sexta-feira, 6 de abril de 2012

Uma escola com o seu nome


O que você acha de darem seu nome a uma escola? Você, provavelmente, gostaria muito de ser reconhecida (ou reconhecido) por ter dado apoio à formação de crianças e jovens. Entretanto, como essa homenagem é, em geral, póstuma, os descendentes da pessoa homenageada são realmente os que têm o grande prazer de compartilhar essa demonstração de reconhecimento e respeito.

Muitos nomes dados a escolas são de pessoas notáveis, de projeção internacional, como Presidente Roosevelt, colégio estadual de São Paulo em que estudei, D. Pedro II, do Rio de Janeiro, etc. Mas também são dados nomes de pessoas conhecidas de poucos, não famosas, que receberam a homenagem por razões sociais ou políticas e, especialmente, por sua dedicação ao ensino. Meu pai está neste caso. Era professor antes de se graduar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (Universidade de São Paulo) e, depois de  aposentado, voltou às atividades de professor, sua clara vocação.

Em 2010, muitos anos depois de ter assistido a sua inauguração, fui visitar a escola que tem o nome de meu pai. Em minha carta de Natal, enviada aos amigos naquele ano, fiz um relato resumido da visita, que transcrevo abaixo:

"Em agosto, visitamos a escola estadual de primeiro grau que recebeu o nome de meu pai: a Escola Professor Osmar Bastos Conceição, no bairro de Brasilândia, em São Paulo. Eu havia estado na inauguração da Escola, em 1983, e não tinha, até 2010, voltado lá. Este ano resolvi estabelecer contato com a Diretoria da Escola e propus fazer uma apresentação à diretora, professores e funcionários, sobre meu pai, contando quem foi ele e porque recebeu essa homenagem póstuma tão adequada ao seu amor pelo magistério. Fomos muito bem recebidos pelas pessoas da escola e a reunião, muito emocionante para mim, cumpriu seu objetivo."

Eu queria muito fazer essa visita e essa apresentação porque me colocava na posição dos alunos, crianças, que provavelmente tinham pouca informação de quem tinha sido o professor que dera nome a sua escola, que tipo de pessoa era ele. Além disso, eu queria rever a escola.
A diretora (que, com sua equipe, preparou a reunião) decidiu, por uma questão de logística, que eu falaria aos funcionários e professores e estes transmitiriam a apresentação aos alunos.

Comecei a palestra com a pergunta "Quem foi o Professor Osmar Bastos Conceição?" e, em seguida, declarei que o objetivo da reunião era contar aos alunos,  professores, funcionários e à diretora quem foi a pessoa cujo nome foi dado à sua Escola.
Ao longo da palestra, em que projetei "slides" de Powerpoint com tópicos e fotos, mencionei inicialmente o projeto de lei (de denominação da escola) e sua promulgação; e a inauguração ou, mais precisamente, a cerimônia do descerramento do retrato do professor. Prossegui com um resumo de sua biografia, com destaque à sua formação; às atividades de professor e diretor de escolas; ao seu casamento, ainda no Paraná (mostrei fotos antigas de meu pai e minha mãe jovens e da cerimônia de seu casamento); à vinda da família para o interior de São Paulo e à vida na capital paulista, em suas diferentes fases, até sua morte em 1980.
Além de suas atividades de professor, falei de sua vida em família e dos livros que escreveu.
Encerrei a apresentação com uma declaração que, me parece, ilustra o relacionamento da escola e seu patrono:
"Não poderia haver uma homenagem que mais pudesse agradar ao professor Osmar do que darem a uma escola o seu nome. E, mais, de uma escola na sua querida São Paulo.
Esta escola pode estar segura de que o nome que recebeu é perfeitamente apropriado à sua nobre missão de ensinar."

Antes da apresentação, a diretora e as professoras  nos levaram (eu estava acompanhado de minha esposa, sua irmã e meu concunhado) para uma volta pelas dependências da escola. Funcionando em dois períodos, suas instalações nos impressionaram muito bem: boas salas de aula, uma sala de treinamento com cerca de vinte  microcomputadores, um auditório bem equipado para reuniões e apresentações, um amplo  pátio com árvores e flores e uma cantina. Após a apresentação, nossas anfitriãs nos ofereceram um farto lanche, preparado por elas mesmas.
Foi uma tarde agradabilíssima. Além da recepção extremamente gentil, ainda me presentearam com um álbum, com fotografias mostrando a escola desde suas instalações provisórias e registrando vários eventos que a escola promove ao longo dos anos e para os quais convida os parentes dos alunos e pessoas do bairro.

Por tudo que observei naquele dia, senti que havia mais um motivo pelo qual meu pai, um homem simples, se encantaria com "sua" escola: situada em um bairro modesto, de gente trabalhadora, com uma equipe profissional dedicada, e cumprindo muito bem sua missão, a escola é parecida com ele.


Nota

Ao publicar esta crônica em meu blog, hoje, tive dois objetivos:
  •  Apresentar a você uma pessoa que, ocupadíssima com estudos e trabalho árduo para sustentar a família, conseguiu escrever três livros: um de poesias, escritas em sua juventude, publicado quando era membro da Academia de Letras da Faculdade de Direito (cadeira Olavo Bilac); outro, sobre episódio da revolução de 1930; e um terceiro, de ficção, um romance que concluiu após se aposentar do trabalho de advogado. Gostei dos três.
  • Homenagear meu pai em seu aniversário. Hoje, ele completaria 111 anos.

Washington Luiz Bastos Conceição

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