novembro de 1942.   




Isa de Oliveira Siefert
                                                                                     Curitiba, 1995

 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Beto:
      Concordo. A Isa, como escreveu um colega meu é CRAQUE (assim mesmo, em maiúsculas).
      Obrigado pela visita.

      Washington

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